O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Primeiro dia de aula



Tudo novo, para as crianças do primeiro ano. Desde o cheirinho da caixa de lápis de cor até o alvoroço de alunos e mães... Parecia um comício, uma quermesse... A menina esperava. Coisas iam acontecer. Alguém fazia uma chamada em voz muito alta e havia muita ansiedade no galpão da escola. Parece que chamaram seu nome e ela foi puxada pela mão até a frente da fila dupla de crianças que, como ela, esperavam...
Aos poucos o caos foi sendo organizado. As mães ficaram separadas de um lado, junto à cozinha, e dali espiavam, olhos compridos. As crianças nas filas, as filas bem retinhas... A menina, por ser a menorzinha, na frente de todos.
As professoras foram aparecendo e ninguém precisava contar que elas eram as professoras. Aquelas senhoras majestosas vinham andando devagar pelo galpão, olhando, inspecionando, e cada uma finalmente se colocou diante da fila de sua classe: agora as crianças já tinham dono. A menina olhava com orgulho a sua professora.
Grande, alta, imponente. Segurava cadernos e listas. O olhar dela descia sobre a fila e todos ficavam quietinhos, muito quietinhos. A professora olhava para baixo, para as crianças. As crianças olhavam para cima, para a professora, esperando...
Então aconteceu uma coisa. A professora prestou atenção na menina. Olhou, depois olhou de novo e ficou parada olhando atenta. Segurou no seu queixinho, reparando bem: “Você não é irmã do José Carlos?”
Que orgulho! Ser reconhecida no primeiro dia de aula! Na frente de todas as crianças. Só ela! Aquela professora grande, uma senhora! Reconhecê-la, falar com ela, em casa ia contar para todos. E falou, sorrindo aberto: “Eu sou!”
A professora largou de repente o seu queixinho, afastou-se um passo, olhou em torno como quem se perdeu. Gritou para a outra professora: “Fulana, olha o que eu peguei: a irmã do Zé Carlos! Pelo amor de Deus, eu mereço! Esse diretor quer acabar comigo, só o que faltava: me dar a irmã do Zé Carlos...”
Na frente de todos, a menina queria chorar, queria a mãe, olhava para o chão, não queria mais olhar a professora, não queria mais escola, não queria mais...
– Vamos, vamos! Quietinhos! Aí, olha para frente! Ô meu Deus!
A fila acompanhou a professora e a menina foi a primeira a entrar na sala de aula, mas não lhe parecia que ela estivesse puxando uma fila. Parecia que a fila a estava empurrando e ela tinha que entrar num lugar onde não desejava entrar.
Ficou com vergonha de ser irmã do José Carlos... E ela que achava o irmão tão bonzinho...

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Do livro “Aconteceu na Escola”