O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os cachorros de Coruputuba - I


Eram tantos! Tamanhos, cores, temperamentos... Cada um com sua história, com seus donos, em suas casas ou nas ruas, em volta do açougue, da padaria, do armazém... Rodeando a Pensão da Dona Eleuzina e do Seu Eurico. Entrando na Escola e acompanhando a fila dos alunos...
Nas noites silenciosas de Coruputuba, na minha caminha no quarto da frente, eu escutava os latidos distantes. Forçava o ouvido e escutava ainda mais longe e ficava quieto analisando: É na Vila Tupi... é na Campineira... Será na Vila Tanque? Nossa, este agora está latindo tão longe! Será que é na Vila Esperança?
Seus ossos já viraram pó na terra dos quintais e hoje não é mais possível localizar nem as casas! nem os quintais! quanto mais as covas rasas que um dia foram abertas entre lágrimas, na despedida daqueles amigos fiéis.
Façamos a nossa homenagem a eles, meus amigos!
Abro com a crônica sobre meus amiguinhos Doguinho e Neguinho.

DOGUINHO E NEGUINHO
Doguinho não seria Doguinho, o certo seria Doguinha, pois era uma cadela vira-lata, amarela, pelo curto, orelhas espetadas como um cão policial. Uma cachorra muito inteligente, atenta, amorosa. Logo na primeira cria (quem seria o pai da ninhada? Um dos vira-latas que rodeavam a nossa casa...), logo na primeira cria ela teve nove cachorrinhos, um de cada cor, um de cada jeito. Mas o comovente mesmo, que chamou a atenção de todos os vizinhos, foi ela ter adotado uma gatinha recém-nascida.
É que, no segundo dia após o parto, nós ganhamos uma gatinha que ainda estava com os olhinhos fechados, não sei se a mãe dela tinha morrido, não lembro. Colocamos a gatinha entre os cachorrinhos, primeiro esfregando-a no focinho de cada um dos irmãozinhos adotivos. Doguinho cheirou, lambeu e aceitou. A gatinha mamou, mamou, e, a partir daí, cresceu entre os cãezinhos, dormia com eles, mais tarde corria atrás deles e rolavam em lutas simuladas...
Quando a gente saía para levar as cabras para pastar, Doguinho ia junto. Eu a ensinei a pegar a na ponta da corda da Cabrita Marrom e lá ia ela, puxando a cabrita que ia correndo atrás dela, tentando chifrá-la.
Num carnaval, eu e o Bosco vestimos nela algumas roupinhas velhas, camisa e calça, e ela fez o maior sucesso no bairro quando saímos com ela para ir buscar água no largo. Outra vez, era tempo de amoras maduras no fundo do quintal. Coitada do Doguinho, zoamos com ela. Fomos espremendo no seu pêlo amarelo as amoras roxas, cobrimos o corpo todo, até a cabeça e as orelhas, e o rabo, de pintas escuras. Ficou uma autêntica oncinha. E saímos com ela, para alegria do bairro.
Da primeira cria da Doguinho nós ficamos, inicialmente, com dois cachorrinhos. Um era o maior, o mais alto, cinza com pintas pretas. Chamou-se Pintado. Queríamos que ele fosse bravo como um cão de guarda e o deixávamos preso na corrente no fundo do quintal. O que conseguimos foi que ele ficasse nervoso, latindo até ficar rouco, coitado. Desculpem os leitores a nossa ignorância de crianças que nunca tinham tido cachorro. Aliás, não é bem assim, outros cachorros tinham passado pela nossa casa, mas isto é outra história.
O Pintado acabamos dando para um carroceiro da Vila São Benedito, que o repassou para uma família de japoneses que moravam na Água Preta. Tempos depois soubemos que morreu atropelado.
O outro cãozinho que ficou da primeira cria foi o Neguinho, que era branco, quer dizer, amarelo claro, mais claro que a Doguinho. E mais peludo que ela. A cauda parecia a de uma raposa, com os pelos ao vento quando corria. E não tinha as orelhas espetadas da mãe. Suas orelhas eram caídas, infelizmente não caídas inteiras como as do Pintado, que parecia um perdigueiro. As orelhas do Neguinho ficavam em pé até a metade e nesse ponto caíam para a frente, como tantos cãezinhos “sem raça definida”. E o Neguinho cresceu menos que a Doguinho, ficou baixo e encorpado, um amor de bondade e companheirismo.
Por que Neguinho? Nada a ver com a cor. Mas por causa do sentido carinhoso da palavra. Meu pai chamava mamãe de “Nega”, “Minha Nega”... E mamãe era branquinha, cor-de-rosa até.
Mas foi essa dupla, Doguinho e Neguinho, que acompanhou as nossas aventuras, as nossas estripulias, os nossos longos passeios debaixo dos eucaliptos, as nossas andanças desde a Figueira até a Volta da Bananeira, a nossa busca por esterco para adubar a horta e as nossas expedições atrás do cheiroso capim-de-angola para as cabras. Foi essa dupla que nos seguia quando íamos até a Vila Campineira comprar um leitãozinho para engordar ou quando íamos levar a cabra para cruzar com o bode do Seu João Barbeiro, lá atrás da Fazenda, onde hoje...
Ah, desculpem de novo, mas não vou falar do que virou hoje aquele caminho atrás da Fazenda. Deixem-me com as lembranças daqueles latidos alegres da minha dupla de cachorros, correndo na nossa frente para chegar depressa na Represa... Doguinho e Neguinho ficavam esperando dentro da água, esperando que a gente jogasse com toda a força um pedaço de pau para eles irem buscar no meio do lago, muita vez voltando os dois segurando cada um uma ponta do pau, resfolegando como uma locomotiva cansada.
Foram nossos amigos verdadeiros. Entendam: como se fossem nossos irmãos, eu entendo agora.
Doguinho teve umas quatro crias e morreu envenenada com formicida por um vizinho. Neguinho ficou velhinho e acompanhou a mudança para Pinda quando o Paraíso Terrestre estava fechando. Morreu cego, coitado.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes