O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 14 de outubro de 2018

O meu pé de manga-espada



Meu primeiro contato mais emocionante com a mangueira foi a minha primeira e única lição de paraquedismo. Com o guarda-chuva do meu pai. Sozinho, calculei que dava. Do último galho, pulei, aberto o guarda-chuva, que virou do avesso. Mas caí sem dor. Chato foi devolver o paraquedas para o meu pai. Surpreendente foi ele não achar ruim, deu risada. Talvez tenha se lembrado de alguma aventura da infância dele, na fazenda Itapecirica, em Taubaté...
Mas, nas brincadeiras de esconde-esconde, o piques não era a mangueira, era o abacateiro. Você vai brincar com os irmãos e os vizinhos que pularam a cerca, ou passaram por baixo. Vai contar e tapar a cara no pé de abacate. Então vai gritar: Quem não escondeu não esconde mais!
E vai sair procurando: atrás das bananeiras, dentro do chiqueiro, atrás do galinheiro... E vê, junto à mangueira, um par de chinelos velhíssimos. Ah! Danado de alguém! Subiu na mangueira, bobo deixou os chinelos embaixo, denunciadores. Agora você tem que chutar um nome, não pode errar, os chinelos podem estar trocados. Vai de um lado para outro, olhando a copa da mangueira (cabe alguém ali, dentro da folhagem?).
De repente, num vento gargalhante, passa alguém correndo por trás de você e vai ao piques e bate: Um dois três! Um dois três!
Os chinelinhos engaram você. Tinha ninguém lá em cima não.
Mas isto tinha sido havia muito tempo, meu pai ainda era vivo, eu ainda não tinha nove anos. Depois fomos crescendo, e o quintal continuou sendo nosso espaço de magia.
O quintal não era muito largo, mas era bem longo... Começando na varandinha do tanque e terminando no muro da Fábrica. Na primeira metade  dele ficavam a horta com suas leiras verdes, o viveiro dos passarinhos, o galinheiro, a casa das cabras, as coelheiras, os caixotes para ninho dos pombos. Tudo isto no meio das ameixeiras, os pés de laranja-natal, o pé de uva japonesa, a parreira, o pé de conde. Então, uma cerca de taquaras, com o portão.
Ali começava a parte mais selvagem. Pés de lima com espinhos ameaçadores. Bananeiras em duas filas, acompanhando as cercas laterais. O meio, limpo, desimpedido, varrido. Era o campinho de futebol. Improvável, mas sim. Com duas caixas de abelhas num dos lados e o chiqueiro no outro. Nesse trecho os esquemas futebolísticos se comprimiam, num afunilamento.
Abelha não ataca quem joga bola, suando muito. Mas é erro pisar descalço numa abelha. Dói muito, e o jogo não para.
A mangueira velha no centro do campo, detendo os chutes de qualquer dos times. Se a bola ficasse presa nos galhos considerava-se bola fora, lateral.  Bola que resvalasse no velho tronco e entrasse no gol, era o quê? Era gooooool...
Triste era se a bola, ultrapassando o gol, fosse se espetar nos espinhos do pé de lima, vazando num assobio desalentador...
A touceira de espada-de-são-jorge, numa lateral, foi destruída aos poucos. A bola caía lá dentro e ninguém concordava em bola fora. Vinha todo mundo chutando, despedaçando as espadas, arrancando os caules subterrâneos. Até que um dia não existia mais a touceira.
E, meio que de repente, não existia mais a infância encantada, que ia dando espaço para a adolescência curiosa e mais encantada ainda. E o entorno da mangueira era uma espécie de templo de meditação solitária, ou de convívio com os irmãos, agora um bandinho de adolescentes.
A mangueira velha também era o meu posto de observação. Assim: Olhe bem a mangueira, buscando as frutas mais coloridas. Nada de cutucá-las com bambu, isto seria para iniciantes. Você não. Você suba, ágil como um macaco. É fácil. A casca é grossa, áspera, com cicatrizes salientes. Mãos e pés acham apoio fácil, não escorregam. Vá para os galhos mais altos. Alcance a manga madura. Sente-se, montado. Agora, aproveite para ver a paisagem.
Aqui por perto, os quintais. O do Seu Luiz Crepaldi, com o galo vermelho, as galinhas carijó, os pés de cana, as enormes goiabeiras. Adiante, o quintal dos Duran, o terreiro varridinho, o galinheiro e a coelheira, os marrecos. Do outro lado, o quintal dos Amarante, do Jurandir, do Seu João da Ponta, dos Machado, do Seu França. Vire mais a cabeça: o quintal do Seu Eurico, o que foi do seu Dionísio e agora é do Seu Nikita. O do Seu Fusco não dá para ver, muita folhagem tapando seus olhos.
Então, mais distante, a torre do sino e os coqueiros da igreja. Ainda mais longe, as últimas casas da Alberto Simi e, além, a Vila Jacarandá... Fechando de azul o panorama, a Serra da Quebra Cangalha.
Opa. Pronto, agora, a manga. Aperte-a de leve contra o tronco da mangueira. Gire-a, aperte de novo, até que sinta que se criou um meio líquido envolvendo todo o caroço, que ficou solto no meio desse mel. Com cuidado, morda e arrance o biquinho da casca. Eis uma perfeita mamadeira, cheinha de suco dourado, doce. Aproveite, sugue tudo, tudo. Depois, só resta arrancar a casca, lambê-la, rapar com os dentes as fibras amarelas, açucaradas. Por fim, aproveitar do caroço tudo o que sobrou de chupável e mordível. E olha a pontaria: o caroço voa e vai parar dentro da touceira de banana-prata.
Já pode descer. Vai lavar essa cara feliz lá na torneira do tanque.  
***
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

domingo, 26 de agosto de 2018

Terminando o primário



Estava terminando o ano de 1958 e estavam terminando os dias do quarto ano do grupo. Estava terminando o curso primário! Dali para frente, só uns poucos continuariam a estudar. Só quem passasse no temível peneiramento do “exame de admissão ao ginásio”.

Era um tempo em que primário e ginásio pertenciam a mundos diferentes. Professores diferentes, matérias diferentes, salários diferentes para professores, diretores, funcionários.  Formação diferente: um professor de primário tinha estudos de nível colegial: a Escola Normal. Um professor de ginásio tinha que ter curso superior. E as escolas eram separadas. Onde funcionava o primário, era só primário, com vasinhos de flores nas janelas. Onde funcionava ginásio, era só ginásio e colegial, nenhum vaso de flor.
Mas aproximava-se o final do quarto ano e eu ia deixar de ser aluno do Grupo Escolar Rural. Ia começar a viajar todo dia para a cidade, ia encontrar professores desconhecidos, colegas desconhecidos, gente da cidade, tudo novo. E ia voltar para casa quando já estivesse escurecendo. No ginásio não ia ter horta, nem mina d’água, nem canjica... Nem ia poder usar calças curtas. E, antes do ginásio, ainda tinha que passar pelo curso preparatório e pelo exame de admissão.
Nos últimos quinze dias letivos não houve aula de verdade, era todo o tempo dedicado a trabalhos manuais para a Exposição. Hoje eu diria: artesanato. Puxa vida, pensava, por que só no final do ano? Devia ter mais disto. Os alunos fazendo bolsas e cintos de barbante, trabalhos com madeira decorativos, ou utilitários, como porta-toalhas, cabides, tudo lixado, pintado, envernizado com goma arábica. As meninas bordavam panos de prato, panos para cobrir o fogão, costuravam, faziam bainhas, tricotavam. Nada mais de aulas de Linguagem, nem de Aritmética, tudo era alegria e criatividade.
A escola toda estava meio febril, excitada com duas coisas: a Exposição e a Formatura.
No último dia fomos à tarde para a escola, era o ensaio da cerimônia de formatura.  Depois, todos os colegas se foram, saindo em grupinhos, conversando, rindo e, aos poucos, se espalhando pelas ruas do bairro. Mas eu não estava com vontade de ir embora, não queria dar risada, nem conversar.  Fiquei para trás, na escola deserta, ampla, quieta. O sol da tarde fazia brilhar as árvores do pátio. A horta, lá embaixo, perto do ranchinho das ferramentas, estava invadida de capim, fazia tempo que ninguém cuidava, nas últimas semanas de aula ninguém se lembrava mais da horta, tudo tinha sido colhido.
Eu me sentei num dos bancos do galpão, olhando as andorinhas que voavam no meio das vigas do telhado. Depois deu uma tristeza, fui embora, pelo meio dos eucaliptos do campo de futebol.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
ISBN 978-85-913453-4

terça-feira, 17 de julho de 2018

A flauta do Seu Bartolo




No terceiro ano estudei no período da manhã com o Professor José Murillo Françoso, jovem recém-chegado de Piracicaba. Na verdade, eram quatro professores que chegaram a Coruputuba nos anos cinquenta: Frederico Perencin Filho, Antonio Calixto Rodrigues, José Thomé Junior e o Prof. Murillo. A Companhia cedeu para residência temporária deles a linda Casa Verde na beira do lago, a casa coberta de heras, que bem mais tarde abrigou a assistência social.  O Professor Frederico veio para ser diretor da escola. Os outros, para dar aula.
O Professor Murillo era engraçado. Muito magro, de óculos, sempre de terno escuro, às vezes vinha de bicicleta para a escola. Certa manhã, todos os alunos já estavam em fila no galpão, preparando-se para a sineta, e o Prof. Murillo ainda não tinha chegado. De repente, chegou, de bicicleta, a toda. Tentou fazer a curva para entrar pelo portão dos alunos, mas derrapou, caiu e foi com bicicleta e tudo nas ripas da cerca. Naquele tempo os alunos não davam risada dos professores. Pelo menos abertamente não. Imagino o que aconteceria hoje, num caso desses. Mas o Professor Murillo nem se abalou com a queda, limpou o pó, desentortou o guidão e entrou empurrando a coitada da bicicleta, guardou e veio fiscalizar a nossa fila de entrada.
Os alunos ficavam perfilados, no galpão, antes de entrar. Cada dia era uma classe que cantava. Músicas patrióticas, ou folclóricas, tinha de tudo. Eu gostava do Hino da Escola Rural. Muito, mas muito mais tarde, fui descobrir que o hino tinha letra de Gustavo Kukinann e música de João Gomes Junior – este, um famoso compositor pindamonhangabense, filho do maestro João Gomes de Araújo.  No tempo da ditadura militar, a música recebeu uma versão meio plagiada, assinada por famosos cantores sertanejos, incentivados pelos generais de plantão. Mas a letra verdadeira é esta:
Nesta escola modesta da roça / Rodeada de pés de café / O Brasil se levanta e remoça / Numa nova alvorada de fé! / Batida de sol ardente / És do saber o fanal / Que nos guia para frente / Bendita Escola Rural! / Através da lavoura florida / Que a riqueza da Pátria produz / Nossos pais vão lutar pela vida / E nós vimos em busca de luz!
Batida de sol etc..
O Prof. Murillo era um humorista. Ensinou para a gente uma canção que nunca mais acabava, um moto-perpétuo:
Bartolo tinha uma flauta / A flauta do Seu Bartolo / Sua mãe sempre dizia / Toca flauta seu Bartolo / Tinha uma flauta / A flauta do Seu Bartolo / Sua mãe sempre dizia / Toca flauta seu Bartolo / Tinha uma flauta... (e assim a gente iria ad infinitum, ninguém queria parar, precisava o Seu Frederico mandar a classe entrar – e a classe entrava cantando...)
No entanto, o bom humor do professor não o deixava imune aos costumes disciplinadores então vigentes. Era a época dos castigos humilhantes. Certo dia, eu, que estudava de manhã, fui condenado a permanecer na sala de aula uma hora a mais que os colegas. Quer dizer, todos foram embora e fiquei em pé no fundo da sala. Então entrou a classe do período intermediário – e era uma classe feminina. As alunas, ao entrar, foram dando de cara com aquele menino parado feito uma estátua envergonhada. A professora, já a par do assunto, explicou-lhes que eu estava de castigo porque não tinha estudado. De fato, na chamada oral de ciências o professor tinha me perguntado sobre a digestão e confundi quimo com quilo, coisa imperdoável para um aluno de nove anos...
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
ISBN 978-85-913453-4

sábado, 24 de março de 2018

A tempestade mais feia



18 de dezembro de 1952. Uma quinta-feira de muito calor, mas de céu azul, muito limpo. Sem nenhum vento, a tarde abafada. Passaram duas senhoras, conhecidas de minha mãe, pararam para reclamar que estavam lenhando e surgiu o guarda, a cavalo, pôs as duas para correr, não podia catar lenha mais grossa que uma garrafa. E foram embora, para a Vila Campineira, falando, comentando...
A gente morava na Avenida Doutor Cícero Prado, a rua de entrada do bairro. Casas só de um lado. Do outro lado, um bosque de velhos e poderosos eucaliptos. Bem na frente da nossa casa, um deles se destacava dos outros, inclinado para a rua, arcado bem na nossa direção. Quem estivesse na linha do trem olhava e via aquela coisa, aquela árvore muito grossa, ameaçando cair para longe das companheiras.
Eu tinha cinco anos só. Mas já tinha percebido o medo da minha mãe. Qualquer começo de ventania, ela perguntava ao meu pai: “Quito, pra que lado que tá o vento?” E ele abria a janelinha da janela da varanda, olhava um pouco e sempre respondia assim: “Tá pro lado de lá, Nega”.
De tardinha, o sol se escondendo – e escondia logo, porque tudo em volta eram eucaliptos muito altos e encorpados –, mas o ar ainda muito abafado, mamãe foi molhar a roseira de Santa Terezinha, que tinha esse nome porque foi plantada num dia primeiro de outubro. Aos poucos, escureceu, sem vento, calorão.
Vovó acabou de preparar a janta, arroz com linguiça e chuchu, todo mundo jantou e fomos para a sala rezar o terço da noite. Depois, papai ligou o rádio, testando a antena de arame que ele tinha esticado de cima da casa até o pé de abacate. Nós ficamos conversando sobre o Natal que vinha vindo. Vinha vindo, a gente brincava que ontem ele estava perto do Portão, hoje já devia estar chegando na linha, amanhã vai estar perto da casa do Seu João da Ponta.
Um primeiro trovão comprido e longe, repetido e repetindo de novo, agora mais perto, e o barulho do vento chegou duma vez, sem aviso, aumentando sempre mais, e os trovões rebentando e os relâmpagos alumiando, os raios caindo – e ninguém podia falar essa palavra – e as lâmpadas se apagaram e mamãe começou a rezar alto, tão alto que dava mais medo na gente. Vovó foi depressinha para o fogão catar brasas na tampa da panela para queimar palma benta. Fomos todos para o quarto e trepamos na cama da mãe e do pai. Papai tapou os espelhos e acendeu velas e a terra tremia, e dava estrondo. Um estrondo em cima do outro e as telhas debaixo do castigo da chuva de pedra que vinha meio de lado, fazendo um barulhão nas vidraças. As telhas da cozinha se mexiam quando fui no banheiro, voltei correndo.
Estrela do Céu, Maria Santíssima, que a seus peitos criou ao Senhor e extinguiu a mortal peste que no mundo introduzira o primeiro pai dos humanos. Digne-se agora a mesma estrela reprimir os influxos dos astros que, por suas disposições malignas, ferem o povo com pestiferas epidemias”. Isto era papai e mamãe e vovó rezando alto a oração destinada a abrandar as tempestades. Depois começamos a cantar músicas de igreja: “Ó mãe de ternura, o teu puro amor é nossa ventura, alívio na dor! Matutina estrela, um sorriso teu torna a terra bela e serena o céu”. A gente estava era pedindo misericórdias para Deus.
Eu rezava olhando para o quadro de Nossa Senhora Auxiliadora, que tinha em cima da cama da mãe. Nossa Senhora com o Menino Jesus no braço e segurando um cetro.
Os estrondos não paravam. Cada estrondo a terra tremia. O Seu Luiz Crepaldi, nosso vizinho, começou a bater na parede e papai chegou perto da janela do quarto, aos gritos, perguntando o que era. O barulho da cachoeira de água, que caía da calha e batia no cimento da área, não deixava escutar. Mas era que o nosso vizinho escutou as nossas orações e músicas e queria saber se tinha acontecido alguma coisa na nossa casa, porque na casa dele as telhas da cozinha tinham voado e chovia tudo dentro.
Dentro do barulho de vento, chuva de pedra, trovões e estrondos, de repente começou a tocar o apito da fábrica. Meu Deus! Parecia um animal grandão berrando, machucado. Pedia socorro. Precisava dos operários para socorrer alguma coisa lá. O apito ficou tocando, um tempão, igual na passagem do ano, mas era triste, dava angústia.
Daí foi parando a chuva, o vento foi parando, parou, a chuva parou. Trovões foram indo embora, para outro lugar longe, ainda dava um estrondão às vezes e a terra dava uma tremida. Depois a trovoada virou só um resmungo distante e acabou. A gente não queria ir dormir, a luz não voltou, vovó fez chá de erva cidreira, demorou para a gente ficar calmo.
De manhã, acordamos com papai chamando: “Nega vem ver!” Ele estava na varanda. Fomos lá e vimos. O bosque não tinha mais. No lugar uma coisa feia, montanha de eucaliptos, monstros, deitados uns por cima dos outros, alguns com o raizame para cima, lá no ar, ainda com pedação de terra agarrado. Por isso, os estrondos que a gente escutava! A terra tremia cada vez que um gigantão daqueles caía, derrubando outros e batendo com tudo no chão, toneladas.
E o céu estava lindo de azul, toda a destruição estava molhada e iluminada pelo sol amarelo, estava até meio friozinho.
Passarinho morto, eu e o Zaga achamos no quintal. Pé de amora tinha meio que deitado no chão, mas não quebrou. Poças enormes, pegavam a horta e perto do galinheiro. Nesse dia e nos dias seguintes as pessoas grandes falavam coisas que outras pessoas tinham falado, e a gente ia escutando assim:
Que foi que nem um redemoinho, os calipero caíram em toda direção, misturados (quem contava isto fazia com a mão o movimento de pião, dramatizando).
Que o pessoal que mora lá na serra diz que olhava aqui para baixo e via era uma fogueira só de raio, em cima só de Coruputuba. Não tinha essa fogueira de raio na Água Preta, por exemplo, nem em Moreira César, só em Coruputuba.
Que foi ruindade dos guardas, que falaram que não podia catar lenha mais grossa que uma garrafa. Pois caiu foi tudo calipero mais grosso que um barril.
E diz que foi castigo de Nossa Senhora, porque o dia oito de dezembro era para a fábrica não trabalhar, que é dia de Nossa Senhora da Conceição, e não fecharam, fizeram todo mundo trabalhar.
Que foi milagre, que Alguém segurou o calipero grosso, que caiu foi para o outro lado, certinho, para dentro do bosque. Se caísse para o lado de cá, para onde vivia arcado, ia derrubar a nossa casa.
Que foi milagre de Santa Terezinha que a roseira não aconteceu nada com ela e até as rosas que estavam abertas nem despetalaram, nada. Ficaram bonitas, inteiras, com gotinhas de chuva brilhando nelas. Enquanto que calipero grosso virou de raiz para cima, cada um deixando um buracão no chão.

Durante acho que um mês inteiro a gente ficava na janela do quarto da frente, ou então na varanda, vendo bois, tratores, correntes, machados, serras, muitos homens o dia inteiro picando e arrastando o que caiu e no fim derrubando o pouco que ainda tinha ficado de pé.
Eucalipto enorme, reto, altíssimo. Um homem subia até bem alto no calipero, levando a corda. Amarrava lá em cima e descia depressa. Começavam a cortar com machado e depois com a serra, um tanto. Paravam e os outros amarravam na corda um baita tronco para contrapeso. E juntavam uns vinte puxando a corda. O tronco de contrapeso subia, absurdo, balançando no ar, enquanto outros homens metiam machado para acabar de cortar. O bicho gemia, se mexia, as folhas se agitavam e o tronco começava a se inclinar. Um gritava e todos saíam correndo. A gente escutava o assobio das folhas cortando o ar, e daí era o baque com estrondo e a terra tremia. Ficava um tempo caindo que nem uma chuvinha de pedaços de folhas e de casca.
Limparam tudo, tiraram os tocos. Os buracos eles foram enchendo de terra, ficou tudo aplainadinho, para plantar um cafezal. Isto na frente da nossa casa, nos fundos da igreja e nos fundos da Alberto Simi. Tudo foi cortado, tiraram os tocos, tiraram toda raiz. Cafezal no lugar, por todo lado.
Vinte e oito de dezembro, todo mundo pensou que vinha outra daquela tempestade feia. O céu ficou roxo, começou a ventar, mas passou, passou, nem choveu, o sol clareou de novo, não aconteceu nada.
Ninguém morreu na tempestade de dezoito de dezembro. Casas foram danificadas, árvores derrubaram postes e cortaram os fios de eletricidade, mas não teve alagamento nenhum, a engenharia do Alberto Simi era muito boa, tinha sempre lugar para a água escoar.
Naquela noite caiu calipero, caiu cedro, caiu árvore de fruta nos quintais. Caiu árvore dentro do tanque do chalé, diz que no fundo ainda tem, que eucalipto não apodrece dentro d’água, não sei.
Coqueiro não caiu nenhum.
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Se eu tinha cinco anos, meus irmãos tinham: Carlinhos 13, Ana Clara 11, Pedro 9, Zaga 7, Bosco 3, Auxiliadora 1.


Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

sexta-feira, 9 de março de 2018

A horta do grupo escolar rural


 Alunos do quarto ano com o Professor Antônio Calixto Rodrigues

O nosso Grupo Escolar tinha no nome a palavra Rural, mas não era só por causa de estar na roça. Era porque ali havia ensino agrícola mesmo. Aprendíamos a cultivar verduras e legumes trabalhando na horta da escola e depois fazíamos hortas em casa e o professor visitava os quintais de alguns alunos, para verificar como estava indo a produção doméstica...
Duas vezes por semana, após o recreio, a classe toda ia para a horta. Cada um fazia um serviço, as meninas também. Aprendíamos a cuidar das sementeiras, fazer o transplante das mudinhas, molhar os canteiros, pegando água na bica. Existia uma mina d’água no fundo da horta. Depois da ampliação da escola, em 1970, a mina desapareceu, mas ficava mais ou menos onde foram construídas a diretoria e a secretaria da escola nova.

Havia os dias de colheita, quando as verduras estavam prontas para o consumo. Todos levavam para casa sacos de alface, chicória, couve, rabanete... Nos dias de transplante, quem estava fazendo horta em casa ganhava mudinhas prontas para os canteiros definitivos.
Junto à horta, havia um ranchinho muito organizado, construído com toras de madeira. Era o depósito das ferramentas, gerenciado pelo Seu Zé e mais tarde pelo Seu Dito, que acabou se aposentando na Escola Eurípedes Braga, na cidade. As ferramentas ficavam penduradas arrumadinhas e ali a gente pegava e ali as devolvia no final do trabalho. Era preciso limpar e lavar antes de devolver. Assim, estavam sempre apresentáveis as enxadas, os enxadões, as pás, os rastelos...

A glória verdadeira era chegar correndo na frente dos colegas e pegar o peruzinho para ir buscar esterco. Formava-se um trio: um empurrando o peruzinho e os outros dois com pás para catar esterco de boi nos pastos atrás da Vila Jacarandá. Claro que a gente esticava a caminhada, ia procurar esterco perto do primeiro tanque, ou do outro lado do segundo tanque, onde depois fizeram a Casa Amarela. O chato era começar de repente a encontrar esterco verde, fresco: queria dizer que os bois estavam por perto. Acontecia às vezes, e a gente recuava logo, medo de dar de cara com boi bravo no meio dos eucaliptos...
Atrás da Vila Jacarandá tinha umas casas com laranjeiras e às vezes a dona da casa deixava a gente apanhar as laranjas que estavam quase rachando de maduras... Aprendi a abrir laranja na mão, sem faca.


Quando voltávamos com o carrinho cheio de esterco, a Dona Luiza Assoni já tinha preparado uns belos pratos de canjica doce, quentinha, para nós. É que muitas vezes as aulas já tinham acabado, os colegas tinham ido embora e só nós tínhamos sobrado, pequenos heróis queimados de sol na batalha pelo adubo para a horta.
E ninguém achava ruim a demora, nem os professores, nem as famílias. Pequeno paraíso, a nossa Coruputuba. Onde mais, neste mundo, alguém iria confiar uma tarefa daquela para crianças de nove ou dez anos?
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Coleção Patrick Assumpção, Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Xícaras de porcelana dourada


Esse negócio de tomar café elegantemente, um bocado de pão, um gole de café... isso demorou. A gente bebia o café de gúti-gúti na caneca de folha, que o Seu Miguelzinho tinha colocado asa, e saía para o quintal comendo o pão. A caneca de folha deixava marca na testa, tanto tempo que a gente ficava bebendo e respirando dentro da caneca, o narizinho ficava cheio de gotinhas de vapor.
Mas no bufê, de vidro e espelhos manchados, tinha umas xícaras de porcelana, branquinhas por dentro e pintadas de amarelo por fora, com paisagem de coqueiro, casinha e mar. E também, do mesmo jogo, o bule, a leiteirinha, a manteigueira e o açucareiro. Mas era só de enfeite tudo isto, eu pensava. Até que veio o batizado da Auxiliadora, quando eu tinha quatro anos.
Na igreja, depois da missa cheia de incenso e do harmônio do Maestro Romão, minha irmãzinha bebê, de longa camisolinha branca, não estava no colo da mamãe, nem do papai. Estava no colo dos padrinhos, o Seu Vando e a Dona Bela Esteves. Orações, a fala do padre, a vela acesa, o algodão com óleo na testa e no peitinho da criança... Depois, fomos todos para casa – e os padrinhos também! Foram tomar café com a gente.
Quer dizer, tomar café com o papai e mamãe. Nós, crianças, fomos para a cozinha, sob os cuidados da Vovó, que estava com o Bosquinho no colo. Vovó falou que era para dar sossego para as visitas, tinha que ir para o quintal. Mas bem capaz! A gente queria ficar no corredor, espiando pelo vão da cortina de chita. Eu espiava, disputando espaço com os maiores, num empurra-empurra, mas não podia dar muita risada, nem cochichar muito.
Eu espiei, e vi. Ó maravilha! A mesa tinha ido para perto da janela da varanda, estava com toalha. Em cima da mesa, as xicrinhas amarelas! E o bulinho! E a leiteirinha, com o açucareiro de tampa, e a manteigueira! E tinha manteiga, que compraram na Dona Naná. E tinha pão doce, de casca marrom brilhando!
As cadeiras de pau tinham recebido capas de morim branco, que mamãe tinha costurado e bordado, com tirinhas para prender no encosto. Sentados, solenes, os adultos conversavam contentes, comentavam coisas, passavam manteiga no pão doce, punham café e leite, e tudo fumegava, e as colherinhas dançavam dentro das xícaras, tilintando. Mas me deram um bruto de um empurrão por trás e eu fui de cambalhota para o meio da sala e já fui me levantando aos trambolhões para me safar dali, mas deu tempo de ver a cara da minha mãe e o gesto que queria dizer “Ocê me paga!”.
Tinha mais ninguém no corredor não. Fugi para o quintal e estava todo mundo lá, rachando o bico de tanto dar risada.
Acho que não apanhei não, acho que ninguém apanhou, não lembro. Lembro que logo depois a gente tomou café com leite com pão doce com manteiga. Mas o café foi nas canecas de folha mesmo, as xicrinhas amarelas já tinham voltado para o bufê e ali ficaram mais uns vinte anos, até que foram sumindo, quebrando, desaparecendo.
O bufê acabou, as cadeiras de pau também, e as suas capas de encosto. Acabou essa coisa de ter na sala mesa com cadeiras. Acabou isso de a gente levar tombo e dar risada, a gente vai ficando mais fraco e triste e os tombos agora fazem a gente chorar.
Xicrinhas douradas de café com leite! Doces, lindas, frágeis, como a infância!  Frágeis como a vida.
* * * * *

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Mercado Livre

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Protegidos pela bondade



Foi no decorrer do segundo ano de escola que fiquei órfão de pai. Este era um papel melancólico, que atraía a atenção de todos, porque envolvia alguns rituais. Tínhamos que usar, durante um ano, uma tarja preta na gola do paletozinho. Mamãe tinha que usar roupa inteiramente preta. Adaptado à condição de órfão, fui percebendo algumas mudanças no modo de nos tratarem.
Toda vez que a gente ia comprar pão, ganhava um doce da Dona Naná. Nessa época estava germinando em mim o espírito de preocupação com os outros, a tendência de cuidar: O doce que eu ganhava, tendo ido sozinho à padaria, bem que poderia comer sozinho, com três mordidas e pronto. Mas não: levava para casa, ia com ele pelo meio dos eucaliptos que rodeavam o campo de futebol, ia com a sacola de pão e o doce e entregava tudo para mamãe, ou vovó. Então elas repartiam, cortavam com a faca – uma cirurgia ritual para multiplicar o doce por oito, já que éramos oito irmãos. Lembrando que precisava guardar uma fração para quem não estava, para quem ainda não tinha voltado do serviço, ou da escola.
Quando a gente ia comprar alguma coisa no bar, ganhava do Seu Rozalah, ou do Seu Zé Souraty, um picolé. Aleluia! Mas isto durou pouco, pouco mesmo. Um dia, fui à leiteria com o Bosco e a Auxiliadora. O Bosco se comportou, ganhou seu sorvete e ficou chupando bem calmo, chupando por igual, para não deixar que o picolé afinasse muito no centro e acabasse desabando do palito. Mas a Auxiliadora, coitadinha, não. Ela chupou um pouco o picolé de coco, enjoou, jogou fora. Entrou de novo no bar: Agora eu quero de abacaxi. Minha irmãzinha, tinha cinco anos, lourinha, tão alegre...
 Ganhou o picolé de abacaxi, saiu, foi se sentar debaixo do pé de suinã. Duas ou três chupadas, jogou fora e veio de novo: Agora eu vou querer... de groselha! Naquele dia acabou a facilidade do sorvete. Mas o doce da padaria continuou, porque as crianças não abusavam. E sempre vinha um pãozinho a mais, além dos que a gente pagava.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Coleção Coruputuba – Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Como foi que aprendi a gostar de ler


Como foi que aprendi a gostar de ler? Provavelmente vendo papai ler, percebendo o seu carinho com os livros... E ele nunca achou ruim quando a gente pegava os livros dele. Mas foi decisiva a atuação de minha professora do segundo ano, Dona Célia.
Quase no final da aula, período das onze às duas, todos tinham pressa em guardar o material, cruzar os braços sobre a carteira e fazer completo silêncio. Só então Dona Célia abria a gaveta e tirava o livro “Uma história e depois... outras”. E começava a ler, contando-nos a continuação da história do cão “Lobo-Bom”, que vivia no sítio do vovô e se afeiçoou pelo casal de netos em certas férias da escola - e depois, quando as crianças partiram, partiu também atrás do trem e viveu muitas aventuras, muito sofrimento e cansaço, até chegar à cidade... E a história prosseguia...
A história prosseguia, um pedacinho por dia, provocando minha imaginação de criança de oito/nove anos... Aqueles minutos no final da aula de cada dia, antes que a sineta da Dona Luiza Assoni começasse a soar pelos corredores... Aqueles minutos eram aguardados com ansiedade, como hoje se espera pelo capítulo da novela da TV.
Quando finalmente chegou a última página do livro, com o final da história do “Lobo-Bom”, foi uma tristeza geral: acabou... Mas Dona Célia passou para a segunda fase de seu plano: falou sobre a biblioteca da escola, contou que o livro estava à disposição dos alunos, e havia outros livros, também interessantes, e nos ensinou como fazer a inscrição que nos habilitaria a emprestar tais livros, podendo levá-los para casa.
Toda noite, daí em diante, havia em casa uma sessão de leitura, comandada pelo Pedro, que já estava no ginásio e lia em voz alta com muita clareza, usando os tons adequados a cada passagem. Eu e meus irmãos, sobre a cama ou ao lado do fogão, viajávamos pelos mais diferentes pontos do mundo, conhecendo povos, costumes, animais, rios, florestas. Viajávamos, nós, tão pobrezinhos... Levados pelas asas dos livros, livros cheios de bonitas letras e ilustrações atraentes, livros com um cheiro especial de relíquias, encapados de papelão azul...
Professora Célia Lopes Malhado, Deus a abençoe!
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina

domingo, 28 de janeiro de 2018

Por onde passava o trem





Quem hoje passa pela Av. Dr. Francisco Lessa Júnior, a nossa “via expressa”, talvez não saiba que de primeiro o trem passava por ali. Isto antes da retificação da linha da Estrada de Ferro Central do Brasil na década de 1940. Com a retificação, vários trechos foram abandonados, mas seus vestígios permanecem.
Imagine um trem naquele tempo saindo da nossa Estação, indo em direção a São Paulo. Logo na passagem de nível da Rua Campos Salles, a linha já fazia uma curva fechada para a esquerda, tomando o rumo que falamos, da atual “via expressa”.
Puxa vida! Em 1970 ainda existia um trecho de linha, com trilhos, dormentes e tudo, no começo da “via expressa”. Terminava numa rampa destinada ao embarque de gado, acho que mais ou menos perto do atual depósito dos Correios.
O trem passava por trás da Igreja do Socorro, pegava a atual Rua Alcides Ramos Nogueira, que serve ao Shopping, ao Fórum, à Câmara e ao Real Ville. Nesse trecho, a ferrovia corria paralela à Estrada Velha e só se afastava para a direita na altura do final do Araretama, seguindo para Tremembé, atravessando o Rio Una por uma ponte no meio do mato.
Agora imagine o trem saindo da nossa Estação com destino ao Rio de Janeiro. No começo, ia seguindo o trajeto atual, passando nos fundos do Supermercado Maktub. Mas atrás do Sassaki já começava a se afastar para a direita. Hoje o leito abandonado virou rua: Rua Tribuna do Norte e, depois da rotatória do cemitério, Rua Francisco de Oliveira Linha, passando entre os dois cemitérios. Aliás o nome da rua foi dado em homenagem ao guarda da cancela, Sr. Francisco, que tinha o apelido de Chico Linha.
Então começava uma curva para a esquerda, atravessando a atual Av. Manoel César Ribeiro e atravessando o leito atual da ferrovia. Passava no espaço entre o terreno da Alcoa e o atual Castolira. Seguia pelos fundos da Sourcetech e começava uma enorme curva em “s”: entortava-se para o lado direito, cruzava em ângulo reto o traçado atual, entrava pelo terreno que hoje é da Confab e ali dentro iniciava a curva para a esquerda, aproximando-se de novo do traçado atual. Na ponte sobre o Rio Ipiranga já estava tudo certo e seguia para a Estação de Coruputuba sem maiores sustos.
Essa grande curva em “s” tinha o nome de Volta da Bananeira. Até ali chegavam os passeios que eu e meus irmãos fazíamos pelo meio dos eucaliptais quando morávamos em Coruputuba.

Pronto, agora pode acessar o Google Earth e conferir as marcas que o tempo antigo deixou no tempo moderno.

A “Volta da Bananeira” era uma dor de cabeça para os maquinistas da Central.

Nesse trecho, o trem precisava passar bem devagarzinho
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Seu Francisco Professor

Francisco Fonseca Marcondes aos 21 anos de idade. Foto datada de 23 de maio de 1935. Do álbum de Maria Clara Fonseca Marcondes.

Meu pai, o Professor Francisco Fonseca Marcondes, filho de Francisco Carlos Marcondes e Maria Clara Fonseca Marcondes e neto de José Pedro Marcondes, fazendeiros no bairro de Itapecerica em Taubaté, queria ser padre e estudou nos seminários até quase se ordenar. Quando faltavam dois anos para isto, ficou doente e teve que desistir do sacerdócio. Trabalhou na CTI e depois no Diocesano, até que o bispo decidiu que só padres podiam lecionar naquele colégio. Então, o Padre João, vigário em Pindamonhangaba, indicou papai para dar aulas em Coruputuba, para os funcionários da Companhia que precisavam completar os estudos.
Foi para Coruputuba no início de 1942, com a esposa Maria Tereza. Ele tinha vinte e oito anos, ela vinte, e tinham dois filhos. Primeiro, foram morar na Vila Tanque, vizinhos do Seu Alcides Sampaio. Seis anos depois, a família mudou-se para a Avenida Dr. Cícero Prado, a rua de entrada do bairro.
Papai era muito religioso. Ele que tinha a chave da Igreja, abria, trocava o azeite da lâmpada do Santíssimo, tocava os sinos, ajudava as missas. Ensinou os filhos a ajudar as missas, em latim.
Era um sábio. Eu vivia atrás dele, enquanto ele molhava os canteiros da horta: Pai, como que é casa em latim? E em alemão? E em francês? E em italiano?  Ele respondia com paciência, mas eu não guardava as respostas, só me interessavam as perguntas. Mas eu prestava muita atenção no jeito dele dar aula, explicar, tornar a explicar... Conhecia vários idiomas e dava aulas particulares de latim, francês e inglês, além de matemática e as outras matérias. Preparava alunos para os exames de admissão ao ginásio e dava aulas de reforço.
O quintal da nossa casa na Avenida Cícero Prado era enorme. Papai, amante da natureza, foi enchendo esse quintal com pés de fruta. Banana tinha de todo tipo: prata, nanica, ouro, São Domingos, da terra, banana-figo... Várias mangueiras... E tinha coqueiros de coquinho, pés de goiaba, de caju, de laranja pera, laranja lima, laranja morja, laranja baiana... Tinha dois pés de araçá. Dois pés de fruta do conde, um raro pé de uva-japonesa, que os colegas da escola conheciam por macaquinho. Tinha um pé de uvaia, que papai morreu pensando ser um pé de jabuticaba. Um lindo pé de ingá também só encorpou e frutificou depois de seu falecimento. E sempre tivemos pés de maracujá subindo pelas árvores, chuchu se enganchando nas cercas – e o que mais estranhei quando fui morar na cidade foi ter de pagar pela baciinha de chuchu na feira...
Quando eu ia ao bar com papai, comprar alguma coisa, reparava que todos faziam silêncio quando ele entrava, tiravam o chapéu, interrompiam o bilhar e as piadas, até que a gente saísse. O Professor era muito respeitado. Nossa casa era a “casa do Professor”. Éramos “os filhos do Professor”. Até hoje, mais de meio século depois daqueles acontecimentos, se preciso refrescar a memória de algum coruputubense que não se lembra mais de mim, digo: Sou filho do professor – e o rosto da pessoa se ilumina, e a conversa toma velhos rumos.
Depois de algum tempo, a delegacia de ensino não permitiu mais que as aulas do curso de adultos fossem dadas no grupo escolar. Por isto, a Companhia mandou fazer várias mesas de armar sobre cavaletes e mandou tudo para nossa casa. A partir daí, toda noite nós retirávamos os móveis da sala (tão poucos!) e as nossas caminhas do quarto da frente, para que os pobres cômodos se transformassem em salas de aula. Então chegavam os alunos, uns trinta homens em busca do saber.
Papai morreu com quarenta e três anos. Morreu do coração, na Santa Casa, depois de uns quinze dias internado. Morreu na presença de mamãe e de dois padres, o Padre Mario Cury e o Padre Orlando. Quem foi a Coru avisar a gente foi nosso Tio Gordo, o radialista Jota Marcondes, que era o irmão mais criança de papai. Fomos todos buscar o corpo na cidade, fomos na ambulância da Companhia. Paramos no Grupo Escolar para pegar o Zaga, que estudava de tarde e ainda não sabia de nada. Alguém foi lá chamá-lo. Quando apareceu no portão da escola, saindo com o embornal e seus cadernos, ele estava tão vermelho, parecia que ia explodir. Entrou na viatura chorando, nós todos começamos a chorar alto e alguém dizia chorando: Não chora!
De tudo, no meio daquela tristeza, o que mais me chamou a atenção foi o mundo continuar funcionando: quando a gente estava voltando da cidade, as içás estavam caindo, era outubro, e elas se esborrachavam no vidro do carro. O céu estava azul, continuava ventando nos eucaliptos, continuavam a flutuar no céu as nuvens brancas, tudo continuava, e eu achava esquisito aquele negócio de tudo continuar, era como se a morte do papai não fosse nenhum acontecimento importante...
Mamãe ficou viúva com trinta e cinco anos – e oito filhos. O maior, o Carlinhos, tinha dezessete anos. A caçula, Salete, tinha dois anos. Coitada da mamãe, para nos sustentar ficou só com a pensão do papai. E o esforço do Carlinhos e da Ana Clara, que tinha quinze anos e começou a trabalhar na farmácia. O Carlinhos já trabalhava no escritório fazia dois anos. Devo tudo a esses dois irmãos mais velhos, que não puderam prosseguir os estudos porque precisavam trabalhar para sustentar a casa.
Naquele tempo a gente nem reparava, mas agora sei que vivíamos na pobreza, mesmo no tempo de papai vivo, coitado, ganhando tão pouco. Na hora do almoço e da janta, não tendo prato para todos, alguns comiam na tampa da panela, ou na lata de goiabada. Imagino o sofrimento dos adultos, vendo que as crianças sofriam a falta de coisas essenciais.
Mas nós não percebíamos.  Nossa casa era uma agitação de alegria e de brincadeiras. Os móveis foram feitos quase todos por papai. Nossas camas ele fazia com madeira que ganhava da fábrica. Os brinquedos, muitos ele mesmo fazia. Lembro de um ônibus feito de toco de madeira, onde ele pintou as janelinhas com as caras dos passageiros. E, se até hoje eu e meus irmãos nos encantamos diante de um presépio, é por causa do costume que ele plantou em nós naqueles dezembros de Coruputuba.
Quando papai morreu, nossa casa virou um ajuntamento. Eu nunca tinha visto um movimento assim, a não ser nas procissões. Todo mundo foi em casa, cumprir a obrigação do velório. Dona Naná e o Seu João Mexas, da padaria, mandaram dois enormes sacos de pão. E também uma grande lata de manteiga. A Cooperativa mandou muito pó de café e açúcar. E a noite foi movimentada. Fui dormir tarde, meus irmãos também. Eu tinha nove anos e estava mais espantado do que triste. Até chorei no dia seguinte, na saída do enterro, mais por ver mamãe chorar do que de tristeza própria.
O povo ficou tão bonzinho para nós! Passamos a ser tratados com tanta atenção naquela comunidade! Várias famílias nos ajudando, tanto carinho, que nem sobrava muito lugar para tristeza.
Tristeza eu fui ter passado algum tempo. Após a semana de luto, voltei para a escola, estava no segundo ano. Um dia aprendi uma coisa nova, não lembro o quê, na aula. Cheguei em casa correndo e fui direto para o quintal, queria contar o que tinha aprendido, fui chamando: Pai, pai! Mas não tinha ninguém na horta, os canteiros estavam secos, o mato crescendo, papai não estava lá, regando as verduras... Então bateu em mim, de um jeito duro, a compreensão de que ele tinha morrido mesmo, e isto era sem volta.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes