O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Uma tarde sessenta anos atrás





Eu tinha dez anos, ia de velhas alpargatas,
eu e mais o meu irmão Paulo Tarcizio,
cumprir alguma tarefa arriscada,
como buscar água em verdes garrafões
com alça de palha trançada.
Tínhamos que falar baixo no perigo da tarefa,

medindo o ruído dos pés, por medo dos cachorrões,
Moles cachorrões estirados na terra.
Eram quatro da tarde, havia a rua e a lua.
A rua era sulcada por lentos ciclistas,
vinham do serviço conversando sossegados,
no vernáculo simples que cabia em suas vidas.
A lua parecia um papel pálido colado no céu,
navegando em seu quarto crescente ia quase apagada
pela fumaça marrom com a tarde misturada.
A fábrica lançava seu longo e metálico apito
e corriam na bicicleta os operários de marmita.
O relógio da igreja batia quatro vezes bem contadas.
Meninos jogavam futebol, com chutes para o céu arremetidos,
desfolhando a galharia verde escura dos eucaliptos.
Crianças de azul e branco vinham do grupo escolar,
acompanhando suas professoras maternas e graves.
Um carro de boi de rodas gementes vinha devagar
e pombas brancas planavam em círculos suaves.
Os garrafões pesavam, íamos agora calados,
olhando a lua já liberta da fumaça.
Nossos pensamentos iam melancólicos, embarcados
no ronco distante e tristonho de um avião que passava.
...........................
Do poeta Luiz Gonzaga da Silva Marcondes, no livro Espelho Azul, Ed 2006.
Luiz Gonzaga, filho do Professor Francisco Fonseca Marcondes, nasceu em Coruputuba em 1945. Iniciou seus estudos no Grupo Escolar Rural Antônio Bicudo Leme. Hoje, promotor público aposentado e advogado atuante, reside em Limeira, SP.

Do poeta Luiz Gonzaga da Silva Marcondes, no livro Espelho Azul, Ed 2006.
Luiz Gonzaga, filho do Professor Francisco Fonseca Marcondes, nasceu em Coruputuba em 1945. Iniciou seus estudos no Grupo Escolar Rural Antônio Bicudo Leme. Hoje, promotor público aposentado e advogado atuante, reside em Limeira, SP.


sábado, 13 de julho de 2019

Primavera em Santa Branca



Convidado a exercer a função de Coordenador Pedagógico em Santa Branca, dispus-me a não ser chato. Este era, para os professores, o conceito em que tinham os coordenadores. Falava-se em coordenador e já se imaginavam grandes pacotes de formulários para preencher, justificar, planejar, avaliar... Deixei os papéis de lado e procurei usufruir do convívio com os docentes. Ora, na função anterior, de Orientador Educacional, eu convivi tanto com os alunos! Agora, queria partilhar o dia a dia dos professores, tornar-me pessoa de sua confiança, para construir relações produtivas e, assim, beneficiar os clientes da escola: os alunos e suas famílias.
Um ambiente amoroso, familiar, todos se conheciam naquela pequena cidade. Todo mundo na escola era meio parente. Professores, escriturários, serventes, alunos, professores, todos envolvidos nas gostosas e às vezes polêmicas redes de parentesco. Lá encontrei o Leopoldo, o melhor professor de Matemática que já conheci. O único que vi mantendo regularmente um jornal mural de Matemática no pátio, com charadas matemáticas, biografias de grandes matemáticos, piadas matemáticas... Vi o sobrenome dele e já matei: Você é irmão do Seu Toninho, que foi meu professor no quarto ano do grupo em Corupu-tuba! Que me entregou o diploma do primário!
Era sim, o Leopoldo era irmão do Seu Toninho. Tão bem humorado quanto o meu professor. Mantinha com os alunos do noturno uma relação tão cordial que eles jogavam futebol de salão juntos quase toda semana. Como eu tinha que ficar lá mesmo entre o final do período da tarde e o início do noturno, também ia para a quadra, e aquela brincadeira tornava natural e amigável a nossa convivência.
Foram somente sete meses em Santa Branca, na escola Francisca Rosa Gomes. Era para eu ser Coordenador, mas em alguns momentos acabei ficando, na prática, responsável pela escola toda, quando dos afastamentos da diretora e da assistente, em férias ou em licença.
Nos primeiros dias já descobri como que funciona de verdade uma escola comum do Estado. Ainda não tinha trabalhado em cargo administrativo numa escola comum, tinha trabalhado só nas exceções. Tinha sido professor num grupo escolar rural, numa escola regimental do exército, numa escola na praia, numa escola isolada na roça... Mas em cargo administrativo tinha trabalhado em duas enormes exceções: a Escola Técnica Prof. Everardo Passos, particular, em São José dos Campos, e a Escola Agrícola Cônego José Bento, estadual, em Jacareí. Agora, em Santa Branca, eu entrava em contato direto com as tarefas administrativas de uma escola estadual com classes de primário de dia e com classes de quinta a oitava e de segundo grau à noite. Descobria que, independente do nome do cargo, quem estiver na escola acaba sendo, muitas vezes ao mesmo tempo, coordenador, diretor, secretário, escriturário, servente, merendeiro... Quantas e quantas vezes, mais tarde, já diretor de escola, tive que fazer a merenda, atender no guichê da secretaria, limpar as salas da administração, passar café... Ué, mas na escola de roça do Rio Abaixo, também não era assim? Quem que fazia a merenda, limpava o banheiro? Só que eu pensava que nas escolas maiores as funções estariam melhor distribuídas. E estavam, mas, no dia a dia, pessoas faltavam, tiravam licença, afastavam-se – e alguém tinha que cobrir. Esta prontidão para fazer de tudo, na medida em que fosse necessário, comecei a adquirir em Santa Branca.
Foram dias maravilhosos, produtivos. A relação com os professores ficou ótima, viramos amigos carinhosos até, sem perder de vista o objetivo de minha função de Coordenador: instrumentar os professores para uma relação produtiva com os alunos. Isto fizemos, de fato. O Jornal de Matemática do Leopoldo, devidamente endeusado por mim, gerou outros jornais murais, sobre outras matérias, sob a direção de outros professores ou grupos de alunos. Uma vitória particular foi a abertura da biblioteca. Cheinha de livros interessantíssimos, coleções infantis e juvenis, livros para cultura pedagógica, livros de psicologia... Centenas de volumes, impecáveis em suas capas de papelão azul, ficavam retinhos nas estantes, todos perfeitamente alinhados.
Mas ninguém lia. O livro de registro de empréstimo marcava exatamente sete retiradas desde o começo do ano, e estávamos em julho. A diretora, Professora Julieta, uma das pessoas mais ponderadas e calmas que conheci, ensinou-me bastante sobre organização de secretaria, controle de fichas de alunos, controle da vida funcional dos professores e funcionários (tudo que ela aprendeu com o Prof. José Thomé Júnior, o mesmo Seu Thomé da minha infância em Coruputuba - Ora, o Vale é tão pequeno!). Com relação à biblioteca, explicou-me que ficava fechada porque não tinha quem tomasse conta. Percebi que imperava na escola uma grande preocupação com a conservação dos livros, eles constavam dos inventários, não se podia correr o risco de danos, desaparecimento etc. Os livros deviam ser conservados como tinham sido recebidos, sem nada amassado, sem páginas rabiscadas, coisas assim. Parecia que de repente ia surgir uma visita de inspeção querendo conferir os livros volume por volume! Por isto, quando alguém queria ler um livro, precisava que um funcionário pegasse a chave e fosse lá buscá-lo. Concluí: é por isto que até julho foram registradas somente sete retiradas.
Propus à Dona Julieta: Fica sendo meu lugar de trabalho a biblioteca. Tem uma mesa lá, tem o mimeógrafo, arranja uma máquina de escrever, arranja essas coisas que eu fico na biblioteca com a porta aberta, vamos ver o que acontece.
Havia na Biblioteca uma samambaia num xaxim, mirrada, pálida... Num sábado fui trabalhar de manhã e, pela primeira vez, o sol penetrou na Biblioteca, iluminando os livros, as crianças das aulas de reforço e suas professoras que, também pela primeira vez, estavam vendo a biblioteca aberta.
Assim, aquele “vamos ver o que acontece” resultou nisto: a biblioteca virou ponto de encontro do coordenador com professores, que vinham trocar ideias. Dali a pouco, virou uma salinha para alunos também virem conversar comigo, além de retirar livros. Estava sendo reeditado o meu gabinete de orientação educacional, incluindo o meu cavalete de pintura, as telas, os pincéis, o cheiro de terebentina...
Só que a lembrança da ETEP me trouxe a vontade de reviver o clima de plena autonomia dos alunos. Dividi com alguns professores o sonho de uma escola onde permanecessem na sala de aula somente os alunos que estivessem mesmo querendo assistir a aula, sendo que os demais poderiam sair da sala, mas seriam, em vez de repreendidos, acolhidos amigavelmente pelos educadores disponíveis no momento.

 Educador disponível no momento – Definição 1 - Aquele que não está enfiado na diretoria debaixo de uma pilha de diário oficial, ou tentando alterar o horário das aulas porque uma professora desistiu e a que pegou as aulas não pode dar aula na quarta e nem na sexta, ou está fechando o balancete da APM, mas não vai dar tempo porque já foi convocada nova reunião na delegacia de ensino e o supervisor já avisou que vem à escola para assinar os certificados de conclusão, que ainda não estão prontos etc.
Educador disponível no momento – Definição 2 – O Paulo, que acabou de chegar e já está propondo essas coisas de liberdade e autonomia.

Bom, o Educador Disponível realmente estava ansioso para colocar os alunos do noturno em conflito: permanecer na sala de aula participando da aula de História, Geografia etc. ou ir para o galpão onde o Educador Disponível está tocando violão ou falando sobre poesia na Biblioteca? Ou ainda, ficar na classe fazendo os problemas de Física ou ir estudar Física na prática, jogando pingue-pongue no pátio, na mesa que o Educador Disponível desenterrou de não sei onde, limpou e montou?
Nas conversas informais, fui percebendo que havia professores que se encantavam com a ideia (a ideia, de verdade, nem era minha, era de Alexander S. Neil) e havia outros que declaravam que não dava certo em Santa Branca. Havia uns terceiros que julgavam que a ideia tinha que ser bem discutida. Discutindo a ideia com a direção, vi que o caminho não estava fechado não, estava aberto e passava pela discussão no Conselho de Escola. Apresentei ao Conselho, por escrito, uma tese propondo que se mantivessem os portões fechados, os professores se mantivessem normalmente em sala de aula, fizessem a chamada com o rigor costumeiro, só registrando presença para quem estivesse realmente presente. Aluno que quisesse ficar no galpão, na biblioteca, na quadra, poderia fazer como entendesse, sabendo que estava sendo registrada sua falta. O objetivo era permitir que o aluno tomasse suas próprias decisões, ganhasse autonomia, pudesse dispensar que outras pessoas decidissem tudo em seu lugar – pudesse escolher seus caminhos, responsabilizando-se pelas consequências de seus atos. Finalmente, o Conselho se reuniu.
Foi a primeira vez que vi um Conselho de Escola debater assunto sério mesmo. O mais que eu tinha presenciado até ali, em outras escolas, era sobre punição de alunos ou prioridades para aplicação de verbas. Agora, ia-se discutir, de modo maduro e profissional, o que a escola poderia fazer em benefício do crescimento da autonomia dos alunos. Não há assunto mais sério em Educação. A tese foi aprovada, após muito debate. Houve votos contrários, foram dos alunos representantes no Conselho, que se mostraram mais conservadores do que os professores e os pais.
E, na noite seguinte, começou a primavera em Santa Branca. Parecia uma escola de nível superior, parecia uma escola de artes. Muitos alunos ficaram nas salas de aula, tendo aulas normais. Mas um bom número veio para a biblioteca, para o pingue-pongue, para o violão no galpão, para a quadra. Com o passar das semanas, milagre: alunos estudando no galpão, em grupo. Fomos percebendo que os alunos do noturno não tinham tempo para estudar e agora estavam aproveitando a liberdade conquistada para, durante a segunda aula, ficar estudando para a prova que ia acontecer nas duas últimas. Com a liberdade de ir e vir dentro da escola, a biblioteca virou sucesso de público. Em dezembro, o livro de registro já apontava mais de quatrocentos empréstimos. Talvez um ou outro volume tenha sido danificado, talvez. Mas a biblioteca, por fim, estava cumprindo sua missão. Os soldadinhos encapados de azul tinha sido convocados! A escola ficou barulhenta, movimentada. Alunos se deslocando pelo pátio, conversando, rindo, cantando – tudo isto incomoda muito a nós educadores, que gostamos de falar em construtivismo, escola ativa, aulas mais práticas – desde que não nos atormentem! Há exceções, mas o que de fato até hoje deixa um diretor nervoso é aluno zanzando. Diretor gosta mesmo é de alunos quietos em suas classes, professor dando aula na lousa. Por isto é que tinha sido importante envolver todo o pessoal da escola na discussão das novas medidas.
O ano de 1978 estava terminando. Fui aprovado na segunda fase do concurso, ia ser diretor, ia deixar Santa Branca. Veio a formatura, com muitas despedidas comoventes, laços tinham se formado com aqueles alunos e professores, a gente provavelmente não ia mais se ver. Veio o Natal, vieram as férias de janeiro, fiquei ajudando a montar as classes para o ano que começava elaborando os planos. Nos intervalos, perambulava pela escola deserta, como um pardal cheio de saudades, examinando as salas, os corredores...
Em fevereiro, véspera do primeiro dia de aula, fui embora. Ia dirigir a Escola de Igaratá. E a Escola Francisca Rosa Gomes, lá no alto do morro, bem perto da ponte do Paraíba, ia ficar para sempre na minha lembrança como o lugar onde fizemos brotar uma espécie de primavera, superando o medo que todos nós tínhamos – e ainda temos – da liberdade.
Alguns meses depois, fiquei sabendo que tudo tinha voltado ao normal na Francisca Rosa. Pessoas se aposentaram, Dona Julieta também saiu, foi ser diretora efetiva em São José dos Campos, os que ficaram sentiram-se intimidados em continuar mantendo as medidas implantadas por quem tinha já ido embora.
Então, realmente, foi só mesmo uma primavera.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
ISBN 978-85-913453-4

quarta-feira, 27 de março de 2019

O que rolou de ontem para hoje



“Fazei-me instrumento de Vossa paz!”
Oração de São Francisco de Assis

Para o Professor é mais um dia de aula, um dia como outro qualquer, será uma aula como qualquer outra. Tantos anos, tanto giz, tantos diários de classe... Não há mais diferença, podemos engatar o piloto automático que a aula sairá como sempre, com começo, meio e fim. O olhar flutuando rapidamente sobre as cabeças dos jovens, a chamada, a lousa, os trabalhos, o livro, a tentativa de controlar a atenção rebelde, a tarefa para casa, o sinal... Sim, vai ser mais um dia. Será mais um dia de aula, como qualquer outro.
Está bem, Professor. Mas agora pare. Pare aí mesmo, na porta da sala de aula. Quer dizer, pare só um pouquinho, também não precisa chamar a atenção dos alunos, não precisa que eles estranhem essa paradinha. Então não pare nada, entre direto. Só que hoje, antes de iniciar suas atividades rotineiras, dedique dois segundos para este pensamento, para esta constatação: Como assim um dia como outro qualquer? Você não sabe uma coisa, falta-lhe uma informação, uma preciosíssima informação. Sem ela você é fraco, ineficiente, ineficaz.
Mas não tem jeito de obter a informação – e você não poderá ser um fracasso hoje. Então assuma estas verdades: Primeira: Você não sabe o que rolou de ontem para hoje na vida de cada um de seus alunos. Segunda: Não tem jeito de saber. Terceira: Sem saber o que rolou você não poderá dar a aula mais adequada para a situação.
Nada de desespero, meu amigo Professor. Falta ainda a quarta verdade: O fato de não saber o que rolou, somado à constatação de que dar aula sem saber isto é tempo desperdiçado, ainda somado ao fato de que é impossível descobrir o que rolou, tudo isto junto lhe fornece a quarta verdade.
Que é a humildade. A humildade do cego que não sabe o caminho, sabe que nunca verá o caminho, mas apalpa e vai em frente.
Ah, meu amigo Professor! Você não sabe como as suas palavras serão recebidas por seus alunos. Então vá como o cego vai, com um respeito digamos assim: religioso, respeitando profundamente cada aluno como o cego respeita o caminho por onde precisa passar. Pesando a palavra, pesando o olhar, pesando o silêncio.
Olhe para a sua classe. Um desses alunos está em carne viva.
Rolou uma coisa na vida dele, de ontem para hoje. E você não sabe qual desses alunos. Um deles perdeu uma coisa que nunca tinha pensado possível perder. Um deles conquistou uma coisa que julgava inconquistável. Um descobriu que o globo terrestre continua a girar apesar do que rolou.
Um deles descobriu o veneno da traição. Um sentiu pela primeira vez medo de viver. O remorso brotou em alguém, a preocupação alugou uma cabeça, parece que para sempre. Outro mandou tudo às favas e está prestes a incluir você na lista.
Então não leve a sério toda palavra inábil. Preste a atenção a cada sorriso, porque é uma flor brotando onde isto pareceria impossível se você tivesse todas as informações.
Nestes anos todos de magistério já aconteceu de eu ter sido completamente desajeitado... diante de uma criança, diante de um adolescente, diante de um adulto – diante de um aluno que, naquele dia, naquela aula, precisava tanto de uma atenção, pequena que fosse... E eu passei reto, ocupado com a matéria...
Por não saber o que tinha rolado. Por não perceber que não sabia. Por não compreender que jamais saberia e, por isto mesmo, deveria ter sido o melhor que eu poderia ser, o mais delicado possível, o mais acolhedor, o mais solícito. Cuidadoso, como um cego numa estrada que ele não conhece.
Mas tudo bem, Professor. Agora, agora você já pode fazer a chamada.
Boa aula, Professor.

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Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, no livro “Aconteceu na Escola”

