O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Os cachorros de Coruputuba - IV

O cachorro da Pensão
A Cooperativa e a Pensão

O Negrinho era um cachorro preto, baixo, corpulento e maldoso. Pertencia à Dona Eleuzina, dona da Pensão, casada com o Seu Eurico. Não confundir com o meu cachorrinho Neguinho, que, aliás, era quase branco.
Pois bem, o Negrinho ficava deitado na calçada em frente à porta da Pensão (onde depois foi o Clube). Dali de seu posto de observação, ele tomava conta de todo o Largo. Observava quem vinha buscar água na Caixa d’Água, quem vinha jogar bola na Quadra, quem ia ao Armazém, ao Açougue... Quando encasquetava, ele vinha latindo furioso para cima da pessoa.
Houve um tempo em que minha família pegava almoço de marmita na Pensão. Foi assim que eu conheci bife na chapa, com cebola. Eu sempre ia buscar a marmita com o meu irmão Bosquinho.
E o pior era que o Negrinho tinha cismado com o Bosco. Toda vez rosnava para ele, latia... E eu, como sempre, ficava protegendo o Bosco. Mas por dentro também morria de medo daquele cachorro com ar de malvado.
Tinha um pessoal que ficava jogando ping-pong na Pensão. Eram os filhos do Seu Isaías, mais o Ademir e o Aurélio do Seu Totóizinho, e mais uma turma.
Um dia, eu e o Bosco entramos para pegar o almoço e o Negrinho estava deitado perto do fogão, roendo um baita osso. Pois não é que um dos filhos do Seu Isaías, acho que o Airton, só de sacanagem passou correndo perto do fogão, roubou o osso do Negrinho e jogou o osso perto do pé do Bosco! O Negrinho veio correndo, bufando.
O Bosco saiu correndo e o Negrinho mordeu os fundilhos das calças dele. Igual ao que acontece em desenho animado. Toda a molecada riu muito. Olhei e vi que os adultos também estavam achando engraçado.
Silenciosamente, jurei vingança.
Naquela mesma tarde, procurei no quintal e encontrei os restos de uma cadeirona de braços, que eu sabia que estava jogada perto das bananeiras. Serrei uma das pernas da cadeira. Era de seção quadrada, com quinas vivas. Usando os conhecimentos que eu estava adquirindo nas aulas de Trabalhos Manuais do Prof. Del Mônaco, com a grosa desbastei os ângulos da parte mais fina da perna da cadeira. Com a lixa, dei um acabamento caprichado.
Ficou um belíssimo porrete, confortável para segurar, sendo que a ponta ficou bem mais pesada, porque a perna da cadeira era daquelas que vão afinando em direção ao chão. Agora eu me sentia seguro.
No dia seguinte, na hora certa, eu e o Bosco pegamos as marmitas e fomos para a Pensão. Parece que o Negrinho tinha sido alertado. Pela primeira vez, sem qualquer aviso ou provocação, ele veio direto para cima de mim, saindo de seu canto perto do fogão. Tirei da cinta o porrete: estava preparado para a luta. O Bosco ficou mais de longe.
Negrinho deu uns três pulos para me pegar, eu recuando devagar e preparando o golpe. Quando vi a cabeçona dele no ar, os dentes brancos perto de mim, vibrei o golpe com toda a minha força de moleque de quatorze anos. O porrete pegou bem na base da orelha esquerda, senti na mão a resistência do osso do crânio.
O cachorrão caiu de quatro. Em silêncio, virou-me as costas. Murcho, caminhou até o fogão e ali se deitou e ficou quieto. Todo mundo na Pensão também ficou quieto. Ninguém me censurou, ninguém elogiou, ninguém comentou nada. Dona Eleuzina encheu nossas marmitas em silêncio. Com as marmitas cheias, saímos para o Largo. Eu estava quieto de tão contente. O Bosco falou: Nossa, Paulo...
O Largo
Daquele dia em diante, toda a vez que a gente ia buscar água no Largo, ou ia na Cooperativa, se o Negrinho estivesse na calçada tomando conta, ele levantava e, de cabeça baixa, entrava na Pensão. E toda vez que a gente ia buscar o almoço, ele ficava quietinho, deitado aos pés da Dona Eleuzina.
Foi a última vez que eu precisei usar a força bruta.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos de Agostinho San Martin Filho (Álbum CIDADE DE PINDAMONHANGABA, 1955)