O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 22 de março de 2012

A viuvez do Cisne


Na biblioteca do Bosque, o sarau estava começando.  Os jovens do Projeto Guri executaram músicas nos violões, os convidados iam se encorajando para suas declamações, Anamaria entremeava essas apreentações com frases sobre as várias modalidades de arte, a importância da literatura...
Algumas pessoas iam aparecendo na varanda, espiando, depois entravam, as cadeiras iam sendo ocupadas, o auditório estava quase cheio. Então chegou uma professora, amiga da Anamaria, entrou e foi se sentar junto ao balcão de livros. Foi bom ela ter vindo, era a primeira vez que aparecia num evento depois de ter ficado viúva. Ainda bem, está se recuperando!
Dr. Milton declamou um poema de Casimiro de Abreu, o Aparecido apresentou um poema de sua própria autoria, Walmir Renan também se apresentou, uma aluna de violão do Guri declamou um poema dela mesma.
Então, cheio de elevado espírito poético, comecei a declamar com sinceridade o soneto “Os cisnes”, de Júlio Salusse:
A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

Mas, no meio da declamação, fui me dando conta: Eu não devia estar declamando isto, que absurda a minha escolha! Um poema que fala de viuvez, de separação de duas pessoas que desejavam estar juntas para sempre,mas foram separadas pela morte... Que burrice a minha! A professora deve estar quase chorando, viúva recente, daqui a pouco desaba...

Fazer o quê? Concluí o poema (com a voz embargada) e vi que a amiga estava se despedindo da Anamaria, saiu logo, foi embora, não esperou nem o café.

Durante o intervalo, entre uma bolachinha e outra, comentei com Anamaria: − “Nossa, ela foi embora cedo, será que foi chato eu ter declamado Os Cisnes?”

Anamaria, bebericando o chá, me sossegou: − “Que isso! Imagina! Ela saiu porque tinha um encontro com o namorado.”

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes