O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Comida e Tomé

A.E. Industrial de Coruputuba, 1958. Em pé: José Mexas (diretor), Comida, Nelsinho, Mingote, Armando, Alcides Felício, Nê e Tico. Agachados: Tatu, Barbosinha, Irineu Caússo, Milton, Gato, Ríbio, Valter e Darci. E o farmacêutico Seu Augusto (diretor), 
Na arquibancada, de óculos escuros (como sempre), o Dr. Cícero Prado!
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O Seu Zé Mexas passou por trás do gol andando depressa e falando: Vamos descer que é perigoso.
Nem precisava, porque eu, o Bosco, o Araújo, o Ângelo, já estava todo mundo descendo alvoroçado, a gente sabia que lá vinha bomba. Era assim quando o Tomé ia bater falta.
Dava uma raiva do Tomé. Porque do São Paulo mesmo a gente não tinha medo. Respeitava alguns nomes, como o do goleiro Mazinho, muito bom. Mas não tinha medo do São Paulo. Era difícil a Industrial perder para o tricolor de Pinda. Podia perder para a Ferroviária, às vezes (às vezes!) para o Corinthians do Alto do Cardoso. Anos depois, até perigava diante do Aisa. Mas para o São Paulo não perdia não.
Está certo que o São Paulo não era nenhum freguês de caderneta, que nem o Haras, o Unidos, o Feital, o São Pedro da Sapucaia... Nem tanto. Mas não dava medo para a torcida de Coruputuba. A não ser o bendito do Tomé.
Um negro magro, mas magro! Umas pernas finas e muito compridas, ele se impunha no seu espaço de campo, com classe e presença. Mas dava medo mesmo é quando ia bater falta, a bola vinha chiando no ar com tanta velocidade que não dava tempo de ver nada. Vinha chiando e fazendo curva para a direita, um efeito que obrigava o goleiro a armar a barreira uns dois metros puxada para fora da direção da trave.
Se ele errava o chute, a bola explodia na tábua da cerca, balançava tudo. Ainda mata uma criança, o pessoal falava.
Se pegasse na barreira, ficava um caído no gramado, gemendo.
Então aconteceu que o Mingote precisou parar um ataque do São Paulo: deu um belíssimo carrinho por trás, derrubando o ponta esquerda que vinha com fome de gol. Falta! O Tomé que vai bater! E o Comida desafiou o Tomé. O juiz perguntou e ele falou: Sem barreira! Sai, sai todo mundo, gritava o Nelson Comida, gesticulando e esbravejando com o Tico, o Felício, o Armando...
Atrás do gol, nós deliramos: Nossa Senhora, o Comida tá humilhando o Tomé. O Araújo ficou preocupado: Ah meu Deus, não sei não...
O Tomé ajeitou a bola, uns cinco metros fora da meia lua. Ajeitava a bola olhando para o Comida. Não tinha ninguém entre os dois, os beques ficavam para os lados, se esbarrando com os atacantes do tricolor.
Pum! Pum! Já foi a cobrança e já foi a defesa! Sem barreira para atrapalhar, o Tomé pegou de três dedos com toda violência, meio do lado de fora da bola, que veio chiando na meia altura. O Comida voou e colocou para escanteio com a mão direita. A torcida explodiu em gritos e urros, o povo da arquibancada sapateava nas tábuas, parecia um trovão que não acabava nunca. A gente berrava um monte de palavrão, de tão contente.
Nelson Comida: nosso herói! Enfrentou o Tomé sem barreira!
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes