O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

AS ESTRELAS



Narração de um pastor provençal




Conto de ALPHONSE DAUDET 
Tradução de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes




No tempo em que vigiava os rebanhos no alto do Luberon[i], acontecia de passar semanas inteiras sem ver ninguém, sozinho nas pastagens com meu cão Labri[ii] e minhas ovelhas. De tempos em tempos, o eremita do Mont-de-l’Ure[iii] passava por lá procurando símplices[iv] ou então eu via o rosto enegrecido de algum trabalhador da mina de carvão do Piémont; mas eram pessoas simples, silenciosas por causa da solidão, tendo perdido o gosto de conversar e não sabendo nada do que se falava nas cidades e nas vilas. Por isto, a cada quinze dias, quando eu ouvia, no caminho que sobe, os chocalhos da mula da nossa fazenda trazendo as provisões da quinzena, e eu via aparecer pouco a pouco, acima do barranco, a cabeça atenta do nosso pequeno ajudante, ou a boina vermelha da velha tia Norade, eu ficava verdadeiramente muito feliz. Queriam me contar as novidades lá de baixo, os batismos, os casamentos; mas o que me interessava de fato, era saber o que acontecia com a filha dos meus patrões, nossa senhorita Stéphanette, a mais bela que havia em dez léguas em torno. Sem deixar transparecer demais o meu interesse, eu me informava se ela ia muito às festas, aos saraus, se apareceram a ela novos pretendentes; e aos que me perguntavam o que essas coisas poderiam interessar a mim, pobre pastor da montanha, respondia que eu tinha vinte anos e que essa Stéphanette era o que eu tinha visto de mais belo em toda minha vida.
Ora, num domingo em que eu estava esperando os víveres da quinzena, aconteceu que eles não chegaram e já estava ficando tarde. De manhã, eu me disse: “É por causa da missa solene”; depois, perto do meio-dia, veio uma grande tempestade, e pensei que a mula não se pôs a caminho por causa do mau estado dos caminhos. Enfim, ali pelas três, o céu estando lavado, a montanha luminosa de água e de sol, ouvi, no meio do gotejamento das folhas e do transbordamento dos córregos inflados, os chocalhos da mula, tão alegres, tão sonoros como um grande carrilhão de sinos em dia de Páscoa. Mas não era o pequeno ajudante, nem a velha Norade quem a conduzia. Era, adivinha quem!... nossa senhorita, meus meninos! nossa senhorita em pessoa, sentadinha muito ereta entre os sacos de vime, toda rosada pelo ar das montanhas, pela friagem da tempestade!
O ajudante estava doente, e a tia Norade em férias com suas crianças. A bela Stéphanette foi me contando, enquanto descia da mula, e além disso ela chegou tarde porque se perdeu na estrada; mas ao vê-la tão bem endomingada com suas fitas e flores, a saia brilhante e suas rendas, ela tinha mais o ar de ter se atrasado em alguma dança do que de ter procurado seu caminho no meio do mato. Oh a pequena criatura! Meus olhos não podiam deixar de olhá-la! É verdade que jamais eu a tinha visto de tão perto. Algum dia de inverno, quando os rebanhos já tinham descido nos apriscos  e eu entrava à tarde na casa da fazenda para tomar a sopa, ela atravessava a sala vivamente, sem falar nada aos serviçais, sempre arrumada e um pouco orgulhosa. E agora eu a tinha ali diante de mim, apenas para mim; não era de perder a cabeça?
Quando tirou as provisões da cesta, Stéphanette se pôs a olhar curiosamente em redor. Erguendo um pouco sua bela saia de domingo, que poderia se danificar, ela entrou no abrigo, querendo ver o canto em que eu dormia, o leito de palha com pele de carneiro, minha grande capa pendurada na parede, meu cajado, minha espingarda. Tudo aquilo a divertia.
“Então, é aqui que você vive, meu pobre pastor? Como você deve enjoar de ficar sempre sozinho! O que é que você faz? No que você pensa?”
Eu queria responder: “Em você, senhorita” e não estaria mentindo; Mas minha atrapalhação era tão grande que não pude falar uma só palavra. E creio bem que ela percebeu, e que a malvada sentiu prazer em redobrar meu embaraço com sua malícia...
E ela mesmo, ao me falar, tinha bem o ar da fada Estérelle[v], com  o belo sorriso, a cabecinha inclinada e uma ansiedade em se ir, o que fazia de sua visita uma aparição.
‒ Adeus, pastor.
‒ Saúde, senhorita.
E ei-la que partiu, levando as cestas vazias.
Quando desapareceu no caminho inclinado, pareceu-me que os cascalhos, rolando sob os cascos da mula, tombavam um a um sobre o meu coração. Eu os ouvi por muito tempo, muito tempo; e até o final do dia, fiquei como sonâmbulo, não ousando me mover, de medo de espantar o meu sonho. Quase noite, quando o fundo dos vales foi se azulando e as ovelhas, balindo, se empurravam umas contra as outras para reentrar no abrigo, ouvi que me chamavam lá de baixo, e vi aparecer a nossa senhorita, não risonha como ainda há pouco, mas trêmula de frio e de pavor, toda encharcada. Parece que no fundo da colina ela encontrou o Sorgue[vi] engrossado pela chuva da tempestade, e, tentando forçar a travessia, ela tinha corrido o risco de se afogar. O terrível, é que àquela hora da noite não se podia pensar em retorno à fazenda; pois o caminho para a travessia nossa senhorita não conseguiria jamais encontrar sozinha, e eu não podia abandonar o rebanho. Essa ideia de passar a noite na montanha a atormentava muito, sobretudo por causa da inquietude da família. Eu procurei tranquilizá-la da melhor maneira que podia:
‒ Em julho, as noites são curtas, senhorita... É apenas um momento ruim.
E acendi depressa uma grande fogueira para secar seus pés e seu vestido, encharcado da água do Sorgue. Depois, coloquei diante dela leite, queijo; mas a pobre pequena não pensava nem em se aquecer, nem em se alimentar, e de ver as grossas lágrimas que desciam de seus olhos, eu também estava a ponto de chorar.
No entanto, a noite chegou completamente. Não restou sobre a crista das montanhas mais que uma poeira de sol, um vapor de luz do lado do poente. Eu quis que nossa senhorita entrasse para repousar no abrigo. Tendo estendido sobre a palha fresca uma bonita pele bem nova, eu lhe desejei boa noite, e fui me assentar fora, diante da porta... De repente, a cortina do abrigo se abriu e a bela Stéphanette apareceu. Ela não podia dormir. As ovelhas faziam ranger a palha ao se mover, ou balindo em seus sonhos. Ela achou melhor vir para perto do fogo. Diante disso, joguei minha pele de cabra sobre seus ombros, aticei as chamas, e ficamos sentados juntos, sem conversar. Se você já passou a noite sob as estrelas[vii], você sabe que, quando dormimos, um mundo misterioso desperta na solidão e no silêncio. É então que as fontes cantam muito mais claramente, e os charcos acendem pequenas chamas. Todos os espíritos da montanha vão e vêm livremente; e há no ar das pastagens ruídos imperceptíveis, como se estivéssemos ouvindo os ramos crescendo, a erva brotando. O dia, é a vida dos seres; mas a noite, é a vida das coisas. Quando não se está acostumado, dá medo... Por isto, nossa senhorita estava toda trêmula, e se apertava contra mim ao menor ruído. Uma vez, um grito longo, melancólico, partiu da lagoa que brilhava mais abaixo e subiu até nós, ondulando. No mesmo instante uma bela estrela cadente deslizou por sobre nossas cabeças, como se aquele lamento que acabávamos de ouvir estivesse portando uma luz.
‒ O que que é isso? me perguntou Stéphanette em voz baixa.
‒ Uma alma que entrou no paraíso, senhorita; e fiz o sinal da cruz.
Ela se benzeu também, e ficou um momento com a cabeça baixa, contrita. Depois me disse:
‒ Então é verdade, pastor, que vocês são feiticeiros, vocês pastores?
‒ De jeito nenhum, nossa senhorita. Mas aqui nós vivemos mais perto das estrelas, e nós sabemos o que acontece melhor que as pessoas lá de baixo.
Ela ainda estava olhando para cima, o queixo apoiado nas mãos, envolvida na pele de carneiro, como um pequeno pastor celeste:
‒ Mas são tantas estrelas! Que lindo! Nunca eu tinha visto tantas... Será que você sabe os nomes delas, pastor?
‒ Mas sim, senhorita... Quer ver! bem acima de nós, lá está o Caminho de São Tiago[viii] (a Via Láctea). Ele vai da França direto para a Espanha. Foi São Tiago da Galícia que o traçou para mostrar a rota ao bravo Carlos Magno quando ele guerreava contra os Sarracenos[ix]. Mais longe, você tem a Carreta das Almas (a Ursa Maior) com seus quatro eixos resplandecentes. As três estrelas que vão na frente são as Três Bestas, e aquela menorzinha perto da terceira é o Carreteiro. Você vê em redor disso tudo aquela chuva de estrelas que caem? são as almas que o bom Deus não quer perto dele... Um pouco mais abaixo, o Rastelo ou os Três Reis (Orion). É o que serve de relógio para nós pastores. Só de olhar para eles, eu sei que agora passa um minuto da meia noite. Um pouco mais baixo, sempre na direção sul, brilha Jean de Milan, a tocha dos astros (Sirius)[x]. Sobre essa estrela, eis o que os pastores contam. Parece que uma noite Jean de Milan, com os Três Reis e o Sete-Estrelo (a Plêiade) foram convidados para o casamento de uma estrela de seus amigos. O Sete-Estrelo (Plêiade), mais apressado, se diz, saiu primeiro e tomou o caminho mais alto. Olhe lá, lá no alto, bem no fundo do céu. Os Três Reis cortaram por baixo e o alcançaram. Mas este preguiçoso do Jean de Milan, que dormiu até tarde, ficou completamente para trás, e furioso, para atingi-los, atirou neles o seu bastão. É por isso que os Três Reis se chamam assim de Bastão de Jean de Milan[xi]...  Mas a mais bela de todas as estrelas, senhorita, é a nossa, é a Estrela do Pastor[xii] que nos ilumina na alvorada quando tiramos o rebanho, e também ao entardecer quando o trazemos de volta. Nós a chamamos ainda de Maguelonne, a bela Maguelonne que corre atrás de Pierre de Provence (Saturno) e se casa com ele a cada sete anos[xiii].
‒ Mas como! pastor, então existe casamento de estrelas?
‒ Mas sim, senhorita!
E quando eu estava começando a lhe explicar o que eram esses casamentos, senti alguma coisa fresca e leve pesar ligeiramente sobre meu ombro. Era a sua cabecinha pesada de sono que se apoiava em mim com um bom farfalhar de fitas, rendas e cabelos ondulados. Ela permaneceu assim, sem se mover, até o momento em que os astros do céu empalideciam, apagados pelo dia nascente. Quanto a mim, eu a olhava dormindo, um pouco confuso no fundo do meu ser, mas santamente protegido por aquela clara noite, que não me deu mais do que belos pensamentos. Ao redor de nós, as estrelas continuavam sua marcha silenciosa, dóceis como um grande rebanho; e por momentos me figurava que uma daquelas estrelas, justamente a mais preciosa e mais brilhante, tendo perdido sua rota, tinha vindo pousar sobre meu ombro para dormir...


