O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Araújo, o Professor Pardal


O Araújo, o Ângelo, os irmãos  Amarante , o Homero, eu, o Bosco, o Zaga, o Pedro, nosso primo Valério... Era essa a composição mais frequente do nosso timinho – e era com essa turma que, nas manhãs de domingo, a gente percorria Coruputuba, atrás dos desafios e das revanches. Vila Figueira, Fazenda, Vila Jacarandá, Vila Maria, Vila Campineira... Sendo que o nosso mando de jogo era no campinho perto da Igreja, no meio dos eucaliptos.

O Adauto acompanhava a gente, mas não para jogar. Nem podia, ele já jogava na Industrial. Ele ia com a gente, mas era para apitar. Interessante um time excursionar levando o árbitro. Mas ele não dava mole não. Chegou a me expulsar na Jacarandá, por jogo perigoso.

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Numa festa de Primeiro de Maio, formei dupla com o Araújo e ganhamos a corrida de três pernas. Depois, quisemos aplicar esse sistema de forças na bicicleta e fomos para a Vila São Benedito, ele no selim e eu na garupa. Ele pedalando com a perna direita e eu com a esquerda. Assim, cada um podia colocar toda a força em uma perna só. A bicicleta virou um bólido, sensacional. Até que um dos dois se atrapalhou e os dois caíram e fomos ralando no asfalto novo da estrada... Doeu muito! Mas subimos de novo na bicicleta, que só tinha entortado o guidão, e prosseguimos mais devagar.

Nosso companheirismo com o Araújo atravessou a adolescência e continuou. Ficou muito amigo do Bosco. Juntos, tocavam no Vox Populi nas igrejas, nas festas. Tocaram na Basílica de Aparecida.

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O Araújo gostava muito de ler, era um estudioso. Nas revistas em quadrinhos que ele me emprestava eu gostava muito da Epopeia. Foi naqueles quadrinhos que, aos quatorze anos, eu aprendi sobre a guerra de Troia, sobre o Quo Vadis e outras grandes aventuras.

 Ele já nos deixou há alguns anos, tornando este nosso mundo um pouco mais triste. Mas eu me lembro dos episódios em que ele deixou o mundo da nossa adolescência mais alegre e engraçado.

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Num belo sábado resolvemos fazer uma caminhada para conhecer o trecho de várzea atrás da Vila São Benedito. Fomos, a pé, pelo asfalto. Então, um pouco antes da entrada para a Fazenda, tivemos que passar na frente de umas casas onde havia dois cachorros grandes e bravos.

O Araújo estava com um pedaço de pau de lenha na mão e os cachorros vieram latindo para cima dele e ele saiu correndo. A gente já sabia que aqueles cachorros detestavam pessoa que estivesse com um pau na mão. Por isso que estavam perseguindo o Araújo.

Eu, o Pedro e o Bosco fomos atrás, gritando: LARGA O PAU, ARAÚJO. E ele correndo cada vez mais. Até que eu entendi e gritei: ARAÚJO, JOGA ESSE PAU FORA.

Então ele jogou o pau e os cachorros pararam de perseguir o Araújo e voltaram resmungando e rosnando.

*

No começo dos anos sessenta, todos se interessavam muito pelas conquistas espaciais. Mas o Araújo era demais, lia tudo sobre naves e sputiniks, sobre voos tripulados e não tripulados, sabia tudo sobre combustíveis líquidos e sólidos, tinha na cabeça o ranking das conquistas russas e americanas.

Então, começou a contar para todo mundo que ele ia fazer subir um foguete, estava pesquisando um combustível revolucionário. Realmente, a gente viu que ele estava trabalhando num tubo reforçado, parece que era de alumínio, fazendo uma ponta de ataque, colocando na outra extremidade umas aletas direcionais. Mas sobre o combustível ele ainda não falava nada.

Numa bela manhã de domingo houve uma reunião no Largo, perto da Quadra. Parecia o público preparado para ver a demonstração do voo de Santos Dumont. Por fim, lá veio o Araújo, que morava ali pertinho mesmo, vizinho da Tatá. Veio o Araújo trazendo cuidadosamente o seu míssil. O pessoal rodeou e ele pediu que abrissem espaço para a experiência.

