O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Aconteceu no litoral


Quando ingressei como efetivo no magistério, fui morar no litoral e, por uma dessas coincidências que tornam a vida real parecida com um conto, fui morar vizinho parede e meia com o filho do meu saudoso professor do tempo do ginásio. O moço era casado e eles tinham uma filhinha de quase dois anos, um docinho de garota.
Afeiçoamo-nos todos. Íamos, eu e minha mulher, quase todas as noites, jogar buraco com o casal vizinho. A linda garotinha rodando por ali, até que adormecesse. Em volta das nossas casas, a floresta fazia barulho nas noites de chuva. Foi com o meu vizinho que vim a conhecer a costa, as praias desprovidas ainda de qualquer estrada, as matas perto do mar. Ele era topógrafo e parte da remuneração de seu trabalho ele pedia em lotes das glebas que estava demarcando.
Sim, ele certamente amealhou um bom patrimônio em terrenos que hoje devem estar muito, mas muito valorizados. Trata-se da região mais chique do nosso litoral... São essas coisas que vão tornando possível o enriquecimento para as pessoas que começaram com muito pouco. Aquela menininha pequena, observadora, inteligente, era o ai-jesus do meu vizinho. E da mulher dele também, mas nem tanto. Meu vizinho, sim, tinha adoração pela filhinha.
No final de um ano, mudei para o vale. Os anos se passaram e muita coisa foi mudando. Dez anos depois, durante um passeio ao litoral, visitei os antigos vizinhos. Já em nova casa, num condomínio em outra cidade ali perto. Tudo muito bonito e arrumado, tão diferente da casinha humilde no meio da mata. Tudo mudado. Mas assustou-me a mudança, ou a evolução, não sei, a mudança que vi na menininha meiga de antigamente. Tornara-se uma adolescente muito desagradável, ríspida com os pais, cheia de respostas duras. À mesa, no almoço, comportou-se com as visitas de modo, digamos, cortês. Mas com o pai e com a mãe era só aquele tratamento que, parece-me agora, revelava uma espécie de ódio.
Então, a partir daí, realmente o tempo passou. Muita coisa mudou na minha vida. E tornou a mudar e depois mudou de novo. E agora, nesta semana, passados quarenta anos sobre aqueles dias inocentes no litoral, veio ao museu onde eu trabalho uma senhora negra, velha, antiga mesmo, andando devagar. E se apresentou como tendo sido empregada na casa do meu professor do ginásio. Ela disse para a recepcionista o nome do professor, eu me ergui, fui a ela: A senhora foi empregada do professor? Fui aluno dele! E depois fui vizinho do filho dele, no litoral. A senhora sabe dele, onde ele está morando?
A velha senhora falou num ímpeto, o corpo balançando na indignação. Ah, ele morreu de desgosto que a filha dele enrolou ele, pegou todos os bens, ficou tudo para ela. Foi indo ele morreu, ficou sem nada, ela ficou com tudo.
E foi embora a negra velha, a velha babá, resmungando coisas – e eu fiquei pensando em Shakespeare e no Rei Lear. E decidi que era bom escrever esta história.

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 Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
As fotos pertencem aos blogs: 1ª - normapenido.blogspot.com
3ª - opatifundio.com