O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Esquecimento

Haverá depois vozes dos outros
e ruídos das coisas
e nossas vozes se perderão.

Passarão pelo caminho
muitos pés em muitos passos
e nossos passos serão esquecidos.

O vento soprará aqui e noutros lugares
levando sons e pó
e não mais levando nossas ideias.

Choverá, como sempre,
a mesma chuva de sempre
que será alheia a nós então.

Mesmo a areia molhada da praia
não terá lembrança
de nossa caminhada.

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(Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Por que de primeiro se falava assim?




- Sabe se o Marrom já subiu?
- Que hora que vai descer o Expressinho?
- O Aço desceu atrasado hoje.
- O bonde do Seu Ciro agora só vai subir às quatro.
- Foi a Litorina que desceu agora há pouco?
- Ah! O Bacurau sobe só de madrugada.
- Nossa! Perdi a sabatina. O Marrom das 6 e 5 subiu adiantado!
- Vai descer pra Aparecida? Agora, só o Misto, de madrugada.

É QUE TODO MUNDO TINHA UMA NOÇÃO DE TOPOGRAFIA

Morando em Coruputuba, a gente sabia que DESCER era ir para Aparecida, Guaratinguetá, Lorena e, lá longe, o Rio de Janeiro. SUBIR era ir para a cidade, para Taubaté, São José dos Campos e, de raro em raro, para São Paulo.

Tinha lógica essa linguagem. O Rio de Janeiro fica no nível do mar. São Paulo está a 760m acima do nível do mar. Ir para um lado é descer. Para o outro, é subir.

É o que o Rio Paraíba faz. Nasce no topo da Serra do Mar e vem descendo. Passa por Cunha, São Luiz, Santa Branca, Guararema. Aí, faz a curva para a direita e continua a descida: Jacareí, São José, Caçapava, Taubaté, Tremembé, Pinda, Roseira, Potim, Aparecida, sempre descendo: Guará, Lorena... e vai descendo para entrar no estado do Rio de Janeiro. Até encontrar o mar, na praia de Atafona, em São João da Barra.

Por isto, tinha lógica a gente falar de trens e de ônibus que "subiam" ou "desciam".
Do mesmo jeito, a gente desce para Ubatuba. E sobe para Campos do Jordão.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Filosofia para Crianças em Coruputuba

O enigma da atração que não se cumpre

O Zaga tinha doze e eu dez anos. Percorrendo o enorme quintal, discutíamos as leis universais da atração dos corpos, a força centrífuga e a centrípeta, e os sábios que as formularam. Não sabíamos disto, mas estávamos praticando todo dia a pedagogia peripatética.
Então eu me sentei no tronco caído perto da bananeira prata e iniciei a explanação de um belo sofisma.
Propus ao meu irmão: se eu erguer o braço e deixar cair uma pequena pedra, ela nunca vai tocar o solo.
Zaga não me levou a sério: Ah vai Paulo! Claro que ela vai cair direto até o chão!
Mas eu argumentei, sedutoramente: Veja, Zaga, as pessoas comuns podem responder assim. Você não! Você raciocina! Pense bem. Eu solto a pedrinha e ela, num primeiro momento, velozmente cai, percorrendo a metade da distância que a separava do chão. Está certo até aí?
O Zaga concordou, sem convicção. E eu prossegui na minha campanha:
Bom, agora a distância entre a pedrinha e o chão é menor. Certo?
Ele respondeu: Tá, tá, continua essa lengalenga.
Continuei: agora a pedrinha vai continuar seu caminho. Inicialmente, cai metade da distância.
Zaga quis interferir, mas não achou jeito. Fui em frente:
Agora falta só um tequinho para ela tocar o solo! Mas ela vai cair inicialmente só a metade dessa distancinha. Em seguida, vai cair só metadinha dessa distanciazinha. Depois está faltando um milímetro e ela cai só meio milímetro. Em seguida, cai um quarto de milímetro. Depois cai só um tantinhozinho: vinte e cinco centésimos de milímetro e depois...
Aí o Zaga, já sem nenhuma paciência filosófica, cansou, foi indo embora e dogmatizou:
Ah Paulo! Começa que a pedra não cai metade da distância. Quando você solta, ela cai tudo de uma vez.
Continuei sentado no tronco perto da bananeira prata, pensando.
Estou sentado lá até hoje. O Zaga nem lembra mais disso.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto do site: http://ufos-wilson.blogspot.com.br/2015/06/como-lei-da-gravidade-de-newton-ajudou.html

segunda-feira, 17 de abril de 2017

De que família mesmo você é?


Quem pergunta isto para alguém que acabou de conhecer está de fato querendo dizer outras coisas.

Pode ser que a intenção seja puríssima: apenas saber quais são os parentes do novo conhecido, para ver se dá para aprofundar um bate-papo sobre os velhos tempos, os costumes de outrora. Quem sabe, descobrem que são parentes entre si, que habitavam no mesmo bairro em outras épocas...

Mas, dependendo da situação e do tom de voz, algumas vezes quem pergunta “de que família você é” está querendo significar: Eu sou de família boa, vamos ver você!

E família boa, para algumas dessas especulas, significa gente branca e “importante”. Ou seja, os mandões da política e dos negócios, sempre de bem com o poder religioso e, de preferência, tendo um antepassado titular do império ou quase.

Conceitos que já deviam ter acabado com a Revolução Francesa (todos são cidadãos) ou com a Revolução Russa (todos são camaradas).

Nosso país demorou demais para acabar com o império e a escravidão. Isto alimentou a noção que existem pessoas que já nascem importantes e pessoas que já nascem desimportantes, que há ocupações dignas e ocupações indignas, que há origens nobres e origens espúrias.

Veio a República, mas seus ideais de igualdade até hoje não criaram raiz em todo lugar não! Cidades pequenas continuaram a cultivar a ilusão de que há famílias boas e outras não muito.


Mesmo quando essas cidades pequenas cresceram, em muitas delas continuou a vegetar a praga da intolerância que, em geral, se oculta. Mas às vezes se revela com perguntas como a que fizemos acima.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Imagem de
http://pt.depositphotos.com/99633332/stock-illustration-pair-of-noble-people.html