O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Medo do diabo e outros medos


Fui até o fundo do quintal, que era bem fundo mesmo, batia no muro da fábrica. Estava escurecendo, hora de sereno, hora de "entrá pra dentro". No pau da cerca da divisa com o quintal do Seu Eurico (da Dona Eleuzina), tinha uma coisa de olhos arregalados, olhando firme para mim.
Voltei correndo e o Bosco estava brincando perto do galinheiro. Falei: “Bosco, tem um diabo trepado na cerca do Seu Eurico!” Ele não acreditou e foi lá ver. Eu fiquei vendo ele ir. Foi indo pelo caminho varridinho do meio do quintal. Daí ele parou, olhou para o lado que eu falei e voltou na disparada, branco mas branco mesmo. Falou: “É o diabo memo, Paulo!”
No dia seguinte (porque o sol deixa todo mundo valente) nós fomos lá perto, jogamos água benta na cerca e riscamos no chão uma cruz. Rezamos de montão, para o diabo não voltar mais lá. Mas eu sabia que era só uma coruja. Só que eu me assustei e queria que o Bosco também se assustasse, caramba!
Daí eu cresci mais um pouco, fiquei adolescente e resolvi perder o medo do escuro. Todos nós fomos criados com muito medo do diabo, de tanto que a gente vivia na igreja... Acho que os adultos falavam muito mais no diabo e no inferno do que em Deus e no céu. Para manter a criançada obediente, parece que tinha que manter o pavor.
Mas eu decidi que ia perder o medo do escuro e eu mesmo planejei a minha terapia. Uma noite, sem falar nada para ninguém, saí para o quintal, fechei a porta da cozinha e fui indo pelo meio da escuridão, com o plano de chegar até o muro da fábrica. Eram uns setenta metros de caminhada sem ver quase nada, só as estrelas. Passei pelas ameixeiras, pelo galinheiro, pelo abacateiro, tudo meio que adivinhando o caminho, tocando nos troncos e nas cercas. Até passar do chiqueiro e chegar no fim do quintal. Fiz força para tocar o muro com as mãos. E comecei a voltar. Agora eu via a luz da cozinha se filtrando pelo vão da porta. Tive que resistir à vontade de correr disparado. Esta foi de fato a parte mais difícil: voltar devagar. Cheguei à varandinha do tanque, empurrei calmamente a porta, entrei e – num supremo esforço – fechei a porta beeeeem devagarzinho.
E nunca mais tive medo do escuro. Depois de adulto, muitas vezes dormi acampado sozinho no meio da Mata Atlântica, na serra de Ubatuba – e sempre em paz.
Mas os adultos antigamente falavam muito no diabo, demais. Quando eu tinha dezessete anos, trabalhava na Associação Rural, em cima da leiteria (onde hoje fica a Imobiliária Derrico). Atendia os fazendeiros, preenchia guias de impostos etc. Um dia chegou o Seu Tranin, de bota e chapelão. Perguntei as horas para ele e ele me perguntou de volta: “Mais ocê qué sabê nas hora de Deus ou nas hora do diabo?”
É que o governo militar tinha acabado de implantar o horário de verão e ele não concordava com isto. Achava que mexer no horário de Deus só podia ser coisa de quem? Do diabo!
 

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Foto: avassouradabruxa.blogspot.com