O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Os carneiros

Eu me encantava com os carneiros passando em frente de casa, indo em direção ao Portão, talvez para pastarem na várzea. Iam acompanhando o pastor que agitava um pequeno latão cheio de milho, fazendo um barulhinho que atraía aqueles animais obedientes.
Anos mais tarde, lendo Bilac, aprendi que aquele equipamento se chamava avena, por causa dos grãos de aveia que no Oriente alimentavam os carneiros.
Um dia cedo, fomos eu e o Bosco (eu tinha doze anos e o Bosco dez) buscar leite na fazenda. Enquanto esperávamos a hora da distribuição, saímos zanzando pelos pastos e currais.
Esses passeios eram sempre meio aventurosos. Uma vez, tive que fugir de uns bois que estavam assustados. Outra vez, tivemos que fugir de uma vaca que estava muito nervosa porque tinha tido bezerro na noite anterior. No mínimo, se não acontecia nada perigoso, a gente ficava trepado na cerca do curral vendo o touro holandês, com fama de malvado. Lembro do Timbó, que urrava e cavoucava o chão, jogando terra para bem longe e bem alto.
Mas voltando ao dia dos carneiros:
Eu e o Bosco vimos que o rebanho estava muito longe, lá embaixo, perto da cerca que dividia com o terreno da fábrica. Mas havia dois carneirinhos recém nascidos, ali atrás do curral, perto daquela casa de força que parecia uma torre. O Zaga achava que parecia um moinho, ele sempre com as idéias meio europeizadas.
Eu e o Bosco ficamos com dó dos carneirinhos-bebê. Tivemos uma idéia generosa. Tivemos uma boa ideia.
Meu Deus, quantas vezes eu já sofri por ter tido uma boa idéia...
Então pegamos os carneirinhos no colo e fomos descendo o morro em direção ao rebanho, para levar os filhotinhos para a sua mamãe.
Só que os carneiros adultos não gostaram de nossa aproximação e começaram a se afastar. Começamos a andar mais depressa para alcançá-los. Então eles dispararam em direção à fábrica e foram, um após o outro, igual nas histórias em quadrinhos, pulando a cerca de arame farpado.
Ficamos apavorados com aquele êxodo de carneiros. Largamos no chão os filhotinhos e voltamos para a fila do leite com aquela cara lavada de cachorro que fez o que não devia.
De repente me falam: Sua mãe, Paulo!
Minha mãe vinha chegando bufando, olhos arregalados, a boca apertada que ela sabia fazer quando estava furiosa. Tirou um chinelo do pé e me bateu na cara com ele. Na frente de todas as crianças da fila. Mas me doeu mais não foi nem a chinelada na cara, nem a vergonha. Foi ela falar que ia me tirar do ginásio.
Eu tinha acabado de entrar no ginásio, depois de um bruto exame de admissão etc.
Fomos todos para casa. Eu, o Bosco, minha mãe e alguns irmãos que tinham vindo com ela. Chorei muito pensando que de fato ela ia me tirar do ginásio.
Aos poucos fiquei sabendo dos outros capítulos da história.
Acontece que o Seu Fonseca tinha ido lá em casa, de jipe. Mandou chamar minha mãe e no portão mesmo declarou que ia tomar a casa da gente, porque os filhos dela não prestavam, eram desordeiros e maus. Contou para que eu e o Bosco assustamos os carneiros para eles pularem a cerca de arame farpado e dois filhotes ficaram presos no arame e morreram porque as tripas saíram da barriga rasgada.
Esta parte a gente não sabia.
Puxa vida, eu e meu irmão não fizemos nenhuma maldade, apenas não podíamos, na ocasião, prever o resultado de nossa pretendida boa ação.
Mas a minha mãe não me tirou do ginásio coisa nenhuma. Continuei estudando normalmente, todo dia pegando o ônibus amarelo dos Irmãos Valentini. E de manhã cedo ainda ia buscar leite na fazenda, com o Bosco. Só que nunca mais descemos para o pasto dos carneiros.
*     *     *
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: baixaki.com.br e fotosdebichos.com.br