O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O alvoroço de outubro



Meu pai falava que no mês de outubro duas coisas ficam alvoroçadas: içá e político. Bom, neste ano os políticos já se alvoroçaram, mas as içás estão quietinhas ainda.
A seca está durando muito, então içá não sai. Não é boba, sabe que depois do bem-bom do casamento com o sabitu nas alturas, na hora em que ela voltar para o chão só vai encontrar terra dura que nem pedra, que não tem jeito de cavoucar, o ferrão não aguenta. E ela precisa cavar uns sete ou oito centímetros que sejam, para botar seus primeiros ovinhos e colocar no chão úmido a bolotinha de fungo que ela trouxe do formigueiro-mãe.
Conheci um menino que comia a içá crua, não sei se ele gostava do gosto ou se gostava mais do desgosto que provocava em volta...
Eu gostava bem torradinha, com farofa.
Poucas vezes fui no “calipero” catar içá na boca do sauveiro. Eu e meus irmãos caçávamos as iças no meio da rua, com um galho de amora, batendo para derrubar, mas não com muita força para não destruir o bichinho. Daí, no chão, segurava por cima e com a unha do dedão rancava o ferrão e jogava numa vasilha com água. Em casa terminava de fazer a limpeza, tirando as asas e as perninhas. Depois, frigideira no fogão de lenha, levantando um cheiro inconfundível. Quando a gente estava indo buscar água na caixa d’água do largo, de noite, ia passando e já ia identificando em quais casas se estava torrando içá, o cheiro denunciava mesmo.
Era gostoso comer em casa. Mas era mais gostoso ainda a gente levar um pacotinho para comer na hora do recreio. Tinha professora que condenava. Havia uns bobos que diziam que içá come defunto, umas bobeiras. Se fosse basear nas lições dos professores, também não podia nem chupar coquinho da igreja...
Mas tinha uns viajantes de São Paulo que iam na farmácia (a minha irmã Ana Clara trabalhava lá) e encomendavam quilos de içá, que era para levar para o laboratório, diziam que a içá era fonte riquíssima de proteína.
Sei lá. Mas que a gente comia, comia com gosto. Até a gatinha de casa aprendeu a caçar içá na rua, pulava e pegava no ar, e comia. Sem falar da festa que era para a galinhada do quintal, correndo atrás dos bichinhos voadores, igual hoje os moleques correm atrás de pipa.
Agora, com tanta agricultura industrializada, tanto combate à saúva, as içás sumiram. Antigamente caía até na cidade. Hoje, nem na roça.
Nos EUA vendem latinhas de içá torrada. Daqui a pouco vamos começar a importar.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto também do Paulo Tarcizio da Silva Marcondes