Conto de Alphonse Daudet (1840‒1897)
no livro Lettres de Mon Moulin
Tradução de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Todos os direitos reservados 



[i] Luberon : cadeia montanhosa da Provença. No verão, os criadores mantém os rebanhos nas pastagens altas, descendo-os para o vale antes do inverno.
[ii] Labri : nome que se dá, na Provença, a uma raça de cães de pastor, geralmente de cor negra.
[iii] Mont-de-l’Ure : cadeia montanhosa entre Sisteron e Ventoux. Notre-Dame de Lure, velha abadia dos Agostinhos, é um lugar de peregrinação muito frequentado.
[iv] Símplices : ervas medicinais
[v] A fada Estérelle habitaria as montanhas de l’Esterel, às quais ela dá seu nome.
[vi] Sorgue : afluente do Rhône
[vii] Ao relento : a expressão idiomática para este sentido é belíssima: “passer la nuit à la belle étoile” (nota do tradutor)
[viii] Caminho de Santiago: a Via Láctea, que orienta os peregrinos no rumo de São Tiago de Compostela.
[ix] Todos esses detalhes de astronomia popular são traduzidos do Almanaque Provençal que se publica em Avignon (nota do autor).
[x] Sírius é a estrela mais brilhante que se vê a olho nu.
[xi] Bastão de Jean de Milan, ou Bastão de Orion
[xii] A Estrela do Pastor (Vênus) não é uma estrela, mas um planeta
[xiii] Esta história se encontra em um velho romance atribuído a Bernard de Tréviers, cônego. O casamento de Maguelonne com Pierre de Provence traduz misticamente a conjunção, que ocorre a cada sete anos, dos planetas Vênus e Saturno.

terça-feira, 17 de março de 2020

Medicina tropical



Assistindo aula do Professor Waltinho, na terceira série do ginásio, aconteceu que comecei a verter sangue pela barriga. Era uma feridinha, que coçava, não sabia o que era, mas começou a escorrer sangue, mansamente, molhando o uniforme. Quase ao mesmo tempo, outra feridinha, na garganta, cismou de se manifestar também, fiquei bem chateado, na sala de aula, com sangue, levantei, nem precisei me explicar com o meu professor de geografia, ele já foi falando, vai na sala da Dona Clélia.
A nossa orientadora educacional ficou espantada, providenciou alguma gaze, limpou, tapou com esparadrapo, não sabia o que era, pediu a caderneta e escreveu um recado para minha mãe.
Dia seguinte, Dona Tereza estava lá no ginásio comigo. Da conversa, surgiu uma teoria esdrúxula, podia ser um sintoma de sífilis infantil, ou juvenil, eu tinha uns quatorze anos. Mamãe falou, pode deixar, vou levar ele em Taubaté.
Cedinho, saímos de casa e fomos, eu e minha mãe, até a estaçãozinha, pegar o expressinho para Taubaté. Uma paradinha em Pinda, e toca para Taubaté. Daí, fomos para o Hospital Santa Isabel. A famosa espera, mas com muita atenção do pessoal, em certo momento vem um prato de comida, muito bom, para mamãe também. Até que nos chamaram.
Era um médico bem jovem. Preencheu umas fichas, fez perguntas, quis saber de mim: “Já desceu?” E eu não sabia o que era que devia ter descido. Ele explicou, falava dos testículos. Tive que baixar a roupa para ele ver, que sim, os testículos estavam normais. Eu embasbacado, o que será que isto tem a ver. Então ele examinou bem as feridinhas, perguntou sobre elas, resmungou um pouco, começou a preencher uns formulários de receita.
Então a porta se abriu de supetão e entrou no consultório uma enorme e risonha lenda: Dr. Tarciso Leonce Pinheiro Cintra. Era diretor daquilo tudo. Cumprimentou todo mundo, quis ver as anotações do jovem médico: “Hum, sífilis... nessa idade, não? que coisa...”  Sentou-se num canto  e me chamou, tira a camisa, e foi a vez de ele examinar as minhas feridinhas. Olhou bem, pegou um algodão, deu uma olhadinha para o médico moço que estava meio paralisado, perguntou assim, dando uma meia risadinha: “Você estudou medicina tropical, não foi?”
E deu um espremão no gordinho em volta da feridinha e um negócio espirrou atravessando a sala e foi bater lá na parede e caiu no chão. Negócio meio branco meio amarelo com uns pelinhos pretos. Falou para o médico moço: “Alá a sua sífilis no chão...” Em seguida, coitado de mim, espremeu também a ferida da garganta, doeu, e outra sífilis também espirrou, não tão longe.
Dr. Tarciso se levantou, foi na pia, lavando as mãos, ainda brincando, falou para o colega novo: “Você precisa ir mais para a roça, isso aí é berne. O menino não tem sífilis nada.”
Depois, enquanto me limpava daquilo tudo e fazia um curativo bem legal em mim, foi conversando, sossegado: “Você corta capim, para a vaca? Ah, não? Para a cabra? Tudo bem. Você leva o feixe de que jeito? Ah, então. Sabe que a mosca de berne não bota o ovinho no animal, ela bota no capim, sabe que o gado vai passar por lá, o ovinho vai grudar no pelo do animal, vai virar um berne, que vai entrar na pele da vaca, da cabra, para se alimentar de sangue e se transformar em mosca. Foi o que aconteceu com você. Dá um jeito de levar o feixe de capim de modo que não toque na sua pele. E tudo bem.”
Saímos de lá bem satisfeitos. Eu tinha conhecido um médico de verdade. Dr. Tarciso Leonce Pinheiro Cintra. Nunca mais esqueci.
Eu e o Bosco, daí em diante, começamos a embrulhar os feixes de capim num saco de estopa. A cabra também não teve mais berne.

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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: História do Hospital Santa Isabel

sexta-feira, 13 de março de 2020

A Vó


Da esquerda para a direita, no fundo: Minha avó materna Ana Emília, minha mãe Maria Tereza e meu pai, o professor Francisco Fonseca Marcondes.
Na frente, os meus irmãos José Pedro, Luiz Gonzaga, Francisco Carlos e Ana Clara.
E eu, cadê? Ora, no colinho da mamãe!
Ainda não tinham nascido: João Bosco, Maria Auxiliadora, Maria Salete e Ritinha.
Foto em Aparecida, em 1948.


