O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Os cachorros de Coruputuba - III

O Jipe e a Lila
Tia Cida e Tio Sebastião Enfermeiro moravam na Av. Alberto Simi

O Jipe e a Lila eram pequenos, gorduchos, de perninhas curtas e grossas, malhados de branco e preto. Latiam muito e eu tinha medo deles. Do alto do colo do meu pai eu via os dois lá embaixo, pulando e latindo muito bravinhos.

Eram dos meus tios. Minha tia Cida era irmã do meu pai. Era casada com o Seu Sebastião Enfermeiro, um dos homens de cara mais brava de Coruputuba e eu tinha medo e admiração por aquele homem poderoso, de fala grossa, uma risada que se ouvia a um quilômetro. E dono da mais incrementada bicicleta que eu já vi.

A bicicleta do Seu Sebastião Enfermeiro era cheia de flâmulas, campainhas, faróis, tudo brilhante e colorido. O farol, tenho que contar para vocês, recentemente chegados ao mundo da tecnologia. O farol não era a pilha não. Era alimentado pelo dínamo, que parecia uma garrafinha de metal, cuja cabeça parecia uma tampa que ficava girando encostada no pneu traseiro. Quanto mais a bicicleta corria, mais forte ficava a luz do farol.

A seleta (tem que pronunciar selêta - e hoje chamam de selim...) tinha uma capa almofadada cheia de franjas. A bicicleta dele parecia um cavalo ricamente arreado. Na memória ainda estou vendo o meu Tio Bastião na sua bicicletona pesada, toda lubrificada e brilhante, deslizando firme e vagarosa entre os eucaliptos perto do campo de futebol.

Tio Bastião e tia Cida moravam na Av. Alberto Simi, diante da arquibancada. Pegado com a casa da Shirley de um lado e a casa do Lauro (Alaor) do outro. A casa deles dava fundo para o cafezal. Eu achava interessante no fundo do quintal a gente ter um portãozinho que saía para o mundo de pés de café. Andando pelo cafezal a gente ia passando pelo fundo das casas dos vizinhos, reparando nas laranjeiras carregadas no quintal da Dona Nanca, na baia do cavalo da charrete do Seu Alcindo...

Na cozinha da Tia Cida tinha uma coisa interessantísima para meus olhos de menino curioso. No telhado (a cozinha não tinha forro) no telhado tinha uma telha de vidro, que ajudava a clarear a cozinha, que não dava janela para lugar nenhum, era preta de fumaça do fogão a lenha.

Mas voltemos ao Jipe e à Lila.

Foi a primeira vez que ouvi falar de cachorro que dormia dentro de casa e subia na cama dos donos. Hoje é tão comum, até aqui em casa... Tio Bastião e Tia Cida não tinham filhos. E a gente falava que era por isto que eles tratavam os cães como se fossem gente.
Mas eis que Tia Cida engravidou. E logo depois que nasceu o meu querido priminho Valério (outro dia conto as histórias do Valério...), os cãezinhos foram ficando tristinhos, jururus. Não passou muito tempo, morreram.

Depois o Tio Bastião e a Tia Cida tiveram outros cães, inclusive o Xerém, que era feinho. Tio Bastião falava que o Xerém era tão feio, mas tão feio que era até bonito de tão feio.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto de Patrick Assumpção