O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 21 de agosto de 2011

No meio da Mata Atlântica



 
No sábado santo fui para o Mato. Na véspera já tinha organizado mochila e lanche. Saí de casa às 5h20min, a pé até a Rodoviária. Na fila do guichê encontrei o Seu Heraldo, jardineiro, que ia para Minas. Consegui viajar no banco da frente, ótimo para não enjoar. O ônibus entrou em São Luiz do Paraitinga. Dia esplendoroso, céu azulíssimo!!
Em São Luiz tomei um pingado com um pão de queijo. De novo no ônibus, desci no Alto da Serra, no barzinho. Conversei com a dona, sobre o meu livro. Tomei mais um café com pão de queijo – e entrei no Mato. Eu estava de roupa civilizada, tênis.
Parei no lugarzinho próprio dentro da mata para trocar de roupa, calçar as botas. Ali é muito gostoso de estar, ainda se ouve bem o ruído dos carros, mas a gente já está livre de ser visto. Em volta da gente só a natureza, as árvores, os pássaros, os raios de sol. Acabei de trocar de roupa e peguei a picada. O sol bem baixinho ainda, de frente para mim.
A picada está boa, só fui me atrapalhar depois dos “troncos velhos”, na beira do barranco das taquarinhas, muito fechado, ali já comecei a arranhar os braços e o pescoço. Mas passei, sem usar o facão. Mais para frente, na subida à esquerda depois do pau caído, fiquei na dúvida. Então, voltei até as taquarinhas, vi que estava certo e peguei a picada de novo.
Mas eu me atrapalhei mesmo foi quando vi que cheguei no pau do rinoceronte pelo lado de cima, sem passar por esse pau (é uma árvore que caiu ao longo do caminho, não morreu, brotou um galho forte bem vertical e cresceu, parecendo o chifre de um rinoceronte). Pois bem. Anos atrás, eu vinha chegando pelo caminho e encontrava esse tronco deitado paralelo com o caminho, no meu lado esquerdo. Era esse o ponto onde eu tinha que tomar uma saída à direita, não podia ir em frente porque em frente ia sair em lugar nenhum.
Pois não é que hoje eu cheguei nesse lugar vindo pela direita, quer dizer, pelo caminho que eu devia pegar depois do pau do rinoceronte. Não entendi. Explorei todas as direções. Resolvi continuar o caminho que anos atrás eu pensei que não fosse para lugar nenhum. Fui sair numa grota funda, caminhei por ela para a direita, descendo até uma agüinha (deixa o trema, por favor).  Desisti, voltei, subi até quase o pau do rinoceronte.
Ali vi o caçador que vinha descendo. Gritei: “Amigo! Ô amigo!” ele parou, desconfiado. Eu me identifiquei: “Sou o Paulo, de Pinda!”. Ele olhou bem, sorriu mais tranquilo. Apresentou-se, era de Jacareí. Contei que estava atrapalhado, mas ele falou que estava certo. Ele estava acostumado a descer pela grota mesmo. Fomos juntos, por dentro da grota e eu fiquei conhecendo esse caminho diferente do meu. Esse desce e, antes da tal agüinha, sai à direita. Subimos, subimos e de repente caímos no caminho meu conhecido. Ah!
E continuamos até o Rio do Descanso. Aí nos despedimos porque eu queria andar sozinho, e ele também, estava na vista. Pelo que ele disse, eu entendi, adivinhei, que ele conhece um rancho por aqui. E nenhum caçador quer divulgar onde fica o seu rancho.
Depois que fiquei sozinho no Rio do Descanso fiz um lanche, lavei o rosto e segui em frente. Mais ou menos pelo mesmo caminho do caçador, porque às vezes eu pisava no rastro dele. Às vezes não, então sabia que ele tinha pegado uma variante (ou eu que peguei). Na primeira vez que esbarrei no cotovelo do Rio Bonito evitei, desviei para a direita, sabia que era cedo demais para encostar nesse rio.
Quando encontrei o segundo cotovelo, aí sim, cheguei nele. Na areia da beirinha d’água achei o rastro do pé esquerdo do rapaz de Jacareí, entendi que ele DESCEU o rio (eu tinha que SUBIR o rio). Ah! Então o rancho que ele conhece é descendo o rio! Bom saber que tem algum rancho por aqui, de outra vez vou encontrar.
Mas entrei na água e fui subindo o rio. Não muito tempo, logo procurei na margem e achei a picada de novo. Saí e fui por terra até encostar de novo no Rio Bonito. Bem na pedra onde costumo entrar nele de vez. Na última vez que eu tinha vindo (janeiro de 2000), foi nessa pedra que eu me sentei para comer uma sobrecoxa de frango.


Bom, agora fui caminhando por dentro daquela água rasinha, transparente, cor de água onde pingaram conhaque. Lindo esse rio, com alguns raios de sol atravessando a água e iluminando as pedrinhas. Na verdade, nem existe esse nome de "Rio Bonito". É um pobre afluentezinho do Rio Ipiranga. Creio que ele, na maior parte de seu curso, fica meio que paralelo à Trilha do Angelim, a um quilômetro mais ou menos dessa trilha. Bom. Passei pelo tronco de madeira de lei caído atravessado no rio, abaixei-me e passei por baixo. Madeira boa, quantos anos (faz quatorze anos que o conheço) e ele nem começou a apodrecer, com toda essa umidade!

Passei pelo xis da Xuxa: duas árvores, uma de cada lado do riozinho, se inclinaram em direção uma da outra e se cruzaram, formando a letra e eu passo por dentro dela. Nada de rastros na areia, então o caçador realmente não subiu o rio, ele desceu o rio e eu estou tranquilo, sozinho de verdade, como tinha planejado. Continuei e dessa vez foi tranquilo, nenhuma tranqueira, até que cheguei ao meu acampamento, na margem direita (na esquerda de quem sobe).
Beleza, lugar bom! Mas não armei a rede logo não. Sentei na pedra. Tirei a roupa, tomei um banho na água fria do Rio Bonito.  O sol mal penetra até aqui embaixo, fica um rendilhado de luz dourada e de sombra no verde das bromélias no chão, no sépia das folhas mortas, no verde-musgo dos troncos antigos.
O banho frio é frio mesmo, a água do riozinho parece água de porta de geladeira, mas enquanto eu me enxugo já vem um calorzinho gostoso tomando conta do corpo da gente. Visto a roupa limpa que trouxe protegida em saquinhos plásticos dentro da mochila. A roupa que estava usando está molhada, suja de tanto ter me esfregado nos troncos limosos e de ter caído no solo encharcado.
É, eu caí umas três vezes nessa viagem.
Bom, agora fui visitar o meu saco pendurado na árvore. Está lá, com minhas lonas e panelas. Retirei a lona maior, a panela pequena e as cordas. Estendi uma corda entre duas árvores bonitas, cheias de orquídeas e de raízes adventícias descendo como um cortinado. Estiquei a lona por cima da corda, virou uma barraquinha. Por baixo, estendi nas mesmas árvores a minha rede. Pronto, estava armado o meu pouso.
Agora sim, banho tomado, roupa trocada, casinha montada, vamos fazer uma comidinha. Álcool na espiriteira, margarina na panelinha, pico duas salsichas com uma cebola, um temperinho, um saquinho de arroz, completo com uma canequinha de água do rio: ôpa, um risoto cheiroso, no meio da Mata Atlântica. Não tem onça para vir farejar a comidinha quente? Não tem, pelo menos não com coragem de se aproximar.
Agora, escovar os dentes, ajeitar o cobertor na rede, cobrir a cabeça: o frio está de lascar. Acordei maravilhado, deslumbrado, estavam projetando numa tela o retrato de um quadro moderno, abstrato, cores vibrantes justapostas, amarelos, ocres, vermelhos, verdes de várias tonalidades, dourados e azuis, tudo meio fora de foco. Eu tinha cochilado, estava olhando a mata iluminada pelo sol da tarde.
Era o quê, umas quatro horas da tarde. Desci, troquei de roupa, vesti de novo a roupa molhada, fui andar no mato, do outro lado do riozinho caiu muita árvore, está entupido de galharia, parece que não dá para chegar na picada por  terra, vai ter que ser por dentro d’água mesmo, sorte que a bota é boa.
Ziguezagueando, achei a picada, passei por cima do tronco da moça – um tronco caído com formato de duas pernas meio cruzadas, o musgo crescendo na junção das pernas... Subi o bendito Morro da Raiz, parei duas vezes para descansar. Sentei lá em cima, perto das taquaras, fiquei escutando a araponga. Araponga no meio da solidão, pensei: foi por isto que vim aqui.
Desci, voltei para o humilde acampamento. Escurecia, vesti de novo a roupa seca de dormir, acendi de novo a espiriteira, fiz um chá, enchi a canequinha, fiquei bebericando, olhando a escuridão que ia crescendo no meio das árvores. E lá em cima o céu ainda estava azul. As pererecas começavam a cantar, uma em cada árvore, outras nas pedras do riozinho. Quando virou um coro frenético de pererecas e rãzinhas, a noite fechava, lavei a boca, fui me ajeitar na rede, que frio...
Dormi muito, muito. Acordei para ir ao banheiro, o céu estava tomado de estrelas. É tarde da noite, pensei. Deitei de novo, liguei o radinho. A Rádio Costa Azul estava tocando músicas bem antigas e daí a pouco, entre um comercial e outro, anunciou: Em Ubatuba, pontualmente, vinte horas e trinta minutos.

Virei para o lado, puxei a coberta na cabeça, tremia de frio. Pensei, vai demorar muito para o sol nascer... 
Então a noite já tinha virado uma orquestra de pererecas, rãs, sapinhos, grilos...
A água do rio, em minúsculas cachoeiras, continuava com sua sonoridade pequenina, constante, a mesma de dez mil anos atrás. Essa aguinha está correndo humilde assim desde antes de se erguerem as pirâmides do Egito. Acordei quando os raios do sol já estavam tentando varar a folhagem das grandes árvores. Os passarinhos já tinham começado a cantar.
Ir ao banheiro e depois tomar um café quente, ora essa. Eu tinha levado café solúvel e leite em pó, com duas variedades de bolacha. Uma festa na Mata!
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Texto de PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
A quarta, a quinta e a sétima fotos foram feitas pelo autor.
As outras foram emprestadas de outros blogs.