Estava escurecendo, mas não era hora de acender a fogueira de São João, e as lâmpadas do quintal ainda estavam apagadas. O vulto de uma pessoa baixinha, troncuda, de capuz, deslizava devagar no quintal, entre as árvores. Fui ver, era a vó, com uma vara. Parava e dava uma surra em cada laranjeira. Distribuiu surras para todas, desde as laranjeiras velhas de perto da chaminé, até os pés de  laranja-bahia do fundo do quintal. Rezando alguma coisa. Depois me explicou, era para dar laranjas doces.
Aquilo era para acharmos esquisito? Era para darmos risada, comentando entre os irmãos? Não sei, mas não demos risada não. Até fomos acompanhando, mostrando algum outro pé de laranja, sugerindo também um limoeiro, tudo já na quase escuridão, com dó da velhinha que guardava segredos da escravidão.
E era branquinha, os cabelos brancos lisinhos, sempre em coque, só que as histórias que sabia eram histórias de cativos judiados, vingados pelas doenças e outras desgraças que atacavam os senhores brancos, que morriam de coisas feias. Contava as vozes que ecoavam nas noites de São Bento do Sapucaí, no escuro das araucárias, no vento: “No meio de três pinheiros, três barris de dinheiro!”. E o fazendeiro mau, que mandou surrar e matar o escravo bom e enterrar, e plantar muda de laranja por cima. A laranjeira cresceu, deu frutos bonitos. A sinhazinha colheu a laranja, mandou descascar e cortar, era só sangue por dentro, escorreu na roupa nova da mocinha.
Vó! Eu perguntava mais coisa. Devia ter perguntado mais. Perguntei pouco. Nunca perguntei por que foi que ela e o vovô Bento se separaram, por que o vovô ficou morando em Taubaté para sempre e ela ficou para sempre morando com a gente, com mamãe, papai e todas as crianças, trabalhando muito, igual uma escrava mesmo, no fogão e no tanque.
Perguntei coisa boba, curiosidade, viagens dela com vovô, na mocidade, acompanhando tropa de burro de São Bento para Taubaté, pousando em rancho, topando com sucuri, essas coisas. O que ela respondeu de bom para o resto da minha vida eu nem tinha perguntado, ela já foi ensinando. Era o jeito de matar o frango, de escaldar, depenar, limpar, abrir, tirar a gosma da pele com limão e fubá, até fritar, ou assar, ou refogar, centenas de jeito, até servir na mesa para a família inteira. E cuidar do porco e fazer com ele tudo isso também, só que com mais barulho, mais sangue e aprendendo a ficar insensível diante dos olhos puros do animal que tinha criado amizade com a gente, e agora ia virar nossa comida.
Ralhava comigo e meus irmãos só quando invadíamos a área de privacidade dela. “Cadê meu cepo?” ‒ Era porque tínhamos pegado o toco e levado para o fundo do quintal, para brincar de filme, o índio tinha que fazer tocaia contra o mocinho. E o cepo era necessário para ela. Baixinha, não alcançava a torneira do tanque, para lavar nossa roupa.
“Mexeram nas minhas mangas!” ‒ Alguém tinha revirado a cômoda, em busca das mangas que ela guardava no meio das roupas, esperando amadurecer. Nisso ela caprichava, levantava cedinho, ia fazer uma pequena colheita debaixo do pé de manga-espada, recolhia as mangas de vez que tinham tombado de noite, levava para o quarto.
Nas tempestades feias, catava brasa no fogão, punha para queimar a palma benta da semana santa mais recente, saía pela casa rezando a salve-rainha, cobrindo os espelhos...
A mãe brigava com a gente e queria bater. Ela nos acolhia na saia comprida, protegia. Mas quando a mãe brigava com ela, todos nós corríamos para o lado da mãe, que fingia desmaio, e a vó ficava sozinha, quieta, rezando.
Ah, Dona Ana! Dona Ana Emília! Donana! Todo domingo, na missa da tarde, de mantilha preta, terço na mão, balbuciando orações... ia devagarzinho pela rua de areia, para a Capela entre os coqueiros. Na volta, assistia um pouco de televisão, antes de tomar café para dormir. A TV nós compramos quando eu tinha uns dezoito anos. Perguntei a ela: Vó, é assim mesmo que a senhora pensava que era a televisão? Ela disse que não. Pensava que era fininha igual um quadro, que a gente pendurasse na parede.
Hoje eu penso, nossa, hoje em dia ela acertou.
Teve um AVC, ficou doente para morrer. Fomos fazer a mudança, esvaziar o quartinho dela, tirar o nicho de Santa Terezinha, que tinha tantos outros santos! tantos restos de outros santos, irreconhecíveis, flores murchas, pedaços de palma benta... Quando fui esvaziar as gavetas da cômoda, ah, cheio de manga estragada, ela guardou para amadurecer, mas coitadinha, esquecia...
A cabecinha branca é um lencinho de saudade, a cabecinha branca espiando por cima do portãozinho, debaixo da latada de primavera, espiando para ver se o neto já vinha voltando da cidade, se já vinha caminhando desde lá do Portão da fazenda, tendo descido do ônibus, se já tinha terminado as aulas do ginásio ‒ do ginásio que ela nunca chegou a conhecer, prédio onde ela nunca adentrou, que ainda está aqui na esquina da ladeira que desce para o Bosque...
Quem não está mais aqui é ela, faz mais de cinquenta anos que ela não está mais aqui, a Vó, que talvez nunca tenha entendido direito este mundo, que os netos foram desbravando e cujos pedaços foram contando para ela, aos poucos, para que ela pudesse ir montando um quebra-cabeças: o mundo moderno, sem tropeiros, sem cativos, sem senhores, sem sinhazinhas, sem laranjeiras...
Agora já sou mais velho do que ela ‒ e os meus cabelos são mais brancos do que os cabelinhos dela. Mas não adianta eu ficar no portão esperando, não vai ter ninguém para chegar da escola.
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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Lambe-lambe em Aparecida, 1948

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

ALCINDO NÃO ESTÁ




Coruputuba em tarde de sábado

Fui ver meu irmão e a cirurgia estava marcada para daí a dois dias, e não dava para saber que nosso prazo estava se esgotando muito depressa. Mas ele não queria conversar nada de metafísico. Queria conversar sobre Coruputuba, ir lembrando assim casa por casa, as pessoas, tinha mais ninguém pra gente falar disso. Ué, mas então vamos falar! Quer ver uma coisa? Lembra disso: “ALCINDO NÃO ESTÁ”? Claro que lembro, aquela plaquinha que ele punha na varanda. E eu lembro disso todo dia, sabe que hora? Quando tenho que sair do escritório, que não vou poder atender quem chegar, eu penduro uma plaquinha assim: “Fui ao Fórum”. Só que ponho o número do meu celular. Quando a gente ia cortar capim no cafezal atrás da casa dele, eu gostava de ver o cavalo dele, na cocheirinha. ‒ Isso. Era um ranchinho, com a charrete. Mas ele saía muito era com a bicicleta. Ah. Pra vir correndo atrás da gente que estava dando estilingada no cacho de coquinho. Vinha apitando!
Mas Bosco, você lembra que gostoso nas tardes de sábado? Quando o pessoal do Seu Alcindo varria as folhas secas em volta do campo? Nossa, até hoje lembro, quando sinto cheirinho de folha de eucalipto queimando. É, ficava uma fumacinha azulada, demorava... E as casas da nossa rua, Paulo, vamos ver. A primeira casa.
Era a casa do Seu Totoizinho e da Dona Marina. Lembra o nome de todo mundo? Não. Eu lembro do Aurélio, do Ademir... O Lélo, certo? E o Mica. Tinha mais gente. O mais velho acho que você não lembra, Bosco. Era o Toninho, que casou com a Nilce Duran. Não, não lembro. Lembro da Dirce. Sim, a Dirce, a Cenira... os menorzinhos não lembro. Nossa, a gente era bobo. Eles ficavam brincando no tanquinho dos patos e a gente falava que eles tinham piscina... Dava inveja... Olha, foi na casa deles que a gente viu coelho pela primeira vez na vida. Eles falavam que era lebre.
Bom, vamos andar mais, a segunda casa, quem que era? Ué, do Seu Enéas, que a gente ia assistir televisão. A mulher dele, lembra? Não. Lembro da Maria Amélia.  Então, a mulher do Seu Enéas era a Dona Sinhá. Tinham um filho grande, lembra? O nome não lembro. Lembro que ele andava de bicicleta, de camiseta branca. Era o Valdemar. Que tinha a história do cachorro dele. ‒ ?  O cachorro que salvou a vida dele. Ele sempre ia pescar no primeiro tanque e o cachorro latiu, tinha um jacaré no meio do capim, atrás do Valdemar. O jacaré avançou, catou o cachorro e entrou na água. Ah, a gente viu o jacaré, quando mataram. Foi. Puseram na caminhonete, tiveram que dobrar o rabo para caber na caçamba. Um baita de um jacaré. Bosco, esse jacaré está empalhado, fica no escritório do Patrick. Tinha uma moça também, fora a Maria Amélia.  Era a Dagmar. O Seu Enéas era irmão do Seu Alcindo. Lembra a família do Seu Alcindo? Não.
A mulher do Seu Alcindo era a Dona Eulália, professora. Tinha uma filha, uma moça bonita, professora também, era a Rute. Quando lancei o meu livro consegui contato com ela, estava morando em São Paulo, tinha uns oitenta anos. Comprou o meu livro. Passei o telefone dela para o Zaga, que foi aluno dela no primário. Eles conseguiram conversar, trocar carta, sei lá. Ela já morreu.
E a próxima casa? Seu Sebastião Leite. Não, tinha uma antes. Aquele bloco tinha três casas. A do Seu Enéas numa ponta e a do Seu Sebastião Leite na outra. No meio tinha uma casa que não tinha acesso para o quintal. Não lembro. Era a casa da Dona Basta. O marido dela era caçador, tinha uns cachorros bonitos, perdigueiros. O Seu Sebastião Leite tinha uma filha. A Fia. E um menino. Não lembro. Lembro da vendinha que eles tinham, eu ia lá com a Ana Clara, comprar linha, agulha, sianinha, dedal...
Depois vinha a casa do Seu Dimas. Que tinha os pombinhos. Lembra do filho deles? Não lembro o nome. Ué, era o Vitor. Ele ia em casa para aprender latim. Não sei se com o Pedro ou o Zaga. Depois vinha a casa do Seu Alberto Duran. Dona Antônia. Carlos Alberto, Edson, Miguel, Neide, Toninho... Depois os nossos vizinhos, o Seu Luis Crepaldi, Dona Teresinha, a Sueli, Teresinha, ... Nunca mais vi o Ângelo!
Depois da nossa casa, vinha a casa do Seu Moacir Amarante. É, Dona Tereza Amarante, Doroti, Zezé, Miltinho, Leninha... Reparou? Três Teresas vizinhas: Dona Teresinha Crepaldi, a nossa mãe e a Dona Tereza Amarante. Sim, mas antes dos Amarantes, quem morava lá? Não lembra... Seu Dolivo e Dona Maria Varela. Ah é. Washington e Robinson. Depois, o Renato, a Márcia... a Miriam... sim, filhos da Dona Anézia. E na ponta? O Seu João da Ponta.... da cesta de natal.
Tá bom, me ajuda a levantar, quero te mostrar o quintal.
Tá vendo aqui, meu computador. (Pensei, caramba, nesse computador ele já pesquisou tudo sobre a doença...).
Ah, o quintalzinho gramado, pé de laranja, hortinha, do outro lado do muro, o bambuzal balançando, a paineira com bem-te-vi... Depois, fomos ver o jardinzinho: olha, aquela primavera não é trepadeira, é de pendurar. As flores, bonitas no sol da tarde. O canarinho, na varanda, cantava baixinho.
Quando voltei, depois da cirurgia, a conversa não prosperou. Falei bastante, ele olhava para o teto. Concordava um pouco comigo. Lembrei de novo da história do Alcindo não está, acrescentei o capim d’angola que a gente procurava para os coelhos e para a cabra. Sim, ele concordava. A próxima vez já foi na Santa Casa. Eu falava sem desespero sobre os pombinhos, falava devagar, ele olhava nos meus olhos, fixamente, eu acariciava suas sobrancelhas, a testa, os cabelos... O que eu tinha para falar a respeito do céu era isto: a cabrita marrom, os filhotinhos de coelho, a pombinha cinza, os pezinhos de milho, o cheiro do eucalipto, os periquitos verdes, o pé de mamão... e o galo cantando de madrugada.
Dormiu, fechou os olhinhos, falei mais um pouco, fiquei quieto, vim embora... 
Dia seguinte, o enterro. E agora, o tempo vai passando. E agora, agora Alcindo não está, Bosquinho não está, Coruputuba não está, a infância, coitada, não está mais, faz tempo.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Começando a ser professor

Grupo Escolar Rural Antônio Bicudo Leme
(mais tarde, Martinico Prado)


No final do curso ginasial, já tinha me decidido a fazer a Escola Normal, queria ser professor. Por vários motivos, inclusive para imitar meu pai, mas o mais importante mesmo foi a necessidade econômica: precisava fazer um curso que me desse um emprego de imediato.
Cursei a Escola Normal, no Instituto de Educação João Gomes de Araújo, de 1964 a 1966. Na época, eram poucos os homens que faziam esse curso de magistério primário. Porém, logo no primeiro dia de aula, descobri que eu não ia ser o bendito é o fruto. Também o José de Freitas e o José Eduardo Carneiro tinham decidido pela carreira. Na semana seguinte, juntaram-se a nós o Candinho, filho do Seu Cândido do correio, e o Welton Cypriano. Nós cinco, no meio de oitenta moças.
Foram três anos muito bons. O que teve importância mesmo, na minha formação pedagógica, foram as aulas de Psicologia, com a Professora Maria Luiza Bartholomeu Silva, que nos deu a base científica do ensinar/aprender, e as aulas de Prática de Ensino, com a Professora Ignez San Martin de Abreu, que nos ensinou as técnicas de ensino e como planejar esse ensino.
Mais que isto, devo à Professora Ignez o entusiasmo pela profissão. Nunca tinha presenciado alguém falar com tanto carinho sobre o professor primário, sobre o milagre de suas realizações diárias. Mais tarde, por este grande Vale do Paraíba e em outros lugares do Estado, tive que ouvir pessoas falando mal da nossa profissão, fazendo pouco caso, pessoas maldosas, ignorantes... Mas, para mim, eram frases inócuas. Palavras poderosas foram as que ouvi de Dona Ignez na minha juventude. Essas palavras, que gravei no coração, marcaram o meu rumo profissional.
Terminei o curso normal e fui ser professor, na mesma escola em que passei a infância. O Grupo Escolar Rural Antônio Bicudo Leme, em Coruputuba. Professor substituto, tinha obrigação de comparecer todos os dias, mas só seria remunerado se, de fato, ministrasse aula, ou seja, se entrasse em classe para substituir o titular que faltou. Quando não faltava ninguém, devia permanecer na escola durante duas horas, ajudando no que fosse possível, na biblioteca, na secretaria, mas sem qualquer remuneração.
Porém, havia – já naquele tempo – alguns alunos malcriados, alunos que percebiam que eu era um novato, faziam pouco caso, debochavam: Professorzinho... Corrigiam-me: Não é assim que a professora faz. Cochichavam: Não sabe dar aula... E gargalharam sem dó quando, tentando abrir um armário de porta emperrada, fiz o móvel balançar e veio para cima de minha cabeça o vaso da professora, com água, flores e tudo mais, e doeu bastante, o bendito vaso era pesado... Por tudo isto, comecei minha carreira de professor com muito medo de dar aula. No caminho para a escola, eu ia pensando: Ah, Meu Deus, tomara que nenhum professor falte!
E finalmente me foi atribuída uma classe para o ano inteiro. Uma professora tinha se afastado, em licença médica. Então foi diferente, já não era um substituto que entrava de vez em quando numa classe para tapar buraco. Sentindo-me mais garantido, pude começar a experimentar o meu jeito de dar aula. Ainda não tinha lido sobre como é fácil e perigoso o professor calouro começar a dar aulas imitando os seus antigos professores, sem refletir. Logo, comecei – sem refletir sobre isto – a ensinar meus alunos do terceiro ou do quarto ano do mesmo modo como os meus professores do primário me ensinaram, com as mesmas técnicas, as mesmas rotinas. Até as mesmas canções para a fila da entrada.
Mas era só o começo, tinha mesmo que ir tateando, procurando meu caminho pedagógico.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro Aconteceu na Escola, 2012.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Uma tarde sessenta anos atrás





Eu tinha dez anos, ia de velhas alpargatas,
eu e mais o meu irmão Paulo Tarcizio,
cumprir alguma tarefa arriscada,
como buscar água em verdes garrafões
com alça de palha trançada.
Tínhamos que falar baixo no perigo da tarefa,

medindo o ruído dos pés, por medo dos cachorrões,
Moles cachorrões estirados na terra.
Eram quatro da tarde, havia a rua e a lua.
A rua era sulcada por lentos ciclistas,
vinham do serviço conversando sossegados,
no vernáculo simples que cabia em suas vidas.
A lua parecia um papel pálido colado no céu,
navegando em seu quarto crescente ia quase apagada
pela fumaça marrom com a tarde misturada.
A fábrica lançava seu longo e metálico apito
e corriam na bicicleta os operários de marmita.
O relógio da igreja batia quatro vezes bem contadas.
Meninos jogavam futebol, com chutes para o céu arremetidos,
desfolhando a galharia verde escura dos eucaliptos.
Crianças de azul e branco vinham do grupo escolar,
acompanhando suas professoras maternas e graves.
Um carro de boi de rodas gementes vinha devagar
e pombas brancas planavam em círculos suaves.
Os garrafões pesavam, íamos agora calados,
olhando a lua já liberta da fumaça.
Nossos pensamentos iam melancólicos, embarcados
no ronco distante e tristonho de um avião que passava.
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Do poeta Luiz Gonzaga da Silva Marcondes, no livro Espelho Azul, Ed 2006.
Luiz Gonzaga, filho do Professor Francisco Fonseca Marcondes, nasceu em Coruputuba em 1945. Iniciou seus estudos no Grupo Escolar Rural Antônio Bicudo Leme. Hoje, promotor público aposentado e advogado atuante, reside em Limeira, SP.

Do poeta Luiz Gonzaga da Silva Marcondes, no livro Espelho Azul, Ed 2006.
Luiz Gonzaga, filho do Professor Francisco Fonseca Marcondes, nasceu em Coruputuba em 1945. Iniciou seus estudos no Grupo Escolar Rural Antônio Bicudo Leme. Hoje, promotor público aposentado e advogado atuante, reside em Limeira, SP.


sábado, 13 de julho de 2019

Primavera em Santa Branca



Convidado a exercer a função de Coordenador Pedagógico em Santa Branca, dispus-me a não ser chato. Este era, para os professores, o conceito em que tinham os coordenadores. Falava-se em coordenador e já se imaginavam grandes pacotes de formulários para preencher, justificar, planejar, avaliar... Deixei os papéis de lado e procurei usufruir do convívio com os docentes. Ora, na função anterior, de Orientador Educacional, eu convivi tanto com os alunos! Agora, queria partilhar o dia a dia dos professores, tornar-me pessoa de sua confiança, para construir relações produtivas e, assim, beneficiar os clientes da escola: os alunos e suas famílias.
Um ambiente amoroso, familiar, todos se conheciam naquela pequena cidade. Todo mundo na escola era meio parente. Professores, escriturários, serventes, alunos, professores, todos envolvidos nas gostosas e às vezes polêmicas redes de parentesco. Lá encontrei o Leopoldo, o melhor professor de Matemática que já conheci. O único que vi mantendo regularmente um jornal mural de Matemática no pátio, com charadas matemáticas, biografias de grandes matemáticos, piadas matemáticas... Vi o sobrenome dele e já matei: Você é irmão do Seu Toninho, que foi meu professor no quarto ano do grupo em Corupu-tuba! Que me entregou o diploma do primário!
Era sim, o Leopoldo era irmão do Seu Toninho. Tão bem humorado quanto o meu professor. Mantinha com os alunos do noturno uma relação tão cordial que eles jogavam futebol de salão juntos quase toda semana. Como eu tinha que ficar lá mesmo entre o final do período da tarde e o início do noturno, também ia para a quadra, e aquela brincadeira tornava natural e amigável a nossa convivência.
Foram somente sete meses em Santa Branca, na escola Francisca Rosa Gomes. Era para eu ser Coordenador, mas em alguns momentos acabei ficando, na prática, responsável pela escola toda, quando dos afastamentos da diretora e da assistente, em férias ou em licença.
Nos primeiros dias já descobri como que funciona de verdade uma escola comum do Estado. Ainda não tinha trabalhado em cargo administrativo numa escola comum, tinha trabalhado só nas exceções. Tinha sido professor num grupo escolar rural, numa escola regimental do exército, numa escola na praia, numa escola isolada na roça... Mas em cargo administrativo tinha trabalhado em duas enormes exceções: a Escola Técnica Prof. Everardo Passos, particular, em São José dos Campos, e a Escola Agrícola Cônego José Bento, estadual, em Jacareí. Agora, em Santa Branca, eu entrava em contato direto com as tarefas administrativas de uma escola estadual com classes de primário de dia e com classes de quinta a oitava e de segundo grau à noite. Descobria que, independente do nome do cargo, quem estiver na escola acaba sendo, muitas vezes ao mesmo tempo, coordenador, diretor, secretário, escriturário, servente, merendeiro... Quantas e quantas vezes, mais tarde, já diretor de escola, tive que fazer a merenda, atender no guichê da secretaria, limpar as salas da administração, passar café... Ué, mas na escola de roça do Rio Abaixo, também não era assim? Quem que fazia a merenda, limpava o banheiro? Só que eu pensava que nas escolas maiores as funções estariam melhor distribuídas. E estavam, mas, no dia a dia, pessoas faltavam, tiravam licença, afastavam-se – e alguém tinha que cobrir. Esta prontidão para fazer de tudo, na medida em que fosse necessário, comecei a adquirir em Santa Branca.
Foram dias maravilhosos, produtivos. A relação com os professores ficou ótima, viramos amigos carinhosos até, sem perder de vista o objetivo de minha função de Coordenador: instrumentar os professores para uma relação produtiva com os alunos. Isto fizemos, de fato. O Jornal de Matemática do Leopoldo, devidamente endeusado por mim, gerou outros jornais murais, sobre outras matérias, sob a direção de outros professores ou grupos de alunos. Uma vitória particular foi a abertura da biblioteca. Cheinha de livros interessantíssimos, coleções infantis e juvenis, livros para cultura pedagógica, livros de psicologia... Centenas de volumes, impecáveis em suas capas de papelão azul, ficavam retinhos nas estantes, todos perfeitamente alinhados.
Mas ninguém lia. O livro de registro de empréstimo marcava exatamente sete retiradas desde o começo do ano, e estávamos em julho. A diretora, Professora Julieta, uma das pessoas mais ponderadas e calmas que conheci, ensinou-me bastante sobre organização de secretaria, controle de fichas de alunos, controle da vida funcional dos professores e funcionários (tudo que ela aprendeu com o Prof. José Thomé Júnior, o mesmo Seu Thomé da minha infância em Coruputuba - Ora, o Vale é tão pequeno!). Com relação à biblioteca, explicou-me que ficava fechada porque não tinha quem tomasse conta. Percebi que imperava na escola uma grande preocupação com a conservação dos livros, eles constavam dos inventários, não se podia correr o risco de danos, desaparecimento etc. Os livros deviam ser conservados como tinham sido recebidos, sem nada amassado, sem páginas rabiscadas, coisas assim. Parecia que de repente ia surgir uma visita de inspeção querendo conferir os livros volume por volume! Por isto, quando alguém queria ler um livro, precisava que um funcionário pegasse a chave e fosse lá buscá-lo. Concluí: é por isto que até julho foram registradas somente sete retiradas.
Propus à Dona Julieta: Fica sendo meu lugar de trabalho a biblioteca. Tem uma mesa lá, tem o mimeógrafo, arranja uma máquina de escrever, arranja essas coisas que eu fico na biblioteca com a porta aberta, vamos ver o que acontece.
Havia na Biblioteca uma samambaia num xaxim, mirrada, pálida... Num sábado fui trabalhar de manhã e, pela primeira vez, o sol penetrou na Biblioteca, iluminando os livros, as crianças das aulas de reforço e suas professoras que, também pela primeira vez, estavam vendo a biblioteca aberta.
Assim, aquele “vamos ver o que acontece” resultou nisto: a biblioteca virou ponto de encontro do coordenador com professores, que vinham trocar ideias. Dali a pouco, virou uma salinha para alunos também virem conversar comigo, além de retirar livros. Estava sendo reeditado o meu gabinete de orientação educacional, incluindo o meu cavalete de pintura, as telas, os pincéis, o cheiro de terebentina...
Só que a lembrança da ETEP me trouxe a vontade de reviver o clima de plena autonomia dos alunos. Dividi com alguns professores o sonho de uma escola onde permanecessem na sala de aula somente os alunos que estivessem mesmo querendo assistir a aula, sendo que os demais poderiam sair da sala, mas seriam, em vez de repreendidos, acolhidos amigavelmente pelos educadores disponíveis no momento.

 Educador disponível no momento – Definição 1 - Aquele que não está enfiado na diretoria debaixo de uma pilha de diário oficial, ou tentando alterar o horário das aulas porque uma professora desistiu e a que pegou as aulas não pode dar aula na quarta e nem na sexta, ou está fechando o balancete da APM, mas não vai dar tempo porque já foi convocada nova reunião na delegacia de ensino e o supervisor já avisou que vem à escola para assinar os certificados de conclusão, que ainda não estão prontos etc.
Educador disponível no momento – Definição 2 – O Paulo, que acabou de chegar e já está propondo essas coisas de liberdade e autonomia.

Bom, o Educador Disponível realmente estava ansioso para colocar os alunos do noturno em conflito: permanecer na sala de aula participando da aula de História, Geografia etc. ou ir para o galpão onde o Educador Disponível está tocando violão ou falando sobre poesia na Biblioteca? Ou ainda, ficar na classe fazendo os problemas de Física ou ir estudar Física na prática, jogando pingue-pongue no pátio, na mesa que o Educador Disponível desenterrou de não sei onde, limpou e montou?
Nas conversas informais, fui percebendo que havia professores que se encantavam com a ideia (a ideia, de verdade, nem era minha, era de Alexander S. Neil) e havia outros que declaravam que não dava certo em Santa Branca. Havia uns terceiros que julgavam que a ideia tinha que ser bem discutida. Discutindo a ideia com a direção, vi que o caminho não estava fechado não, estava aberto e passava pela discussão no Conselho de Escola. Apresentei ao Conselho, por escrito, uma tese propondo que se mantivessem os portões fechados, os professores se mantivessem normalmente em sala de aula, fizessem a chamada com o rigor costumeiro, só registrando presença para quem estivesse realmente presente. Aluno que quisesse ficar no galpão, na biblioteca, na quadra, poderia fazer como entendesse, sabendo que estava sendo registrada sua falta. O objetivo era permitir que o aluno tomasse suas próprias decisões, ganhasse autonomia, pudesse dispensar que outras pessoas decidissem tudo em seu lugar – pudesse escolher seus caminhos, responsabilizando-se pelas consequências de seus atos. Finalmente, o Conselho se reuniu.
Foi a primeira vez que vi um Conselho de Escola debater assunto sério mesmo. O mais que eu tinha presenciado até ali, em outras escolas, era sobre punição de alunos ou prioridades para aplicação de verbas. Agora, ia-se discutir, de modo maduro e profissional, o que a escola poderia fazer em benefício do crescimento da autonomia dos alunos. Não há assunto mais sério em Educação. A tese foi aprovada, após muito debate. Houve votos contrários, foram dos alunos representantes no Conselho, que se mostraram mais conservadores do que os professores e os pais.
E, na noite seguinte, começou a primavera em Santa Branca. Parecia uma escola de nível superior, parecia uma escola de artes. Muitos alunos ficaram nas salas de aula, tendo aulas normais. Mas um bom número veio para a biblioteca, para o pingue-pongue, para o violão no galpão, para a quadra. Com o passar das semanas, milagre: alunos estudando no galpão, em grupo. Fomos percebendo que os alunos do noturno não tinham tempo para estudar e agora estavam aproveitando a liberdade conquistada para, durante a segunda aula, ficar estudando para a prova que ia acontecer nas duas últimas. Com a liberdade de ir e vir dentro da escola, a biblioteca virou sucesso de público. Em dezembro, o livro de registro já apontava mais de quatrocentos empréstimos. Talvez um ou outro volume tenha sido danificado, talvez. Mas a biblioteca, por fim, estava cumprindo sua missão. Os soldadinhos encapados de azul tinha sido convocados! A escola ficou barulhenta, movimentada. Alunos se deslocando pelo pátio, conversando, rindo, cantando – tudo isto incomoda muito a nós educadores, que gostamos de falar em construtivismo, escola ativa, aulas mais práticas – desde que não nos atormentem! Há exceções, mas o que de fato até hoje deixa um diretor nervoso é aluno zanzando. Diretor gosta mesmo é de alunos quietos em suas classes, professor dando aula na lousa. Por isto é que tinha sido importante envolver todo o pessoal da escola na discussão das novas medidas.
O ano de 1978 estava terminando. Fui aprovado na segunda fase do concurso, ia ser diretor, ia deixar Santa Branca. Veio a formatura, com muitas despedidas comoventes, laços tinham se formado com aqueles alunos e professores, a gente provavelmente não ia mais se ver. Veio o Natal, vieram as férias de janeiro, fiquei ajudando a montar as classes para o ano que começava elaborando os planos. Nos intervalos, perambulava pela escola deserta, como um pardal cheio de saudades, examinando as salas, os corredores...
Em fevereiro, véspera do primeiro dia de aula, fui embora. Ia dirigir a Escola de Igaratá. E a Escola Francisca Rosa Gomes, lá no alto do morro, bem perto da ponte do Paraíba, ia ficar para sempre na minha lembrança como o lugar onde fizemos brotar uma espécie de primavera, superando o medo que todos nós tínhamos – e ainda temos – da liberdade.
Alguns meses depois, fiquei sabendo que tudo tinha voltado ao normal na Francisca Rosa. Pessoas se aposentaram, Dona Julieta também saiu, foi ser diretora efetiva em São José dos Campos, os que ficaram sentiram-se intimidados em continuar mantendo as medidas implantadas por quem tinha já ido embora.
Então, realmente, foi só mesmo uma primavera.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
ISBN 978-85-913453-4