O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

NO BANCO AZUL

 


        Para... reavivar a saudade! No jardim da nossa casa, na Avenida Doutor Cícero Prado, n. 8, em Coruputuba. Talvez em 1966 ou por aí. Agachado, com a gaiola do periquito, João Bosco. Sentados: Francisco Carlos, Angelo Crepaldi, José Pedro, Ditinho Araújo, Luiz Gonzaga, Paulo Tarcizio. Atrás, com as filhinhas-bonecas, Maria Salete e Terezinha Crepaldi. Quem tirou a foto? Certamente a Ana Clara. Cadê a Maria Auxiliadora? Talvez seja ela quem tirou a foto, e a Ana Clara estivesse na Farmácia. Eu tinha 19 anos e estava no 3º Ano do Curso Normal, quase me formando professor. Para ser que nem o nosso pai, que falecera em 1956.
        O banco tinha sido feito na Carpintaria da Fábrica para nosso pai Francisco Fonseca Marcondes acomodar os alunos do Curso de Adultos, que funcionava na nossa casa mesmo. Sobrou esse banco azul, os outros três tinham sido recolhidos pela Fábrica.
        Hoje não estão mais conosco o Francisco Carlos, o José Pedro, o Ditinho Araújo, o Zaga e o Bosquinho. E nem a Ana Clara, que lidava para curar tanta gente na Farmácia.
        Jesus permitiu que continuássemos por ora na superfície do planeta: Angelo, Auxiliadora, Salete, Terezinha, Ritinha (que ainda ia demorar para nascer) e eu.
        Fiquei para contar as histórias desse lugar mágico e dessas pessoas preciosas. Amém. E amem!
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto Maria Auxiliadora da Silva Marcondes
Em Coruputuba, Pindamonhangaba/SP

domingo, 26 de maio de 2024

Controlando os moradores do paraíso

 

A Cooperativa e a Pensão, no Largo



Era mesmo um paraíso, dizem os antigos moradores de Coruputuba. De fato, a Fazenda Coruputuba, construída em torno da fábrica de papel, dispunha de todas as comodidades para as famílias dos funcionários. As famílias tinham acesso a muitos benefícios totalmente gratuitos, como ambulatório médico, atendimento odontológico, enfermaria, atividades sociais e esportivas, cinema, distribuição diária de leite, moradia com água encanada e energia elétrica, iluminação pública, grupo escolar e ginásio, permissão para catar lenha nos eucaliptais, criar animais no quintal, cultivar hortaliças e frutas...

E havia também o comércio e fornecimento de serviços autorizados pela companhia: armazém, bar, padaria, barbearia, pensão, açougue, farmácia, leiteria e muitas pequenas lojas de variedades que alguns moradores abriam em suas casas, ou fornecimento de serviços de barbearia, cabeleireira, sapataria, consertos de bicicleta, solda elétrica e vários outros, que eram feitos nos quintais dos moradores, ou nos quartos de solteiro. Meu pai mesmo, e mais tarde os meus irmãos, deram aulas particulares na varanda de casa.

Todos esses benefícios fornecidos pela Companhia tinham seus objetivos práticos. Principalmente a segurança do patrimônio e o controle social.

O patrimônio da Companhia era muito valioso. A fábrica de papel, mais tarde de celulose também, com equipamentos caríssimos, estoques muito valiosos. Também as obras de engenharia civil, as represas com grande estoque de água para os processos produtivos, as linhas de transmissão de energia elétrica, tudo devia ser protegido. Quem podia garantia a segurança de todo esse patrimônio? Quem podia proteger a fábrica, as represas, os eucaliptos?

Eram os moradores. Sem  moradores, a fábrica, os eucaliptos, os cafezais, os arrozais, o gado leiteiro, a escola, o clube, o armazém, tudo estaria indefeso, entregue a invasões, furtos e destruições.

Os planejadores de Coruputuba colocaram as vilas nos lugares estratégicos, em volta da fábrica, nos acessos aos grandes eucaliptais e nas entradas pelas rodovias e pela ferrovia.

Nos limites de Coruputuba com Moreira César ficavam a Vila Figueira e a Vila Bela Vista. Nos limites com as terras próximas da Estrada de Ferro Central do Brasil ficavam as grandes Vila Maria e Vila Esperança. Vilas menores se espalhavam entre essas duas maiores.

Protegendo o acesso ao Primeiro e ao Segundo Tanque, era a Vila Jacarandá. Vigiando o Terceiro Tanque, era a Vila Tanque, depois chamada de Vila São José. Rodeando o centro de convivência, com a Igreja, Farmácia, Campo de Futebol, Quadra, o Largo, Pensão, Cooperativa, Escola, Açougue, ficava a Avenida Alberto Simi, com a Rua São Pedro e os Quartos de Solteiros.

Em volta da fábrica se estendiam a Rua Nossa Senhora Aparecida, a Avenida Cícero Prado, a Praça Industrial e, nos fundos do terreno da fábrica, a enorme Vila Campineira e a Vila Bela, desmanchada para construção da fábrica de celulose. Protegendo o acesso da Fazenda pela Estrada Rio-São Paulo, ficava a Avenida Coruputuba, que hoje é estrada municipal.

Essa disposição estratégica das vilas facilitava que os próprios moradores tomassem conta da imensa propriedade da Companhia, ficando atentos a qualquer movimentação de veículos desconhecidos ou de pessoas estranhas e mal intencionadas.

Os moradores tinham que se sentir bem. Por isto a Companhia lhes garantiu tantos benefícios. O principal benefício foi a moradia gratuita. Morar perto do emprego, isto é muito bom para o trabalhador e sua família. Além disto, não pagar aluguel, ter garantia de água encanada, energia elétrica, iluminação nas ruas, manutenção da casa. Poder morar num lugar seguro, com todos os recursos de uma pequena cidade. Isto é muito valioso para o trabalhador.

E isto era o primeiro item do controle social. Aquela grande comunidade era formada por milhares de pessoas que se comportavam dignamente, educadamente, com raríssimas ocorrências desagradáveis. Milhares de pessoas que trabalhavam bem e não davam trabalho para a administração.

Ao primeiro sinal de comportamento desregrado, o trabalhador era chamado para uma conversa e, se não fosse ameaçado de perder o emprego, podia ser ameaçado de perder a casa - e isso nenhum trabalhador queria, nenhuma família queria. Perder a casa significava ir morar na cidade e viajar todo dia para ir trabalhar na fábrica. Ter de pagar aluguel na cidade e perder todas as comodidades que tinha conquistado para sua família.

A grande comunidade coruputubense era pacífica e disciplinada. As famílias usufruíam dos benefícios disponíveis, respeitando as regras e as recomendações.

Uma vez parou em frente de casa um senhor de bicicleta, bateu palmas, quando atendemos ele falou: Olha, vocês esqueceram de apagar a luz da varanda!.

Vejam só. Não era um guarda. Era um morador de outra vila, pessoa que a gente nem conhecia. Estava cumprindo o dever dele, de nos avisar. Nós agradecemos e nunca mais deixamos a lâmpada acesa de dia.

Meu pai, contratado pela Companhia, dava aulas noturnas para os trabalhadores que não tinham completado o primário. E era importante que todos os trabalhadores fossem ensinados a ler e escrever. As máquinas modernas que estavam sendo instaladas na fábrica tinham instruções para montagem e operação, precisavam ser manuseadas por quem soubesse ler os manuais.

Houve um tempo em que as aulas do meu pai eram dadas numa sala do grupo escolar. Depois, passaram a ser na nossa casa, as mesas de tábua e os grandes bancos ocupavam a sala e um dos quartos. Papai fazia a chamada, distribuía os cadernos, passava as lições no quadro negro, explicava, tirava as dúvidas, dava as tarefas para casa.

No dia seguinte, cedinho, levava para o chapeiro o resumo da chamada. Os alunos que tivessem faltado à aula tinham o cartão de ponto retido. Se não tivessem motivo justificado para a falta, tinham desconto no dia de trabalho. Isto fazia parte do controle social da Companhia, que estava pagando a alfabetização deles.

Numa época em que todos os fogões ainda eram a lenha, todos podiam lenhar debaixo dos eucaliptos, mas era proibido catar pau de lenha da grossura de uma garrafa. Os eucaliptos eram importantes para servir de combustível para as caldeiras da fábrica. As árvores que fossem cortadas pelos trabalhadores eram picadas e os paus empilhados corretamente, para serem transportados. No meio do eucaliptal encontrávamos essas pilhas de paus bem organizadas, com uma lista de tinta branca cobrindo a pilha de fora a fora, para evitar que alguém retirasse algum dos paus para levar para casa para servir de lenha.

Era a Companhia exercendo o controle social da população.

Tudo que era da Companhia era preservado por todos os moradores. Mesmo os moleques que andavam com estilingues podiam até dar pedradas nos cachos de coquinho, mas nunca atiraram contra as lâmpadas dos postes. Isto seria muito grave, a família seria punida pela Companhia.

A casa e o quintal de cada família era como se pertencesse mesmo àquela família. Ninguém entrava sem ordem. Mas, em caso de necessidade, a Companhia mandava funcionários tomar providências. No fundo do nosso quintal havia um belo coqueiro, atrás da última bananeira, quase encostado no muro da fábrica. Um dia encontramos o coqueiro caído, cortado quase pela raiz. Entendemos o que aconteceu. Funcionários da fábrica pularam no nosso quintal, certamente com escada, e derrubaram o coqueiro, porque ele já estava encostando na fiação elétrica dos postes da marcenaria.

E estava certo. Tudo tinha que ser feito para preservar a fábrica, que era a fonte de sustento de todos os moradores.

Coruputuba era isso. Uma grande comunidade, onde todos se sentiam responsáveis por todos, cuidando da preservação dos progressos conquistados.

domingo, 10 de setembro de 2023

A Vó de Pinda

 

Casa da Vó de Pinda, na Rua Gregório Costa. 
Do tempo antigo só sobrou essa casa na Gregório Costa. 
A entrada era pelo portãozinho no lado esquerdo.


Meu pai, o Professor Francisco, era filho de Francisco Carlos Marcondes e Maria Clara Fonseca Marcondes.

Infância de meu pai foi na Fazenda Itapecirica, em Taubaté. Adolescência dele foi estudando no Seminário Diocesano de Taubaté. Deu aulas, mais tarde, no colégio desse mesmo seminário.

Depois, quando já estava casado com minha mãe, ele trabalhou como operário na tecelagem da CTI, Companhia Taubaté Industrial, onde ainda existe aquele enorme relógio que dá para ver da Dutra.

Não conheci o meu avô paterno, Francisco Carlos Marcondes, o Nhonhô Marcondes. Era dono de um comércio em Taubaté, no Bairro de Itapecirica. Ele faleceu vários anos antes de eu nascer. Mas conheci a minha avó paterna, Maria Clara Fonseca Marcondes. Era a "Vó de Pinda", para diferenciar da nossa avó materna que morava conosco. A vó de Pinda tinha se mudado de Taubaté para Pinda.

Mudou-se para Pinda para acompanhar o seu filho caçula, o Jota Marcondes, menino ainda, que tinha vindo trabalhar na farmácia do Seu Arlindo Paim (onde hoje fica a Churrascaria Gramado, perto do Largo do Cruzeiro).

Além do meu pai, Professor Francisco, e do Jota Marcondes, a Vó de Pinda tinha também os seguintes filhos, todos nascidos e criados em Taubaté: Geraldo, Maria, Luís, Nazaré (Dala), e Aparecida.

Tio Geraldo morreu moço, de doença. Grande tristeza foi o meu Tio Luís, que morava em São Paulo e trabalhava na Light. Foi desligar uma chave de alta tensão, que ele não sabia que estava energizada. Foi jogado longe. Agonizou no hospital quase vinte dias.

Tia Maria foi casada com Seu Durvalino e era mãe de minhas primas Janda e Heleninha. Morou muitos anos numa casa em frente ao Rodrigo Romeiro.

Tia Cida foi morar em Coruputuba e, depois, na Vila São Benedito. Era casada com o Seu Sebastião Enfermeiro e era mãe do meu primo Valério.

A Vó de Pinda morava na Rua Gregório Costa (rua que começa no largo de São José e vai em direção à estão de trem). A casa onde ela morou ainda está em pé.

Eu tinha uns cinco ou seis anos quando fui com a mãe visitar a Vó de Pinda. O que ficou na minha lembrança foi a escuridão da casa. Não tinha tantas janelas como a nossa casa de Coruputuba, sempre arejada e clara.

Na cozinha, um fogão a lenha, com os tições crepitando. Com uma chaleira esquentando e, no canto, um bule bonito, meio velho, era um bule de esmalte verde com flores azuis. Nós falávamos na época: era um bule de ágata.

As paredes pretas de fuligem, o telhado enegricido de picumã, a iluminação natural entrava por uma telha de vidro lá em cima. A vó estava passando roupa com um ferro grandão e pesado. Ela puxou umas brasas do fogão, encheu o ferro e ficou balançando, para manter as brasas acesas.

A chaleira ferveu, ela passou café no coador de pano, tomei o café gúti-gúti, numa caneca de folha e depois me sentei na soleira da porta da cozinha, mastigando um pedaço de pão.

Alguém pode estranhar eu dizer que tomei café gúti-gúti. Isto quer dizer, beber de uma vez toda a caneca de café para só depois comer o pão. As crianças faziam assim. Só os adultos que ficavam dando uma dentada no pão e bicando gole de café.

Comi o pão e falei pra mãe: “Mãe, tô precisando”. A vó escutou e mandou eu ir na casinha, no fundo do quintal. Antigamente falavam assim: casinha, em vez de falar banheiro. Na "casinha", a privada era de buraco.

Fui lá fazer o que eu tinha que fazer. O quintal, saindo da porta da cozinha, ia baixando, todas as casas da rua eram mais altas do que os quintais. Vejam que a Rua Gregório Costa fica num tope de morro, os quintais vão descendo para o fundo do quarteirão.

O quintal tinha uma horta pequena, cercada de taquara por causa das galinhas. Uma ou outra bananeira e nas beiradas crescia capim e uns pés de mamona.

No fim do quintal, lá embaixo, uma cerca separava do bambuzal da beira do ribeirão. Hoje eu sei que o ribeirão que passava ali era o córrego do Tabaú. Bom, ainda passa, mas passa canalizado, debaixo da Alfredo Valentini e da Coronel José Francisco.

Papai não foi nessa visita que fizemos para a Vó de Pinda. Não dava para sair todo mundo de casa, e ele dava aula de tarde.

Talvez em 1960... não sei. A vó de Pinda mudou para Lorena, foi morar lá com a Tia Dala (Maria Nazaré), que trabalhava num hotel. Fui lá uma vez, com minha mãe (nosso pai já tinha falecido). Fomos na casa da vó, com um quintalzinho na frente da casa. Ela tinha uma galinha que obedecia tudo que ela mandava: Vem beber água!, vai ciscar no quintal!, vem pra dentro! A galinha dormia dentro de casa. Parecia um cachorrinho obediente, a vó ficava conversando com ela.

Depois fomos ver a Tia Dala no hotel. Uma escada alta, alta... degraus de madeira envernizada.

Quando a vó de Pinda - que já era Vó de Lorena - ficou doente, minha mãe foi passar algumas semanas com ela, para tomar conta, dar os remédios, conversar. A nossa avó paterna, Dona Maria Clara Fonseca Marcondes, morreu em 1963.

Minha mãe não foi ao enterro em Lorena, mas o Zaga foi. Ele já era mocinho, tinha dezoito anos, estava no Científico.

Depois ele me contou da casa, que eu já tinha conhecido antes dele. E me contou uma coisa que fiquei com dó. A galinha mansa não queria ir para o quintal, quis ficar no velório, ficava rodando pela sala, procurando...procurando... acho que querendo escutar aquela voz que ela tanto obedecia...

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Lições do Professor Alexandre

 

Professor Alexandre Machado Salgado


Bem antes de entrar para o ginásio eu já conhecia de nome o Professor Alexandre, que era tio do Seu José Salgado, farmacêutico em Coruputuba. Seu Salgado era marido de minha professora de primeiro ano, Dona Maria Amélia, e era chefe da minha irmã Ana Clara. Mas voltemos ao Professor Alexandre: os meus irmãos Pedro e Zaga, algumas séries na frente, falavam sobre a seriedade do mestre de Latim. Fui conhecê-lo pessoalmente no exame de admissão, na prova oral de Português.

Tendo sido aprovado nos exames escritos, peguei o ônibus do Seu Ciro Valentini e fui para a cidade. Aguardava na fila a minha vez de ser chamado. E ali, na escada em caracol do velho prédio do Instituto, hoje Museu, fiquei conhecendo a Catarina e a Vera, filhas do doutor João de Deus. Companheiros de apreensão, fomos chamados para a sala de exame. À mesa, aguardando a demonstração dos nossos conhecimentos, a banca formada pelos mestres: Professora Terezinha e Professor Alexandre.

Os pequenos candidatos esperavam nas carteiras a vez de se apresentarem para ler um texto e responder a três perguntas de cada examinador.  Sentado na primeira carteira, bem diante da mesa, não me contive quando vi que a Vera, sendo questionada a respeito de preposições, estava hesitando... Para fazer bonito, e pensando que os professores não estavam atentos, comecei a fazer sinais para ela, querendo contar a resposta. Fui apanhado no pulo, o olhar penetrante do Professor Alexandre me paralisando. Pediu minha ficha, olhou e me disse pau-sa-da-men-te: Muito bem, Senhor Marcondes, o senhor está querendo mostrar que sabe, não é? Pois na sua vez o senhor vai ter oportunidade de mostrar o seu conhecimento: Vou lhe fazer algumas perguntinhas extras... Gelei, vi que o professor tinha ficado vermelho, achei que ele estava com muita raiva. De repente, me deu saudade de casa, do quintal tão sossegado... Mas já era a minha vez. Li o texto para a Professora Terezinha, que me fez as três perguntas regulamentares, respondi certo, meio automático. Mudei de cadeira, agora fiquei pertinho do Professor Alexandre.

Ele me fez três perguntas. Respondi, nervoso, mas respondi certo. Só que ele não parou: continuou me fazendo perguntas, uma atrás da outra. Fui rebatendo, estava bem preparado. Foram umas dez perguntas, até que ele me disse: O senhor está dispensado, pode sair. Saí, pensando que tinha posto tudo a perder. Todo o meu esforço em estudar, ler... justo num ano em que tinha ficado doente e não pude acompanhar direito o preparatório da Dona Orlinda. Nossa Senhora, e a expectativa de Mamãe... Será que vou repetir no exame de admissão, e tudo por causa da minha bobeira, querendo fazer bonito para as meninas da cidade. Claro que o Professor Alexandre vai me dar uma nota baixa, para me castigar.

Quando o resultado saiu, estava lá a minha nota, datilografada em vermelho: dez. Foi isto: o Professor Alexandre apanhou um aluninho fazendo uma arte feia, mas castigou-o somente com a repreensão, com o olhar. E com as perguntas extras. Não abaixou a nota, respeitou a demonstração do conhecimento: colocou-se acima de sua própria irritação e me deu uma lição de justiça.

Foi meu professor de Latim por dois anos. Não encontrei dificuldade: era coroinha e estava acostumado a dialogar em latim com os padres, no ritual das missas. Na terceira série do ginásio, foi meu professor de Português: redação toda semana. Adorei, poder escrever, escrever... produzir textos que depois eram valorizados porque eram lidos pelo professor em voz alta para a classe, acrescentando comentários, sugestões... Só que eu faltava muito às aulas, estava preferindo ficar recolhido na roça, tratando da cabra, do porco, olhando os pombos... Hoje sei que aquilo era depressão, durou quase um ano. Faltei a mais de uma prova do Professor Alexandre – e ele ficava irritado com isto. Então, após perder mais uma prova, lá fui eu: Professor, faltei na prova, dá para o senhor dar outra? E ele, decidido: Muito bem, pode se sentar, aqui na primeira carteira. Tire uma folha do caderno e escreva uma carta. O tratamento é Vossa Majestade. O tema é: o cabo do guarda-chuva.

Sentei-me. Tirei uma folha. Perguntei: Professor, posso pegar o dicionário? E o Professor Alexandre ficou mais calmo de repente e condescendeu: Sim, pode. E eu escrevi uma carta ao rei, apresentando-me como humilde súdito que morava pertinho de um dos quartéis do exército do reino. Claro que o rei desconhecia as irregularidades, mas os soldados aprontavam muito – e fui discorrendo, respeitosamente. Terminei por contar que um dos militares, um simples cabo, aproveitava-se do estado geral de indisciplina e sempre saía à paisana, um janota, carregando – à guisa de acessório elegante – um guarda-chuva. A vizinhança já lhe dera o apelido de O Cabo do guarda-chuva... Foi mais uma nota dez que o Professor Alexandre me deu. Apesar de estar ainda zangado com as minhas ausências.  

Aos domingos, eu ia com o Zaga à cidade para assistir à missa na Matriz, mas não era pela missa. Missa havia em Coruputuba. É que, depois da missa, o Professor Alexandre tocava o órgão. Ficávamos sentados na penumbra da igreja – enquanto as notas musicais de Bach voavam ligeiras junto ao teto, como pombas cheias de desejo de liberdade, querendo escapar pelos vitrais...

Os anos se passaram. Perambulei. Voltei para Pindamonhangaba. Meu professor tinha se aposentado havia tempos, mas continuava, imaginem, não lecionando, mas estudando. Quase todo dia consultava livros e dicionários na biblioteca pública. Várias vezes o incomodei com consultas: Professor, como é mesmo aquele provérbio em latim... E ele, sempre calmo e atencioso, me explicava que no momento não se lembrava, mas ia pesquisar e me ligava de volta. E assim fazia, ligando e tirando minhas dúvidas. A penúltima vez em que estive com ele foi num concerto na Faculdade de Música.  Entreguei-lhe um poema em homenagem ao trabalho do mestre. Alguns dias depois, no supermercado, nós nos encontramos e ele me devolveu o poema, agora vertido para o latim: foi nosso último encontro.  Mas naquela noite na Faculdade ele me disse que professor de Português precisa dar redação toda semana. Acrescentou: Se não der para corrigir, não faz mal. Importante é dar muita oportunidade para o aluno escrever.

Quando o Professor Alexandre Machado Salgado faleceu, perdi uma referência. Senti sua falta do mesmo modo como senti a falta de Papai. Mas a falta de Papai eu senti de uma vez só, num baque. A falta do Professor Alexandre fui sentindo aos poucos, cada vez mais, cada vez que pretendia fazer uma consulta sobre latim, cada vez que queria conversar sobre literatura, sobre outros tempos, outras culturas, outras línguas...

Olho para a cidade: não vejo mais passar o meu professor, de cabelos brancos e andar tranquilo, e isto me deixa triste. Nossa cidade vai perdendo suas referências, seus marcos, os seus alicerces éticos.

Já se passaram tantos anos sem o Professor Alexandre! Mas guardei as suas lições. Aquele professor tão sisudo, severo, em mais de uma ocasião mostrou que o mestre deve sim repreender, punir quando necessário. Mas não pode continuar punindo para o resto da vida. Há o momento de superar suas irritações, zangas, por mais justas que sejam, e olhar com isenção para o aluno que está ali, diante dele, e premiar o esforço que sucede o erro.

Enquanto cumpria o seu modo coerente de viver, discretamente, ele me ensinava como deve ser um verdadeiro educador.

* * * * * * *

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, no livro Aconteceu na Escola, 2012.

Professor Alexandre é o segundo a contar da esquerda

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

ALCINDO NÃO ESTÁ




Coruputuba em tarde de sábado

Fui ver meu irmão e a cirurgia estava marcada para daí a dois dias, e não dava para saber que nosso prazo estava se esgotando muito depressa. Mas ele não queria conversar nada de metafísico. Queria conversar sobre Coruputuba, ir lembrando assim casa por casa, as pessoas, tinha mais ninguém pra gente falar disso. Ué, mas então vamos falar! Quer ver uma coisa? Lembra disso: “ALCINDO NÃO ESTÁ”? Claro que lembro, aquela plaquinha que ele punha na varanda. E eu lembro disso todo dia, sabe que hora? Quando tenho que sair do escritório, que não vou poder atender quem chegar, eu penduro uma plaquinha assim: “Fui ao Fórum”. Só que ponho o número do meu celular. Quando a gente ia cortar capim no cafezal atrás da casa dele, eu gostava de ver o cavalo dele, na cocheirinha. ‒ Isso. Era um ranchinho, com a charrete. Mas ele saía muito era com a bicicleta. Ah. Pra vir correndo atrás da gente que estava dando estilingada no cacho de coquinho. Vinha apitando!
Mas Bosco, você lembra que gostoso nas tardes de sábado? Quando o pessoal do Seu Alcindo varria as folhas secas em volta do campo? Nossa, até hoje lembro, quando sinto cheirinho de folha de eucalipto queimando. É, ficava uma fumacinha azulada, demorava... E as casas da nossa rua, Paulo, vamos ver. A primeira casa.
Era a casa do Seu Totoizinho e da Dona Marina. Lembra o nome de todo mundo? Não. Eu lembro do Aurélio, do Ademir... O Lélo, certo? E o Mica. Tinha mais gente. O mais velho acho que você não lembra, Bosco. Era o Toninho, que casou com a Nilce Duran. Não, não lembro. Lembro da Dirce. Sim, a Dirce, a Cenira... os menorzinhos não lembro. Nossa, a gente era bobo. Eles ficavam brincando no tanquinho dos patos e a gente falava que eles tinham piscina... Dava inveja... Olha, foi na casa deles que a gente viu coelho pela primeira vez na vida. Eles falavam que era lebre.
Bom, vamos andar mais, a segunda casa, quem que era? Ué, do Seu Enéas, que a gente ia assistir televisão. A mulher dele, lembra? Não. Lembro da Maria Amélia.  Então, a mulher do Seu Enéas era a Dona Sinhá. Tinham um filho grande, lembra? O nome não lembro. Lembro que ele andava de bicicleta, de camiseta branca. Era o Valdemar. Que tinha a história do cachorro dele. ‒ ?  O cachorro que salvou a vida dele. Ele sempre ia pescar no primeiro tanque e o cachorro latiu, tinha um jacaré no meio do capim, atrás do Valdemar. O jacaré avançou, catou o cachorro e entrou na água. Ah, a gente viu o jacaré, quando mataram. Foi. Puseram na caminhonete, tiveram que dobrar o rabo para caber na caçamba. Um baita de um jacaré. Bosco, esse jacaré está empalhado, fica no escritório do Patrick. Tinha uma moça também, fora a Maria Amélia.  Era a Dagmar. O Seu Enéas era irmão do Seu Alcindo. Lembra a família do Seu Alcindo? Não.
A mulher do Seu Alcindo era a Dona Eulália, professora. Tinha uma filha, uma moça bonita, professora também, era a Rute. Quando lancei o meu livro consegui contato com ela, estava morando em São Paulo, tinha uns oitenta anos. Comprou o meu livro. Passei o telefone dela para o Zaga, que foi aluno dela no primário. Eles conseguiram conversar, trocar carta, sei lá. Ela já morreu.
E a próxima casa? Seu Sebastião Leite. Não, tinha uma antes. Aquele bloco tinha três casas. A do Seu Enéas numa ponta e a do Seu Sebastião Leite na outra. No meio tinha uma casa que não tinha acesso para o quintal. Não lembro. Era a casa da Dona Basta. O marido dela era caçador, tinha uns cachorros bonitos, perdigueiros. O Seu Sebastião Leite tinha uma filha. A Fia. E um menino. Não lembro. Lembro da vendinha que eles tinham, eu ia lá com a Ana Clara, comprar linha, agulha, sianinha, dedal...
Depois vinha a casa do Seu Dimas. Que tinha os pombinhos. Lembra do filho deles? Não lembro o nome. Ué, era o Vitor. Ele ia em casa para aprender latim. Não sei se com o Pedro ou o Zaga. Depois vinha a casa do Seu Alberto Duran. Dona Antônia. Carlos Alberto, Edson, Miguel, Neide, Toninho... Depois os nossos vizinhos, o Seu Luis Crepaldi, Dona Teresinha, a Sueli, Teresinha, ... Nunca mais vi o Ângelo!
Depois da nossa casa, vinha a casa do Seu Moacir Amarante. É, Dona Tereza Amarante, Doroti, Zezé, Miltinho, Leninha... Reparou? Três Teresas vizinhas: Dona Teresinha Crepaldi, a nossa mãe e a Dona Tereza Amarante. Sim, mas antes dos Amarantes, quem morava lá? Não lembra... Seu Dolivo e Dona Maria Varela. Ah é. Washington e Robinson. Depois, o Renato, a Márcia... a Miriam... sim, filhos da Dona Anézia. E na ponta? O Seu João da Ponta.... da cesta de natal.
Tá bom, me ajuda a levantar, quero te mostrar o quintal.
Tá vendo aqui, meu computador. (Pensei, caramba, nesse computador ele já pesquisou tudo sobre a doença...).
Ah, o quintalzinho gramado, pé de laranja, hortinha, do outro lado do muro, o bambuzal balançando, a paineira com bem-te-vi... Depois, fomos ver o jardinzinho: olha, aquela primavera não é trepadeira, é de pendurar. As flores, bonitas no sol da tarde. O canarinho, na varanda, cantava baixinho.
Quando voltei, depois da cirurgia, a conversa não prosperou. Falei bastante, ele olhava para o teto. Concordava um pouco comigo. Lembrei de novo da história do Alcindo não está, acrescentei o capim d’angola que a gente procurava para os coelhos e para a cabra. Sim, ele concordava. A próxima vez já foi na Santa Casa. Eu falava sem desespero sobre os pombinhos, falava devagar, ele olhava nos meus olhos, fixamente, eu acariciava suas sobrancelhas, a testa, os cabelos... O que eu tinha para falar a respeito do céu era isto: a cabrita marrom, os filhotinhos de coelho, a pombinha cinza, os pezinhos de milho, o cheiro do eucalipto, os periquitos verdes, o pé de mamão... e o galo cantando de madrugada.
Dormiu, fechou os olhinhos, falei mais um pouco, fiquei quieto, vim embora... 
Dia seguinte, o enterro. E agora, o tempo vai passando. E agora, agora Alcindo não está, Bosquinho não está, Coruputuba não está, a infância, coitada, não está mais, faz tempo.