Foi tudo bem rápido. Posicionado o foguete, ele colocou fogo num pavio, a coisa soltou de repente um monte de fumaça e disparou para cima, deixando no ar um forte cheiro de laranja queimada. Foi cair perto da Pensão. Os gritos explodiram: – Viva o Professor Pardal!

O combustível secreto tinha sido casca de tangerina, secada ao sol durante muitos dias, até ficar esturricada. Mas que o foguete subiu, subiu! Mais alto que a Caixa D’água!

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paulotarcizio@gmail.com

www.paulotarcizio.blogspot.com 

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Arquivo Historico Waldomiro Benedito de Abreu - Quadra e caixa d'água de Coruputuba 

Na tuia tu ia

 


Nós não nos considerávamos caipiras. Sim, falávamos barde, memo (em lugar de mesmo), falá, comê, trabessero, têia (do teiado, ué!), ocê, bonde no lugar de ônibus, ridico, cuié,  muié, tá, nóis tava. Mas não éramos caipiras que nem o pessoar da varge. Aquele pessoar sim, era caipira memo, uns jacu do mato. Os caipiras de verdade, no nosso entender, eram os que falavam num carece, em lugar de não precisa, entonce em vez de então e – o pior de tudo – falavam ponhá em vez de pôr. O ponhá, para nós, era o estigma derradeiro. Quando queriam provar que não eram caipiras ficava pior: faziam força para acertar e falavam galfo, malmita... Nós, os filhos do professor, querendo falar “Eles foram varrer o quintal porque estava muito sujo e nós fomos também”, falaríamos “Eles fôro varrê o quintar porque tava muito sujo e nóis fomo tamém”.  Já os caipiras do fundo da varge diriam “Êzi fôro barrê o quintar a mode que tava munto xujo e nóis fumo tamém”. Eram diferenças fundamentais, acreditávamos.
A escrita nos salvou de continuar falando daquele jeito. Escrever, a gente escrevia certo. Ainda mais no Ginásio, quando comecei a prestar mais atenção na minha fala e aos poucos fui perdendo a caipirice do jeito de falar. Se bem que em casa e no bairro mantive, como uma espécie de resistência e saudosismo, na medida do possível, o meu linguajar costumeiro, como um bilíngue. Quando comecei a trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo, na escola e na fábrica, falava de um jeito com as professoras e alunos e de outro jeito com a peãozada.
Uma vez presenciei um garoto, que decerto queria estrear as novidades aprendidas na escola, falando para sua avó: Vou pegá as telha.
E a avó: Pegá  o quê, minino?  
O neto, sério: As telha
E a velha, no máximo do deboche: Que isso, “telha”? Que “telha”? Fala direito, sua besta: é têia, viu, é têia... minino bobo... inventano moda...
Eu achava interessante que  o choque entre o linguajar culto e o informal, dentro da família, às vezes resultava em alguns interessantes trocadilhos – e eu já vinha pegando gosto com isto, graças à saudável influência do Prof. Mario César.
Um dia, o Zaga ficou bravo com o Bosco e falou alguma coisa não muito agradável para ele. Eu interferi, para apaziguar, mas o Zaga não gostou da intervenção e me interpelou:
- O que foi, você está se tomando?
Não perdi a ocasião:
- Se tô, mano!
E a encrenca acabou em risada.
Noutra ocasião, época de quadrilha na tulha (para nós, tuia), minha mãe sugeriu que a gente fosse à reza na capela. Mas eu já estava vazando e mamãe ralhou:
- Não vai na igreja, né? Se fosse na tuia tu ia!
E ainda tive tempo de comentar com Zaga: A mãe não percebeu, mas ela fez um trocadilho espetacular!

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Arquivo Histórico Waldomiro Benedito de Abreu - Tulhas de Coruputuba -

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O livro "Aconteceu na Escola"


Um livro de memórias pedagógicas:

Aconteceu na Escola
de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes


- À venda na Livraria Nobel de Pindamonhangaba - R$30,00
- Ou faça o pedido direto ao autor: paulotarcizio@gmail.com 


Sobre o livro ACONTECEU NA ESCOLA:
·        Na mocidade, ouvi de um velho secretário de escola: “Não sei para que todo esse seu esforço. Bobagem. Quando você tiver a minha idade, vai ver que para o Estado você vale só o número do seu RG”. Ele estava certo, mas isto não é relevante. Não é a busca pelo reconhecimento do Estado que nos move. Nós, idealistas, vamos em frente trabalhando pela Humanidade. Se o Estado quiser, pode nos seguir. Se não nos atrapalhar, já está fazendo sua parte (o Autor).

