O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os registros de batizados

 Professor Francisco Fonseca Marcondes
Taubaté, 31/07/1913
Pindamonhangaba, 29/10/1956

Era o centenário da Fazenda Coruputuba e eu estava preparando no Museu uma grande exposição comemorativa. Fotos da fábrica, da Igreja, do campo de futebol, dos times, de grupos familiares e também reproduções de documentos: livros de marcação de consultas médicas, de atas das associações religiosas... E achei os blocos de registros de batismo. Emoção! Eram as segundas vias, que ficavam presas ao bloco, contendo, em carbono, o nome da criança, os nomes dos pais, dos padrinhos, a data de nascimento e a de batismo e a assinatura do padre. Emoção maior: quase todos os registros feitos entre 1951 e 1956 estavam com a letra do meu pai.
De fato, o Professor Francisco Fonseca Marcondes, além de ajudar à missa, ler a epístola, abrir e fechar a capela, também fazia o serviço de secretaria, marcando as missas e preenchendo os blocos de batizado.
Os estagiários do Museu fizeram as fotos desses blocos e passaram para mim as cópias digitais. Perplexo, meditei sobre a surpreendente beleza dos caminhos do Senhor: fui colocado trabalhando no lugar aonde iam se cruzar a história do meu bairro, a minha história de estudante que, há cinqüenta anos, iniciou o ginásio nesse mesmo prédio do Museu – e a história religiosa do meu pai. No computador, fui arrastando as imagens para o Word até formar blocos por ano para então salvar como PDF. À medida que fazia isto, ia vendo os nomes dos bebês, que hoje estão com cinqüenta ou sessenta anos; os nomes dos pais, que eram amigos ou alunos do meu pai; e os nomes de crianças que, com dez ou onze anos, seriam meus primeiros alunos na escola de Coruputuba.
À medida que o serviço avançava, também avançavam os anos respectivos daqueles registros. Quando comecei a organizar no computador os batizados de 1956, foi me dando certo mal estar. Janeiro, fevereiro, março: sempre uns três ou quatro batizados por domingo. Abril, maio, junho, julho: eu não queria continuar, a sensação ruim aumentava. Agosto, setembro: Meus Deus, preciso de força para ir em frente! Entrou o mês de outubro e então o desgosto foi muito grande.
Meu pai, com a letra firme de professor, reta, vertical, sempre legível, estava registrando os batizados, três ou quatro a cada domingo. Eu olhava aquilo e tinha vontade de avisá-lo: “Papai, seu tempo está acabando!” Mas ele prosseguia registrando. No dia sete, três batizados. No dia quatorze, quatro batizados, com a letra dele. E então acabou. No dia vinte e um a letra já era de outra pessoa: meu pai estava internado. No dia vinte e oito, último domingo do mês, a mesma coisa. Papai faleceu na segunda feira, dia vinte e nove. Continuei montando o PDF para publicação na internet e para imprimir os blocos para a exposição. Mas a tarefa tinha perdido o encanto.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Os registros de batizados referidos no texto estão disponíveis em http://www.pindamonhangaba.sp.gov.br/coruputuba.asp