O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

De que família mesmo você é?


Quem pergunta isto para alguém que acabou de conhecer está de fato querendo dizer outras coisas.

Pode ser que a intenção seja puríssima: apenas saber quais são os parentes do novo conhecido, para ver se dá para aprofundar um bate-papo sobre os velhos tempos, os costumes de outrora. Quem sabe, descobrem que são parentes entre si, que habitavam no mesmo bairro em outras épocas...

Mas, dependendo da situação e do tom de voz, algumas vezes quem pergunta “de que família você é” está querendo significar: Eu sou de família boa, vamos ver você!

E família boa, para algumas dessas especulas, significa gente branca e “importante”. Ou seja, os mandões da política e dos negócios, sempre de bem com o poder religioso e, de preferência, tendo um antepassado titular do império ou quase.

Conceitos que já deviam ter acabado com a Revolução Francesa (todos são cidadãos) ou com a Revolução Russa (todos são camaradas).

Nosso país demorou demais para acabar com o império e a escravidão. Isto alimentou a noção que existem pessoas que já nascem importantes e pessoas que já nascem desimportantes, que há ocupações dignas e ocupações indignas, que há origens nobres e origens espúrias.

Veio a República, mas seus ideais de igualdade até hoje não criaram raiz em todo lugar não! Cidades pequenas continuaram a cultivar a ilusão de que há famílias boas e outras não muito.


Mesmo quando essas cidades pequenas cresceram, em muitas delas continuou a vegetar a praga da intolerância que, em geral, se oculta. Mas às vezes se revela com perguntas como a que fizemos acima.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Imagem de
http://pt.depositphotos.com/99633332/stock-illustration-pair-of-noble-people.html





domingo, 5 de março de 2017

Sedução e sabotagem diante do mar


Piscininhas cavadas na areia, bem junto ao mar. Cavadas com os pés, é mais confortável. Tudo para podermos ficar cada um em pé no centro de uma pocinha e, a um sinal, trocarmos de posição. É o que Yasmin quer, mas o vovô aproveita e vai testando canais e transposições, fazendo o conteúdo vazar para a escavação vizinha e desta para a próxima. Yasmin não concorda com essas engenharias, que servem só para desviar a atenção da brincadeira principal.
Súbito, a maré chega, arrasando nossas construções e ficamos ali, repreendendo brandamente a natureza: “Ah, marzinho, por que você está fazendo isto... Olha, ondinha, vem cá, eu dou comidinha para você...” E ela se põe a alimentar as ondas: enche a mão com um bolo de areia molhada e vai distribuindo pequenas porções para cada uma, decidindo o bocado de conformidade com o tamanho da onda. Ondinhas pequenininhas ganham um teco invisível de comidinha, espremidinha no não-espaço dos dedinhos apertados.
Mas agora mudou, vai ser a aposta de corrida paralela ao mar. Os pontos de partida e de chegada são locados (um palito de sorvete, uma tampinha de pet, coisinhas assim). Já se sabe que o vovozinho jamais chegará em primeiro. Começa que Yasmin sabota o sinal de partida. Conta, aos gritos: “Um... dois... três...! ” Mas disparou correndo no “dois”, sendo que todos os outros concorrentes (quer dizer, o vovô) ficaram aguardando o “e já”, que não aconteceu.
Isto se repete umas dez vezes. Na corrida, o vovô sempre se mantém uns dois passos atrás da pequena e também se mantém numa linha paralela: não vá o bichinho tropeçar e o vovô cair em cima!


A seguir, a premiação. Já que o vovô sempre perde, ele fica responsável pela cerimônia. Em altos brados, diante da praia, anuncia, apontando a netinha: “Medalha de ouro! ”. Seguem-se risadas e abraços comovidos.
Na próxima bateria, ela ganha de novo! Mas a qualidade das medalhas vai decaindo, os recursos são limitados, estamos sem patrocinador. O anúncio continua solene. Apontando a campeãzinha: “Primeiro lugar! Medalha de pau!
Seguem-se medalhas de outras substâncias e consistências: medalha de bolacha, medalha de areia, medalha de água, medalha de ventania etc. Ressalte-se que todas essas premiações são completadas por abraços muito efusivos e sorrisos muito abertos.
A prova mais radical acontece só uma vez: quando os dois estão descendo para o mar, deixando as barracas. Esse trajeto é em declive, através da “praia da farofa”, que é o trecho de areia grossa e solta. Yasmin sempre ganha ali também, lançando mão de várias formas de sabotagem e corrupção. “Olha ali, vovô! ” – e enquanto o vovô olha, e não tinha nada para olhar, ela já disparou dando gargalhadas.
De tudo que narramos, pode ficar a impressão de que o vovô é facilmente comandado pela netinha. Mas não é bem assim. Por exemplo, quando o vovô está tomando cerveja na barraca, não se deixa arrastar facilmente pelos chamados da pequena. Insensível, responde-lhe na cara dura: “Ah, agora não dá, meu Sirimim, deixa o vovô conversar um pouco com a mamãe e a vovó...
Mas Yasmin não se intimida diante de tanta brutalidade. Encosta-se lateralmente na mesa, vem deslizando para mais perto, olha bem nos olhos do vovô e murmura: “Pur favor, vovozinho...
Então o vovô se levanta, engole o resto da cerveja e grita: “Corrida na praia da farofa! O último é mulher do padre! ”.
Sabendo que vai perder de novo.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos de Anamaria Jório Rodrigues Marcondes