O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Minhas árvores clandestinas



Diretor de escola, por mais de vinte anos plantei muitas árvores. Mas então eu me aposentei e fui ser professor em outras escolas, nem sempre encontrando apoio para minha ideia de acolher as árvores, para que elas possam mais tarde nos acolher. Aconteceu assim numa escola municipal no Araretama. Três grandes blocos de salas, separadas por áreas de terra dura, exposta ao sol. As crianças, durante o recreio, não tinham outra sombra que não fosse a do galpão, que regurgitava de gente. Propus à administração: Vamos plantar umas árvores. E ouvi: Não, árvore não dá certo! Derruba folha, entope a calha, fica uma sujeira danada.
Comecei a expor as vantagens das árvores, seus benefícios para a humanidade... E já fui intimamente concluindo que estava falando bobagem: ter que explicar para educadores a importância das árvores, ainda mais numa escola que vivia organizando festa do verde, festa da ecologia... Ora, pensei, já sabemos tudo sobre isto, falta só colocar em prática. Afinal, estamos em Pindamonhangaba, a terra natal do Doutor João Pedro Cardoso, o iniciador da festa das árvores!
Nessa época, eu morava na Santa Luzia. Diante de casa tinha uma árvore muito viçosa, era uma pata-de-vaca, ou unha-de-vaca, a Bauhinia forficata. Tinha florido, toda rosa, depois derrubou a folhagem e agora estava carregada de sementes maduras. Anamaria me contou que a vizinhança estava tramando contra a pobre árvore, justo por causa da folhagem caduca, que todo dia obrigava a varrição das calçadas. Então, elaborei o plano de guardar as sementes, para que um dia elas pudessem germinar em outro lugar, de modo que novas árvores viessem a crescer, substituindo a árvore-mãe, que provavelmente seria cortada quando nos mudássemos.

Por belíssima coincidência, a coordenação da escola convocou um esforço coletivo para a semana do meio ambiente. Toda classe devia fazer um canteiro de flores diante de sua sala de aula. As crianças começaram a trazer saquinhos com esterco. Plantamos as flores, diariamente as crianças regavam, com garrafinhas, com regador, com a mangueira... E as flores começaram a brotar.
Então, as sementes secretas viajaram de minha casa até a gaveta da mesa na minha sala de aula. E um dia, disfarçadamente, como quem examina os canteiros à cata de ervas daninhas, enfiei uma a uma as sementes na terra molhada, debaixo dos pequenos pés de flor. Isto, em todos os canteiros, não só no canteiro da minha classe. No meio das margaridas, das begônias, dos cravos, debaixo de dois centímetros de terra fofa e úmida, bem quietinhas, as sementes começaram a querer viver e foram estufando as suas casquinhas...
Quando apontaram as suas primeiras folhas, tão minúsculas e verdinhas, ninguém estranhou, ninguém quis arrancar, todos pensavam que era só um pé de flor a mais. Depois de grandinhas, não puderam mais ser arrancadas, cortadas, afinal a pregação sobre meio ambiente tinha criado raiz, igual às arvorezinhas, os alunos não permitiriam. Os alunos do ano seguinte também não, e assim por diante. Alguns anos depois, visitei a escola para dar uma palestra sobre poesia para os alunos da terceira e da quarta séries. As árvores estavam enormes, os troncos fortes, a galharia ultrapassando a beira do telhado. Crianças estavam lanchando na sombra das minhas árvores clandestinas.
E a pobre árvore-mãe, como Anamaria tinha previsto, foi cortada logo depois que nos mudamos da Santa Luzia. Passamos por lá, a calçada agora fica sempre limpinha, não tem mais nada para incomodar as pessoas.
  *   *   *
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Na obra: ACONTECEU NA ESCOLA
Edição do autor – Pindamonhangaba
224 páginas; 21 cm
ISBN 978-85-913453-0-4
1. Educação. 2. Docentes. 3. Formação de Docentes
Contato com o autor: paulotarcizio@gmail.com