O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A morte no museu

Agora ele já não sabia como tinha ido parar ali. Lembrava-se da movimentação das pessoas, das conversas. De dia, tinha vagado pelas escadas e rampas, tinha descido até a horta e ficou um bom tempo na porta do Arquivo, até que lhe pediram que saísse dali.
Quase na hora de fechar, o Donizete insistiu que ele saísse – e ele foi de novo em direção à horta, mas o Donizete não reparou que ele deu um jeito e retornou. Ninguém percebeu que ele tinha voltado. Quando a porta da Biblioteca foi baixada, ele permaneceu atrás da Carruagem, imóvel e silencioso.
Disto ele agora se lembrava de um modo confuso. A fome de três dias, o frio e a solidão não permitiam que ele pensasse direito. Sabia que precisava sair dali – e gastava suas últimas forças procurando uma saída. A luz do sol, entrando pelo vitrô, dava-lhe uma ilusão de ar livre, parecia-lhe que já tinha alcançado a liberdade...
Agora a fraqueza já não permitia que ele tentasse achar a saída. Parou de se arrastar como tinha feito durante os dois primeiros dias, quando se movimentava meio desesperado entre a Carruagem e o Sino. Compreendeu que não ia encontrar nenhum alimento, nenhuma água. Compreendeu que os companheiros lá fora já tinham desistido de procurá-lo, se é que em algum momento tinham de fato se preocupado. Aliás, bem antes de ficar preso ali, já fazia tempo mesmo que não conversavam com ele, desde que começou a apresentar aquela dificuldade de locomoção.
Houve um momento em que ouviu as vozes dos antigos companheiros, mas estavam longe, falando de outros assuntos.
Vagamente compreendeu que não devia ter retornado à Biblioteca, devia ter obedecido o Donizete, devia ter se afastado. Mas não esperava que nunca mais retornassem aquelas pessoas, nunca mais viessem abrir a porta.
Quando terminou o feriado prolongado foi o Flávio que encontrou o corpo, frio e imóvel, entre a Moenda e o Sino Pequeno. O próprio Flávio o enterrou debaixo das árvores do quintal. O Donizete comentou com o Professor: “Coitado do pombinho, judiação, morreu de fome, de sede”. Mas o Professor comentou que no sábado, quando tentaram tocá-lo para longe da Biblioteca, ele já estava meio mancando, talvez estivesse doente, ou machucado.

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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes