O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Professor Oswaldo Collus e o Teorema de Pitágoras



Nos anos do “ginásio”, como se dizia antigamente (hoje seriam as quatro últimas séries do Fundamental), sofri com a Matemática. Não entendia as lições, e ficava indignado com isto, porque no curso primário tinha ido muito bem nessa matéria. Acontece que estavam sendo apresentadas a mim a aos meus colegas uma série de equações, inequações, teoremas e regras: era a álgebra. No primário tinha sido somente a aritmética.
Durante três anos tive aulas com um professor que certamente sabia muito da matéria, mas nada conhecia sobre a arte de ensinar. Ditava exercícios, mandava resolver as questões do livro, corrigia, dava notas baixas. Mas dava notas altas quando o time dele ganhava – e, infelizmente, ele torcia para um time muito fraco. Também dava notas altas quando, por ocasião do aniversário dele, a gente fazia uma festinha com bolo, refrigerante, parabéns...
No início de nosso último ano do ginásio, apareceu um novo professor, que certamente também sabia a matéria, mas não nos ensinava direito. Um dia, diante de um exercício complicado, disse a ele: “ – Professor, não entendi o exercício!” Ao que ele, sorrindo, me respondeu: “ – Não é para entender mesmo...”
Depois das férias de julho, trocou de novo de professor. Agora, era o Professor Oswaldo Collus. Na primeira aula, ele nos perguntou sobre nossas dificuldades. Quase todos falaram sobre o Teorema de Pitágoras. Porque vivíamos repetindo uma frase que parecia uma reza, um mantra, que não entendíamos, mas sabíamos de cor: “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”. Ou, na versão reduzida, “a²=b²+c²”. 
O Professor nos disse: “É simples”. Foi à lousa, com o giz desenhou um triângulo retângulo com catetos medindo 3 e 4, e com hipotenusa medindo 5. Traçou um quadrado a partir do cateto menor (3X3=9); um quadrado a partir do cateto maior (4X4=16) e, finalmente, um quadrado a partir da hipotenusa (5X5=25). E nos disse: “O quadrado da hipotenusa (no caso, 25) é igual à soma do quadrado dos catetos (no caso, 9+16).
A classe inteira, em uníssono, soltou um “Ah!!!...” Hoje, eu sei que aquela exclamação era um misto de surpresa e de revolta. Surpresa, com a simplicidade do bendito teorema. Revolta, com o fato de termos sido durante tanto tempo submetidos a uma Matemática feita de frases cabalísticas, que não tinham correspondência com o mundo real.
A partir daí, a classe inteira se deu bem com a Matemática, explicada de maneira tão singela. Aprendi a fazer cálculos sempre através de desenhos. Mais tarde, já lecionando, procurei facilitar a compreensão dos meus alunos através de demonstrações gráficas. E nunca me esqueço de como isto começou, nunca me esqueço de quem fez com que eu passasse a gostar de fato da Matemática.
Professor Oswaldo Collus: um mestre de profunda sabedoria – e de persistente gentileza para com seus discípulos.
*   *   *

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Desenho de Pitágoras de Samos

sábado, 22 de dezembro de 2012

O último Natal em Coruputuba


 
1966. Era nosso último Natal em Coruputuba, mas ainda não sabíamos disso. Já éramos moços – e a expectativa dos presentes de Natal não existia mais. Não nos interessavam mais as brincadeiras à noite, diante da Farmácia, debaixo da Paineira iluminada. Tudo isto tinha passado, pertencia à nossa infância, e a infância parecia uma fase muito distante daqueles dias de mocidade.
Os quatro irmãos homens mais velhos: o Carlos, o Pedro, o Zaga e eu, atendemos ao convite do Maestro João Antônio Romão: naquela Missa do Galo, o coro se resumiu a nós quatro. Ao lado do harmônio, nos momentos combinados da Missa, cantamos da melhor maneira que sabíamos, o “Adeste, Fidelis”, a “Noite Feliz”, o “Gloria in Excelsis Deo”... O Bosco, não me lembro por quê, não cantou conosco no Coro, talvez estivesse ajudando à Missa, lá embaixo. Também não sei o porquê de ter o Maestro decidido que naquela noite o coro só teria vozes masculinas. Puxa vida, faltava o maior dos tenores, o Zé Brechó, irmão da Tatá, para completar.
Não éramos mais crianças, apesar de ainda nos empenharmos em cultivar algum encantamento diante do Presépio. O Carlos, havia mais de dez anos, vinha trabalhando no Escritório da Companhia. O Pedro tinha concluído o Científico e estava cursando a Escola Normal. O Zaga, tendo terminado o Científico, estava cursando a Faculdade de Direito. Eu tinha acabado de terminar o Curso Normal e iria, no ano que estava quase começando, iniciar minha carreira de professor, lecionando na escola do bairro. Naquele Natal, eu estava me sentindo um adulto: tinha finalmente espichado e, com dezenove anos, estava da mesma altura dos meus irmãos.
Mas havia em nós um sentimento parecido com o de fim de festa. De fato, apesar de ainda estarmos morando na mesma terra de sempre, parecia que tudo tinha passado, tudo estava se acabando, tudo estava escapando de nossas mãos. O quintal ficou sombrio, porque as árvores cresceram sem controle, o campinho de futebol sob as mangueiras tinha ficado irreconhecível, o mato queria tomar conta da horta, as galinhas estavam meio por conta de si mesmas, já não mantínhamos o controle antigo sobre as criações. Sabíamos que estávamos quase indo embora? Não, não sabíamos. Não aabíamos que Vovó sofreria um derrame, que isto ia apressar nossa ida para a cidade, que íamos começar a morar de aluguel em Pinda, que, a partir daí, teríamos de pagar pela pequena bacia de chuchu na feira – nós, que produzíamos no quintal de Coru muito mais do que conseguíamos consumir...
Não sabíamos que estava acabando nosso tempo de infância, de céu, de paraíso, de coração largo, de respiração solta, de sonhar que tudo era possível. Mas, naquela noite de Natal, nós cantamos com a afinação mais perfeita que conseguimos, com o melhor volume de sopro de nossos pulmões juvenis, acompanhando no tempo exato os acordes que o Maestro tirava do harmônio. E, enquanto cantávamos no coro da Capela, nós nos entreolhávamos, jovens, fraternos – e sentíamos uma espécie de orgulho por sermos irmãos.
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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto do Presépio da Igreja de Coruputuba. O Presépio faz parte do acervo do Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O cachorro da Pensão



O Negrinho era um cachorro preto, baixo, corpulento e maldoso. Pertencia à dona da Pensão, Dona Eleuzina do Seu Eurico.
Pois bem, o Negrinho ficava deitado na calçada em frente à porta da Pensão (onde depois foi o Clube). Dali, de seu posto de observação, ele tomava conta de todo o Largo. Observava quem vinha buscar água na Caixa d’Água, quem vinha jogar bola na Quadra, quem ia ao Armazém, ao Açougue... Quando encasquetava, ele vinha latindo furioso para cima da pessoa.
Houve um tempo em que minha família pegava almoço de marmita na Pensão. Foi assim que eu conheci bife na chapa, com cebola. Eu sempre ia buscar a marmita com o meu irmão Bosquinho.
E o pior era que o Negrinho tinha cismado com o Bosco. Toda vez rosnava para ele, latia... E eu, como sempre, ficava protegendo o Bosco. Mas por dentro também morria de medo daquele cachorro malvado.
Tinha um pessoal que ficava jogando ping-pong na Pensão. Eram os filhos do Seu Isaías, mais o Ademir e o Aurélio do Seu Totóizinho, e mais uma turma.
Um dia, eu e o Bosco entramos para pegar o almoço e o Negrinho estava deitado perto do fogão, roendo um baita osso. Pois não é que um dos filhos do Seu Isaías, acho que o Airton, só de sacanagem, passou correndo perto do fogão, roubou o osso do Negrinho e jogou o osso perto do pé do Bosco! O Negrinho veio correndo, bufando.
O Bosco saiu correndo e o Negrinho mordeu os fundilhos das calças dele. Igual ao que acontece em desenho animado. Toda a molecada riu muito. Olhei e vi que os adultos também estavam achando aquilo engraçado.
Silenciosamente, jurei vingança.
Naquela mesma tarde, procurei no quintal e encontrei os restos de uma cadeirona de braços, que eu sabia que estava jogada perto das bananeiras. Serrei uma das pernas da cadeira. Era de seção quadrada, com quinas vivas. Usando os conhecimentos que eu estava adquirindo nas aulas de Trabalhos Manuais do Professor Del Mônaco, com a grosa desbastei os ângulos da parte mais fina da perna da cadeira. Com a lixa, dei um acabamento caprichado.
Ficou um belíssimo porrete, confortável para segurar, sendo que a ponta ficou bem mais pesada, porque a perna da cadeira era daquelas que vão afinando em direção ao chão. Agora, era só aguardar o combate.

No dia seguinte, na hora certa, eu e o Bosco pegamos as marmitas e fomos para a Pensão. Parece que o Negrinho tinha sido alertado. Pela primeira vez, sem qualquer aviso ou provocação, ele veio direto para cima de mim, saindo de seu canto perto do fogão. Tirei o porrete do cinto: estava pronto para a luta. O Bosco ficou mais de longe.
Negrinho deu uns três pulos para me pegar, eu recuando devagar e preparando o golpe. Quando vi a cabeçona dele no ar, perto de mim, vibrei o golpe com toda a minha força de moleque de quatorze anos. O porrete pegou bem na base da orelha esquerda, senti na mão a resistência do osso do crânio.
O cachorrão caiu de quatro. Em silêncio, virou-me as costas. Murcho, caminhou até o fogão e ali se deitou e ficou quieto. Todo mundo na Pensão também ficou quieto. Ninguém me censurou, ninguém elogiou, ninguém comentou nada.
Daquele dia em diante, toda a vez que a gente ia buscar água no Largo, ou ia na Cooperativa, se o Negrinho estivesse na calçada tomando conta, ele levantava e, de cabeça baixa, entrava na Pensão. E toda vez que a gente ia buscar o almoço, ele ficava quieto deitado aos pés da Dona Eleuzina.
Foi a última vez que eu precisei usar força bruta contra alguém.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto1: segurancadotrabalho.blogspot.com
Foto2:Arquivo Histórico Waldomiro Benedito de Abreu – Cooperativa de Coruputuba

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Burro de carga



O pároco da Aldeia Distante precisava mandar temporariamente a Imagem Milagrosa para a igreja da Aldeia Próxima. O único meio de transporte disponível era o Burro que o Carvoeiro se dispôs a alugar. Trato feito, a Imagem presa com segurança ao lombo, lá foi o Burro pela estrada, tocado pelo Carvoeiro.  Nas vendas da beira do caminho, cessavam as piadas, parava a bebida e o bilhar, pessoas tiravam o chapéu à passagem da Milagrosa Imagem. E na chegada à Aldeia Próxima, os moradores se ajuntaram na rua diante da igreja, houve quem se ajoelhasse com devoção. E o Burro pensou que todo aquele respeito era para com ele. Orelhas erguidas e peito estufado, dizia para si mesmo: “Finalmente reconheceram o meu valor!”.
Então, a Imagem foi retirada e todo mundo foi atrás dela, entrando na igreja, largando na praça o Burro sozinho com o Carvoeiro. Este, para não perder a viagem de volta, amontoou no lombo do Burro muitos sacos de carvão para vender na Aldeia Distante e, imediatamente, os dois pegaram o caminho de volta. Agora, ninguém tirava o chapéu. Alguns moleques jogaram pedra, ainda atiçaram cachorro contra o Burro, que, meio espantado, orelhas murchas, ia meditando: “Estas pessoas de agora não são espertas como as daquela hora, não percebem o meu valor...”.
Assim conta a fábula. E temos que nos lembrar que fábulas são inventadas pelos humanos usando figuras de animais para explicar o comportamento de quem? Ora, dos humanos mesmo. De verdade, sabemos que os burros são inteligentes, não são burros não. Na mocidade, tendo que cavalgar pelas estradas de roça, eu percebia que o burro sabia para que lado a porteira abria, ajudava-me posicionando-se de modo a me facilitar o alcance da tranca, depois tirava depressa o lombo para que a porteira não batesse nele. Cavalos não entendiam disso, não ajudavam.
Reflito sobre esta fábula cada vez que assumo um Cargo, e cada vez que deixo um Cargo. Já assumi cargos através de disputadíssimos concursos e já assumi cargos por corresponder à confiança do Governante – este, por sua vez, assumindo um cargo pela confiança do povo. Primeiro, sei que Cargo e Carga são a mesma coisa e ainda resultam no verbo Carregar. Assumir um cargo exige disposição para carregar, para levar a carga com segurança e respeito até o final do caminho contratado.
Tenho procurado ser, com relação aos muitos cargos que já assumi, um honrado Burro de Carga. Que se orgulha, sim, de ter sido selecionado para fazer o transporte. Mas sabe perceber que uma coisa é o seu próprio valor – e outra coisa é o valor da carga, que deve ser levada sempre cuidadosamente, para que não seja danificada, para que não se estrague, para que não se perca. Para que as pessoas continuem confiando nos que assumem cargos.
Para que as pessoas continuem respeitando os Burros de Carga que honram suas cargas.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, escrito em 04/12/2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

Os clubes e a "misturança"



Em julho de 1967 aconteceram os Primeiros Jogos Florais do Eixo Turístico Pindamonhangaba – Campos do Jordão. A expressão “jogos florais” significa concurso de trovas. Os temas eram “Rio” para os candidatos de outros lugares e “Serra” para os poetas locais. Participei e tive uma trova premiada com menção honrosa. Então, num belo dia, aconteceu a premiação no Clube Literário. E lá fui eu, junto com o Walter Leme, meu companheiro de contaminação poética. Foi a primeira vez que eu entrei naquele clube.
Vieram muitos trovadores, de muitos lugares, gente de vários estados. Transformado em auditório, o salão do clube lotou. Fui vencendo minha timidez – eu era um dos candidatos mais jovens – e conversando com trovadores consagrados de outros municípios paulistas, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais...
A solenidade começou, sendo mestre de cerimônia o Percy Lacerda. Números musicais, discursos meio culturais e meio políticos, até que os vencedores começaram a ser chamados, um a um, para receber a medalha e o diploma. Cada pessoa chamada era premiada por uma das autoridades presentes. Até que, num certo momento, foi chamado o presidente do Literário para entregar a premiação para uma trovadora de outro estado.
De repente, virou uma aflição silenciosa no auditório. Porque a trovadora era negra e o presidente era contra o ingresso de negros no clube. Diante dos olhos de todo mundo, que todo mundo queria saber o que ia acontecer, aconteceu que o presidente desceu do palco e foi dando a volta no auditório para sair por um lado e ir embora para casa, enquanto a trovadora vinha vindo em direção ao palco pelo outro lado.
O Percy, numa das mais justas saias justas que já vi, teve que ir compondo ao microfone uma esfarrapadíssima desculpa, que o presidente infelizmente se sentiu mal e precisou se retirar, então em seu lugar chamamos o Dr. Fulano de Tal para entregar a medalha e o diploma para a digna poetisa etc.
Depois o Literário se modernizou em parte, o racismo foi enfraquecendo diante dos ventos renovadores, mas nunca chegou perto da democracia racial da Ferroviária. Aliás, com os olhos postos na realidade social, a Ferroviária cresceu, admitiu sócios em quantidade, construiu quadra e piscina e tornou-se de fato um grande clube, querido pela população. Enquanto o Literário entrava em decadência, afundando rapidamente até fechar. E mesmo assim, com o navio naufragando, muitos sócios do Literário torciam o nariz diante de algum elogio à Ferroviária:
– Credo, Deus me livre. Para mim não serve, lá é muita misturança.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

sábado, 24 de novembro de 2012

Fechou o hospital dos pobres


Leone Bazin e Dimitrius Stambolos


Uma das lembranças mais antigas que tenho (eu teria uns quatro anos de idade) é esta: junto com meu Pai e minha Mãe, de manhã cedinho, com sol brilhando no céu azul, fazendo muito frio, descemos do ônibus dos Valentini em algum lugar na chegada de Pinda. Andamos bastante, em direção ao Cemitério. Atravessamos uma linha de trem, caminhamos por um trecho com capim molhado de orvalho e chegamos a um prédio onde eu fui examinado por um doutor, minha mãe ganhou umas latas de leite em pó, remédios e depois... Depois não lembro mais nada, não sei onde era esse lugar que tinha pessoas que cuidavam da gente.

Mas o tempo passou e vim a descobrir que aquilo era o Posto de Puericultura do Hospital e Maternidade Bazin. Quem me contou direitinho foi o Demétrio Guarany Avelar, que hoje mora em Taubaté e foi um dos maiores jogadores de futebol do passado, tendo jogado junto com o Zito no infantil do São Paulinho. E, além disto, o Guarany também é avô da minha netinha Pietra. A narração é esta:

O Dr. Dimitrius Stambolos e sua esposa Leone Bazin, padrinhos do Guarany, venderam a Fazenda Ibiá (depois, Mandupá) e aplicaram o dinheiro na construção e montagem do Hospital, investindo em mobiliário, sala cirúrgica, farmácia, aparelho de Raio X e outros equipamentos. O prédio ficou com duas alas: uma para os pagantes e outra para os pobres. Com o passar do tempo, as despesas aumentaram muito, já que o Hospital era procurado quase que somente pelos pobres.

Na gestão do Dr. Adhemar de Barros, foi feito um convênio com o Estado, que passou a pagar o quadro de funcionários e a destinar uma verba para as despesas correntes. Porém, após alguns meses, o Estado parou de remeter a verba. Isto levou ao fechamento do hospital, para grande tristeza e decepção do casal Stambolos. O imóvel acabou sendo vendido para a Congregação dos Sagrados Corações, dos “padres brancos”, que ali permanecem até hoje.

Outro narrador me contou que um dos motivos para a queda da procura por parte de pagantes na maternidade foi a pregação da oposição religiosa: seriam amaldiçoadas as crianças que lá nascessem, porque os Stambolos eram espíritas.  

Em nossa cidade, meus caros, a religião pegava pesado.



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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, conforme narração de Demétrio Guarany Avelar
Fotos: Arquivo Histórico Dr. Waldomiro Benedito de Abreu – Fundo Demétrio Guarany Avelar

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paulo Tarcizio lança livro no MAV em Jacareí em 23/11/2012


Local: MAV – Museu de Antropologia do Vale do Paraíba
 
Rua XV de Novembro, 143 – Centro  Jacareí  SP

Lançamento do livro “Aconteceu na Escola”
de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Dia 23 de novembro de 2012 – às 20 horas
Entrada franca


Paulo Tarcizio lança livro no Museu de Antropologia no dia 23 de novembro, às 20h           

Filho de professor e de servente de escola, Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, professor, advogado, poeta, declamador e artista plástico, nasceu em Pindamonhangaba em 14/06/1947. Fez o curso primário no Grupo Escolar Rural “Antonio Bicudo Leme” em Coruputuba (1958), o Curso Ginasial (1963) e a Escola Normal (1966) no IE “João Gomes de Araújo”, em Pindamonhangaba. Concluiu o curso de Pedagogia na FVE em São José dos Campos (1974) e o curso de Direito na UNITAU (1999). Publicou em 1997 o livro de poemas “Terra Vegetal”. É membro da Academia Pindamonhangabense de Letras e da União Brasileira de Trovadores (UBT) em Pindamonhangaba, sua terra natal, para onde voltou depois de ter residido por mais de doze anos em Jacareí (de 1972 a 1984). Acaba de publicar o livro “Aconteceu na Escola”, em que narra desde suas experiências de aluno até sua vivência de educador por mais de quarenta anos.
A respeito do livro “Aconteceu na Escola” e de sua carreira de educador, Paulo Tarcizio informa:
Que cargos você exerceu no magistério?
– Fui professor primário, orientador educacional, assistente de diretor, coordenador pedagógico, diretor de escola, professor universitário e, depois de me aposentar como diretor, ingressei por concurso no cargo de professor da rede municipal. Este é o meu cargo atual, do qual estou afastado por exercer em comissão o cargo de diretor de Patrimônio Histórico de Pindamonhangaba.
Você só trabalhou na educação?
– Trabalhei em vários setores de atividade, além da educação. Acredito que isto me ajudou a adquirir uma visão diferenciada da sociedade, inclusive para me ajudar na tarefa de educador. Fui secretário do Sindicato Rural, metalúrgico na AISA, gerente de jornal em Jacareí e sou advogado – atualmente licenciado.
Sobre o que trata o livro “Aconteceu na Escola”?
– Sobre a minha experiência de educador: uma sequência de casos, todos verídicos, sobre educação, escolas, professores, alunos, funcionários, autoridades, greves, disciplina, técnicas de ensino, decisões acertadas e decisões equivocadas, ódios e afetos, gestos nobres e gestos lamentáveis... Enfim: vitórias e percalços na vida real das escolas.
Que escolas da região constam no seu livro como palco de acontecimentos?
– Além das escolas de Pindamonhangaba, comento fatos acontecidos na escola do Porto Novo, em Caraguatatuba. Há no livro vários capítulos sobre escolas de Jacareí onde trabalhei como professor ou diretor, como a do Rio Abaixo (atual Ottilia Arouca), a Escola Agrícola, a do Jardim Flórida (Benedita Freire de Macedo), a da Vila Zezé (Neusa Teodoro de Azevedo) e outras. Há também alguns capítulos interessantes sobre minhas experiências na ETEP em São José dos Campos e na escola de Igaratá (Benedito Ramos Arantes). Já o capítulo “Primavera em Santa Branca” trata de uma vivência edificante na escola Francisca Rosa Gomes, onde fui coordenador pedagógico.
E quanto às instituições de ensino superior em que você trabalhou e ou estudou?
– Trago ao leitor comentários sobre fatos acontecidos na UNITAU, na FVE e na FASC de Pindamonhangaba.
Sendo a sua primeira escola, de que forma a Martinico Prado, em Coruputuba, marcou a sua vida?
– Eu já frequentava a escola de Coruputuba na vida intra-uterina, quase que nasci lá. Minha mãe era servente da escola. Um mês após o parto, tinha que me levar diariamente para o serviço, deixando o bebê no carrinho, na cozinha, enquanto limpava as salas etc. Voltei para aquela escola como aluno e depois voltei como professor, pois foi onde iniciei minha carreira de professor.
O livro “Aconteceu na Escola” trata também das questões polêmicas que defrontam professores e governos?
– Sim. O livro narra os efeitos das injustiças e decisões equivocadas das autoridades, na visão da frente de batalha, do professor que se vê fragilizado diante dos erros dos governos.  Além de comentar o vai e vem das ondas pedagógicas em mais de quarenta anos de carreira, falamos das mais variadas dificuldades que o educador encontra no dia a dia.
 “Aconteceu na Escola” é um livro didático?
– Não é um livro didático. É um livro de memórias pedagógicas. Do começo ao fim, é uma contação de histórias verídicas, sem termos técnicos nem nomes de pedagogos e filósofos.
A quem se destina, em especial, o livro “Aconteceu na Escola”?
– De um modo geral, a quem gosta de conhecer a história do passado recente do povo das nossas cidades, de nossas escolas, dos nossos bairros. De um modo especial, aos educadores, para que possam refletir a respeito de sua realidade diária, e aos jovens que se preparam para o magistério. Estes poderão se defrontar com a narração de como é a atividade educacional, contada por quem vem vivendo essa realidade há mais de quarenta anos.
Onde pode ser adquirido o livro “Aconteceu na Escola”?
– Por enquanto, basta o interessado se comunicar comigo pelo email paulotarcizio@gmail.com para combinarmos a forma de remessa e pagamento. O livro custa trinta reais, mais despesas de correio, se for o caso. Mas a solução mais fácil e agradável é comparecer ao lançamento que vai acontecer aqui em Jacareí, no Museu de Antropologia, no dia 23/11/2012, às 20h. Estão todos convidados!
 

Ficha técnica:

Obra: ACONTECEU NA ESCOLA
Autor: PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Edição do autor – Pindamonhangaba
224 páginas; 21 cm
ISBN 978-85-913453-0-4
1. Educação. 2. Docentes. 3. Formação de Docentes
Contato com o autor: paulotarcizio@gmail.com
Preço do exemplar: R$30,00



Sobre o livro “Aconteceu na Escola”

Notas do autor

Na mocidade, ouvi de um velho secretário de escola: “Não sei para que todo esse seu esforço. Bobagem. Quando você tiver a minha idade, vai ver que para o Estado você vale só o número do seu RG”. Ele estava certo, mas isto não é relevante. Não é a busca pelo reconhecimento do Estado que nos move. Nós, idealistas, vamos em frente trabalhando pela Humanidade. Se o Estado quiser, pode nos seguir. Se não nos atrapalhar, já está fazendo sua parte.
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Todos os fatos narrados neste livro são verídicos. Substituí alguns nomes de pessoas, às vezes para protegê-las, outras vezes para proteger-me.
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Quando eu era criança, ia na cidade, chegava na escola, subia no ônibus. Mais tarde, aprendi gramática e comecei a ir à cidade, a chegar à escola, a subir ao ônibus. Da mesma forma, onde eu vivia tinha eucaliptos – e depois passou a haver eucaliptos. Neste livro, com muita saudade do linguajar simples da infância, em vários capítulos não permiti que a gramática tomasse todas as decisões.
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Quem está se preparando para ser professor encontrará neste livro vários temas para meditação. Mas quase não encontrará nomes de pedagogos e de teorias da Educação: este livro não é um manual de Pedagogia. É um relato de experiências que, pela generosidade divina, já vêm durando mais de quarenta anos.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pentecostais em Coruputuba



No ambiente extremamente católico de Coruputuba, até o começo dos anos de 1960 eu ainda não tinha conhecido de perto ninguém que fosse de outra religião. Mas então veio morar na casa vizinha à nossa a família Amarante que, pelo que se dizia em voz cochichada, eram “quebra-santos”. Era assim que, preconceituosamente, o povo simples se referia aos protestantes, aos crentes. Meu Pai, não. Ele dizia “nossos irmãos separados” e rezava para que um dia todos se reunissem: “Um só rebanho e um só pastor”. Só que o Pai já tinha falecido havia tempos.

Independente do preconceito, eu e o Bosco rapidamente fizemos amizade com eles, principalmente com o Zezé (Edevaldo) e o Miltinho, por causa do futebol. Eles pulavam a cerca e vinham jogar no nosso campinho do quintal. Depois, nosso futebol, digamos, evoluiu, e começamos a jogar no campinho perto do campo da Industrial. A partir daí, nosso timinho passou a excursionar pelos vários campinhos do bairro, desde a Vila Maria até a Fazenda, a Jacarandá, a Campineira, a Figueira...

Nessa fase do nosso timinho, a amizade com o Zezé e o Miltinho enraizou. Mas havia uma questão espinhosa: a diferença de religião, como se Deus estivesse muito preocupado com isto. Deus certamente não estava, mas nossa Mãe estava. Apesar de até conversar bastante na cerca com a Dona Tereza Amarante, sempre que nós praticávamos alguma desobediência, ela já vinha com a explicação: “É essa bendita amizade com os quebra-santos que está deixando vocês assim, antes vocês não me desobedeciam!”.

Esses encontros e desencontros com os vizinhos por causa de religião acabaram por gerar fases de aproximação e fases de afastamento. Nós, crianças e adolescentes, acabamos por conseguir manter o relacionamento amigável – em grande parte por causa do futebol – e os adultos tinham mais dificuldade nisto. Tudo por causa do ritual, por causa da exterioridade. Por um lado, nossos vizinhos, sendo pentecostais, adotavam formas de culto bem chamativas, com cânticos, palmas, orações e pregações em voz bem alta. Por outro lado, nossa família ficava muito atenta para ver se eles não estavam “falando mal de Nossa Senhora”. Porque, se estivessem, nós iríamos reagir. Houve uma ocasião em que pedradas voaram pelos céus de Coruputuba, em nome da Mãe de Deus.

Das pregações que ouvíamos durante os cultos na casa dos Amarante uma frase acabou por se entranhar na minha personalidade, provocando alguns efeitos no meu modo de agir. O pai do Seu Moacir, portanto avô do Zezé e do Miltinho, na qualidade de pastor, ensinava um dia aos crentes: “Quando na oficina uma ferramenta cair no pé de vocês, digam alto ‘Aleluia! Glória ao Senhor’, em vez de falar palavrão”. Isto eu escutei ouvindo a pregação agachado no quintal, olhando pelo vão da cerca. Até hoje não consegui chegar a este ponto de louvar a Deus em altos brados quando me machuco. Mas também não falo palavrão. E me impressionava a mansidão daqueles vizinhos. Agiam como os primeiros cristãos: perseguidos, não reagiam, não xingavam, oferecendo seu sofrimento a Jesus.

E a Mãe de Deus deve sorrir quando se lembra daquelas guerrinhas de Coruputuba. E talvez fique contente de lembrar que nossa amizade superou essas bobeiras. Apesar de que faz tempo que não vejo o Zezé, o grande goleiro do nosso timinho. Sei que, na vida adulta, foi um valoroso bombeiro. E o Miltinho, sei que ele está há bastante tempo na Amazônia, vivendo seu ideal missionário.

Ainda bem que Deus não tem religião.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto da Avenida Dr. Cícero Prado, em Coruputuba: www.pindamonhangaba.sp.gov.br – Centenário da Fazenda Coruputuba – Fundo Patrick Assumpção

domingo, 11 de novembro de 2012

Fica com Deus!


Saí de Coruputuba e fui morar no Porto Novo, em Caraguatatuba, e logo depois em Jacareí. Nesses novos lugares, as pessoas estranhavam algumas coisas no meu linguajar. E achavam interessantes, e comentavam, as minhas expressões de despedidas: “Vai com Deus!” e “Fica com Deus!” Então, fui percebendo com mais clareza: O lugar onde nasci e cresci era um lugar muito católico, e a nossa formação foi completamente católica.

Os homens eram Congregados Marianos, as mulheres eram da Associação de São José, as moças eram Filhas de Maria, as crianças eram da Cruzada Eucarística. E ainda havia os Vicentinos e outras Irmandades. Tudo isto com os seus rituais, suas reuniões semanais, suas fitas e medalhas, seus hinos e seus lugares marcados na igreja, seus pelotões organizados nas procissões, os andores próprios de cada grupo. Adolescente, saí da Cruzada e entrei na Congregação como Aspirante: fita azul fininha com uma pequena medalha. Dois anos depois, Noviço: fita azul média e medalha maiorzinha. Até que cheguei à Congregação Mariana propriamente dita: fita azul larga e medalha de bom tamanho, pesadinha. Isto, sem falar que eu e meus irmãos, desde os oito, nove anos de idade já éramos Coroinhas, sabendo ajudar às missas e dialogar em latim com o celebrante, como era o uso da época.
 
O cumprimento usual em Coruputuba, não era um cumprimento, era uma jaculatória. Cruzava com algum confrade? Nada de bom dia, boa tarde, boa noite. Era assim: “Salve Maria!”

Em casa já era assim desde pequenos. Levantou? “A bênção, Pai! A bênção, Mãe! A bênção, Vó!” Não bastasse pedir a bênção, ainda fazíamos uma pergunta retórica para o Pai: “Reza o Anjo do Senhor?” ao que o Pai respondia “Reza!”. Então, rezávamos: “O Anjo do Senhor, que por Divina Piedade, sois nossa guarda etc.” e o ritual se repetia ao meio-dia, às seis da tarde e na hora de deitar.

Toda noite, depois da janta, reza. Na sala, todo mundo rezando o terço, com revezamento na hora de “puxar” cada um dos “mistérios” do terço. Quando éramos crianças pequenas, a devoção era tão entranhada em nossos pequenos corações que agora, à distância, fica até comovente lembrar a força e a confiança que a gente punha nas orações e nos pedidos. Uma vez o Pedro nos contou que toda noite ele rezava pedindo que, no dia seguinte, quando ele estivesse no quintal brincando de rodar o pneu, Deus não permitisse que o pneu passasse por cima de alguma bosta de galinha, porque isto era mesmo um pesadelo para a gente.
À medida em que fomos crescendo, mesmo que a fé não tenha diminuído, a liturgia foi ficando cansativa, os joelhos no chão de tijolo, o calor, a vontade de fazer graça um para o outro... Mas o ritual católico continuava nos encantando.  E até hoje, a ideia que tenho de alguma espécie de Céu é iluminada pelas lâmpadas azuladas da capela-mor de Coruputuba – e o perfume do incenso vai ter que haver, se não, não será Céu de verdade.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos www.pindamonhangaba.sp.gov.br – Centenário da Fazenda Coruputuba
            Acervo Patrick Assumpção

sábado, 3 de novembro de 2012

A pesquisa surrupiada



Corria o ano de 1964 e os poderes constituídos de Pindamonhangaba se lembraram: no ano seguinte se completariam cem anos do envio de tropas brasileiras contra o Paraguai.  Como vários pindamonhangabenses participaram daquela guerra, o Dr. Chiquinho Romano promulgou a Lei nº 745, de 10/12/1964, instituindo prêmios em dinheiro para os três melhores trabalhos de estrita pesquisa histórica em torno do tema “Pindamonhangaba e a Guerra do Paraguai”. O artigo 4º da Lei prometia: “O trabalho classificado em primeiro lugar será publicado pela Prefeitura Municipal”. Só poderiam participar estudantes do colegial, normal, ginasial e comercial da cidade.

A exigência de “estrita pesquisa histórica” afastou da contenda os pesquisadores que só aprenderam a se apoiar nas obras já publicadas e que se furtam ao esforço de folhear documentos antigos, manuscritos difíceis de ler, papelada contaminada de poeira e bichinhos. Também não podia ser um trabalho ligeiro. O artigo 5º dizia que os trabalhos não podiam ter menos de cinquenta páginas de papel almaço datilografados com espaço um.

Quem iria se dispor a iniciar uma pesquisa que resultasse num trabalho assim? Somente quem se sentisse dotado das condições intelectuais exigidas pela tarefa – e estivesse precisando de dinheiro. A Lei estabelecera prêmio de Cr$100.000,00 (cem mil cruzeiros) para o primeiro colocado. Ao segundo e ao terceiro lugares caberiam Cr$60.000,00 e Cr$40.000,00, respectivamente. Lembrando: o salário mínimo na época era de Cr$42.000,00. O meu irmão Luiz Gonzaga, que cursava o segundo ano do científico, disse: Vou concorrer!

Antes de iniciar a pesquisa propriamente dita, preparou-se. Leu tudo que havia sobre o assunto, todos os autores. Quando se sentiu pronto, apresentou-se na Câmara, queria compulsar as atas. Recebeu apoio gentil e verdadeiro do secretário Sr. Mario Jacinto. A partir daí, durante alguns meses, todos os dias ia revirar os velhos manuscritos, enfrentar a caligrafia complicada, os papéis atacados de papirófagos, tentando traduzir aqueles registros de épocas passadas. Anotava tudo.
 
Nas suas leituras de historiadores, descobriu – e colocou no trabalho – que Francisco Solano Lopez, o líder paraguaio, era casado com Alice Lynch, uma irlandesa dotada de visão política avançada. Descobriu também que o exército brasileiro foi o primeiro do mundo a usar um balão aerostático para observar as tropas inimigas. Incluiu anotações sobre o construtor Chiquinho do Gregório, sobre os nobres da cidade, os políticos da época. E descobriu – ai que triste! – que a Câmara, além de relatar ao Imperador a lista dos pindamonhangabenses que fizeram doações para a causa da Guerra, também encaminhava a lista dos que não contribuíram.

Então, um dia, o trabalho estava pronto para ser datilografado. Arrumou emprestada uma máquina de escrever. Comprou papel. Não sobrou dinheiro para comprar papel carbono, assim o trabalho seria datilografado em apenas uma via. É preciso lembrar? Naquele tempo não existia xerox.  Mas não fazia mal, se ganhasse o primeiro lugar, o trabalho ia ser publicado pela Prefeitura, talvez uns quinhentos exemplares...

Dias e dias, ficava martelando a maquininha na varanda da nossa casa em Coruputuba. Entendeu que a Lei, ao falar em cinquenta folhas de papel almaço, estava querendo dizer cem páginas. Tudo bem, fez um trabalho datilografado de cem páginas. E foi à Prefeitura para entregar, no prazo legal. Ninguém quis receber, não tinha sido formada a comissão julgadora. Então foi à Câmara, procurando quem pudesse receber o trabalho. Ninguém recebeu. Ficou o Luiz Gonzaga um tempo andando de um lado para outro com o trabalho dentro de uma pasta.

Por insistência do Dr. Angelo Paz da Silva, o prefeito Chiquinho Romano promulgou nova lei, a Lei nº 812, de 02/12/1965, concedendo o prêmio de Cr$100.00,00 ao estudante Luiz Gonzaga da Silva Marcondes, que tinha sido o único concorrente.

Mas o dinheiro nunca saiu. Nem a publicação. Ninguém queria pegar o trabalho da mão dele. Até que, já em 1971, um personagem da cidade, tido como defensor das tradições e guardião da história, ofereceu guarida ao valioso documento, recebendo-o das mãos do desesperançado pesquisador: “Pode deixar comigo que eu mando publicar”.

E nunca mais se ouviu falar do trabalho “Pindamonhangaba e a Guerra do Paraguai”.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Palestra no Museu: "Viajando pelo Vale em 1822"

Palestra

“Viajando pelo Vale em 1822”

Pelo Professor Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

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 Palestra sobre a Segunda Viagem de Augusto de Saint'Hilaire ao interior do Brasil
 Em 1822, meses antes de passar por aqui o Príncipe Dom Pedro, passou o naturalista francês Augusto de Saint'Hilaire. Dom Pedro passaria pelo Vale com objetivos políticos, buscando apoio para o seu projeto de emancipação política do Brasil. Saint'Hilaire passou prestando atenção na topografia, na hidrografia, no povo brasileiro, na suas moradias, na sua alimentação, nos seus costumes, nas suas ideias políticas...
O melhor de tudo: Saint'Hilaire tinha um "diário de viagem". Deixou tudo anotado. Publicou na Europa, anos depois.
É sóbre suas anotações a palestra do Professor Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Gambá e Tatu



Todo mundo quer progresso, quer que a cidade cresça. A cidade tem que crescer, dizem todos os eleitores e todos os candidatos de todos os partidos. Então, a cidade vai crescendo, loteamentos vão sendo rasgados, o capim é raspado, os arbustos cortados, ruas e postes vão invadindo os recantos sossegados. O tatu é o primeiro que se dana, o próprio pessoal das obras mais pesadas já aproveita que está com a enxada pronta e vai descobrindo as covas, volta de noite para colocar armadilha ou então corre atrás do bichinho e pronto: mistura para a janta, ou para beliscar com a cerveja.
Coruja buraqueira aproveitava os buracos do cupinzeiro. Em volta ficava cheio de ossinhos dos ratos que ela comia. Tiraram os cupinzeiros, o pasto vai virar lote, corujinha não sabe para onde vai, sentou no poste novo, debaixo do sol forte. Só sabe se virar de noite, assim de dia fica com jeito bobo, de olhinhos arregalados. Ela não é que nem a suindara, que já é bicho civilizado, mora há muitas gerações na torre da igreja, voa de noite procurando o que comer. Senta no alto do edifício e faz seus barulhinhos que só escuta quem estiver sem sono às quatro da madrugada.
Gambá também vai acabar, jeitão mole dele, de dia parece bêbado, fácil de alcançar, facinho de tacar uma paulada na cabeça dele. Está morrendo, mas escancara a boca de muitos dentes, quer morder, morde só o ar, morde o chão, era uma vez. Mas tem gambá que vive há séculos dentro da cidade, no centro, descobriu que ainda tem casa de quintal grande, tem vão entre dois muros, ali junta folha seca, lá dentro ele dorme de dia com a barriga para cima. Sai de noite procurando fruta, resto de comida. Sobe no muro de novo se tem cachorro.
O gambá vinha passando por cima do muro, eu só via a silhueta dele contra a luz da rua. Então outra silhueta veio em sentido contrário, era o gatão, chefe do bairro, que até os cachorros respeitavam. Fiquei olhando os dois bichos se aproximando, o gambá e o gato. Na última hora o gatão desceu, deu passagem para o gambá, que nem diminuiu a marcha.
Daí tem gente que defende a Natureza, veste uma camisa lutando pelo Boto, pela Baleia, pela Onça Pintada. Faz campanha. Faz campanha para defender tudo que está longe, mas não repara em volta, perto. De carro, atropela o último gambá que atravessava a estrada, porque o engenheiro não planejou uma passagem por baixo para que os animais possam ir de um lado para o outro da Mata sem se arriscarem. Na estrada de Ubatuba minha aluna da Fasc, sem querer, é lógico, atropelou uma suçuarana, de noite.
Mas parece que ninguém acredita que somos um bicho que extermina os outros bichos. Vai sobrar nenhum bicho livre, só vão sobrar os que abaixam a cabeça e topam viver segundo as nossas regras, nos chiqueiros, currais e gaiolas.
No documentário “O Rio das Amazonas”, Paulo Vanzolini estava contando para o barqueiro que o peixe-boi está em extinção e o rapaz perguntou: “Como assim?” E o zoólogo-compositor explicou: “O peixe-boi está acabando, não vai ter mais!” Então o barqueiro deu uma risada gostosa, dessas que o pessoal simples usa para debochar de gente da cidade e falou: “Que isso, doutor! Tá acabando nada, ontem mesmo eu matei dois!”
Assim, por enquanto, a melhor coisa que o gambá faz é mesmo aproveitar seu lugarzinho, ficar de barriga para cima. Enquanto dá. Logo não vai dar mais, os edifícios modernos não vão oferecer cantinho de muro cheio de folha seca para bichinho nenhum. E o tatu, e a coruja buraqueira? A seriema que andava no campo com jeito solene? Vai acabar tudo, logo os lugares desertos vão estar impinhocados de gente, todo mundo reclamando que não tem Natureza na cidade.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Flávio Brandão (peguei em arrobaxyz.bloguepessoal.com)



terça-feira, 9 de outubro de 2012

O alvoroço de outubro



Meu pai falava que no mês de outubro duas coisas ficam alvoroçadas: içá e político. Bom, neste ano os políticos já se alvoroçaram, mas as içás estão quietinhas ainda.
A seca está durando muito, então içá não sai. Não é boba, sabe que depois do bem-bom do casamento com o sabitu nas alturas, na hora em que ela voltar para o chão só vai encontrar terra dura que nem pedra, que não tem jeito de cavoucar, o ferrão não aguenta. E ela precisa cavar uns sete ou oito centímetros que sejam, para botar seus primeiros ovinhos e colocar no chão úmido a bolotinha de fungo que ela trouxe do formigueiro-mãe.
Conheci um menino que comia a içá crua, não sei se ele gostava do gosto ou se gostava mais do desgosto que provocava em volta...
Eu gostava bem torradinha, com farofa.
Poucas vezes fui no “calipero” catar içá na boca do sauveiro. Eu e meus irmãos caçávamos as iças no meio da rua, com um galho de amora, batendo para derrubar, mas não com muita força para não destruir o bichinho. Daí, no chão, segurava por cima e com a unha do dedão rancava o ferrão e jogava numa vasilha com água. Em casa terminava de fazer a limpeza, tirando as asas e as perninhas. Depois, frigideira no fogão de lenha, levantando um cheiro inconfundível. Quando a gente estava indo buscar água na caixa d’água do largo, de noite, ia passando e já ia identificando em quais casas se estava torrando içá, o cheiro denunciava mesmo.
Era gostoso comer em casa. Mas era mais gostoso ainda a gente levar um pacotinho para comer na hora do recreio. Tinha professora que condenava. Havia uns bobos que diziam que içá come defunto, umas bobeiras. Se fosse basear nas lições dos professores, também não podia nem chupar coquinho da igreja...
Mas tinha uns viajantes de São Paulo que iam na farmácia (a minha irmã Ana Clara trabalhava lá) e encomendavam quilos de içá, que era para levar para o laboratório, diziam que a içá era fonte riquíssima de proteína.
Sei lá. Mas que a gente comia, comia com gosto. Até a gatinha de casa aprendeu a caçar içá na rua, pulava e pegava no ar, e comia. Sem falar da festa que era para a galinhada do quintal, correndo atrás dos bichinhos voadores, igual hoje os moleques correm atrás de pipa.
Agora, com tanta agricultura industrializada, tanto combate à saúva, as içás sumiram. Antigamente caía até na cidade. Hoje, nem na roça.
Nos EUA vendem latinhas de içá torrada. Daqui a pouco vamos começar a importar.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto também do Paulo Tarcizio da Silva Marcondes