·        Quem está se preparando para ser professor encontrará neste livro vários temas para meditação. Mas quase não encontrará nomes de pedagogos e de teorias da Educação: este livro não é um manual de Pedagogia. É um relato de experiências que, pela generosidade divina, já vêm durando mais de quarenta anos (o Autor).

·        No livro, Paulo Tarcizio se lembra de amores, erros, acertos, medos, intuições, indignações, tomadas de posição, pedidos de perdão, tentativas de reparação, ações políticas visando transformações, sucessos, decepções, alegrias e fracassos. Afinal, estamos fazendo ensaios de humanidade e é preciso arriscar a criar respostas novas, próprias a cada tempo. Paulo Tarcizio criou e tem criado respostas aos desafios que tem vivido como ser humano e como educador (Elydio dos Santos Neto, na apresentação).


Obra: ACONTECEU NA ESCOLA
Autor: PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Edição do autor – Pindamonhangaba
224 páginas; 21 cm
ISBN 978-85-913453-0-4
1. Educação. 2. Docentes. 3. Formação de Docentes
Contato com o autor: paulotarcizio@gmail.com
Preço do exemplar: R$30,00

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Escolas onde o autor estudou e ou trabalhou

• Grupo Escolar Rural Antonio Bicudo Leme, depois renomeado para Escola Dr. Martinico Prado, hoje extinta. Em Coruputuba, Pindamonhangaba. Aluno do primário de 1955 até 1958. Professor primário de 1967 até 1970. Estadual.

• Curso Preparatório da Professora Orlinda Nogueira, em Pindamonhangaba, aluno em 1959. Particular.

• Ginásio Estadual e Escola Normal João Gomes de Araújo, renomeado para Instituto de Educação e mais tarde para Escola Técnica, com o mesmo patrono. Aluno do ginásio de 1960 a 1963. Aluno da Escola Normal de 1964 a 1966.

• Escola Regimental do 2º Batalhão de Engenharia de Combate, em Pindamonhangaba. Professor em 1967.  Escola estadual dentro da instituição militar federal.

• Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Taubaté. Aluno do Curso de Letras em 1968. Aluno de Pedagogia em 1972 e 1973. Autarquia municipal.

• Escola do Porto Novo, hoje Escola Avelino Ferreira, em Caraguatatuba. Professor primário em 1971 e 1972. Estadual.

• Escola do Rio Abaixo, hoje Escola Ottilia Arouca, em Jacareí. Professor Primário de 1972 até 1978. Estadual isolada.

• Escola de Madureza ......? Em Jacareí. Professor de História em 1973. Particular.

• Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Fundação Valeparaibana de Ensino. Aluno de Pedagogia em 1973 e 1974. Aluno do Curso de Especialização em Orientação Educacional em 1975. Professor de História da Educação e de Sociologia da Educação em 1980. Particular.

• ETEP - Escola Técnica Prof. Everardo Passos, em São José dos Campos. Orientador Educacional em 1976, 1977 e 1982. Particular.

• Escola Agrícola Cônego José Bento, em Jacareí. Assistente de Diretor em 1978. Estadual.

• Escola Francisca Rosa Gomes, em Santa Branca. Coordenador Pedagógico em 1978 e 1979. Estadual.

• Escola de Igaratá, hoje Escola Benedito Ramos Arantes. Em Igaratá. Diretor em 1979 e 1980. Estadual.

• Escola Benedita Freire de Macedo, em Jacareí, no Jardim Flórida.Diretor de 1980 a 1984. Estadual.
• Escola Paraíso ou Escola Porto Marques, em Jacareí. Diretor do noturno em 1984. Particular.

• Escola Neusa Teodoro de Azevedo, na Vila Zezé, em Jacareí. Diretor em 1984 e 1985. Estadual.

• Escola Ismênia Monteiro de Oliveira, no Andrade, em Pindamonhangaba. Diretor de 1985 a 1998. Estadual.

• Instituto do Coração Eucarístico, em Pindamonhangaba. Professor de Literatura Brasileira no 2º Grau do Seminário Salesiano em 1989. Escola confessional.

• Escola João Pedro Cardoso, em Pindamonhangaba. Professor do Curso de Magistério de 1986 a 1988. Estadual.

• UNITAU – Universidade de Taubaté. Aluno de Direito em 1991 e 1992 e também de 1997 a 1999. Autarquia municipal.

• Escola Alfredo Pujol, em Pindamonhangaba. Professor de Língua Portuguesa do Segundo Grau Supletivo em 1988 e 1992. Estadual.

• FAMUSC (depois FASC): Faculdade de Música Santa Cecília, em Pindamonhangaba. Professor de Didática e Estrutura de 1987 a 2008. Aluno do Curso de Especialização em Didática do Ensino Superior, em 1995 e 1996. Particular.

• Escola Elias Bargis Mathias, no Araretama, em Pindamonhangaba. Professor de Ensino Fundamental em 1999. Municipal

• Escola Gilda Piorini Molica, no Campo Alegre, em Pindamonhangaba. Professor de Ensino Fundamental de 2000 a 2002. Municipal.

• Escola André Franco Montoro, no Crispim, em Pindamonhangaba. Professor de Ensino Fundamental, 2003 e 2004. Municipal.

• Na data da publicação deste livro o autor está afastado do exercício de seu cargo efetivo de professor da rede municipal de ensino fundamental de Pindamonhangaba, por exercer em comissão o cargo de diretor do Departamento de Cultura (2005 a 2008) e do Departamento de Patrimônio Histórico (desde 2009) da Prefeitura Municipal de Pindamonhangaba. Pelo mesmo motivo, está licenciado da OAB/SP – Registro nº 183.623.

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Só do labor geral me glorifico:
Por ser da minha terra é que sou nobre,
Por ser da minha gente é que sou rico!
(Olavo Bilac)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Não é preciso temer o trabalho



Desde os seis ou sete anos eu já participava da divisão das tarefas de casa. Havia uma escala envolvendo todos os irmãos, definindo a arrumação da casa, a lavagem das louças, a varrição do quintal, o trato das galinhas, o buscar água no Largo, buscar leite na fazenda, lenhar. 
Alguns anos depois, quando eu tinha uns quatorze anos, o rol foi ampliado porque chegaram o porco, a cabra, os coelhos – e tinham que ser tratados, era preciso cortar capim, construir os chiqueiros, os ranchos, os galinheiros, os pinteiros. Era preciso cuidar da horta, buscar esterco, misturar a terra, alinhar as leiras, preparar as sementeiras, fazer o transplante das mudas, gerenciar os pés de chuchu junto às cercas dos vizinhos. Pedi para Vovó e ela me ensinou a fazer arroz e feijão, aprendi a controlar o fogo no fogão a lenha, a bater bolos e preparar broas para aproveitar o calor do forno. 
Logo aprendi também a transformar os animais do quintal em saborosos pratos para a mesa da família. Fiquei hábil em todas as etapas, desde a matança até o preparo das carnes e miúdos. Estas tarefas eu as executava às vezes sozinho, outras vezes em dupla ou em trio com o Pedro (nas tarefas mais pesadas), ou com o Zaga, ou com o Bosco. Com o Carlos não tinha jeito, ele já trabalhava desde os quinze anos na Companhia: primeiro na Sacaria, depois no Escritório. A Ana Clara, também desde os quinze, trabalhava na Farmácia. As outras meninas eram muito pequenas ainda.
E eu me sentia feliz participando do esforço para manter o lar, além de estudar bastante para garantir o êxito na escola.
Aos quatorze anos dediquei minhas tardes, durante as férias escolares, para fazer trabalho voluntário no Ambulatório, preenchendo as fichas de atendimento médico aos moradores, para agilizar o trabalho do Dr. Lessa, do Dr. Caio, do Dr. Chiquinho. Assim, eu também ajudava a diminuir um pouquinho a carga de trabalho da Ana Clara.
E eu me sentia muito feliz, entrevistando os pacientes e preenchendo as fichas na salinha do Ambulatório, de costas para a janela que abria para o Escritório, onde trabalhava o meu irmão.
Quando estava na quarta série do ginásio – hoje seria a oitava série – fiz o curso de datilografia com a Dona Semíramis. No ano seguinte, com dezessete anos, cursava de manhã a Escola Normal (porque era um curso que ia me garantir emprego) e à tarde comecei a trabalhar na Associação Rural, em cima da Leiteria, no início da Av. Cel. Fernando Prestes. Meu trabalho era preencher as guias de recolhimento de impostos e fazer outros serviços para os fazendeiros associados, além de preparar os livros da entidade, redigir as atas e cuidar da correspondência. Cuidei pessoalmente das tramitações burocráticas para transformar a Associação em Sindicato Rural. Levei o Bosco para cuidar da limpeza do prédio e nós dois assumimos também a tarefa de misturar ração para os criadores de coelho, que tinham sido recentemente acolhidos pela Associação. O salão de reuniões, nessas tardes, ficava tomado de uma névoa verde: era o pó de alfafa que estávamos misturando com as farinhas e farelos de soja, de aveia, de arroz, de carne, de osso etc.
E eu me sentia feliz por estar convivendo com os fazendeiros, com o pessoal que cuidava de vacas, de boi, de arroz. Eu sentia que estava contribuindo para o sucesso da atividade de produzir alimentos para o país.
Quando completei vinte anos já estava lecionando para as crianças na escola de Coruputuba. Aos vinte e um, era professor de manhã, mas era metalúrgico à tarde e à noite, pois comecei a trabalhar na AISA. À meia-noite tocava a sirene de encerramento do turno, eu batia o cartão, montava na bicicleta e voltava para Coruputuba pelo meio dos eucaliptos. Às oito da manhã já estava na escola, dando aula até o meio-dia. Almoçava, estudava para o concurso que iria me efetivar como professor do Estado, pegava a bicicleta e às quinze horas já estava de novo sendo metalúrgico na fábrica. Aproveitava o intervalo da janta para jogar palitinho com os colegas, falar de futebol e aprender piadas que não poderiam ser repetidas na sala dos professores.
E eu me sentia muito feliz por estar trabalhando em dois segmentos diferentes da sociedade: a educação e a indústria. Nas duas atividades eu trabalhava direito e me sentia bem com os resultados.
Quando eu passava de noite pelo meio do eucaliptal, o curiango, deitado na beira do caminho, esperava que eu passasse e então erguia voo para me alcançar quase roçando a minha cabeça – e ia sentar-se de novo bem lá na frente. Então esperava novamente que eu passasse para de novo se levantar, me alcançar etc. É por isto que os roceiros chamam a este pássaro de mede-léguas. Quando ele passa sobre a cabeça dos caminhantes noturnos, alguns ficam amedrontados, pensam em almas do outro mundo. Mas o curiango dos eucaliptos não me dava medo, eu não tinha medo de assombração.
E nem de trabalho. Graças a Deus, eu nunca tive medo de trabalho. Nem eu, nem os meus irmãos.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: alagoinhaipaumirim.blogspot.com

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Medo do diabo e outros medos


Fui até o fundo do quintal, que era bem fundo mesmo, batia no muro da fábrica. Estava escurecendo, hora de sereno, hora de "entrá pra dentro". No pau da cerca da divisa com o quintal do Seu Eurico (da Dona Eleuzina), tinha uma coisa de olhos arregalados, olhando firme para mim.
Voltei correndo e o Bosco estava brincando perto do galinheiro. Falei: “Bosco, tem um diabo trepado na cerca do Seu Eurico!” Ele não acreditou e foi lá ver. Eu fiquei vendo ele ir. Foi indo pelo caminho varridinho do meio do quintal. Daí ele parou, olhou para o lado que eu falei e voltou na disparada, branco mas branco mesmo. Falou: “É o diabo memo, Paulo!”
No dia seguinte (porque o sol deixa todo mundo valente) nós fomos lá perto, jogamos água benta na cerca e riscamos no chão uma cruz. Rezamos de montão, para o diabo não voltar mais lá. Mas eu sabia que era só uma coruja. Só que eu me assustei e queria que o Bosco também se assustasse, caramba!
Daí eu cresci mais um pouco, fiquei adolescente e resolvi perder o medo do escuro. Todos nós fomos criados com muito medo do diabo, de tanto que a gente vivia na igreja... Acho que os adultos falavam muito mais no diabo e no inferno do que em Deus e no céu. Para manter a criançada obediente, parece que tinha que manter o pavor.
Mas eu decidi que ia perder o medo do escuro e eu mesmo planejei a minha terapia. Uma noite, sem falar nada para ninguém, saí para o quintal, fechei a porta da cozinha e fui indo pelo meio da escuridão, com o plano de chegar até o muro da fábrica. Eram uns setenta metros de caminhada sem ver quase nada, só as estrelas. Passei pelas ameixeiras, pelo galinheiro, pelo abacateiro, tudo meio que adivinhando o caminho, tocando nos troncos e nas cercas. Até passar do chiqueiro e chegar no fim do quintal. Fiz força para tocar o muro com as mãos. E comecei a voltar. Agora eu via a luz da cozinha se filtrando pelo vão da porta. Tive que resistir à vontade de correr disparado. Esta foi de fato a parte mais difícil: voltar devagar. Cheguei à varandinha do tanque, empurrei calmamente a porta, entrei e – num supremo esforço – fechei a porta beeeeem devagarzinho.
E nunca mais tive medo do escuro. Depois de adulto, muitas vezes dormi acampado sozinho no meio da Mata Atlântica, na serra de Ubatuba – e sempre em paz.
Mas os adultos antigamente falavam muito no diabo, demais. Quando eu tinha dezessete anos, trabalhava na Associação Rural, em cima da leiteria (onde hoje fica a Imobiliária Derrico). Atendia os fazendeiros, preenchia guias de impostos etc. Um dia chegou o Seu Tranin, de bota e chapelão. Perguntei as horas para ele e ele me perguntou de volta: “Mais ocê qué sabê nas hora de Deus ou nas hora do diabo?”
É que o governo militar tinha acabado de implantar o horário de verão e ele não concordava com isto. Achava que mexer no horário de Deus só podia ser coisa de quem? Do diabo!
 

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Foto: avassouradabruxa.blogspot.com

terça-feira, 22 de maio de 2012

A morte no museu

Agora ele já não sabia como tinha ido parar ali. Lembrava-se da movimentação das pessoas, das conversas. De dia, tinha vagado pelas escadas e rampas, tinha descido até a horta e ficou um bom tempo na porta do Arquivo, até que lhe pediram que saísse dali.
Quase na hora de fechar, o Donizete insistiu que ele saísse – e ele foi de novo em direção à horta, mas o Donizete não reparou que ele deu um jeito e retornou. Ninguém percebeu que ele tinha voltado. Quando a porta da Biblioteca foi baixada, ele permaneceu atrás da Carruagem, imóvel e silencioso.
Disto ele agora se lembrava de um modo confuso. A fome de três dias, o frio e a solidão não permitiam que ele pensasse direito. Sabia que precisava sair dali – e gastava suas últimas forças procurando uma saída. A luz do sol, entrando pelo vitrô, dava-lhe uma ilusão de ar livre, parecia-lhe que já tinha alcançado a liberdade...
Agora a fraqueza já não permitia que ele tentasse achar a saída. Parou de se arrastar como tinha feito durante os dois primeiros dias, quando se movimentava meio desesperado entre a Carruagem e o Sino. Compreendeu que não ia encontrar nenhum alimento, nenhuma água. Compreendeu que os companheiros lá fora já tinham desistido de procurá-lo, se é que em algum momento tinham de fato se preocupado. Aliás, bem antes de ficar preso ali, já fazia tempo mesmo que não conversavam com ele, desde que começou a apresentar aquela dificuldade de locomoção.
Houve um momento em que ouviu as vozes dos antigos companheiros, mas estavam longe, falando de outros assuntos.
Vagamente compreendeu que não devia ter retornado à Biblioteca, devia ter obedecido o Donizete, devia ter se afastado. Mas não esperava que nunca mais retornassem aquelas pessoas, nunca mais viessem abrir a porta.
Quando terminou o feriado prolongado foi o Flávio que encontrou o corpo, frio e imóvel, entre a Moenda e o Sino Pequeno. O próprio Flávio o enterrou debaixo das árvores do quintal. O Donizete comentou com o Professor: “Coitado do pombinho, judiação, morreu de fome, de sede”. Mas o Professor comentou que no sábado, quando tentaram tocá-lo para longe da Biblioteca, ele já estava meio mancando, talvez estivesse doente, ou machucado.

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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes