O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Deixa que eu lavo


Olha, se for para lavar que nem o zóio, deixa que eu lavo, que eu lavo direito e ainda me divirto lavando.

É durante a lavagem da louça que posso meditar na transitoriedade do universo.
Vejo uma situação caótica, o caos primordial, no qual será implantada a ordem. Primeiro, um guardanapo usado vai retirando os vestígios alimentares, para que a água possa trabalhar sem fazer o papel do papel.

Vagarosamente vou classificando as peças segundo algum critério lógico.

Pratos, pratinhos, pires, tigelas e cumbucas, separados em suas categorias. Os talheres, que apontavam cada qual num sentido, vão assumindo o paralelismo das retas, agora todos apontando na mesma direção.


Que desça agora, clara e límpida, sonora e festiva, moderadamente, a água da torneira. Apenas para um umedecimento inicial.

Agora, faço esguichar uma, duas vezes, o potente jato do detergente sobre a esponja mole, receptiva e molhada.

Movimentos circulares sobre a superfície azul dos pratos deixam uma esteira de espumas flutuantes e prossigo, com o pensamento em Castro Alves.

Os pratos, pires e xícaras azuis me lembram os antigos frascos de Leite de Magnésia Phillips.

Garfos, facas, colheres e colherinhas sempre me deixam com um pouco de dor de consciência: estarei caprichando apenas na lavagem das lâminas, pontas e dentes? Estarei me descurando dos cabos?

Mas de fato os cabos das facas, colheres e garfos necessitam ser muito bem lavados? Eles se sujam menos que as pontas, estas sim que sempre vão à luta.
Os cabos são a garantia da retaguarda.


Agora, tudo ensaboado, não vamos iniciar a enxaguada em seguida não. Vamos primeiro esvaziar esta pequena banheira que é a cuba da pia. Tiremos tudo, sendo tudo colocado em pilhas espumosas em ordem de tamanho: pratos grandes embaixo.

A cuba da pia receberá a massagem vigorosa da esponja (a face mais cruel, a verde) para ficar impecavelmente limpinha, antes de receber as peças que serão enxaguadas.

Que se economize a água. Que a pequena e disciplinada catarata desça exatamente sobre a pilha que ainda aguarda.

Enquanto vou enxaguando xícaras e pires, talheres e pratinhos, a pilha de louça maior vai se beneficiando com a suave tromba d’água que, sem intenção, desce inundando, fazendo transbordar as pequenas lagoas circulares, derramando para fora as últimas espumas brancas.

Quando vou trabalhar com as louças grandes, elas praticamente já se enxaguaram sozinhas. Quase que basta apenas uma apresentação ritual à água, como num batismo. E elas vão se organizando no escorredor.


Agora, lavar a garrafa térmica. Por dentro, três águas, sendo o recipiente balançado em movimentos circulares. Por fora, lentamente girando sob a torneira. Por fim, a tampa, humilde, pequena, será lavada com gestos minimalistas.

A tarefa se aproxima dos movimentos finais. Venha agora o rodinho, puxando as pequeninas ondas de água que desceram das louças recém-banhadas.


Tudo estará encerrado quando eu pegar (num gesto meio displicente) a garrafa térmica, passar em volta dela o pano de prato, primeiro para cá, depois para lá e por fim por dentro da alça.

Colocada a garrafa sobre um canto da pia, terminei. Contemplo a obra concluída.
Agora fique tudo aí, escorrendo e secando naturalmente no ar. Nada de enxugar louça com o pano.

Ah, daqui a pouco é hora do café. Algumas dessas peças vão direto do escorredor para a mesa.

E não foi lavado que nem o zóio não.

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Texto e fotos de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes