O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 13 de novembro de 2011

O fim do Galo Índio

O galão do Seu Luizinho era um legítimo galo Rhodes. Forte, peitudo, todo vermelho, parecia um rei grande, gordo, coberto com um lindo manto de penas brilhantes. As esporas eram longas e bonitas, mas não serviam como arma de guerra, pois eram muito curvas.
Diferente do nosso Galo Índio, que era magrão, comprido, esporas retas e afiadas. Mas a diferença principal: o nosso galo não tinha crista, nem barbela. Assim não ficava exposto a grandes ferimentos. Coitado do galão do Seu Luizinho: tinha uma crista enorme, tão grande que ficava até meio dobrada na ponta, como se fosse cair por cima dos olhos...
As brigas começaram logo que o Galo Índio ficou adulto. Eram brigas à toa, através da cerca de taquara. Nenhum dos dois se feria, apenas ficavam horas se provocando, tentando se bicar. Minha mãe mandava a gente separar, mas eu e o Pedro não queríamos separar não. A gente queria ficar vendo a briga.
E um dia um pensamento muito mau tomou conta das nossas cabeças. Nós pegamos o Galo Índio e o jogamos por cima da cerca, no quintal do Seu Luizinho. Nossa Senhora! O galão vermelho bateu as asas, deu uma ciscada no chão, fingiu que estava comendo algum grãozinho, veio vindo... E o nosso Galo Índio enfrentou. Foi uma briga feia.
Quando vimos que o galo do Seu Luizinho estava ficando machucado nós corremos para a rua, fomos até o portão do vizinho e, muito fingidos, chamamos: Seu Luiz, Seu Luiz, deixa a gente entrar pra pegar o nosso galo que pulou aí no seu quintal!
Só que voltamos a cometer o mesmo pecado mais umas duas ou três vezes. O Galo Índio foi ficando cada vez mais valente. E o galão do Seu Luiz cada vez mais machucado e assustado, até que ele afinou de uma vez e não chegava mais perto da cerca, nem cantava mais.
Então o Seu Luiz deu um fim nele e comprou um galo índio muito feroz.
Eu fiquei com muito medo e falei: Pedro, não vamos mais jogar o galo lá, que é capaz de ele se machucar.
Nós não jogamos mais o galo na casa do vizinho. Mas um dia eles começaram a brigar pela cerca. E nem eu nem o Pedro estávamos em casa para apartar. A gente tinha saído para ir comprar um porquinho na Vila Campineira.
Quando chegamos, a tragédia já estava feita. O Galo Índio, o nosso querido Galo Índio, estava dependurado na cerca, sem poder se defender. Ele tinha enfiado a espora no arame da tela, durante a briga. Agora, sem conseguir sair de lá, ficava entregue às bicadas do inimigo. Estava sangrando muito.
Recolhemos o nosso amigo ferido. A Vó ajudou a gente, demos um banho de água morna, passamos vinagre nos ferimentos. Mas ele estava perdido. As armas do inimigo tinham furado o seu papo. A Mãe falou que tinha que matar. O Pedro chorou, falou que podia matar, mas ele não ia comer nem um pedacinho. Eu também falei isso.
Realmente, naquele domingo, junto com a macarronada, teve galo ensopado. Todo mundo comeu. Mas eu e o Pedro almoçamos somente o macarrão.
A história acaba aqui...

Não, não acaba não. O Pedro sempre pensou que a história acabou assim. Mas não foi desse jeito. Eu tenho que confessar. Foi o seguinte:
Bem de tarde, depois do futebol, eu passei pela cozinha. A panela estava no canto do fogão de lenha. Eu levantei a tampa: que cheiro gostoso! Que fome! Que apetite!
Eu acabei comendo uma sobrecoxa do nosso querido amigo.
* * *
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Em “Minha vida de menino em Coruputuba”