O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Lições do Professor Alexandre

 

Professor Alexandre Machado Salgado


Bem antes de entrar para o ginásio eu já conhecia de nome o Professor Alexandre, que era tio do Seu José Salgado, farmacêutico em Coruputuba. Seu Salgado era marido de minha professora de primeiro ano, Dona Maria Amélia, e era chefe da minha irmã Ana Clara. Mas voltemos ao Professor Alexandre: os meus irmãos Pedro e Zaga, algumas séries na frente, falavam sobre a seriedade do mestre de Latim. Fui conhecê-lo pessoalmente no exame de admissão, na prova oral de Português.

Tendo sido aprovado nos exames escritos, peguei o ônibus do Seu Ciro Valentini e fui para a cidade. Aguardava na fila a minha vez de ser chamado. E ali, na escada em caracol do velho prédio do Instituto, hoje Museu, fiquei conhecendo a Catarina e a Vera, filhas do doutor João de Deus. Companheiros de apreensão, fomos chamados para a sala de exame. À mesa, aguardando a demonstração dos nossos conhecimentos, a banca formada pelos mestres: Professora Terezinha e Professor Alexandre.

Os pequenos candidatos esperavam nas carteiras a vez de se apresentarem para ler um texto e responder a três perguntas de cada examinador.  Sentado na primeira carteira, bem diante da mesa, não me contive quando vi que a Vera, sendo questionada a respeito de preposições, estava hesitando... Para fazer bonito, e pensando que os professores não estavam atentos, comecei a fazer sinais para ela, querendo contar a resposta. Fui apanhado no pulo, o olhar penetrante do Professor Alexandre me paralisando. Pediu minha ficha, olhou e me disse pau-sa-da-men-te: Muito bem, Senhor Marcondes, o senhor está querendo mostrar que sabe, não é? Pois na sua vez o senhor vai ter oportunidade de mostrar o seu conhecimento: Vou lhe fazer algumas perguntinhas extras... Gelei, vi que o professor tinha ficado vermelho, achei que ele estava com muita raiva. De repente, me deu saudade de casa, do quintal tão sossegado... Mas já era a minha vez. Li o texto para a Professora Terezinha, que me fez as três perguntas regulamentares, respondi certo, meio automático. Mudei de cadeira, agora fiquei pertinho do Professor Alexandre.

Ele me fez três perguntas. Respondi, nervoso, mas respondi certo. Só que ele não parou: continuou me fazendo perguntas, uma atrás da outra. Fui rebatendo, estava bem preparado. Foram umas dez perguntas, até que ele me disse: O senhor está dispensado, pode sair. Saí, pensando que tinha posto tudo a perder. Todo o meu esforço em estudar, ler... justo num ano em que tinha ficado doente e não pude acompanhar direito o preparatório da Dona Orlinda. Nossa Senhora, e a expectativa de Mamãe... Será que vou repetir no exame de admissão, e tudo por causa da minha bobeira, querendo fazer bonito para as meninas da cidade. Claro que o Professor Alexandre vai me dar uma nota baixa, para me castigar.

Quando o resultado saiu, estava lá a minha nota, datilografada em vermelho: dez. Foi isto: o Professor Alexandre apanhou um aluninho fazendo uma arte feia, mas castigou-o somente com a repreensão, com o olhar. E com as perguntas extras. Não abaixou a nota, respeitou a demonstração do conhecimento: colocou-se acima de sua própria irritação e me deu uma lição de justiça.

Foi meu professor de Latim por dois anos. Não encontrei dificuldade: era coroinha e estava acostumado a dialogar em latim com os padres, no ritual das missas. Na terceira série do ginásio, foi meu professor de Português: redação toda semana. Adorei, poder escrever, escrever... produzir textos que depois eram valorizados porque eram lidos pelo professor em voz alta para a classe, acrescentando comentários, sugestões... Só que eu faltava muito às aulas, estava preferindo ficar recolhido na roça, tratando da cabra, do porco, olhando os pombos... Hoje sei que aquilo era depressão, durou quase um ano. Faltei a mais de uma prova do Professor Alexandre – e ele ficava irritado com isto. Então, após perder mais uma prova, lá fui eu: Professor, faltei na prova, dá para o senhor dar outra? E ele, decidido: Muito bem, pode se sentar, aqui na primeira carteira. Tire uma folha do caderno e escreva uma carta. O tratamento é Vossa Majestade. O tema é: o cabo do guarda-chuva.

Sentei-me. Tirei uma folha. Perguntei: Professor, posso pegar o dicionário? E o Professor Alexandre ficou mais calmo de repente e condescendeu: Sim, pode. E eu escrevi uma carta ao rei, apresentando-me como humilde súdito que morava pertinho de um dos quartéis do exército do reino. Claro que o rei desconhecia as irregularidades, mas os soldados aprontavam muito – e fui discorrendo, respeitosamente. Terminei por contar que um dos militares, um simples cabo, aproveitava-se do estado geral de indisciplina e sempre saía à paisana, um janota, carregando – à guisa de acessório elegante – um guarda-chuva. A vizinhança já lhe dera o apelido de O Cabo do guarda-chuva... Foi mais uma nota dez que o Professor Alexandre me deu. Apesar de estar ainda zangado com as minhas ausências.  

Aos domingos, eu ia com o Zaga à cidade para assistir à missa na Matriz, mas não era pela missa. Missa havia em Coruputuba. É que, depois da missa, o Professor Alexandre tocava o órgão. Ficávamos sentados na penumbra da igreja – enquanto as notas musicais de Bach voavam ligeiras junto ao teto, como pombas cheias de desejo de liberdade, querendo escapar pelos vitrais...

Os anos se passaram. Perambulei. Voltei para Pindamonhangaba. Meu professor tinha se aposentado havia tempos, mas continuava, imaginem, não lecionando, mas estudando. Quase todo dia consultava livros e dicionários na biblioteca pública. Várias vezes o incomodei com consultas: Professor, como é mesmo aquele provérbio em latim... E ele, sempre calmo e atencioso, me explicava que no momento não se lembrava, mas ia pesquisar e me ligava de volta. E assim fazia, ligando e tirando minhas dúvidas. A penúltima vez em que estive com ele foi num concerto na Faculdade de Música.  Entreguei-lhe um poema em homenagem ao trabalho do mestre. Alguns dias depois, no supermercado, nós nos encontramos e ele me devolveu o poema, agora vertido para o latim: foi nosso último encontro.  Mas naquela noite na Faculdade ele me disse que professor de Português precisa dar redação toda semana. Acrescentou: Se não der para corrigir, não faz mal. Importante é dar muita oportunidade para o aluno escrever.

Quando o Professor Alexandre Machado Salgado faleceu, perdi uma referência. Senti sua falta do mesmo modo como senti a falta de Papai. Mas a falta de Papai eu senti de uma vez só, num baque. A falta do Professor Alexandre fui sentindo aos poucos, cada vez mais, cada vez que pretendia fazer uma consulta sobre latim, cada vez que queria conversar sobre literatura, sobre outros tempos, outras culturas, outras línguas...

Olho para a cidade: não vejo mais passar o meu professor, de cabelos brancos e andar tranquilo, e isto me deixa triste. Nossa cidade vai perdendo suas referências, seus marcos, os seus alicerces éticos.

Já se passaram tantos anos sem o Professor Alexandre! Mas guardei as suas lições. Aquele professor tão sisudo, severo, em mais de uma ocasião mostrou que o mestre deve sim repreender, punir quando necessário. Mas não pode continuar punindo para o resto da vida. Há o momento de superar suas irritações, zangas, por mais justas que sejam, e olhar com isenção para o aluno que está ali, diante dele, e premiar o esforço que sucede o erro.

Enquanto cumpria o seu modo coerente de viver, discretamente, ele me ensinava como deve ser um verdadeiro educador.

* * * * * * *

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, no livro Aconteceu na Escola, 2012.

Professor Alexandre é o segundo a contar da esquerda

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

PEQUENO OFICIO DA IMACULADA CONCEICAO




8 de Dezembro
DIA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

Lembrando de meu pai Prof.Francisco Fonseca Marcondes. Lembrando da Congregação Mariana da Capela de Nossa Senhora Aparecida e São José de Coruputuba. Lembrando do Seu Chico Lucio, do Seu Antonio Ramos da Silva Filho, do Seu Irineu Ribeiro, do Seu Juquinha Gonçalves, do Seu Nico Gonçalves, do Seu Emiliano, do Seu Pedro Moreira e de todos os Congregados. E das Filhas de Maria, é do Maestro João Antonio Romão. E dos meus irmãos Francisco Carlos, José Pedro, João Bosco, que já se foram para o regaço de Jesus. Lembrando de mim e do meu irmao Zaga, que sobramos por enquanto para relembrar as músicas do Paraíso. Lembrando de minha irmã Ana Clara cantando no coro com Vera Gomes, Dulce, com as irmãs Assoni, Vali, Ivete, Maria Canedo, Verinha, Schirley, Carminha. 

Lembrando do menino que fui, do feliz e quieto menino que fui, do menino que sabia que tudo aquilo, no meio das mudanças e atropelos que viriam, se referia a pedaços de eternidade, que ficariam, que iriam durar muito além da vida daquelas honrosas pessoas.

PEQUENO OFÍCIO DA IMACULADA CONCEIÇÃO


MATINAS


V. Eia, entoai agora, lábios meus,
R. Glória e dons da Virgem Mãe de Deus.
V. Em meu socorro vinde já Senhora;
R. Do inimigo livrai-me, vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Salve, ó Virgem Mãe, Senhora minha,
Estrela da manhã, do Céu Rainha.
Cheia de graça sois; salve, luz pura,
Valei ao mundo e a toda criatura.

2º coro
Para Mãe o Senhor vos destinou,
Do que mares e a terra e os céus criou.
Preservou Ele a vossa Conceição
Da mancha, que nós temos em Adão. Amém.


V. Deus a escolheu e predestinou:
R. No seu Tabernáculo fez habitar.
V. Protegei, Senhora, a minha oração;
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS

Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.

R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


PRIMA


V. Em meu socorro vinde já, Senhora;
R. Do inimigo livrai-me vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Salve, prudente Virgem destinada
Para dar ao Senhor digna morada;
Sois as sete colunas da Escritura;
Do templo a mesa foi de vós figura.

2º coro
Fostes livres do mal que o mundo espanta
E no seio materno sempre santa.
Porta dos santos; Eva, mãe da vida;
Estrela de Jacó aparecida.
Sois armado esquadrão contra o maligno;
Sede amparo e refúgio ao povo digno. Amém.

V. Ele próprio a criou no Espírito Santo
R. E a representou maravilhosamente em todas as Suas obras.
V. Protegei, Senhora, a minha oração
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS
Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


TÉRCIA


V. Em meu socorro vinde já, Senhora;
R. Do inimigo livrai-me vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Salve, áureo trono, íris de bonança,
Sarça do Horeb e arca da aliança,
De Jessé vara, velo de Gedeão,
Porta fechada, favo de Sansão.

2ºcoro
Por decoro do Filho, não podia
O labéu de Eva macular Maria;
Não devia tal Mãe, assim eleita,
Por um momento à culpa estar sujeita. Amém.

V. Eu moro no mais alto dos céus
R. E o meu trono está sobre a coluna de nuvem.
V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS
Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


SEXTA


V. Em meu socorro vinde já, Senhora;
R. Do inimigo livrai-me vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Salve, Mãe pura, templo da Trindade,
Prazer dos céus, mansão de castidade,
Éden celeste, alívio da tristeza,
Palma constante, cedro de pureza.

2º coro
Terra bendita sois, sacerdotal,
Sempre isenta da culpa original.
Cidade Santa, porta do Oriente,
De graça para nós fonte corrente. Amém.

V. Como açucena entre os espinhos.
R. Assim a minha predileta entre as filhas de Adão.
V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS
Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


NOA


V. Em meu socorro vinde já, Senhora;
R. Do inimigo livrai-me vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Salve, ó Torre de Davi armada,
De refugio Cidade reservada.
Ardendo em zelo desde a Conceição,
Prostrais a fúria do infernal dragão.

2º coro
Tendes mais que Judite, o braço ousado,
E do sumo Davi o puro agrado.
Deu Raquel ao Egito um provedor,
Maria deu ao mundo o Salvador. Amém.

V. Toda sois formosa , ó minha amada.
R. E a mácula original nunca tocou em vós.
V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS
Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


VÉSPERAS


V. Em meu socorro vinde já, Senhora;
R. Do inimigo livrai-me vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Relógio de Ezequias, que atrasado
Foi, para o sol divino nos ser dado.
Em vós o imenso quis ser abatido,
Para que ao Céu fosse o mortal subido.

2º coro
Brilhando com os raios de tal sol,
É a vossa Conceição claro arrebol.
Guiai-nos, pois, calçada a serpe crua,
Ó entre os espinhos flor, piedosa lua. Amém.

V. Eu fiz nascer no céu a luz que não se apaga.
R. E cobri, como névoa, a terra toda.
V. Protegei, Senhora, a minha oração
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS
Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


COMPLETAS


V. Converta-nos Jesus, por Vosso amor,
R. E retire de nós o Seu furor.
V. Em meu socorro vinde já, Senhora;
R. Do inimigo livrai-me vencedora.
V. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
R. Como era no principio, agora e sempre. Amém. (No Tempo Pascal, acrescenta-se: Aleluia)

Hino

1º coro
Salve, florente Virgem ilibada,
Meiga Rainha de astros coroada.
Mais pura que os Anjos, tendes trono
À direita do Rei, em nosso abono.

2º coro
Ó Mãe da graça, nossa doce esperança,
Do mar estrela e porto de bonança.
Porta do Céu, saúde na doença,
De Deus guiai-nos à feliz presença. Amém.

V. Vosso nome, ó Maria, é como um bálsamo.
R. Muito vos amam vossos fiéis servos.
V. Protegei, Senhora, a minha oração
R. E chegue até vós o meu clamor.

OREMOS
Santa Maria - Rainha dos Céus - Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo e dominadora do mundo - que a ninguém desamparais, nem desprezais - ponde, Senhora, em mim - os olhos de vossa piedade - e alcançai-me de vosso amado Filho - o perdão de todos os meus pecados - para que, - venerando agora afetuosamente a vossa Imaculada Conceição, - consiga depois a coroa da eterna bem-aventurança - por mercê do mesmo vosso Filho Jesus Cristo - Senhor Nosso - que com o Pai e o Espírito Santo - vive e reina, em unidade perfeita - DEUS -  pelos séculos dos séculos. – Amém.

V. Protegei, Senhora, a minha oração.
R. E chegue até vós o meu clamor.
V. Bendigamos ao Senhor.
R. Demos graças a Deus.
V. As almas dos fiéis defuntos, por misericórdia de Deus, descansem em paz.
R. Amém.


DEPOIS DO OFÍCIO


Aceitai, ó Virgem, esta devoção
Em louvor da vossa pura Conceição.
Sede-nos na vida, defensora e guia;
Sede-nos alento em nossa agonia,
Ó Mãe de bondade, ó doce Maria.


Antífona:

     Esta é a Virgem admirável, na qual não houve nódoa original, nem sombra do pecado.

V. Na Vossa Conceição, ó Virgem, fostes Imaculada.
R. Rogai por nós ao eterno Pai, cujo Filho destes ao mundo.

OREMOS
Ó Deus, que pela Imaculada Conceição da Virgem - preparastes ao vosso Filho uma digna morada - nós vós rogamos - que - pois - em virtude da previsão da morte do mesmo Vosso Filho, - a preservastes de toda a mancha - também nos concedais que - purificados por sua intercessão - chegamos à Vossa Divina Presença, - pelo mesmo Jesus Cristo - Nosso Senhor - Amém.

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sábado, 25 de setembro de 2021

Desmanchando algumas lendas urbanas

 


ESTAMOS NO PALACETE VISCONDE DA PALMEIRA

O que dizem deste Palacete é VERDADEIRO ou FALSO?

 

“A Princesa Isabel morou aqui.”

FALSO. A Princesa Isabel (29/07/1846 – 14/11/1921) morava no Rio de Janeiro, que era a capital do Império. Visitou uma vez Pindamonhangaba, com seu marido, o Conde D’Eu. Isto aconteceu no dia 14/12/1868. O casal hospedou-se no solar do Barão de Pindamonhangaba e participou de um baile comemorativo aqui neste Palacete. Na época, o futuro Visconde da Palmeira ainda era Barão.

 

“Havia uma estradinha que ligava os fundos do Palacete com o Bosque.”

FALSO. Desde que o Palacete foi construído, os terrenos entre o Palacete e o Bosque já tinham donos e moradores. Não dava para fazer uma estradinha passando por dentro do quintal das pessoas. Nem precisava, já existia a rua, perfeita ligação com o Bosque.

 

“Havia um túnel que ligava os fundos do Palacete com o Bosque.”

FALSO. Nem havia motivo para alguém ir ao Bosque passando por dentro do solo.

 

“Havia um túnel ligando o Palacete Visconde da Palmeira com o Palacete Dez de Julho (Prefeitura Velha).”

FALSO. Não havia motivo para a existência de tal túnel. Não estávamos em guerra, os últimos índios do Vale do Paraíba já tinham sido exterminados havia mais de trezentos anos. Se tivesse existido esse túnel, teriam sido encontrados vestígios quando da reforma deste Palacete. Em seguida, o Palacete Dez de Julho passou por completa restauração e nada foi encontrado ali que pudesse lembrar uma boca de túnel. Também não se encontrou nenhum vestígio de túnel quando foi escavada a Rua Deputado Claro César, em 1996, para instalação da galeria de águas pluviais.

Mas existiu sim um túnel DENTRO do Palacete, ligando a entrada das carruagens (na fachada principal) até o lugar onde hoje fica o galpão. Na época, não havia o portão do quintal, as carruagens entravam pela frente do prédio. A porta ficava onde hoje está a quinta janela a contar da porta principal.

 

“Dom Pedro I e Dona Leopoldina moraram aqui.”

FALSO. O Palacete Visconde da Palmeira começou a ser construído em meados da década de 1850. Dom Pedro I já estava falecido desde 1834. Dona Leopoldina tinha falecido antes dele, em 1826.

O Imperador e sua primeira esposa residiam no Rio de Janeiro, capital do Império. Dom Pedro I passou por Pindamonhangaba apenas uma vez, quando ainda era o Príncipe Dom Pedro. Isto aconteceu em 1822, quando o Príncipe se dirigia a São Paulo, onde acabaria proclamando a Independência. Pernoitou, de 20 para 21 de agosto daquele ano, no sobrado do Monsenhor Marcondes (onde hoje fica a loja Sonho dos Pés).

O nome Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina foi dado como simples homenagem àquelas figuras históricas.

 

“Dom Pedro II morou aqui.”

FALSO. Dom Pedro II morava no Rio de Janeiro, capital do Império. Visitou Pindamonhangaba uma vez, em 1877. Pernoitou na residência do Visconde de Pindamonhangaba e fez uma breve visita a este Palacete em que estamos.


“A carruagem do Museu pertenceu à Princesa Isabel.”

FALSO. A carruagem pertencia a uma companhia de navegação e era usada para transportar até o Porto os passageiros que se utilizavam dos barcos que faziam a linha Lorena-Quiririm. 

 

“Aqui existe uma cadeira que foi da Princesa Isabel.”

FALSO. Não temos nenhuma cadeira que tenha pertencido à Princesa, nem que comprovadamente tenha sido usada por ela.

 

 “O Palacete é propriedade particular de uma família.”

FALSO. O Palacete pertence ao Município de Pindamonhangaba desde 1987, quando foi doado ao município pelo Governo do Estado. Antes disto, já tinha pertencido ao município, que o doou ao Estado para instalação do Ginásio Estadual.

 

“O Museu possui a coroa da Princesa e a espada de Dom Pedro.

FALSO. Tais objetos estão no Museu de Petrópolis.

 

“Os lustres e arandelas são originais.”

FALSO.  Estes lustres, em sua maior parte, foram adquiridos em São Paulo e instalados por ocasião da reforma do prédio. Alguns foram instalados no tempo do Ginásio Estadual. Devemos lembrar que não existia rede de energia elétrica na época em que o Visconde da Palmeira morava aqui.

 

“O piso é original. Os ladrilhos vieram da Europa. As pinhas de louça são originais.”

FALSO. Os assoalhos são todos recentes, instalados no final da década de 1990. No tempo do Ginásio a maior parte dos assoalhos já tinha sido trocada por tacos. Os ladrilhos atuais são reprodução dos originais.  Algumas das peças de mármore do piso do saguão são originais, vindos de Carrara, na Itália. As pinhas atuais foram fabricadas em Cachoeira Paulista no final da década de 1990. A escada lateral é original, fabricada com pinho de riga.


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Texto e foto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

O RIO QUE PASSA PELO BOSQUE TEM PRESSA. ESTÁ VIAJANDO


O solo que pisamos no centro da cidade de Pindamonhangaba fica 559,01m mais alto do que as praias do nosso litoral. O município de Areias, em sua zona rural, fica bem mais alto: 1.800m. Lá nasce o Rio Paraitinga, um dos formadores do Rio Paraíba do Sul. A partir de certo trecho,  suas águas vão correndo paralelas às do Rio Paraibuna, que nasce no Bairro da Aparição, em Cunha, a 1.600 m de altitude.

O Paraitinga percorre pastagens e lavouras, chega a Sao Luiz todo barrento e vermelho. Mas o Paraibuna se preserva, corre por dentro da Mata Atlântica, pelos recantos secretos dos trechos mais altos da Serra do Mar, na sombra das árvores, sempre passando bem perto da cumieira que o separa da vertente virada para o oceano. Assim, as águas do Paraibuna sao frias, límpidas, a mata nao joga  barro nele, apenas deixa correr para o Paraibuna uma água transparente,  cor de conhaque, fruto da  decomposição dos restos vegetais da floresta. 

As águas dos dois rios vêm procurando jeito de descer da Serra da Bocaina, e seu encontro acontece na represa de Paraibuna. Descem da barragem já com o nome definitivo de Rio Paraíba do Sul. Prosseguem na descida, dando voltas. Passam em Santa Branca, onde são detidas de novo na bela Represa de Santa Branca (Ô pescarias!) e vão indo rumo oeste, em direção à Capital. Milhares de anos atrás, despejavam no Tietê. Mas o solo se movimentou. Nossa região afundou. As águas do Paraíba desistiram do Tietê e fizeram uma curva para a direita, mais ou menos em Guararema, onde as montanhas brecam e desviam seu rumo para que desçam em direção ao Vale. Agora passam em Jacareí no sentido sul-norte, já completando a curva para a direita, e em São José dos Campos estão correndo francamente  para leste! Ou seja: mudaram de direção! 

E engrossaram, com as águas do Rio Jaguari e do Rio do Peixe, misturadas na Represa de Igaratá. E mais as águas do Buquira, apressadas, descendo da Mantiqueira. Vão procurando o mar, passam rápidas por Caçapava, nao visitam a zona urbana de Taubaté porque passam mais ao norte, entre Quiririm e a Mantiqueira. Atravessam as várzeas de Tremembé e de  Pindamonhangaba, onde recebem as frias águas do Ribeirão Grande ou Tetequera, que nasceu nas altitudes da Mantiqueira. Seguem por Potim e Roseira. Fazem mais caprichosos os seus meandros na planície de Aparecida. Passam apertadas na zona urbana de Guaratinguetá e espalham-se nas várzeas de Lorena. Encachoeiram-se em Cachoeira(!). Passam em Cachoeira, espremidas,  pelo único  e possível corredor, quase um buraco, entre as Serras da Mantiqueira e a da Bocaina. 

De fato, ali passam as águas entre monstros morros a apertar o rio pelos dois lados!, sem várzeas laterais. É onde, há milhares de anos, o amplo e profundo lago que cobria a nossa região, num grande tremor de terra, estourou os obstáculos e vazou para o hoje estado do Rio de Janeiro. Na estação de trem em Cachoeira, olhe para leste. Você verá esse vestígio de um tétrico cataclismo. Imagine o estrondo do rompimento e o tamanho da cachoeira de vazamento do lago. E os anos que durou esse reequilíbrio das águas! Não se assuste muito. Na época, não havia aqui humanos para se assustarem.

Mas ainda falta chão para despejarem no Atlântico. Ainda as águas seráo detidas na Represa do Funil. E o encontro com o mar? Isto só vai acontecer lá em Atafona, município de São João da Barra, no estado do Rio, quase divisa com o Espírito Santo. 1.100km desde a nascente em Areias. Nasceu tão perto do mar, mas teve que dar uma volta imensa antes de se jogar no oceano! É assim mesmo. A Serra do Mar é uma muralha, não ia deixar o Paraitinga ou o Paraibuna vararem e já despejarem nas praias de Ubatuba. 

Pensando o quê? Rios que quiserem despejar em Ubatuba, em Caraguatatuba, só se nascerem na vertente da Serra virada para o mar: Rio Picinguaba, Rio da Fazenda, Rio Itamambuca, Rio Promirim, Rio Puruba, Santo Antonio ou do Ouro, Indaiá, Juqueriquerê (no meu querido Porto Novo)..esses sim! Nascem e já descem encachoeirados pelo meio das pedras, chamados pelo mar. Quando chegam perto, disfarçam, perderam a pressa, se espalham mansos pelos manguezais...
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Texto de Paulo Tarcizio 
Foto de Lucio Mello Cesario

domingo, 22 de agosto de 2021

LER UM LIVRO SEM FICAR PARANDO PARA CONSULTAR DICIONÁRIO

 



Muitos romances e contos são ótimos, mas apresentam palavras desconhecidas.
Sim, na obra prima Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, há palavras de pouco uso, muito técnicas, nomes de coisas, barcos, manobras dos marinheiros... e também palavras que hoje não se usam mais. De vez em quando, se a gente tropeça numa palavra assim, é bom mesmo parar e olhar no dicionário para poder continuar a leitura.
Outra técnica boazinha é, antes de ler uma ou umas páginas, dar uma passada de olhos meio por cima, sem intenção de ler para entender. Sublinhando as palavras desconhecidas. Em seguida fazer a consulta e anotar a lápis o sinônimo, juntinho com a palavra. Isto é preparar o caminho, consertar os buracos da estrada pela qual vamos passar. Aí sim. Agora vai dar para voltar e ler para entender mesmo, aproveitando a história, ler direto um bom trecho, sem tropeçar. É isto.
Mas tem uma coisa que eu faço desde criança e que dá certo muitas vezes. Assim: é ir lendo direto sem interromper nas palavras difíceis. Vai lendo direto prestando atenção na história, vai desprezando e passando por cima desses obstáculos. Nem dá bola. Toca em frente. Aí você vai ver que algumas dessas palavras desconhecidas aparecem de novo, algumas repetem toda hora. Então pode ser que você, pelo contexto, descubra sozinho o significado. Aí vale a pena conferir no dicionário e confirmar a sua descoberta.
Tem palavra que não vai fazer falta. Às vezes você pode perfeitamente entender o texto inteiro sem saber o significado de todas as palavras.
Você já percebeu que andar de bicicleta pedalando depressa é muito mais fácil do que pedalando devagarzinho. Mesma coisa. Vai lendo desembestado, que o caminho vai ficando mais fácil. Entra no mato rasgando, rebentando os cipós no peito. Se for parar para afastar do caminho cada cipó que aparece, você não penetra na mata, acaba desistindo e voltando para casa.
Não fica parando toda hora. O que interessa é o enredo. Só pare no fim do capítulo, ou no fim de um grupo de páginas. Aí sim, você já compreendeu o trecho da história, pode conferir no dicionário só o que for muito importante.
Ler um livro bom, denso, sincero, escrito por quem valoriza o leitor em vez de ficar facilitando tudo... isto é penetrar no terreno da aventura.
Ou no mar da aventura, no caso do livro de Victor Hugo.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

segunda-feira, 12 de julho de 2021

O QUE MOVE O ARTISTA

Primeiro rascunho


Óleo sobre tela. O caminho sob os eucaliptos. Fazer e refazer várias vezes, sem desespero, mas com certo nível de exigência, buscando alguma identificação com o modelo.

Até que chega o momento em que a gente se sente atingido pela fagulha, pela centelha. Quando? É no instante da pincelada que, subitamente, define as distâncias, jogando alguns elementos lá para longe, onde mal podem ser vistos. E trazendo outros elementos para perto, aqui, na cara da gente.

Lembrando que tudo é uma suave tapeação. Estamos pintando numa tela plana, mas devemos dar ao expectador a impressão de profundidade e de volume. Parecendo que o prédio da Cooperativa está lá longe e que há uma árvore grossa aqui pertinho. Isto a gente faz com as tonalidades das cores. O que está longe ganha cores desmaiadas e contorno impreciso. O que está perto recebe contorno bem definido e cores fortes. Isto é a perspectiva aérea.

Outra coisa: são três montinhos de folhas secas, que os homens do Seu Alcindo varreram e juntaram para queimar, porque é sábado. Os montinhos são todos do mesmo tamanho. Mas o que está lá longe eu desenhei bem menor que o montinho mais próximo. Isto se chama perspectiva linear.

Neste quadro eu ouço o vento leve. Ouço a fala inocente da menina de vermelho. Sinto o amor que ela tem pela mãe, pois inclina a cabecinha em direção a ela. A gente se inclina para perto de quem a gente ama.

Adivinho a existência do lago à esquerda, abaixo dos eucaliptos, pois percebo que eles estão plantados num declive que vai baixando em direção às casas da Vila Tanque. E percebo a claridade entre essas árvores, é onde fica o lago, que não vejo. E sei que à direita do quadro, fora dele, há um grande descampado. Quem me conta isto é o eucalipto que cresceu inclinado, buscando a luminosidade do campo de futebol. As árvores também se inclinam para o que elas amam, e elas amam o sol.

Todo artista desenvolve seu trabalho sobre as coisas que ama. Seja para escrever, pintar, fotografar, esculpir, dançar, declamar, cantar, representar...

O que move o artista é o amor.



domingo, 27 de junho de 2021

Os pombinhos



A Auxiliadora e a Salete de repente apareceram pulando e cantando e os pombos fugiram tatalando as asas. Elas saíram da cozinha, pela varandinha do tanque, cantando a música que elas tinham inventado: “Bate bola, bate bola, bate bola na praia! Bate bola, bate bola, bate bola na praia!” e os pombos brancos, que já estavam quase entrando na arapuca, bateram as asas e foram embora.

Nossa! Decepção!. Claro que a Auxiliadora e a Salete, meninas que tinham acabado de entrar no prezinho da Vila Tanque, cheias de viço e alegria, não iam adivinhar a expectativa silenciosa dos caçadores, que éramos eu e o Bosco. Saíram de dentro da cozinha cantando e pulando e jogando a bolona de plástico. O Bosco ficou muito muito zangado, inconformado.

Fazia tempo que que a gente estava esperando uma oportunidade de prender aqueles pombinhos brancos! Pombinho branco, assim inteirinho branco, não era muito comum não.  O que a gente via muito em Coruputuba era uns pombos cinzentos, escuros, ou malhados. Pombos brancos eu tinha visto no andor de Nossa Senhora de Fátima, eram ensinados, não saíam de perto da imagem. E agora esses, que não eram pombos sem dono, eram do seu Dimas, pai do Victor, nossos vizinhos pulando umas três casas em direção à farmácia.

Aqueles pombinhos brancos a gente queria pegar para criar para nós. Para cortar as penas de uma das asas e prendê-los ali no cercadinho, até que eles se acostumassem com a nova residência. Quando as asas crescessem e eles pudessem voar de novo, não tinha importância, já teriam começado a construir seus ninhos, criar seus filhotes, não iam mais embora. Ficariam sendo nossos. Esse era o plano.  Por isto, tínhamos armado um caixote, meio levantado, com um graveto sustentando, e um barbante amarrado no graveto. O barbante vinha até as nossas mãos, que estávamos escondidos, agachados atrás da moita de erva cidreira, quase sem respirar, ali atrás do galinheiro. Milho debaixo do caixote.

Toda tarde passavam os pombos brancos, circulando no azul, e às vezes acabavam baixando no nosso quintal, procurando algum resto de alimento, quirera, milho, esquecido pelas galinhas nalgum cantinho. E naquele dia eles já estavam no chão do quintal, assim meio amedrontados, meio precavidos, iam indo para o lado do caixote, balançando as cabecinhas para frente e para trás. Eu e o Bosco, nossos corações batendo forte, nós lado a lado, olhando fixo para a caça. Eu segurava a ponta do barbante, esperando a hora em que eles entrassem debaixo do caixote para puxar o barbante, o caixote cair prendendo a linda caça. Depois, como que a gente ia tirar dali de dentro era outra história, ia ter que colocar um pano, algum cobertor, para poder pegar os pombinhos em segurança.

Mas as duas menininhas vieram de dentro de casa com “bate bola bate bola na praia” e bem contentinhas, não entenderam a nossa exaltação, o nervosismo do Bosco.  Falei: Bosco, não faz mal, não faz mal, outro dia a gente consegue.

E a gente conseguiu foi de um modo diferente, porque onde tinha pombo branco também era no telhado do escritório da fábrica. E uma noite fizemos o seguinte; pegamos alguns bambus compridos e algum arame e fomos até o escritório da companhia, que naquela hora estava escuro, pouco iluminado, e não tinha ninguém tomando conta. Entramos no espaço entre o escritório e a farmácia, na lateral do escritório, e os pombinhos dava para ver na meia luz. Os pombinhos brancos estavam assentados ali, numa espécie de platibanda do escritório, mas bem alto, e tinha também filhotes que já sabiam voar um pouco. Esses que a gente queria. Ali mesmo emendamos os bambus amarrando com arame um no outro até que ficou um enorme de um bambu, que podia alcançar quase que o telhado do escritório, mas mole-mole, balançava muito. Comecei a cutucar, meio que varrendo aquela platibanda da construção, com o bambu que vergava, não dava segurança, mas acho que caíram uns três ou quatro pombinhos, filhotes ainda,  já empenados, que não tinham prática de voar, ou então na escuridão não souberam voar e voltar para o lugar deles e vieram planando até o chão e nós já pegamos e já metemos no saco. Voltamos muito contentes para casa, arrastando aquele enorme bambu e com os pombinhos brancos quietinhos no saco.

Então esses pombinhos começaram fazer parte da nossa criaçãozinha. Que já tinha alguns pombos cinzentos, um pombo que era o Cinzão, de peito grandão, e a Cinzinha, muito linda, e também uma pomba preta. Os pombinhos brancos começaram a fazer parte do nosso bando de pombos, que nos deram muita alegria.

Depois alguns meses o nosso bando já era um dúzia de pombos que aprenderam a voar, mas não iam embora, porque estavam criando. Ou tinham filhotinhos ou estavam montando os ninhos no lugar aprovado pela fêmea, ou já estavam chocando os ovinhos, em revezamento.

Podíamos vê-los tranquilamente voar sobre as casas, sobre o cafezal, sobre a igreja, às vezes subir muito alto e dar muitas voltas, e o bando se separar lá em cima e de novo se juntar, lá longe, e sempre voltavam para nossa casa. Apesar da inevitável ansiedade do Bosco, que ficava nervoso, coitado, achava que algum deles estava demorando muito para voltar e que talvez tivesse acontecido alguma coisa, talvez tivesse sido caçado por alguém, ou tivesse se perdido.

E estava ficando tarde. As galinhas já tinham se recolhido, estava tudo calmo, quase que começava a escurecer. A vó fazia a janta, saía fumacinha da chaminé.

Mas os pombinhos sempre voltavam, ruflando as asas, invertendo a batida para a frente, baixando a cauda bem aberta, estendendo para diante os pezinhos cor-de-rosa, para refrear e pousar, e vinham se assentar primeiro no telhado da cozinha, perto da chaminé. Ajeitavam-se, majestosamente, acertavam as penas, tinham as suas discussõezinhas, os machos rodando em pião e arrulhando em torno de sua femeazinha, até que, generosamente, desciam para o nosso mundo, o nosso quintal, e procuravam os seus ninhos.

Então o nosso júbilo era imenso, porque era como se nós tivéssemos voado sobre a fazenda, como se uma parte de nós soubesse voar, porque o nosso pensamento estava na cabecinha daquelas pequenas aves, os nossos olhos estavam nos olhos delas, nossos braços eram aquelas magníficas asinhas, com penas reguláveis para subir e para descer, para circular e para mudar repentinamente de rumo. Como se, por alguns instantes, tivéssemos podido olhar o nosso bairro lá de cima, lá de cima, igual os nossos pombinhos faziam.

O Bosco ficava contente. Não precisava que eu falasse: Viu, voltaram todos, não tinha que ficar preocupado não.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Foto: Internet


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A menina de vermelho



Criei muito carinho pela menininha de blusa vermelha. Meu Deus, que doçura tagarela! O que tanto perguntava? O que tanto contava? Nada pedia, só a atenção da mãe. Que pensava em outras coisas, da vida. Para poder continuar mantendo o seu tesouro assim mesmo: tagarelando, contando, perguntando.

A menina de blusa vermelha! Inclina a cabeça na direção da mãe. E é assim mesmo. Você se inclina para perto de quem você ama. Você se inclina para longe de quem lhe dá medo.

Vesti a menininha de vermelho e essa ficou sendo a única cor quente na composição. Tão pequena, no meio de gigantescos eucaliptos. Tive de fazê-la em vermelho, para atrair os olhares. Sim, tem a Cooperativa, em rosa. Mas rosa fraquinho, lá longe... Está bem então. No meio do verde e do bege, valorizando cada passada, como um passarinho, levando a preciosa bolsinha de couro, que ganhou no Natal e, como não tem onde usar, usa todo dia, a menina em vermelho vai para o armazém em rosa.

Para ler, no maior quadro negro do município, a lista de preços. Que inclui sete ou seis qualidades de açúcar. Mascavo, cristal, preto, refinado, demerara...

Menina de vermelho, você foi feliz?

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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Pintura a óleo sobre tela: Paulo Tarcizio


domingo, 21 de junho de 2020

INDEFESOS


De tanto ler e ouvir histórias de ilhas perdidas e recantos secretos na mata, os dois meninos inventaram de fugir de casa de noite e ir morar no bambuzal. Nem tinham ideia da profundidade do bambuzal. Passavam por ali todo dia, para ir buscar leite na fazenda.

Lugar bonito. Uma estrada sobre o aterro que ampara a Lagoa. Do outro lado, um bambuzal que ampara o aterro. Uns dez metros de largura, essa plantação de bambus, segurando o declive. Para os meninos, parecia uma selva.

Oito anos e seis anos. Oito anos era o Zaga. Eu, tinha seis anos e era bem miúdo. Não havia motivo nenhum para fugir de casa. E nunca faríamos isto. Sair na rua à noite! E onde íamos morar? Tudo fantasia, para incrementar as conversas noturnas, como ia ser emocionante.

Começamos, porém, a tomar providências, como se fosse tudo de verdade. Ajuntamos tábuas, umas duas, alguns pregos tortos e enferrujados -- mas nós nem sabíamos manejar um martelo!. Cada um queria fazer mais bonito. Olha, guardei esse pedaço de pão do café de hoje! Ah, e eu apanhei estas ameixas, meio verdes, para a gente levar.

Isso podia prosseguir por meses, até que perdesse a graça e fôssemos inventar outros planos, como construir um avião de tábua, por exemplo. Mas eram oito irmãos. Como controlar esse universo? Alguém brigou com alguém que resolveu contar alguma coisa para a mãe. Em represália, alguém resolveu contar para alguém, que contou para a mãe que dois dos meninos estavam para fugir de casa para ir morar no bambuzal.

A mãe contou para o pai.

Podia tudo acabar em gargalhadas. Podiam os meninos de oito e seis anos serem chamados aos colos adultos, podiam ser alvo de pilhéria (e as onças?), e o assunto acabava.

Mas o pai tinha sido educado em seminários (Provérbios 13,24: “Quem poupa a vara, odeia o seu filho; quem o ama, corrige-o prontamente.”). A mãe foi ao pé de amora, colheu uma linda vara e a foi depenando das folhas, para açoitar o Zaga. O pai achou que era o momento sagrado das cintadas no menino menor, eu. Um fisguelinho de seis anos, que nem bunda tinha. Desce as calças. E na bundinha pelada do molequinho de seis anos começaram a cantar as cintadas, aplicadas com o cinto dobrado.

Mas naquele dia foi diferente. Não sei dizer como foi que resolvi, mas resolvi:  Não vou chorar nem gritar, eu não fiz nada para apanhar. E comecei a contar as cintadas que levava. Estava no primeiro ano. Sabia contar. Fui contando alto, gritado, um, dois, três, quatro... nenhuma lágrima. Os irmãos rodearam, na varandinha do tanque. A vó veio ver. A mãe também veio ver, já tinha castigado o Zaga. Mas aquilo era muito esquisito. Um menino pequeno apanhando sem chorar e ainda contando em voz alta as pancadas que levava. E falando errado, ainda tinha a língua presa, não sabia falar o “r” intercalado, deve ter saído assim, um, dois, teis, quato... 

E de repente o pai largou de mim, levantou-se, parecia sentir-se mal. Foi para dentro, arrumando o cinto, fechou-se no quarto. Os irmãos vieram ver as marcas da surra (“Deixa eu ver as bolacha!”), mas eu não quis mostrar não. Levantei as calças, estava com vergonha. Estava espantado. Tinha descoberto que se eu não chorasse parece que a surra parava.

Não se falou mais no assunto. Eu já tinha levado outras surras do pai e da mãe. Não lembro direito, mas acho que depois disto, o pai não bateu mais nas crianças. Em mim ele não bateu mais.

Quase três anos depois, o pai foi internado na Santa Casa. Estava doente do coração. Levado pelo Carlinhos, meu irmão primogênito, eu fui visitá-lo. Não queria ir, não sabia o que falar. Ele estava deitado, me abraçou, quis me beijar, a barba mal feita me cutucou, respondi alguma coisa sobre a escola, provas... Saímos logo. Eu estava aflito. Uma semana depois ele morreu, de enfarte.

Trinta anos depois, acordei de noite com uns barulhinhos. Adivinhei. Fui ao quarto da Simone, quatro anos. Ela estava arrumando roupinhas na mochila, tinha pegado o ursinho. Quando me viu, sentou-se na cama. Procurei ser doce na voz e no olhar, falando bem baixo: Filhinha, você estava fugindo de casa? É por que a gente tirou a chupeta de você?

Ela fez que sim, me abraçou e ficamos chorando juntos. Conversei com ela, sobre esse negócio de chupeta, dentição, essas estórias. Ela estava cansada, não tinha dormido, arrumando sua mudancinha. Depois foi sossegando, deitou, ficamos abraçados. E ela dormiu. Fiquei olhando a menininha morena, pensei: Meu amor. Pensei mais: É pecado bater numa criança. É um bichinho que Deus colocou nos braços da gente, para a gente cuidar, cuidar.

Hoje, lembro das duas coisas juntas. Meu pai me batendo com raiva e sem motivo. Eu querendo consolar uma menininha de quatro anos que estava pensando em fugir de casa.

Aí eu fico com dó de todo mundo. Com dó do menininho que eu era, que tinha seis anos mas nem sabia falar direito, que ainda mijava na cama, mas, sem ter feito nada de errado, apanhou duramente de um homem muito forte, que bateu no seu corpinho descarnado, quase osso, bateu com o cinto de couro, dobrado.

Da Simone eu não fico mais com dó, porque Deus foi generoso comigo e me deu tempo de contar para ela as minhas angústias e ela também foi muito compreensiva e me consolou, como se fosse eu a criança espantada.

Fico com dó do Zaga, que apanhou com vara de amora. Dói muito, quase corta. E penso. As maiores dores que sentimos, desde a infância, nos são proporcionadas pelas pessoas que mais amamos.

No meio de tanto dó, me brota também uma admiração pelo menininho que eu fui, me dá um orgulho pelo molequinho que, sem chorar nem pedir socorro, descobriu sozinho que tinha poder para brecar a investida de um homem grande.

Mas então me lembro que ele era um homem bom, que pegava a gente no colo quando vinha um cachorro bravo. Então eu sinto dó desse homem forte, que morreu tão depressa, aos quarenta e três anos.  Dó, porque, na cama do hospital, em sua última semana de vida, queria me abraçar, e eu escapei do seu abraço...

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes