O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 2 de março de 2014

O monstro







Na passagem dos cinquenta anos do golpe militar de 64, já tem uns bobinhos (que não sofreram aqueles dias), encantados com fardas e armas, tentando RELATIVIZAR a Democracia. Mais ou menos assim: "A democracia tem que ter limites", "Democracia sim, mas nem tanto", "Tem que ter muita responsabilidade, democracia só não basta", "Democracia sim, mas com equilíbrio" e outras frases hitlerianas e mussolinianas. Essas bobeiras me dão medo. São bobeiras que, de tanto serem repetidas, vão se entranhando nos vãos dos miolos de pessoinhas mais bobas ainda. Ora essa! Tem que haver DEMOCRACIA. Ponto final. Democracia sem adjetivo. A história demonstra (e eu vivi isto nas décadas de 60-70-80) que isto de ter "equilíbrio na democracia" significa misturar um montão de arbítrio com uma pitadinha de democracia, dando naquela merda que, anos depois, temos coragem de chamar pelo nome verdadeiro: ditadura, com todos os seus horrores.


O MONSTRO

Disseram que ele nunca mais viria
mas se o monstro voltar aqui um dia

alguns o abrigarão em seu partido
outros se calarão sem um gemido

alguns entregarão o pai e o irmão
outros vão se erguer diante do dragão

alguns vão bater palmas comovidos
outros vão virar “desaparecidos”

alguns vão ponderar em seus jornais
outros ficarão com o pé atrás

alguns elogiarão suas medidas
outros vão panfletar às escondidas
(depois serão dados por suicidas)

alguns dormirão com o inimigo
com a intenção de proteger o amigo

outros vão trocar de identidade
e ocultos falarão de liberdade

alguns se venderão por seu dinheiro
outros fugirão para o estrangeiro

alguns se enquadrarão em continência
outros vão pregar a desobediência

alguns vão cochichar pelas esquinas
outros montarão rádios clandestinas

alguns discutirão com alegria
outros nunca mais andarão de dia

alguns que ambicionavam ser eleitos
vão virar senadores ou prefeitos

outros, conforme as únicas notícias,
vão morrer “em confronto com a polícia”

alguns armarão falsas eleições
outros farão denúncias nas canções

alguns ganharão cargos de presente
outros serão cassados de repente

alguns se esconderão em sua terra
outros irão se declarar em guerra

alguns farão poemas de protesto
outros morrerão no final de um gesto

alguns subirão por caminhos tortos
outros lembrarão os presos e os mortos:

isso se por desgraça retornar
o monstro que não ia mais voltar.


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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Livro “Terra Vegetal”

Editora Scortecci - 1997