sábado, 22 de dezembro de 2018

Rezar o Terço em Família



Depois da janta, todos se reuniam na sala para rezar o terço. A primeira parte era ajoelhados, na parte do meio a gente se sentava e, no encerramento, ajoelhados de novo. Ajoelhar era dificultoso, os tijolos estavam gastos, mas a junção entre eles era de cimento e não se gastava. Machucava um pouco. O joelho da gente ficava procurando o afundadinho redondo do tijolo.
O pai, a mãe, a avó e as crianças, quando se ajoelhavam, usavam o encosto das cadeiras ou então a mesa, para apoiar os cotovelos. Com os olhos no altarzinho que o pai fez de caixote e pregou no canto da sala, com o crucifixo e a imagem de Nossa Senhora de Fátima.
A vela acesa. A chama ficava se modificando de cor e de formato. A cera escorria em fios hesitantes, a fumacinha subia fininha, retinha. No altarzinho, a pequena chama da marquinha, flutuando no azeite. Entrava às vezes um arzinho frio pelas janelas, mas ainda era verão. A gatinha Mimosa, vindo da cozinha, passava devagar entre nós, sentava-se debaixo da mesa.
Na lâmpada da sala, entusiasmado com as procissões noturnas da Santa Missão, eu tinha instalado um abajur de papel impermeável, azul claro, a nossa reza acontecia num ambiente onírico. 
 Uma vez por mês, a reza tinha uma visita importante: a imagem de Nossa Senhora das Graças, que circulava pela vizinhança, um pernoite em cada família. Aí era interessante, porque a imagem era sempre levada de uma casa para outra com uma pequena procissão. E a chegada era recebida pelos pobres anfitriões com chá de erva-cidreira e biscoito duro. Assim, a gente ia conhecendo as outras vilas.
Para introduzir cada um dos mistérios do terço, rezava-se alguma jaculatória, louvando algum santo: “São José, rogai por nós!”,  Santa Rita, rogai por nós!” Então, o Pedro soltou: “São Beda! Alguns responderam de imediato: “Rogai por nós!
Mas estranhamos, demos um pouco de risada. E ele explicou: “Tem sim, tem São Beda, sim!” É que ele tinha pesquisado, no verso da folhinha do Sagrado Coração, a lista dos santos de cada dia do ano. Eu pensei: “Ah, assim não vale...” Mas, daí em diante, comecei a pesquisar também, para surpreender a família com santos novos.
Isto foi quando já estávamos adolescendo. Anos antes, a nossa participação na reza era bem inocentinha. Pedro nos contava que, toda noite, secretamente, ele pedia a Nosso Senhor que não deixasse no dia seguinte o rodeiro passar por cima da bosta de galinha, para não sujar a mão.
O que não variava era a série de procedimentos. Começava com “Creio em Deus Pai, todo poderoso...” Em seguida, o oferecimento: “Divino Jesus, nós vos oferecemos esse terço que vamos rezar...” Seguiam-se as contemplações dos mistérios, gozosos, dolorosos e gloriosos, conforme o dia da semana: “No primeiro mistério glorioso contemplamos...” Terminado tudo isto, vinha o agradecimento a Nossa Senhora: “Infinitas graças vos damos, Soberana Senhora, pelos benefícios que todo dia recebemos de vossas mãos liberais...” E esse agradecimento terminava com uma espécie de respeitosa intimação à Virgem: “... e para mais vos obrigar, vos saudamos com uma Salve Rainha. E, afinal, a Salve Rainha: “Salve Rainha, mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve...
E aí estávamos todos liberados para nos levantar, limpar os joelhos, ir conversar na cozinha, o Carlinhos ligava o rádio na Mayrink Veiga... até que, um por um, a gente ia pedir a bênção para os mais velhos, estava na hora de deitar, no outro dia havia escola para uns, trabalho para os outros...
No quarto da frente dormiam os cinco irmãos homens. Depois de tudo silenciado, até que o sono viesse, conversávamos baixinho, ouvindo os cães muito distantes, talvez lá na Vila Jacarandá, ou no fim na Alberto Simi, seria na Vila Esperança? Vila Maria... E a gente dormia...
Até que tocava o apito da fábrica : cinco horas!
***
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Carta de Manuel Bandeira a Guimarães Rosa


Carlos Drummond, Guimarães Rosa e Manuel Bandeira 


AMIGO. MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!

Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo.

Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso.
Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.

Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?

Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação linguística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré. Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! Nunca que maldei nada.

Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?

O sertão é uma espera enorme.
E o silêncio?

O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.
Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa’uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades.

Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:
O diabo não há! Existe é o homem humano.

Soscrevo.
13/3/1957
___
Fonte: BANDEIRA, Manuel. “Grande sertão: veredas”. in: Poesia completa e prosa. 2ª ed., Rio de Janeiro: Aguilar, 1967. p.590-92.
https://www.revistaprosaversoearte.com/

domingo, 9 de dezembro de 2018

Dos terraços do Museu



Se fosse apenas para guardar coleções preciosas, não seria um Museu. Seria um cofre de colecionador, para deleitar uns poucos escolhidos.

Mas um Museu deve deleitar a muitos. Deve encantar todos os seus visitantes. Cada pessoa que percorrer suas salas, observar suas exposições, conversar com seus monitores – cada visitante, tocado pelo que viu e ouviu, ao terminar uma visita, deve sair diferente da pessoa que era ao entrar. Deve ter se tornado uma pessoa melhor. Se a visita foi bem realizada, sairá imbuída de um sentimento de sacralidade em relação ao passado.
A visita ao Museu deve ser epifânica.
Para os visitantes do Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina, de Pindamonhangaba, a missão é facilitada – justo por estar o Museu instalado num prédio mágico: o Palacete Visconde da Palmeira.
O acervo é maravilhoso e raro. E o prédio, em si mesmo, é a mais importante peça do acervo. Mas, independentemente da contemplação e do estudo das exposições, a magia pode ser alcançada simplesmente olhando-se pelas janelas. Olhando com atenção e ternura através das janelas do Palacete, para contemplar um cenário que começou a ser montado há milhões de anos.
Quando, na década de 1860, o construtor Chiquinho do Gregório, sob encomenda do então Capitão Antonio Salgado Silva (depois Barão e Visconde da Palmeira), começou a erigir o magnífico prédio hoje intitulado Palacete Visconde da Palmeira, almejava um prédio aberto à luz solar e com ampla visão das serras que adornam a região.
Isto, quem nos conta são as próprias linhas arquitetônicas do solar, sua posição na topografia da cidade, seu elevado número de janelas e, em especial, seus dois terraços voltados para o norte.
Dispondo de consideráveis recursos financeiros, o proprietário poderia, para tal edificação, ter adquirido terrenos onde bem lhe aprouvesse. Porém, escolheu um lote no topo da ladeira, próximo à Matriz, com frente para o movimento da urbe que prosperava – porém, com os fundos voltados para a tranquilidade verde da paisagem do Vale.
Essa visão é um bem público de valor inestimável. De modo especial, o que nos encanta todos os dias, despertando nos visitantes do Museu momentos de contemplação silenciosa, é a deslumbrante vista que se tem da Serra da Mantiqueira, a partir dos terraços e das janelas do andar superior. Complementa tal visão, como moldura natural, a exuberante vegetação do Bosque da Princesa, o rebrilhante leito do Rio Paraíba do Sul, as várzeas cujo colorido vai cambiando durante o ano em função do ciclo vegetativo do arroz, e as árvores plantadas nas ruas e jardins da cidade, em direção ao Crispim ou à Boa Vista.
Do terraço superior do Palacete, em dias limpos, avistam-se quase 220 quilômetros de Serra da Mantiqueira, desde o Maciço de Itatiaia, a leste, até o sopé da Pedra do Cume, a oeste. Sendo que, do Palacete, o Maciço de Itatiaia dista 130 km e a Pedra do Cume 90 km. De leste para oeste, avistamos alguns dos pontos mais elevados da região:
O Maciço de Itatiaia, com seus picos altíssimos, entre os quais o de Agulhas Negras (2.787m), a Pedra do Sino (2.670m), a Pedra do Altar (2.665m) e o Morro do Massena (2.609m);
O Pico dos Três Estados (2.665m);                                                          
A Pedra da Mina (2.798 m), ponto culminante da Serra da Mantiqueira e do Estado de São Paulo, entre Passa Quatro (MG) e Queluz (SP);
O Pico dos Marins (2.420m), em Piquete (SP);
Acima do Bosque da Princesa, o Pico do Itapeva (1.950).
O Pico do Diamante (que, como o anterior, está dentro do município de Pindamonhangaba).;
No trecho da Mantiqueira em Pindamonhangaba, o Morro do Trabiju, a Usina Isabel, o caminho para o Sul de Minas, com seu túnel iluminado;
Mais à esquerda, o Pico Agudo (1.634m), em Santo Antônio do Pinhal; e,
No extremo oeste, as montanhas em torno da Pedra do Cume (1.600m), na divisa dos municípios de Joanópolis (SP) e Extrema (MG).
Não são apenas as grandes altitudes, no entanto, que estão providas de interesse. São visíveis também as passagens de transposição de Mantiqueira, desde séculos utilizadas – e até hoje – para se acessar as terras de Minas Gerais: a passagem do Embaú e a Garganta do Piracuama. Estas passagens estão para sempre ligadas à nossa História. Pela passagem do Embaú subiu o Padre Faria para ir descobrir ouro e fundar Vila Rica. Pela Garganta do Piracuama subiu Emílio Ribas levando os trilhos a Campos do Jordão, abrindo um caminho em busca da saúde.
Rolando suas águas no rumo leste, buscando lentamente o mar, o Rio Paraíba do Sul tem trechos visíveis a partir do terraço. Caminho dos bandeirantes e definidor da fertilidade da várzea, mercê de suas cheias ritmadas há milênios, seu curso interessa a estudiosos de várias áreas do conhecimento.
Ao contemplar o Paraíba correndo de Oeste para Leste junto ao Bosque, num dos poucos meandros deixados pela retificação do curso nos anos de 1960, o espectador se lembrará de que, às suas costas, o mesmo rio está correndo de Leste para Oeste, lá no meio da Serra do Mar. Só nas proximidades de Guararema é que o rio começa a fazer a curva para a direita, completando essa curva em Jacareí e, a partir daí, vem descendo direto em direção ao Estado do Rio de Janeiro.
Já a Serra da Quebra-Cangalha, apesar de ocupar a região sul do município de Pindamonhangaba, tem um bom trecho visível do terraço do Palacete, principalmente em direção leste. Os morros mais visíveis, localizados em Roseira e Aparecida, despidos da vegetação nativa, contam-nos a história da ocupação agrícola da região, marcando a passagem do café e, mais recentemente, das pastagens para o gado leiteiro e de corte.
Um professor, falando a seus alunos sobre vales e montanhas, rios e várzeas, entradas e bandeiras, cidades paulistas e cidades mineiras, ocupação humana e equilíbrio ecológico – se estiver falando a partir do que se vê das janelas e terraços do Palacete Visconde da Palmeira, estará transmitindo informações e valores de um modo significativo, diferente das aulas dadas apenas com a lousa e o giz.
Claro que todo Museu deve dirigir seus visitantes ao estudo do acervo. Mas talvez seja uma boa ideia simplesmente convidar os visitantes a contemplar a paisagem que se vê dos terraços e das janelas.
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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

domingo, 14 de outubro de 2018

O meu pé de manga-espada



Meu primeiro contato mais emocionante com a mangueira foi a minha primeira e única lição de paraquedismo. Com o guarda-chuva do meu pai. Sozinho, calculei que dava. Do último galho, pulei, aberto o guarda-chuva, que virou do avesso. Mas caí sem dor. Chato foi devolver o paraquedas para o meu pai. Surpreendente foi ele não achar ruim, deu risada. Talvez tenha se lembrado de alguma aventura da infância dele, na fazenda Itapecirica, em Taubaté...
Mas, nas brincadeiras de esconde-esconde, o piques não era a mangueira, era o abacateiro. Você vai brincar com os irmãos e os vizinhos que pularam a cerca, ou passaram por baixo. Vai contar e tapar a cara no pé de abacate. Então vai gritar: Quem não escondeu não esconde mais!
E vai sair procurando: atrás das bananeiras, dentro do chiqueiro, atrás do galinheiro... E vê, junto à mangueira, um par de chinelos velhíssimos. Ah! Danado de alguém! Subiu na mangueira, bobo deixou os chinelos embaixo, denunciadores. Agora você tem que chutar um nome, não pode errar, os chinelos podem estar trocados. Vai de um lado para outro, olhando a copa da mangueira (cabe alguém ali, dentro da folhagem?).
De repente, num vento gargalhante, passa alguém correndo por trás de você e vai ao piques e bate: Um dois três! Um dois três!
Os chinelinhos engaram você. Tinha ninguém lá em cima não.
Mas isto tinha sido havia muito tempo, meu pai ainda era vivo, eu ainda não tinha nove anos. Depois fomos crescendo, e o quintal continuou sendo nosso espaço de magia.
O quintal não era muito largo, mas era bem longo... Começando na varandinha do tanque e terminando no muro da Fábrica. Na primeira metade  dele ficavam a horta com suas leiras verdes, o viveiro dos passarinhos, o galinheiro, a casa das cabras, as coelheiras, os caixotes para ninho dos pombos. Tudo isto no meio das ameixeiras, os pés de laranja-natal, o pé de uva japonesa, a parreira, o pé de conde. Então, uma cerca de taquaras, com o portão.
Ali começava a parte mais selvagem. Pés de lima com espinhos ameaçadores. Bananeiras em duas filas, acompanhando as cercas laterais. O meio, limpo, desimpedido, varrido. Era o campinho de futebol. Improvável, mas sim. Com duas caixas de abelhas num dos lados e o chiqueiro no outro. Nesse trecho os esquemas futebolísticos se comprimiam, num afunilamento.
Abelha não ataca quem joga bola, suando muito. Mas é erro pisar descalço numa abelha. Dói muito, e o jogo não para.
A mangueira velha no centro do campo, detendo os chutes de qualquer dos times. Se a bola ficasse presa nos galhos considerava-se bola fora, lateral.  Bola que resvalasse no velho tronco e entrasse no gol, era o quê? Era gooooool...
Triste era se a bola, ultrapassando o gol, fosse se espetar nos espinhos do pé de lima, vazando num assobio desalentador...
A touceira de espada-de-são-jorge, numa lateral, foi destruída aos poucos. A bola caía lá dentro e ninguém concordava em bola fora. Vinha todo mundo chutando, despedaçando as espadas, arrancando os caules subterrâneos. Até que um dia não existia mais a touceira.
E, meio que de repente, não existia mais a infância encantada, que ia dando espaço para a adolescência curiosa e mais encantada ainda. E o entorno da mangueira era uma espécie de templo de meditação solitária, ou de convívio com os irmãos, agora um bandinho de adolescentes.
A mangueira velha também era o meu posto de observação. Assim: Olhe bem a mangueira, buscando as frutas mais coloridas. Nada de cutucá-las com bambu, isto seria para iniciantes. Você não. Você suba, ágil como um macaco. É fácil. A casca é grossa, áspera, com cicatrizes salientes. Mãos e pés acham apoio fácil, não escorregam. Vá para os galhos mais altos. Alcance a manga madura. Sente-se, montado. Agora, aproveite para ver a paisagem.
Aqui por perto, os quintais. O do Seu Luiz Crepaldi, com o galo vermelho, as galinhas carijó, os pés de cana, as enormes goiabeiras. Adiante, o quintal dos Duran, o terreiro varridinho, o galinheiro e a coelheira, os marrecos. Do outro lado, o quintal dos Amarante, do Jurandir, do Seu João da Ponta, dos Machado, do Seu França. Vire mais a cabeça: o quintal do Seu Eurico, o que foi do seu Dionísio e agora é do Seu Nikita. O do Seu Fusco não dá para ver, muita folhagem tapando seus olhos.
Então, mais distante, a torre do sino e os coqueiros da igreja. Ainda mais longe, as últimas casas da Alberto Simi e, além, a Vila Jacarandá... Fechando de azul o panorama, a Serra da Quebra Cangalha.
Opa. Pronto, agora, a manga. Aperte-a de leve contra o tronco da mangueira. Gire-a, aperte de novo, até que sinta que se criou um meio líquido envolvendo todo o caroço, que ficou solto no meio desse mel. Com cuidado, morda e arrance o biquinho da casca. Eis uma perfeita mamadeira, cheinha de suco dourado, doce. Aproveite, sugue tudo, tudo. Depois, só resta arrancar a casca, lambê-la, rapar com os dentes as fibras amarelas, açucaradas. Por fim, aproveitar do caroço tudo o que sobrou de chupável e mordível. E olha a pontaria: o caroço voa e vai parar dentro da touceira de banana-prata.
Já pode descer. Vai lavar essa cara feliz lá na torneira do tanque.  
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

domingo, 26 de agosto de 2018

Terminando o primário



Estava terminando o ano de 1958 e estavam terminando os dias do quarto ano do grupo. Estava terminando o curso primário! Dali para frente, só uns poucos continuariam a estudar. Só quem passasse no temível peneiramento do “exame de admissão ao ginásio”.

Era um tempo em que primário e ginásio pertenciam a mundos diferentes. Professores diferentes, matérias diferentes, salários diferentes para professores, diretores, funcionários.  Formação diferente: um professor de primário tinha estudos de nível colegial: a Escola Normal. Um professor de ginásio tinha que ter curso superior. E as escolas eram separadas. Onde funcionava o primário, era só primário, com vasinhos de flores nas janelas. Onde funcionava ginásio, era só ginásio e colegial, nenhum vaso de flor.
Mas aproximava-se o final do quarto ano e eu ia deixar de ser aluno do Grupo Escolar Rural. Ia começar a viajar todo dia para a cidade, ia encontrar professores desconhecidos, colegas desconhecidos, gente da cidade, tudo novo. E ia voltar para casa quando já estivesse escurecendo. No ginásio não ia ter horta, nem mina d’água, nem canjica... Nem ia poder usar calças curtas. E, antes do ginásio, ainda tinha que passar pelo curso preparatório e pelo exame de admissão.
Nos últimos quinze dias letivos não houve aula de verdade, era todo o tempo dedicado a trabalhos manuais para a Exposição. Hoje eu diria: artesanato. Puxa vida, pensava, por que só no final do ano? Devia ter mais disto. Os alunos fazendo bolsas e cintos de barbante, trabalhos com madeira decorativos, ou utilitários, como porta-toalhas, cabides, tudo lixado, pintado, envernizado com goma arábica. As meninas bordavam panos de prato, panos para cobrir o fogão, costuravam, faziam bainhas, tricotavam. Nada mais de aulas de Linguagem, nem de Aritmética, tudo era alegria e criatividade.
A escola toda estava meio febril, excitada com duas coisas: a Exposição e a Formatura.
No último dia fomos à tarde para a escola, era o ensaio da cerimônia de formatura.  Depois, todos os colegas se foram, saindo em grupinhos, conversando, rindo e, aos poucos, se espalhando pelas ruas do bairro. Mas eu não estava com vontade de ir embora, não queria dar risada, nem conversar.  Fiquei para trás, na escola deserta, ampla, quieta. O sol da tarde fazia brilhar as árvores do pátio. A horta, lá embaixo, perto do ranchinho das ferramentas, estava invadida de capim, fazia tempo que ninguém cuidava, nas últimas semanas de aula ninguém se lembrava mais da horta, tudo tinha sido colhido.
Eu me sentei num dos bancos do galpão, olhando as andorinhas que voavam no meio das vigas do telhado. Depois deu uma tristeza, fui embora, pelo meio dos eucaliptos do campo de futebol.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
ISBN 978-85-913453-4

terça-feira, 17 de julho de 2018

A flauta do Seu Bartolo




No terceiro ano estudei no período da manhã com o Professor José Murillo Françoso, jovem recém-chegado de Piracicaba. Na verdade, eram quatro professores que chegaram a Coruputuba nos anos cinquenta: Frederico Perencin Filho, Antonio Calixto Rodrigues, José Thomé Junior e o Prof. Murillo. A Companhia cedeu para residência temporária deles a linda Casa Verde na beira do lago, a casa coberta de heras, que bem mais tarde abrigou a assistência social.  O Professor Frederico veio para ser diretor da escola. Os outros, para dar aula.
O Professor Murillo era engraçado. Muito magro, de óculos, sempre de terno escuro, às vezes vinha de bicicleta para a escola. Certa manhã, todos os alunos já estavam em fila no galpão, preparando-se para a sineta, e o Prof. Murillo ainda não tinha chegado. De repente, chegou, de bicicleta, a toda. Tentou fazer a curva para entrar pelo portão dos alunos, mas derrapou, caiu e foi com bicicleta e tudo nas ripas da cerca. Naquele tempo os alunos não davam risada dos professores. Pelo menos abertamente não. Imagino o que aconteceria hoje, num caso desses. Mas o Professor Murillo nem se abalou com a queda, limpou o pó, desentortou o guidão e entrou empurrando a coitada da bicicleta, guardou e veio fiscalizar a nossa fila de entrada.
Os alunos ficavam perfilados, no galpão, antes de entrar. Cada dia era uma classe que cantava. Músicas patrióticas, ou folclóricas, tinha de tudo. Eu gostava do Hino da Escola Rural. Muito, mas muito mais tarde, fui descobrir que o hino tinha letra de Gustavo Kukinann e música de João Gomes Junior – este, um famoso compositor pindamonhangabense, filho do maestro João Gomes de Araújo.  No tempo da ditadura militar, a música recebeu uma versão meio plagiada, assinada por famosos cantores sertanejos, incentivados pelos generais de plantão. Mas a letra verdadeira é esta:
Nesta escola modesta da roça / Rodeada de pés de café / O Brasil se levanta e remoça / Numa nova alvorada de fé! / Batida de sol ardente / És do saber o fanal / Que nos guia para frente / Bendita Escola Rural! / Através da lavoura florida / Que a riqueza da Pátria produz / Nossos pais vão lutar pela vida / E nós vimos em busca de luz!
Batida de sol etc..
O Prof. Murillo era um humorista. Ensinou para a gente uma canção que nunca mais acabava, um moto-perpétuo:
Bartolo tinha uma flauta / A flauta do Seu Bartolo / Sua mãe sempre dizia / Toca flauta seu Bartolo / Tinha uma flauta / A flauta do Seu Bartolo / Sua mãe sempre dizia / Toca flauta seu Bartolo / Tinha uma flauta... (e assim a gente iria ad infinitum, ninguém queria parar, precisava o Seu Frederico mandar a classe entrar – e a classe entrava cantando...)
No entanto, o bom humor do professor não o deixava imune aos costumes disciplinadores então vigentes. Era a época dos castigos humilhantes. Certo dia, eu, que estudava de manhã, fui condenado a permanecer na sala de aula uma hora a mais que os colegas. Quer dizer, todos foram embora e fiquei em pé no fundo da sala. Então entrou a classe do período intermediário – e era uma classe feminina. As alunas, ao entrar, foram dando de cara com aquele menino parado feito uma estátua envergonhada. A professora, já a par do assunto, explicou-lhes que eu estava de castigo porque não tinha estudado. De fato, na chamada oral de ciências o professor tinha me perguntado sobre a digestão e confundi quimo com quilo, coisa imperdoável para um aluno de nove anos...
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
ISBN 978-85-913453-4

sábado, 24 de março de 2018

A tempestade mais feia



18 de dezembro de 1952. Uma quinta-feira de muito calor, mas de céu azul, muito limpo. Sem nenhum vento, a tarde abafada. Passaram duas senhoras, conhecidas de minha mãe, pararam para reclamar que estavam lenhando e surgiu o guarda, a cavalo, pôs as duas para correr, não podia catar lenha mais grossa que uma garrafa. E foram embora, para a Vila Campineira, falando, comentando...
A gente morava na Avenida Doutor Cícero Prado, a rua de entrada do bairro. Casas só de um lado. Do outro lado, um bosque de velhos e poderosos eucaliptos. Bem na frente da nossa casa, um deles se destacava dos outros, inclinado para a rua, arcado bem na nossa direção. Quem estivesse na linha do trem olhava e via aquela coisa, aquela árvore muito grossa, ameaçando cair para longe das companheiras.
Eu tinha cinco anos só. Mas já tinha percebido o medo da minha mãe. Qualquer começo de ventania, ela perguntava ao meu pai: “Quito, pra que lado que tá o vento?” E ele abria a janelinha da janela da varanda, olhava um pouco e sempre respondia assim: “Tá pro lado de lá, Nega”.
De tardinha, o sol se escondendo – e escondia logo, porque tudo em volta eram eucaliptos muito altos e encorpados –, mas o ar ainda muito abafado, mamãe foi molhar a roseira de Santa Terezinha, que tinha esse nome porque foi plantada num dia primeiro de outubro. Aos poucos, escureceu, sem vento, calorão.
Vovó acabou de preparar a janta, arroz com linguiça e chuchu, todo mundo jantou e fomos para a sala rezar o terço da noite. Depois, papai ligou o rádio, testando a antena de arame que ele tinha esticado de cima da casa até o pé de abacate. Nós ficamos conversando sobre o Natal que vinha vindo. Vinha vindo, a gente brincava que ontem ele estava perto do Portão, hoje já devia estar chegando na linha, amanhã vai estar perto da casa do Seu João da Ponta.
Um primeiro trovão comprido e longe, repetido e repetindo de novo, agora mais perto, e o barulho do vento chegou duma vez, sem aviso, aumentando sempre mais, e os trovões rebentando e os relâmpagos alumiando, os raios caindo – e ninguém podia falar essa palavra – e as lâmpadas se apagaram e mamãe começou a rezar alto, tão alto que dava mais medo na gente. Vovó foi depressinha para o fogão catar brasas na tampa da panela para queimar palma benta. Fomos todos para o quarto e trepamos na cama da mãe e do pai. Papai tapou os espelhos e acendeu velas e a terra tremia, e dava estrondo. Um estrondo em cima do outro e as telhas debaixo do castigo da chuva de pedra que vinha meio de lado, fazendo um barulhão nas vidraças. As telhas da cozinha se mexiam quando fui no banheiro, voltei correndo.
Estrela do Céu, Maria Santíssima, que a seus peitos criou ao Senhor e extinguiu a mortal peste que no mundo introduzira o primeiro pai dos humanos. Digne-se agora a mesma estrela reprimir os influxos dos astros que, por suas disposições malignas, ferem o povo com pestiferas epidemias”. Isto era papai e mamãe e vovó rezando alto a oração destinada a abrandar as tempestades. Depois começamos a cantar músicas de igreja: “Ó mãe de ternura, o teu puro amor é nossa ventura, alívio na dor! Matutina estrela, um sorriso teu torna a terra bela e serena o céu”. A gente estava era pedindo misericórdias para Deus.
Eu rezava olhando para o quadro de Nossa Senhora Auxiliadora, que tinha em cima da cama da mãe. Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço e segurando um cetro.
Os estrondos não paravam. Cada estrondo a terra tremia. O Seu Luiz Crepaldi, nosso vizinho, começou a bater na parede e papai chegou perto da janela do quarto, aos gritos, perguntando o que era. O barulho da cachoeira de água, que caía da calha e batia no cimento da área, não deixava escutar. Mas era que o nosso vizinho escutou as nossas orações e músicas e queria saber se tinha acontecido alguma coisa na nossa casa, porque na casa dele as telhas da cozinha tinham voado e chovia tudo dentro.
Dentro do barulho de vento, chuva de pedra, trovões e estrondos, de repente começou a tocar o apito da fábrica. Meu Deus! Parecia um animal grandão berrando, machucado. Pedia socorro. Precisava dos operários para socorrer alguma coisa lá. O apito ficou tocando, um tempão, igual na passagem do ano, mas era triste, dava angústia.
Daí foi parando a chuva, o vento foi parando, parou, a chuva parou. Trovões foram indo embora, para outro lugar longe, ainda dava um estrondão às vezes e a terra dava uma tremida. Depois a trovoada virou só um resmungo distante e acabou. A gente não queria ir dormir, a luz não voltou, vovó fez chá de erva cidreira, demorou para a gente ficar calmo.
De manhã, acordamos com papai chamando: “Nega vem ver!” Ele estava na varanda. Fomos lá e vimos. O bosque não tinha mais. No lugar uma coisa feia, montanha de eucaliptos, monstros, deitados uns por cima dos outros, alguns com o raizame para cima, lá no ar, ainda com pedação de terra agarrado. Por isso, os estrondos que a gente escutava! A terra tremia cada vez que um gigantão daqueles caía, derrubando outros e batendo com tudo no chão, toneladas.
E o céu estava lindo de azul, toda a destruição estava molhada e iluminada pelo sol amarelo, estava até meio friozinho.
Passarinho morto, eu e o Zaga achamos no quintal. Pé de amora tinha meio que deitado no chão, mas não quebrou. Poças enormes, pegavam a horta e perto do galinheiro. Nesse dia e nos dias seguintes as pessoas grandes falavam coisas que outras pessoas tinham falado, e a gente ia escutando assim:
Que foi que nem um redemoinho, os calipero caíram em toda direção, misturados (quem contava isto fazia com a mão o movimento de pião, dramatizando).
Que o pessoal que mora lá na serra diz que olhava aqui para baixo e via era uma fogueira só de raio, em cima só de Coruputuba. Não tinha essa fogueira de raio na Água Preta, por exemplo, nem em Moreira César, só em Coruputuba.
Que foi ruindade dos guardas, que falaram que não podia catar lenha mais grossa que uma garrafa. Pois caiu foi tudo calipero mais grosso que um barril.
E diz que foi castigo de Nossa Senhora, porque o dia oito de dezembro era para a fábrica não trabalhar, que é dia de Nossa Senhora da Conceição, e não fecharam, fizeram todo mundo trabalhar.
Que foi milagre, que Alguém segurou o calipero grosso, que caiu foi para o outro lado, certinho, para dentro do bosque. Se caísse para o lado de cá, para onde vivia arcado, ia derrubar a nossa casa.
Que foi milagre de Santa Terezinha que a roseira não aconteceu nada com ela e até as rosas que estavam abertas nem despetalaram, nada. Ficaram bonitas, inteiras, com gotinhas de chuva brilhando nelas. Enquanto que calipero grosso virou de raiz para cima, cada um deixando um buracão no chão.

Durante acho que um mês inteiro a gente ficava na janela do quarto da frente, ou então na varanda, vendo bois, tratores, correntes, machados, serras, muitos homens o dia inteiro picando e arrastando o que caiu e no fim derrubando o pouco que ainda tinha ficado de pé.
Eucalipto enorme, reto, altíssimo. Um homem subia até bem alto no calipero, levando a corda. Amarrava lá em cima e descia depressa. Começavam a cortar com machado e depois com a serra, um tanto. Paravam e os outros amarravam na corda um baita tronco para contrapeso. E juntavam uns vinte puxando a corda. O tronco de contrapeso subia, absurdo, balançando no ar, enquanto outros homens metiam machado para acabar de cortar. O bicho gemia, se mexia, as folhas se agitavam e o tronco começava a se inclinar. Um gritava e todos saíam correndo. A gente escutava o assobio das folhas cortando o ar, e daí era o baque com estrondo e a terra tremia. Ficava um tempo caindo que nem uma chuvinha de pedaços de folhas e de casca.
Limparam tudo, tiraram os tocos. Os buracos eles foram enchendo de terra, ficou tudo aplainadinho, para plantar um cafezal. Isto na frente da nossa casa, nos fundos da igreja e nos fundos da Alberto Simi. Tudo foi cortado, tiraram os tocos, tiraram toda raiz. Cafezal no lugar, por todo lado.
Vinte e oito de dezembro, todo mundo pensou que vinha outra daquela tempestade feia. O céu ficou roxo, começou a ventar, mas passou, passou, nem choveu, o sol clareou de novo, não aconteceu nada.
Ninguém morreu na tempestade de dezoito de dezembro. Casas foram danificadas, árvores derrubaram postes e cortaram os fios de eletricidade, mas não teve alagamento nenhum, a engenharia do Alberto Simi era muito boa, tinha sempre lugar para a água escoar.
Naquela noite caiu calipero, caiu cedro, caiu árvore de fruta nos quintais. Caiu árvore dentro do tanque do chalé, diz que no fundo ainda tem, que eucalipto não apodrece dentro d’água, não sei.
Coqueiro não caiu nenhum.
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Se eu tinha cinco anos, meus irmãos tinham: Carlinhos 13, Ana Clara 11, Pedro 9, Zaga 7, Bosco 3, Auxiliadora 1.


Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes