O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 21 de junho de 2020

INDEFESOS


De tanto ler e ouvir histórias de ilhas perdidas e recantos secretos na mata, os dois meninos inventaram de fugir de casa de noite e ir morar no bambuzal. Nem tinham ideia da profundidade do bambuzal. Passavam por ali todo dia, para ir buscar leite na fazenda.

Lugar bonito. Uma estrada sobre o aterro que ampara a Lagoa. Do outro lado, um bambuzal que ampara o aterro. Uns dez metros de largura, essa plantação de bambus, segurando o declive. Para os meninos, parecia uma selva.

Oito anos e seis anos. Oito anos era o Zaga. Eu, tinha seis anos e era bem miúdo. Não havia motivo nenhum para fugir de casa. E nunca faríamos isto. Sair na rua à noite! E onde íamos morar? Tudo fantasia, para incrementar as conversas noturnas, como ia ser emocionante.

Começamos, porém, a tomar providências, como se fosse tudo de verdade. Ajuntamos tábuas, umas duas, alguns pregos tortos e enferrujados -- mas nós nem sabíamos manejar um martelo!. Cada um queria fazer mais bonito. Olha, guardei esse pedaço de pão do café de hoje! Ah, e eu apanhei estas ameixas, meio verdes, para a gente levar.

Isso podia prosseguir por meses, até que perdesse a graça e fôssemos inventar outros planos, como construir um avião de tábua, por exemplo. Mas eram oito irmãos. Como controlar esse universo? Alguém brigou com alguém que resolveu contar alguma coisa para a mãe. Em represália, alguém resolveu contar para alguém, que contou para a mãe que dois dos meninos estavam para fugir de casa para ir morar no bambuzal.

A mãe contou para o pai.

Podia tudo acabar em gargalhadas. Podiam os meninos de oito e seis anos serem chamados aos colos adultos, podiam ser alvo de pilhéria (e as onças?), e o assunto acabava.

Mas o pai tinha sido educado em seminários (Provérbios 13,24: “Quem poupa a vara, odeia o seu filho; quem o ama, corrige-o prontamente.”). A mãe foi ao pé de amora, colheu uma linda vara e a foi depenando das folhas, para açoitar o Zaga. O pai achou que era o momento sagrado das cintadas no menino menor, eu. Um fisguelinho de seis anos, que nem bunda tinha. Desce as calças. E na bundinha pelada do molequinho de seis anos começaram a cantar as cintadas, aplicadas com o cinto dobrado.

Mas naquele dia foi diferente. Não sei dizer como foi que resolvi, mas resolvi:  Não vou chorar nem gritar, eu não fiz nada para apanhar. E comecei a contar as cintadas que levava. Estava no primeiro ano. Sabia contar. Fui contando alto, gritado, um, dois, três, quatro... nenhuma lágrima. Os irmãos rodearam, na varandinha do tanque. A vó veio ver. A mãe também veio ver, já tinha castigado o Zaga. Mas aquilo era muito esquisito. Um menino pequeno apanhando sem chorar e ainda contando em voz alta as pancadas que levava. E falando errado, ainda tinha a língua presa, não sabia falar o “r” intercalado, deve ter saído assim, um, dois, teis, quato... 

E de repente o pai largou de mim, levantou-se, parecia sentir-se mal. Foi para dentro, arrumando o cinto, fechou-se no quarto. Os irmãos vieram ver as marcas da surra (“Deixa eu ver as bolacha!”), mas eu não quis mostrar não. Levantei as calças, estava com vergonha. Estava espantado. Tinha descoberto que se eu não chorasse parece que a surra parava.

Não se falou mais no assunto. Eu já tinha levado outras surras do pai e da mãe. Não lembro direito, mas acho que depois disto, o pai não bateu mais nas crianças. Em mim ele não bateu mais.

Quase três anos depois, o pai foi internado na Santa Casa. Estava doente do coração. Levado pelo Carlinhos, meu irmão primogênito, eu fui visitá-lo. Não queria ir, não sabia o que falar. Ele estava deitado, me abraçou, quis me beijar, a barba mal feita me cutucou, respondi alguma coisa sobre a escola, provas... Saímos logo. Eu estava aflito. Uma semana depois ele morreu, de enfarte.

Trinta anos depois, acordei de noite com uns barulhinhos. Adivinhei. Fui ao quarto da Simone, quatro anos. Ela estava arrumando roupinhas na mochila, tinha pegado o ursinho. Quando me viu, sentou-se na cama. Procurei ser doce na voz e no olhar, falando bem baixo: Filhinha, você estava fugindo de casa? É por que a gente tirou a chupeta de você?

Ela fez que sim, me abraçou e ficamos chorando juntos. Conversei com ela, sobre esse negócio de chupeta, dentição, essas estórias. Ela estava cansada, não tinha dormido, arrumando sua mudancinha. Depois foi sossegando, deitou, ficamos abraçados. E ela dormiu. Fiquei olhando a menininha morena, pensei: Meu amor. Pensei mais: É pecado bater numa criança. É um bichinho que Deus colocou nos braços da gente, para a gente cuidar, cuidar.

Hoje, lembro das duas coisas juntas. Meu pai me batendo com raiva e sem motivo. Eu querendo consolar uma menininha de quatro anos que estava pensando em fugir de casa.

Aí eu fico com dó de todo mundo. Com dó do menininho que eu era, que tinha seis anos mas nem sabia falar direito, que ainda mijava na cama, mas, sem ter feito nada de errado, apanhou duramente de um homem muito forte, que bateu no seu corpinho descarnado, quase osso, bateu com o cinto de couro, dobrado.

Da Simone eu não fico mais com dó, porque Deus foi generoso comigo e me deu tempo de contar para ela as minhas angústias e ela também foi muito compreensiva e me consolou, como se fosse eu a criança espantada.

Fico com dó do Zaga, que apanhou com vara de amora. Dói muito, quase corta. E penso. As maiores dores que sentimos, desde a infância, nos são proporcionadas pelas pessoas que mais amamos.

No meio de tanto dó, me brota também uma admiração pelo menininho que eu fui, me dá um orgulho pelo molequinho que, sem chorar nem pedir socorro, descobriu sozinho que tinha poder para brecar a investida de um homem grande.

Mas então me lembro que ele era um homem bom, que pegava a gente no colo quando vinha um cachorro bravo. Então eu sinto dó desse homem forte, que morreu tão depressa, aos quarenta e três anos.  Dó, porque, na cama do hospital, em sua última semana de vida, queria me abraçar, e eu escapei do seu abraço...

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

quinta-feira, 4 de junho de 2020

A TELEVISÃO EM CORUPUTUBA



Primeiro, a gente sabia que tinha televisão no Chalé. Mas isto era fora do nosso alcance. A primeira antena de tv que pudemos ver -- bem no alto de uma torre -- foi na casa do Seu Fonseca. José Manuel da Fonseca, o Pai. Mas ali ninguém entrava. A gente só podia mesmo ver era a antena, enquanto aguardava na fila para pegar leite na Fazenda.

Mas então o Seu Enéas comprou televisão! Que alegria! Alguém da nossa rua tinha televisão! Lembrando, o Seu Enéas era irmão do Seu Alcindo, que era o "Prefeito" de Coruputuba. Seu Enéas era casado com Dona Sinhá. Seus filhos eram a Dagmar, o Valdemar e a Maria Amélia.

Seu Enéas - agora entendemos - era um Homem Bom. A criançada da rua começou a lotar a calçada, para ver a Televisão pela janela. Mas não dava muito certo, entre a tela e a janela havia o jardinzinho. Então o Seu Enéas deixava a gente entrar no jardinzinho para ficar de nariz colado na vidraça, vendo aquelas imagens em preto e branco, uma luz azulada...

Depois de um tempo, o Seu Enéas já deixava a gente entrar na sala. A porta ficava escancarada, quem chegasse entrava e ia sentando no sofá. Se já estivesse lotado, a gente sentava no chão. E ficava vendo: Rin-Tim-Tim, Bonanza, O Homem de Virgínia, O Fugitivo, I love Lucy... Eu adorava as propagandas. Tinha a propaganda das Cestas de Natal Amaral: "Acaba de chegar / no meu lar / a cesta de natal / Amaral / Bom Natal / Bom Natal!" E a dos Cobertores Parayba: "Já é hora de dormir / não espere mamãe mandar / um bom sono pra você / e um alegre despertar"...

Dona Sinhá quase não falava com a gente. Parecia que a gente estava incomodando.. Nossa, vejam o que eu disse! É CLARO QUE A GENTE INCOMODAVA MUITO! Apesar que a gente ficava quase quieto. A não ser quando a coisa ficava muito engraçada. Um dia o canal saiu do ar e alguém falou: A televisão saiu do vento...

Canal? era só a TV Tupi, canal 4, e a TV Rio, Canal 13. Este canal então fazia um barulhão, um ronco feio, principalmente quando a imagem tinha muita área branca. 
Mas a Dona Sinhá, que eu achava com ar de brava, não era brava não. Era um pessoa muito boa. Porque um dia, a sala lotada de criançada da vizinhança, ela foi à cozinha e preparou uma jarra de limonada gelada (ela foi a primeira da rua a ter geladeira em casa).

Aquele gesto, de trazer limonada para aquele monte de crianças! Aquele foi o primeiro gesto que eu presenciei de cortesia de adulto para crianças.
Seu Enéas, Dona Sinhá! Vocês estão no Paraíso Celeste, muito merecidamente.

Minha vovó Ana Emília só foi ver uma TV quando finalmente nós compramos. Ela ficava vendo os programas (sem parar de manusear o terço...) e um dia eu perguntei a ela se a TV realmente era do jeito que ela pensava que era antes de conhecer.
Então ela respondeu que não. Que antes ela pensava que a TV era uma coisa fina, como um quadro que fosse possível pendurar na parede. Ela não imaginava que seria uma coisa mais parecida com uma caixa (naquele tempo, um caixote...).

Puxa vida, Vovó! Já se passaram tantos anos, tantos... e agora estão aparecendo umas tvs fininhas que nem as que a senhora imaginava!

Quando eu perguntei isto eu era um rapazinho de dezessete anos.

Envelheço quando lembro. 
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

terça-feira, 19 de maio de 2020

Liberdade de culto



A Escola Agrícola de Jacareí era muito grande, uma fazenda com benfeitorias, pastagens, um bom resto da Mata Atlântica... Só que para trabalhar sem verba seria melhor que a fazenda não fosse tão grande. Um dos problemas era a extensão das divisas: para cercar decentemente uma área tão extensa teríamos que gastar muito... Ainda mais que não havia como dividir as despesas com os confrontantes: uma avenida, uma escola estadual, uma estrada municipal, uma grande área da prefeitura e, no fundo, o leito do Rio Paraíba do Sul...
Mas finalmente saiu a verba! Vamos fechar a escola! Compramos os mourões, o arame farpado, grampos... Contratamos alguns homens e a cerca foi se estendendo reta, reta, uma beleza, o arame farpado esticadinho, brilhando no sol, atravessando o pasto, apontando para a mata e sumindo dentro dela...
Daí começou a chover, chover. De tarde, os dois homens encarregados da cerca vieram, molhados e esbaforidos, me procurar. Eu estava substituindo o diretor em férias. Seu Paulo, o senhor precisa ver uma coisa esquisita que a gente achou dentro da mata.
Fui, com chuva mesmo. Dentro da mata fechada, escura, de repente uma coisa muito bonita e solene: Um espaço varridinho, limpinho, chão batido de muitos passos. Nas beiradas desse círculo, flores, velas, fitas de várias cores... Nos nichos formados pelas grandes raízes, imagens de santos desconhecidos. Um oco numa árvore: dentro, outro santo. Um lugar de respeito: era um lugar de culto.
Os dois homens esperando uma decisão minha. Porque a cerca, prosseguindo no seu caminho retilíneo, teria que cortar ao meio aquele terreiro ornamentado e limpo. O que é que a gente faz, Seu Paulo... E eu decidi: desvia a cerca para fora, invade alguns metros na área da prefeitura, é meio do mato mesmo, ninguém vai se incomodar. Começa o desvio um pouco antes do círculo, volta ao traçado um pouco depois. Assim este terreiro fica inteiro dentro da escola. Ah! E na cerca faz o ziguezague, aquela abertura por onde dá para passar gente, mas impede a passagem do gado. Por quê? Ora, se o pessoal está acostumado a vir fazer suas devoções aqui, vamos facilitar, para que obrigar as pessoas a passar por baixo do arame?
No sábado de manhã (eu cumpria parte do horário no sábado) vem um senhor moreno, gordo, falar comigo. Apresentou-se, era o Pai de Santo responsável pelo terreiro no meio da mata.  Ele estava comovido. Agradeceu muito por termos respeitado aquele espaço sagrado, elogiou. Desculpou-se, disse que antes não sabia até onde ia a divisa da escola. Ficou feliz também por termos deixado a passagem na cerca. Coloquei uma restrição: não pode edificar nada, nem uma cabaninha.
Ele se tornou um colaborador da escola, ajudando a tomar conta da mata, impedindo invasões, não deixando ninguém cortar árvores na beira do rio... E me convidou para ir tomar um café na casa dele, lá na Bica do Boi.
Fui. Um café gostoso com bolo de fubá. Depois, me perguntou se eu aceitava que ele e a esposa fizessem uma oração em minha intenção. Claro, até agradeço. A oração era, me pareceu, uma adaptação do Pai Nosso. Depois um cântico suave, bonito. Depois outras orações. Quando terminou aquela reza, eu saindo, conversando sobre plantas, flores, que eles tinham na varanda, ele me perguntou se eu sabia o que eles tinham feito. Não, não sei, estou achando que vocês fizeram uma oração em minha intenção, não é?
É. Mas não é só isso: agora o senhor está com o corpo fechado. Nada de ruim vai pegar no senhor, nunca. Não tem perigo.
Agradeci, o gesto deles foi bonito, comovente. Guardei a informação com carinho, sem intenção de descobrir até onde iria aquela força, sem duvidar nem abusar.
Às vezes, tenho conseguido caminhar com sossego no meio de vários tipos de tempestade. Então me sinto protegido por uma espécie de bondade. Talvez a bondade que pratiquei  lá no meio do mato da Escola Agrícola? Na hora, não senti que fosse bondade, senti que era justiça. Não sei, mas foi bom.

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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, em Aconteceu na Escola.
Foto: TripAdvisor

quarta-feira, 22 de abril de 2020

As bicicletas da igreja


Na igreja de Coruputuba parece que tinha reza toda noite, ou alguma função sempre acontecia. Reunião das entidades: Congregação Mariana, Vicentinos, Filhas de Maria, Irmandade de São José... ou alguma reza simplesmente, com bênção do Santíssimo.           

Maio era inteirinho uma festa de meninas bonitas, ensaiando, disputando, querendo os lugares de honra na Coroação. Ou coroar mesmo, cantando o solo, ou segurar a bandeja com a coroa, cantando junto com o coro, ao som do harmônio do Maestro João Antonio Romão.

Em volta da igreja, encostadas nos coqueiros, destrancadas, centenas de bicicletas. E eu e o Bosco louquinhos para pedalar sem limites, treinar, voar, sem reprimendas nem horários.      

Acontece que, sim, de dia tínhamos a generosidade meio negociada do primo Valério, que acabava emprestando a bicicleta dele: Olha, só uma volta em volta do campo! Tá bom, duas! Depois é o Bosco.  Também podíamos contar com a complacência do Araújo, sempre com algumas ressalvas: Tudo bem, mas só um pouco, pneu tá meio no osso etc.    

Mas à noite, não! Aquelas bicicletas de adulto, todas engraxadas, polidas, correntes ajustadas, freios em cima! Pneus calibradíssimos. Encostadas nos coqueiros, sem tranca, porque em Coruputuba não tinha quem pegasse coisa dos outros sem pedir.

A gente escolhia. Hoje vou pegar a do Seu Chico Lucio! Ah, e eu vou com a do Seu Camargo! Ah não, vou trocar! Faz tempo que não ando com a do Seu Pedro Moreira! É? Então vou com a do Seu Paulino, que tem farol duplo.       
           
E dali a pouco, estávamos saindo do pátio, às vezes trombando nos coqueiros, 
porque andar devagar é mais difícil do que correr, e pegávamos a estrada da fazenda, voando! Ê vida! Vento no cabelo! Velocidade até o farol ficar tão claro que quase queimava, então a gente diminuía.         

Outra noite, outras escolhas, outras bicicletas. Outros donos, que nunca souberam de nada. E outros trajetos. O Bosco inventava e eu topava: Vamos pra Estaçãozinha! Vamos! Na volta, na volada, derrapei na areia sobre os trilhos e fui parar lá longe. Nem esfolou o joelho. Mas o guidão virou do avesso e o varão do freio escapou.       

Cuidadosamente consertada, a bicicleta voltou para o coqueiro. Era a bicicleta do Seu Antônio Ramos.         

Mas nunca perdemos a hora. Sempre chegamos com tempo para as três últimas ave-marias e para a benção final.        

Claro que meio suados, alguma areia no cabelo, algum dedo esfolado, mas com ar de coroinha carola, dava para cumprimentar os adultos sérios e observar a saída deles nas bicicletas bem conservadas, instrumento do trabalho deles na fábrica.        

Eu e o Bosquinho voltávamos a pé para nossa casa, ali pertinho mesmo. Esperando a reza do dia seguinte.        

Só fomos comprar as nossas bicicletas, nossas de verdade, Monark Barra Dupla Circular, anos depois, no japonês da Loja Bandeirante, com o primeiro salário da AISA. Já sabe, sempre trancadas, não empresta pra ninguém, que o pessoal não toma cuidado.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Coruputuba no tempo da guerra

 A grande paineira, entre a casa do Seu Rosalah (no fundo) e a Padaria (à direita)



A segunda guerra mundial já tinha começado quando minha família se instalou em Coruputuba, em 1942. Verdade que o Brasil ainda não tinha entrado na guerra, mas já estava começando a sofrer o racionamento de produtos. Filas se formavam na cooperativa e na padaria.

Açúcar refinado era impossível. Seria sorte se papai conseguisse comprar um pouco de açúcar preto, ou um pedaço de rapadura. A fila na cooperativa andava devagar, cada um queria levar para casa um pouco de feijão, de macarrão, o que houvesse. E azeite para a lamparina. Pois o querosene não se achava mais, a produção era toda para a aviação.
Mas Coruputuba tinha essa benção dada pela generosidade do Dr. Cícero Prado: os quintais grandes, com a liberdade de se plantar e criar. Por isso que minha vó dizia: melhor ser pobre na roça do que na cidade. Não faltavam as verduras e legumes na horta, nem o chuchu pelas cercas e as frutas pelo quintal, nem os ovos diários, e os frangos no domingo. E a fazenda garantia o leite para quem fosse cedinho buscar logo após a ordenha das vacas holandesas
E a família ainda era pequena: papai, mamãe, vovó, e os filhos Carlinhos e Ana Clara. Em plena guerra, em 1943, nasceu o Pedro. O Zaga só foi nascer em 1945, quase no final da guerra. E foi a época em que não se achava mais açúcar para nada. Nem para o café com leite, nem para melhorar um bolo de fubá, que ia sem açúcar mesmo, nem para adoçar a mamadeira do bebê. Não adiantava ficar na fila por causa de açúcar. Nada de açúcar, nem do preto, nem do mascavo, nada.
Então, a Dona Naná e o Seu João Mexas, donos da padaria, falaram para meu pai: ‒ Professor, olha, às vezes a gente consegue um carregamento de bala, são umas balas mais baratas, desembrulhadas, a gente guarda para o senhor, vende mais baratinho, vocês podem derreter elas na água fervendo para passar café.
E começou a acontecer assim. O tempo todo, quase que não se bebia café doce. Aí, um belo dia, vinha o Ditinho da padaria avisar que era para alguém ir lá, que tinha chegado bala. Ia o papai e voltava com um belo pacote de balas desembrulhadas, misturadas, que iam para a chaleira no fogão de lenha. Demorava, mas as balas derretiam e dava para passar o café. Ficava um café com um gosto assim misto de morango com hortelã, anis, laranja, coco..., mas todo mundo achava uma delícia.
Minha mãe contava que esta foi a principal lembrança que a guerra deixou para ela. Além daquele pavor de precisar ficar tudo escuro de noite.
É que a Companhia deu essa ordem: tudo apagado. Não podia ficar nada aceso, nem lamparina, nem vela, porque as casas não tinham forro, podia a luz da vela aparecer pelo vãozinho das telhas, e passar um avião alemão, ver e bombardear.
Bom. Não é que o avião alemão fosse bombardear as pobres casas da Vila Tanque, onde minha família morava, vizinhos do Seu Alcides Sampaio. A pobre Vila Tanque, a vila dos Franciscos: o meu pai, que era o professor Francisco, e o seu Francisco Casemiro, ou seu Chico Lúcio, o seu Francisco Nogueira, o Seu Francisco Machado... Mas, pelas luzes de qualquer das vilas, o inimigo poderia localizar o grande complexo industrial que era, naquele tempo, a fábrica de papel da Companhia Cícero Prado.
Sim, porque naquele tempo, as bombas alemãs estavam levando o terror, o choro e o desespero a vários pontos desse nosso tão bonito planeta. E o Brasil, finalmente, tinha entrado na guerra contra eles.


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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Coleção Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

quinta-feira, 2 de abril de 2020

AS ESTRELAS



Narração de um pastor provençal




Conto de ALPHONSE DAUDET 
Tradução de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes




No tempo em que vigiava os rebanhos no alto do Luberon[i], acontecia de passar semanas inteiras sem ver ninguém, sozinho nas pastagens com meu cão Labri[ii] e minhas ovelhas. De tempos em tempos, o eremita do Mont-de-l’Ure[iii] passava por lá procurando símplices[iv] ou então eu via o rosto enegrecido de algum trabalhador da mina de carvão do Piémont; mas eram pessoas simples, silenciosas por causa da solidão, tendo perdido o gosto de conversar e não sabendo nada do que se falava nas cidades e nas vilas. Por isto, a cada quinze dias, quando eu ouvia, no caminho que sobe, os chocalhos da mula da nossa fazenda trazendo as provisões da quinzena, e eu via aparecer pouco a pouco, acima do barranco, a cabeça atenta do nosso pequeno ajudante, ou a boina vermelha da velha tia Norade, eu ficava verdadeiramente muito feliz. Queriam me contar as novidades lá de baixo, os batismos, os casamentos; mas o que me interessava de fato, era saber o que acontecia com a filha dos meus patrões, nossa senhorita Stéphanette, a mais bela que havia em dez léguas em torno. Sem deixar transparecer demais o meu interesse, eu me informava se ela ia muito às festas, aos saraus, se apareceram a ela novos pretendentes; e aos que me perguntavam o que essas coisas poderiam interessar a mim, pobre pastor da montanha, respondia que eu tinha vinte anos e que essa Stéphanette era o que eu tinha visto de mais belo em toda minha vida.
Ora, num domingo em que eu estava esperando os víveres da quinzena, aconteceu que eles não chegaram e já estava ficando tarde. De manhã, eu me disse: “É por causa da missa solene”; depois, perto do meio-dia, veio uma grande tempestade, e pensei que a mula não se pôs a caminho por causa do mau estado dos caminhos. Enfim, ali pelas três, o céu estando lavado, a montanha luminosa de água e de sol, ouvi, no meio do gotejamento das folhas e do transbordamento dos córregos inflados, os chocalhos da mula, tão alegres, tão sonoros como um grande carrilhão de sinos em dia de Páscoa. Mas não era o pequeno ajudante, nem a velha Norade quem a conduzia. Era, adivinha quem!... nossa senhorita, meus meninos! nossa senhorita em pessoa, sentadinha muito ereta entre os sacos de vime, toda rosada pelo ar das montanhas, pela friagem da tempestade!
O ajudante estava doente, e a tia Norade em férias com suas crianças. A bela Stéphanette foi me contando, enquanto descia da mula, e além disso ela chegou tarde porque se perdeu na estrada; mas ao vê-la tão bem endomingada com suas fitas e flores, a saia brilhante e suas rendas, ela tinha mais o ar de ter se atrasado em alguma dança do que de ter procurado seu caminho no meio do mato. Oh a pequena criatura! Meus olhos não podiam deixar de olhá-la! É verdade que jamais eu a tinha visto de tão perto. Algum dia de inverno, quando os rebanhos já tinham descido nos apriscos  e eu entrava à tarde na casa da fazenda para tomar a sopa, ela atravessava a sala vivamente, sem falar nada aos serviçais, sempre arrumada e um pouco orgulhosa. E agora eu a tinha ali diante de mim, apenas para mim; não era de perder a cabeça?
Quando tirou as provisões da cesta, Stéphanette se pôs a olhar curiosamente em redor. Erguendo um pouco sua bela saia de domingo, que poderia se danificar, ela entrou no abrigo, querendo ver o canto em que eu dormia, o leito de palha com pele de carneiro, minha grande capa pendurada na parede, meu cajado, minha espingarda. Tudo aquilo a divertia.
“Então, é aqui que você vive, meu pobre pastor? Como você deve enjoar de ficar sempre sozinho! O que é que você faz? No que você pensa?”
Eu queria responder: “Em você, senhorita” e não estaria mentindo; Mas minha atrapalhação era tão grande que não pude falar uma só palavra. E creio bem que ela percebeu, e que a malvada sentiu prazer em redobrar meu embaraço com sua malícia...
E ela mesmo, ao me falar, tinha bem o ar da fada Estérelle[v], com  o belo sorriso, a cabecinha inclinada e uma ansiedade em se ir, o que fazia de sua visita uma aparição.
‒ Adeus, pastor.
‒ Saúde, senhorita.
E ei-la que partiu, levando as cestas vazias.
Quando desapareceu no caminho inclinado, pareceu-me que os cascalhos, rolando sob os cascos da mula, tombavam um a um sobre o meu coração. Eu os ouvi por muito tempo, muito tempo; e até o final do dia, fiquei como sonâmbulo, não ousando me mover, de medo de espantar o meu sonho. Quase noite, quando o fundo dos vales foi se azulando e as ovelhas, balindo, se empurravam umas contra as outras para reentrar no abrigo, ouvi que me chamavam lá de baixo, e vi aparecer a nossa senhorita, não risonha como ainda há pouco, mas trêmula de frio e de pavor, toda encharcada. Parece que no fundo da colina ela encontrou o Sorgue[vi] engrossado pela chuva da tempestade, e, tentando forçar a travessia, ela tinha corrido o risco de se afogar. O terrível, é que àquela hora da noite não se podia pensar em retorno à fazenda; pois o caminho para a travessia nossa senhorita não conseguiria jamais encontrar sozinha, e eu não podia abandonar o rebanho. Essa ideia de passar a noite na montanha a atormentava muito, sobretudo por causa da inquietude da família. Eu procurei tranquilizá-la da melhor maneira que podia:
‒ Em julho, as noites são curtas, senhorita... É apenas um momento ruim.
E acendi depressa uma grande fogueira para secar seus pés e seu vestido, encharcado da água do Sorgue. Depois, coloquei diante dela leite, queijo; mas a pobre pequena não pensava nem em se aquecer, nem em se alimentar, e de ver as grossas lágrimas que desciam de seus olhos, eu também estava a ponto de chorar.
No entanto, a noite chegou completamente. Não restou sobre a crista das montanhas mais que uma poeira de sol, um vapor de luz do lado do poente. Eu quis que nossa senhorita entrasse para repousar no abrigo. Tendo estendido sobre a palha fresca uma bonita pele bem nova, eu lhe desejei boa noite, e fui me assentar fora, diante da porta... De repente, a cortina do abrigo se abriu e a bela Stéphanette apareceu. Ela não podia dormir. As ovelhas faziam ranger a palha ao se mover, ou balindo em seus sonhos. Ela achou melhor vir para perto do fogo. Diante disso, joguei minha pele de cabra sobre seus ombros, aticei as chamas, e ficamos sentados juntos, sem conversar. Se você já passou a noite sob as estrelas[vii], você sabe que, quando dormimos, um mundo misterioso desperta na solidão e no silêncio. É então que as fontes cantam muito mais claramente, e os charcos acendem pequenas chamas. Todos os espíritos da montanha vão e vêm livremente; e há no ar das pastagens ruídos imperceptíveis, como se estivéssemos ouvindo os ramos crescendo, a erva brotando. O dia, é a vida dos seres; mas a noite, é a vida das coisas. Quando não se está acostumado, dá medo... Por isto, nossa senhorita estava toda trêmula, e se apertava contra mim ao menor ruído. Uma vez, um grito longo, melancólico, partiu da lagoa que brilhava mais abaixo e subiu até nós, ondulando. No mesmo instante uma bela estrela cadente deslizou por sobre nossas cabeças, como se aquele lamento que acabávamos de ouvir estivesse portando uma luz.
‒ O que que é isso? me perguntou Stéphanette em voz baixa.
‒ Uma alma que entrou no paraíso, senhorita; e fiz o sinal da cruz.
Ela se benzeu também, e ficou um momento com a cabeça baixa, contrita. Depois me disse:
‒ Então é verdade, pastor, que vocês são feiticeiros, vocês pastores?
‒ De jeito nenhum, nossa senhorita. Mas aqui nós vivemos mais perto das estrelas, e nós sabemos o que acontece melhor que as pessoas lá de baixo.
Ela ainda estava olhando para cima, o queixo apoiado nas mãos, envolvida na pele de carneiro, como um pequeno pastor celeste:
‒ Mas são tantas estrelas! Que lindo! Nunca eu tinha visto tantas... Será que você sabe os nomes delas, pastor?
‒ Mas sim, senhorita... Quer ver! bem acima de nós, lá está o Caminho de São Tiago[viii] (a Via Láctea). Ele vai da França direto para a Espanha. Foi São Tiago da Galícia que o traçou para mostrar a rota ao bravo Carlos Magno quando ele guerreava contra os Sarracenos[ix]. Mais longe, você tem a Carreta das Almas (a Ursa Maior) com seus quatro eixos resplandecentes. As três estrelas que vão na frente são as Três Bestas, e aquela menorzinha perto da terceira é o Carreteiro. Você vê em redor disso tudo aquela chuva de estrelas que caem? são as almas que o bom Deus não quer perto dele... Um pouco mais abaixo, o Rastelo ou os Três Reis (Orion). É o que serve de relógio para nós pastores. Só de olhar para eles, eu sei que agora passa um minuto da meia noite. Um pouco mais baixo, sempre na direção sul, brilha Jean de Milan, a tocha dos astros (Sirius)[x]. Sobre essa estrela, eis o que os pastores contam. Parece que uma noite Jean de Milan, com os Três Reis e o Sete-Estrelo (a Plêiade) foram convidados para o casamento de uma estrela de seus amigos. O Sete-Estrelo (Plêiade), mais apressado, se diz, saiu primeiro e tomou o caminho mais alto. Olhe lá, lá no alto, bem no fundo do céu. Os Três Reis cortaram por baixo e o alcançaram. Mas este preguiçoso do Jean de Milan, que dormiu até tarde, ficou completamente para trás, e furioso, para atingi-los, atirou neles o seu bastão. É por isso que os Três Reis se chamam assim de Bastão de Jean de Milan[xi]...  Mas a mais bela de todas as estrelas, senhorita, é a nossa, é a Estrela do Pastor[xii] que nos ilumina na alvorada quando tiramos o rebanho, e também ao entardecer quando o trazemos de volta. Nós a chamamos ainda de Maguelonne, a bela Maguelonne que corre atrás de Pierre de Provence (Saturno) e se casa com ele a cada sete anos[xiii].
‒ Mas como! pastor, então existe casamento de estrelas?
‒ Mas sim, senhorita!
E quando eu estava começando a lhe explicar o que eram esses casamentos, senti alguma coisa fresca e leve pesar ligeiramente sobre meu ombro. Era a sua cabecinha pesada de sono que se apoiava em mim com um bom farfalhar de fitas, rendas e cabelos ondulados. Ela permaneceu assim, sem se mover, até o momento em que os astros do céu empalideciam, apagados pelo dia nascente. Quanto a mim, eu a olhava dormindo, um pouco confuso no fundo do meu ser, mas santamente protegido por aquela clara noite, que não me deu mais do que belos pensamentos. Ao redor de nós, as estrelas continuavam sua marcha silenciosa, dóceis como um grande rebanho; e por momentos me figurava que uma daquelas estrelas, justamente a mais preciosa e mais brilhante, tendo perdido sua rota, tinha vindo pousar sobre meu ombro para dormir...


Conto de Alphonse Daudet (1840‒1897)
no livro Lettres de Mon Moulin
Tradução de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Todos os direitos reservados 



[i] Luberon : cadeia montanhosa da Provença. No verão, os criadores mantém os rebanhos nas pastagens altas, descendo-os para o vale antes do inverno.
[ii] Labri : nome que se dá, na Provença, a uma raça de cães de pastor, geralmente de cor negra.
[iii] Mont-de-l’Ure : cadeia montanhosa entre Sisteron e Ventoux. Notre-Dame de Lure, velha abadia dos Agostinhos, é um lugar de peregrinação muito frequentado.
[iv] Símplices : ervas medicinais
[v] A fada Estérelle habitaria as montanhas de l’Esterel, às quais ela dá seu nome.
[vi] Sorgue : afluente do Rhône
[vii] Ao relento : a expressão idiomática para este sentido é belíssima: “passer la nuit à la belle étoile” (nota do tradutor)
[viii] Caminho de Santiago: a Via Láctea, que orienta os peregrinos no rumo de São Tiago de Compostela.
[ix] Todos esses detalhes de astronomia popular são traduzidos do Almanaque Provençal que se publica em Avignon (nota do autor).
[x] Sírius é a estrela mais brilhante que se vê a olho nu.
[xi] Bastão de Jean de Milan, ou Bastão de Orion
[xii] A Estrela do Pastor (Vênus) não é uma estrela, mas um planeta
[xiii] Esta história se encontra em um velho romance atribuído a Bernard de Tréviers, cônego. O casamento de Maguelonne com Pierre de Provence traduz misticamente a conjunção, que ocorre a cada sete anos, dos planetas Vênus e Saturno.

terça-feira, 17 de março de 2020

Medicina tropical



Assistindo aula do Professor Waltinho, na terceira série do ginásio, aconteceu que comecei a verter sangue pela barriga. Era uma feridinha, que coçava, não sabia o que era, mas começou a escorrer sangue, mansamente, molhando o uniforme. Quase ao mesmo tempo, outra feridinha, na garganta, cismou de se manifestar também, fiquei bem chateado, na sala de aula, com sangue, levantei, nem precisei me explicar com o meu professor de geografia, ele já foi falando, vai na sala da Dona Clélia.
A nossa orientadora educacional ficou espantada, providenciou alguma gaze, limpou, tapou com esparadrapo, não sabia o que era, pediu a caderneta e escreveu um recado para minha mãe.
Dia seguinte, Dona Tereza estava lá no ginásio comigo. Da conversa, surgiu uma teoria esdrúxula, podia ser um sintoma de sífilis infantil, ou juvenil, eu tinha uns quatorze anos. Mamãe falou, pode deixar, vou levar ele em Taubaté.
Cedinho, saímos de casa e fomos, eu e minha mãe, até a estaçãozinha, pegar o expressinho para Taubaté. Uma paradinha em Pinda, e toca para Taubaté. Daí, fomos para o Hospital Santa Isabel. A famosa espera, mas com muita atenção do pessoal, em certo momento vem um prato de comida, muito bom, para mamãe também. Até que nos chamaram.
Era um médico bem jovem. Preencheu umas fichas, fez perguntas, quis saber de mim: “Já desceu?” E eu não sabia o que era que devia ter descido. Ele explicou, falava dos testículos. Tive que baixar a roupa para ele ver, que sim, os testículos estavam normais. Eu embasbacado, o que será que isto tem a ver. Então ele examinou bem as feridinhas, perguntou sobre elas, resmungou um pouco, começou a preencher uns formulários de receita.
Então a porta se abriu de supetão e entrou no consultório uma enorme e risonha lenda: Dr. Tarciso Leonce Pinheiro Cintra. Era diretor daquilo tudo. Cumprimentou todo mundo, quis ver as anotações do jovem médico: “Hum, sífilis... nessa idade, não? que coisa...”  Sentou-se num canto  e me chamou, tira a camisa, e foi a vez de ele examinar as minhas feridinhas. Olhou bem, pegou um algodão, deu uma olhadinha para o médico moço que estava meio paralisado, perguntou assim, dando uma meia risadinha: “Você estudou medicina tropical, não foi?”
E deu um espremão no gordinho em volta da feridinha e um negócio espirrou atravessando a sala e foi bater lá na parede e caiu no chão. Negócio meio branco meio amarelo com uns pelinhos pretos. Falou para o médico moço: “Alá a sua sífilis no chão...” Em seguida, coitado de mim, espremeu também a ferida da garganta, doeu, e outra sífilis também espirrou, não tão longe.
Dr. Tarciso se levantou, foi na pia, lavando as mãos, ainda brincando, falou para o colega novo: “Você precisa ir mais para a roça, isso aí é berne. O menino não tem sífilis nada.”
Depois, enquanto me limpava daquilo tudo e fazia um curativo bem legal em mim, foi conversando, sossegado: “Você corta capim, para a vaca? Ah, não? Para a cabra? Tudo bem. Você leva o feixe de que jeito? Ah, então. Sabe que a mosca de berne não bota o ovinho no animal, ela bota no capim, sabe que o gado vai passar por lá, o ovinho vai grudar no pelo do animal, vai virar um berne, que vai entrar na pele da vaca, da cabra, para se alimentar de sangue e se transformar em mosca. Foi o que aconteceu com você. Dá um jeito de levar o feixe de capim de modo que não toque na sua pele. E tudo bem.”
Saímos de lá bem satisfeitos. Eu tinha conhecido um médico de verdade. Dr. Tarciso Leonce Pinheiro Cintra. Nunca mais esqueci.
Eu e o Bosco, daí em diante, começamos a embrulhar os feixes de capim num saco de estopa. A cabra também não teve mais berne.

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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: História do Hospital Santa Isabel

sexta-feira, 13 de março de 2020

A Vó


Da esquerda para a direita, no fundo: Minha avó materna Ana Emília, minha mãe Maria Tereza e meu pai, o professor Francisco Fonseca Marcondes.
Na frente, os meus irmãos José Pedro, Luiz Gonzaga, Francisco Carlos e Ana Clara.
E eu, cadê? Ora, no colinho da mamãe!
Ainda não tinham nascido: João Bosco, Maria Auxiliadora, Maria Salete e Ritinha.
Foto em Aparecida, em 1948.


Estava escurecendo, mas não era hora de acender a fogueira de São João, e as lâmpadas do quintal ainda estavam apagadas. O vulto de uma pessoa baixinha, troncuda, de capuz, deslizava devagar no quintal, entre as árvores. Fui ver, era a vó, com uma vara. Parava e dava uma surra em cada laranjeira. Distribuiu surras para todas, desde as laranjeiras velhas de perto da chaminé, até os pés de  laranja-bahia do fundo do quintal. Rezando alguma coisa. Depois me explicou, era para dar laranjas doces.
Aquilo era para acharmos esquisito? Era para darmos risada, comentando entre os irmãos? Não sei, mas não demos risada não. Até fomos acompanhando, mostrando algum outro pé de laranja, sugerindo também um limoeiro, tudo já na quase escuridão, com dó da velhinha que guardava segredos da escravidão.
E era branquinha, os cabelos brancos lisinhos, sempre em coque, só que as histórias que sabia eram histórias de cativos judiados, vingados pelas doenças e outras desgraças que atacavam os senhores brancos, que morriam de coisas feias. Contava as vozes que ecoavam nas noites de São Bento do Sapucaí, no escuro das araucárias, no vento: “No meio de três pinheiros, três barris de dinheiro!”. E o fazendeiro mau, que mandou surrar e matar o escravo bom e enterrar, e plantar muda de laranja por cima. A laranjeira cresceu, deu frutos bonitos. A sinhazinha colheu a laranja, mandou descascar e cortar, era só sangue por dentro, escorreu na roupa nova da mocinha.
Vó! Eu perguntava mais coisa. Devia ter perguntado mais. Perguntei pouco. Nunca perguntei por que foi que ela e o vovô Bento se separaram, por que o vovô ficou morando em Taubaté para sempre e ela ficou para sempre morando com a gente, com mamãe, papai e todas as crianças, trabalhando muito, igual uma escrava mesmo, no fogão e no tanque.
Perguntei coisa boba, curiosidade, viagens dela com vovô, na mocidade, acompanhando tropa de burro de São Bento para Taubaté, pousando em rancho, topando com sucuri, essas coisas. O que ela respondeu de bom para o resto da minha vida eu nem tinha perguntado, ela já foi ensinando. Era o jeito de matar o frango, de escaldar, depenar, limpar, abrir, tirar a gosma da pele com limão e fubá, até fritar, ou assar, ou refogar, centenas de jeito, até servir na mesa para a família inteira. E cuidar do porco e fazer com ele tudo isso também, só que com mais barulho, mais sangue e aprendendo a ficar insensível diante dos olhos puros do animal que tinha criado amizade com a gente, e agora ia virar nossa comida.
Ralhava comigo e meus irmãos só quando invadíamos a área de privacidade dela. “Cadê meu cepo?” ‒ Era porque tínhamos pegado o toco e levado para o fundo do quintal, para brincar de filme, o índio tinha que fazer tocaia contra o mocinho. E o cepo era necessário para ela. Baixinha, não alcançava a torneira do tanque, para lavar nossa roupa.
“Mexeram nas minhas mangas!” ‒ Alguém tinha revirado a cômoda, em busca das mangas que ela guardava no meio das roupas, esperando amadurecer. Nisso ela caprichava, levantava cedinho, ia fazer uma pequena colheita debaixo do pé de manga-espada, recolhia as mangas de vez que tinham tombado de noite, levava para o quarto.
Nas tempestades feias, catava brasa no fogão, punha para queimar a palma benta da semana santa mais recente, saía pela casa rezando a salve-rainha, cobrindo os espelhos...
A mãe brigava com a gente e queria bater. Ela nos acolhia na saia comprida, protegia. Mas quando a mãe brigava com ela, todos nós corríamos para o lado da mãe, que fingia desmaio, e a vó ficava sozinha, quieta, rezando.
Ah, Dona Ana! Dona Ana Emília! Donana! Todo domingo, na missa da tarde, de mantilha preta, terço na mão, balbuciando orações... ia devagarzinho pela rua de areia, para a Capela entre os coqueiros. Na volta, assistia um pouco de televisão, antes de tomar café para dormir. A TV nós compramos quando eu tinha uns dezoito anos. Perguntei a ela: Vó, é assim mesmo que a senhora pensava que era a televisão? Ela disse que não. Pensava que era fininha igual um quadro, que a gente pendurasse na parede.
Hoje eu penso, nossa, hoje em dia ela acertou.
Teve um AVC, ficou doente para morrer. Fomos fazer a mudança, esvaziar o quartinho dela, tirar o nicho de Santa Terezinha, que tinha tantos outros santos! tantos restos de outros santos, irreconhecíveis, flores murchas, pedaços de palma benta... Quando fui esvaziar as gavetas da cômoda, ah, cheio de manga estragada, ela guardou para amadurecer, mas coitadinha, esquecia...
A cabecinha branca é um lencinho de saudade, a cabecinha branca espiando por cima do portãozinho, debaixo da latada de primavera, espiando para ver se o neto já vinha voltando da cidade, se já vinha caminhando desde lá do Portão da fazenda, tendo descido do ônibus, se já tinha terminado as aulas do ginásio ‒ do ginásio que ela nunca chegou a conhecer, prédio onde ela nunca adentrou, que ainda está aqui na esquina da ladeira que desce para o Bosque...
Quem não está mais aqui é ela, faz mais de cinquenta anos que ela não está mais aqui, a Vó, que talvez nunca tenha entendido direito este mundo, que os netos foram desbravando e cujos pedaços foram contando para ela, aos poucos, para que ela pudesse ir montando um quebra-cabeças: o mundo moderno, sem tropeiros, sem cativos, sem senhores, sem sinhazinhas, sem laranjeiras...
Agora já sou mais velho do que ela ‒ e os meus cabelos são mais brancos do que os cabelinhos dela. Mas não adianta eu ficar no portão esperando, não vai ter ninguém para chegar da escola.
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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Lambe-lambe em Aparecida, 1948