O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 27 de março de 2012

O gosto amargo da infidelidade


Desde a infância, fui torcedor da Associação Esportiva Industrial de Coruputuba. Cresci montado na tábua da cerca do Estádio dos Eucaliptos, escolhendo o lado onde ia ficar o nosso goleiro. Assim, durante o primeiro tempo, presenciava de pertinho a defesa da Industrial. Ali permanecia no segundo tempo, agora para ver de perto os atacantes coruputubenses assediando o gol adversário.
Depois de crescer, desci da tábua da cerca e fui ocupar meu lugar na arquibancada, desfrutando da visão completa do jogo, mas perdendo o calor da proximidade que tinha na cerca atrás do gol.
A camisa grená, ou bordô, da Industrial, aos poucos, foi se tornando mais importante na cidade e na região. Acompanhei os jogos desde os anos cinquenta até os anos setenta. Vi atuações espetaculares de duas ou três gerações de jogadores. Alguns jogadores adeptos do chutão para frente e do carrinho, outros muito tranquilos, bola no chão, organizando as jogadas.
Vi no gol o Nelson Comida, o Zé Assoni, o Nicoletti, o Zé Rosa, o João Bosco e o Marinho Greco – este, o melhor de todos. Na defesa, clássico e inexpugnável, o Toninho Barreira (vejam, parece que estou montando um time de todos os tempos!). Houve grandes jogadores que não ficaram na memória de todos. Não conquistaram nome equiparado ao de Lucas Lopes – este, sem dúvida, o melhor jogador que vi atuar. Mas eu admirava a categoria do Vianor e a velocidade e empenho do Edgarzinho Hardt, o oportunismo do Piolho e a presença segura e criativa do Tó.
Aí surgiu o Zeno, o mais hábil de todos. Mas também o mais debochado, provido de espírito de molecagem: era a alegria da torcida. Para ele, parecia que o objetivo do jogo não era marcar gols. Era dar o maior número possível de vãos-de-pernas e de chapéus. Queria mesmo humilhar os adversários. Zeno trabalhava a bola e chutava sempre com a perna esquerda. No calor de uma jogada caótica na pequena área, parava a bola diante do gol aberto: Vai chutar? Vai marcar um gol? Que nada, calma, primeiro tem que dar mais um vão-de-perna no zagueiro que vem correndo desesperado, depois ainda precisa driblar o goleiro, para depois chutar, senão não tinha graça. A torcida vinha abaixo.
Tudo isto fazia parte das tardes de domingo do lugar maravilhoso em que eu vivia, mas, puxa vida, a fábrica de Coruputuba não tinha emprego para mim. Então, aconteceu que precisei ir trabalhar na AISA e comecei a ficar meio dividido. Morava em Coruputuba, dava aulas em Coruputuba de manhã, mas trabalhava na fábrica de alumínio à tarde e à noite.
Na AISA fui conviver diariamente com nomes já gloriosos no futebol pindense: Mauro Boca, Pitô, Luizinho, Armandão (que jogava na Ferroviária), Carlinhos Chipan... Fui ser colega de ótimos jogadores que estavam subindo. Trabalhava na mesma seção do Pinguim e do Dadá.
Na próxima partida entre a Industrial e a AISA, sentei-me no lado direito da arquibancada, ou seja, no setor reservado à torcida do time visitante. Fiquei no meio dos meus colegas de fábrica, mas meio envergonhado, evitava olhar para o outro lado, não queria que o Zé Mexas me visse ali, Deus me livre do Paulo Pintor me flagrar!
No jogo preliminar, entre os segundos quadros dos dois times, o Pinguim pegou a bola, deu um drible até que bem simples e, mesmo estando fora da área, ficou com visão do gol. Chutou por baixo, para fazer a bola subir. Engraçado que o Pinguim, sendo pequenino, parecia estar fazendo uma força danada para chutar. Mas a bola ergueu voo, fazendo uma curva suave e bonita. Subiu e foi cair dentro do gol, nas costas do Zé Rosa. Eu pulei junto com os colegas de fábrica: − “Gooool! Aí Pinguim!”
Então eu percebi que – claro – só o lado direito da arquibancada estava festejando. Os torcedores da Industrial estavam mudos. Tudo perdeu a graça para mim, fiquei envergonhado: agora, que eu tinha vinte e poucos anos, estava pela primeira vez fazendo festa para os inimigos da Industrial. Disfarcei, fui embora para casa. Não quis ficar para ver o jogo principal. Mas lá de casa não tinha jeito de ficar sem escutar os barulhos, os chutes, os gritos da torcida. A Industrial ganhou, fiquei sabendo depois.
No dia seguinte, na AISA, na hora da janta, só se falava dos dois jogos da véspera. E eu não consegui falar nada, só pude elogiar o Pinguim pelo seu lance de gol, mas perdi a graça completamente. Percebi então, precocemente, que o infiel é infiel para todos os lados. Traí Coruputuba torcendo pela AISA. Traí a AISA me sentindo um torcedor falso, cheio de remorsos.
Infidelidade nunca dá certo mesmo.
  *   *   *
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Bons Tempos – Chico de Paula

Associação Esportiva Industrial em 1975:
Ticão, Marinho Greco, Tó, Homero, Ito, Miranda, Thiago e João Bosco.
Jorginho, Kida, Lucas, Tija, Jaiminho, Bodinho, Luizinho e Zezé.

Atlético Aisa em 1974:
Goiano, Carlinhos Chipan, Didi, Ângelo, Teófilo, Robertinho Nazaré, Gilberto e Celso Ribeiro.
Zezinho Preto, Zé Roberto, Rivelino, Adilson Cascão, Luizinho, Pinguim e Orlandinho.