O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 4 de março de 2014

O Club Republicano de Pindamonhangaba


VERBETE: Pindamonhangaba, 10 de abril de 1881. Ata de instalação – e mais duas atas subsequentes - do Club Republicano de Pindamonhangaba, na residência de João Marcondes de Oliveira Cabral. Importante por revelar que a instalação se deu bem antes da data noticiada por Athayde, que a coloca em 29 de julho de 1888. Fonte: Acervo do Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina. Pesquisa e transcrição paleográfica do Dr. Paulo Tarcizio da Silva Marcondes.
FÓLIO 1

Acta  ǀ1
Aos dez de abril de mil oitocentos e oitenta e um, ǀ2
n’esta cidade de Pinda monhangaba, pelas oito ho- ǀ3
ras da manhã, nas casas de residencia de João Mar- ǀ4
condes de Oliveira Cabral, ahi reunidos os cidadãos ǀ5
republicanos: Dor. Carlos Lessa, Dor.José Manoel ǀ6
da Costa França, Dor. José Fortunato da Silveira Bulcão, ǀ7
Dor. Gustavo de Godoy, Dor. José Vieira Marcondes, Dor. ǀ8
Daniel Rezende, Dor. Francisco Moisés, o Coronel ǀ9
José Antonio Fernandes Villela, o Cap. Antonio Galvão ǀ10
de  França Costa, o Cap. João Antonio Marcondes Mon- ǀ11
teiro, Bento José de M. Marcondes, João Cabral, João Ma- ǀ12
rio, Pedro Arnaud Rezende, Olavo Rezende, João Martins ǀ13
da Silva, João Baptista de Carvalho, Paulo Orozimbo ǀ14
de Azevedo, Alfredo Marcondes, José de Sousa Reis Junior, ǀ15
e Alvaro Pestana, foi por proposta do Sr. Dr. Bulcão a- ǀ16
clamado Presidente interino o Sr. Dr. Costa França, o ǀ17
qual, abrindo a meza, indicou o cidadão Dr. Carlos Lessa ǀ18
para o substituir que foi unanimemente approvado, ǀ19
passando o novo eleito a ocuppar seu logar e convidan- ǀ20
do para assumir os logares de secretários aos cidadãos ǀ21
Dor. Bulcão e Alvaro Pestana. ǀ22
Forão apresentados dois officios, um do cidadão Tristão ǀ23
da Costa Rezende e outro do Dor. Marinomio de Brito com- ǀ24
municando á assembléa que, por motivos de saúde, ǀ25
deixavão de comparecer á reunião, mas que adherião ǀ26
ás resoluções da mesma e desejavão ser conside- ǀ27
rados como membros installadores do Club Re- ǀ28
publicano d’esta cidade. Forão ambos approvados. ǀ29
Em seguida o Sor.Presidente disse que a presente reunião ǀ30
tinha por fim eleger o Directorio do partido republicano d’esta ǀ31
cidade e a nomeação de delegados ao Congresso Republi- ǀ32
cano que terão de se reunir brevemente na Capital da ǀ33


FÓLIO 2

FÓLIO 2
da Província e convidava aos cidadãos presentes á votarem em ǀ1                             
um Presidente, secretario e tres delegados que representem o parti- ǀ2
do. Procedendo-se á eleição, verificou-se que obtiverão votos pa- ǀ3
ra Presidente, os seguintes cidadãos: Dor. Carlos Lessa, nove votos; ǀ4
Dor Gustavo de Godoy, sete votos; Dor Bulcão, tres; o Coronel Villela, ǀ5
um. Para secretario foram votados Alvaro Pestana com desessete  ǀ6
votos, Dor Bulcão um, Dor Gustavo, um, Bento Marcondes, ǀ7
um voto. Correndo o escrutinio para a eleição de delegados  ǀ8
ao Congresso, obtiverão votos os cidadãos: Dor Gustavo de Godoy, ǀ9
dezeseis votos; Dor Bulcão, 13, e Dor Mario 13 votos e ou-  ǀ10
tros menos votados. ǀ11
Uzando da palavra o Sr. Dor Bulcão e depois de aduzir diversas  ǀ12
considerações no sentido de tornar bem explicita a missão  ǀ13
do partido republicano nesta cidade, concluiu mandando á  ǀ14
meza para ser inserida na acta uma declaração, que de-  ǀ15
pois de ligeira discussão, quanto á redacção, em que to-  ǀ16
marão parte os cidadãos Dor Gustavo de Godoy e Dani-  ǀ17
el Rezende ficou assim concebida: Os abaixo assignados  ǀ18
considerando que o elemento democratico e a forma de Re-  ǀ19
publica Federativa é a unica  compativel com as circuns-  ǀ20
tancias, indole e necessidades dos americanos brasileiros, ǀ21
resolverão adherir ao partido republicano brasileiro, ap-  ǀ22
provando a organisação do mesmo partido nesta  ǀ23
provincia, cujos manifestos adopta e com cuja comis-  ǀ24
são permanente vai se pôr em relação enviando esta  ǀ25
declaração inserida na acta de instalação do Club.,, ǀ26
Assim se reiniciando[?], pelo mesmo Sr. Dor Bulcão foi mais  ǀ27
indicado e unanimemente approvado, que todos a-  ǀ28
queles que subscreverem a presente acta, embora não es-  ǀ29
tivessem presentes á reunião do partido, serião Considerados  ǀ30
como installadores do Club republicano nesta Cidade. ǀ31
Por proposta do Sr Dor Bulcão foi mais resolvido que o Sr. ǀ32
Presidente ficasse autorisado a nomear uma comissão de dois mem-  ǀ33


[FIM DO FÓLIO 2 – NÃO FOI ENCONTRADA A SEQUÊNCIA DESTA ATA]


FÓLIO 3

Acta ǀ1
Aos vinte e cinco de Julho de mil oitocentos e oitenta e ǀ2
cinco, n’esta cidade de Pindamonhangaba, nas cazas ǀ3
de residencia do cidadão Alvaro Pestana, onde se achavam ǀ4
reunidos os cidadãos republicanos: Dr. José Fortunato ǀ5
da Silveira Bulcão, Coronel José Antonio Fernandes Villela, ǀ6
Dr. Daniel Rezende, Bento José de Moura Marcondes, João ǀ7
Martins da Silva, João Baptista de Carvalho e Álvaro Pesta- ǀ8
na, foi aberta a sessão. ǀ9
N’essa, por proposta do Dr. Bulcão, foi rezolvido que se ǀ10
adoptasse para candidato do partido, á assembléa provin- ǀ11
cial de S. Paulo, por este 3º Distrito, o nome do cidadão ǀ12
Dr. Licurgo dos Santos, e que se levasse ao conheci- ǀ13
mento da Commissão Executiva,  visto ter o Congresso Repu- ǀ14
blicano conferido á aludida Comissão poderes para ǀ15
dirigir o pleito eleitoral. ǀ16
Quanto á indicação de um segundo nome para ser ǀ17
aprezentado  ao eleitorado, o club republicano d’esta cidade ǀ18
deixa de fasel-o, aceitando aquelle que pela Commissão ǀ19
Permanente fôr escolhido. ǀ20
Foi mais assentado, que se remettesse copia da ǀ21
presente acta ao [sic] respectiva Comissão para os devi- ǀ22
dos effeitos. ǀ23
Nada mais havendo á tratar-se foi encerrada ǀ24
a sessão. E para constar lavrei a presente acta ǀ25
que vae subscripta pelos cidadãos presentes, por ǀ26
mim, Alvaro Pestana, servindo de Secretario, que a ǀ27
escrevi. ǀ28


FÓLIO 4

Acta ǀ1
Aos 29 de Julho de 1888, n’esta cidade de Pinda- ǀ2
monhangaba, no salão do Theatro, ao meio ǀ3
dia, prezentes os cidadãos abaixo assignados, ǀ4
e sendo autorisado para prezidir a reunião o ǀ5
cidadão Commendador Ignacio Marcondes ǀ6
Romeiro, que passou a ocuppar a prezidencia ǀ7
e convidou para primeiro Secretario o Dr. Gusta- ǀ8
vo de Godoy e para segundo Alvaro Pestana, ǀ9
e assim constituida a meza provizoria, pelo ǀ10
Prezidente foi dada a palavra ao Dr. Gustavo, ǀ11
que expôz os fins da reunião, e depois de ǀ12
uma discussão de ordem sobre a forma das ǀ13
deliberações passou-se a , digo deliberação, fi- ǀ14
cando assentado que todos quantos assig- ǀ15
nassem a esta acta importam adherirǀ16
as ideias republicanas e ao programa ǀ17
do partido republicano paulista, passan- ǀ18
do a eleição do Directorio, que deu o se- ǀ19
guinte resultado: Comm[menda]dor Ignácio Mar- ǀ20
condes Romeiro, Dr Gustavo Godoy, Dr. ǀ21
Bulcão, Dr. Espindola e Alvaro Pestana. ǀ22
Em conseqüência de uma indicação do Dr. ǀ23
Bulcão que foi unanimemente approvada, ǀ24
ficou o Diretório encarregado de confec- ǀ25
cionar os Estatutos do Club Republicano ǀ26
local. Nada mais houve . Eu, Al- ǀ27
varo Pinto Rebello Pestana, a escrevi. ǀ28
            x Ignácio Marcondes Romeiro ǀ29
            x Dr. Gustavo de Oliveira Godoy ǀ30
            x Alvaro Pestana ǀ31
            x José Fortunato da Silveira Bulcão ǀ32
            x Ma[no]el Thomaz Mar[con]des Sousa ǀ33

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Fonte: Acervo do Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina, de Pindamonhangaba
Pesquisa e transcrição paleográfica do Dr. Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
*****
Na reprodução, favor fornecer os créditos de fonte e de transcrição paleográfica.

domingo, 2 de março de 2014

O monstro







Na passagem dos cinquenta anos do golpe militar de 64, já tem uns bobinhos (que não sofreram aqueles dias), encantados com fardas e armas, tentando RELATIVIZAR a Democracia. Mais ou menos assim: "A democracia tem que ter limites", "Democracia sim, mas nem tanto", "Tem que ter muita responsabilidade, democracia só não basta", "Democracia sim, mas com equilíbrio" e outras frases hitlerianas e mussolinianas. Essas bobeiras me dão medo. São bobeiras que, de tanto serem repetidas, vão se entranhando nos vãos dos miolos de pessoinhas mais bobas ainda. Ora essa! Tem que haver DEMOCRACIA. Ponto final. Democracia sem adjetivo. A história demonstra (e eu vivi isto nas décadas de 60-70-80) que isto de ter "equilíbrio na democracia" significa misturar um montão de arbítrio com uma pitadinha de democracia, dando naquela merda que, anos depois, temos coragem de chamar pelo nome verdadeiro: ditadura, com todos os seus horrores.


O MONSTRO

Disseram que ele nunca mais viria
mas se o monstro voltar aqui um dia

alguns o abrigarão em seu partido
outros se calarão sem um gemido

alguns entregarão o pai e o irmão
outros vão se erguer diante do dragão

alguns vão bater palmas comovidos
outros vão virar “desaparecidos”

alguns vão ponderar em seus jornais
outros ficarão com o pé atrás

alguns elogiarão suas medidas
outros vão panfletar às escondidas
(depois serão dados por suicidas)

alguns dormirão com o inimigo
com a intenção de proteger o amigo

outros vão trocar de identidade
e ocultos falarão de liberdade

alguns se venderão por seu dinheiro
outros fugirão para o estrangeiro

alguns se enquadrarão em continência
outros vão pregar a desobediência

alguns vão cochichar pelas esquinas
outros montarão rádios clandestinas

alguns discutirão com alegria
outros nunca mais andarão de dia

alguns que ambicionavam ser eleitos
vão virar senadores ou prefeitos

outros, conforme as únicas notícias,
vão morrer “em confronto com a polícia”

alguns armarão falsas eleições
outros farão denúncias nas canções

alguns ganharão cargos de presente
outros serão cassados de repente

alguns se esconderão em sua terra
outros irão se declarar em guerra

alguns farão poemas de protesto
outros morrerão no final de um gesto

alguns subirão por caminhos tortos
outros lembrarão os presos e os mortos:

isso se por desgraça retornar
o monstro que não ia mais voltar.


*****
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Livro “Terra Vegetal”
Editora Scortecci





sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Minha metamorfose


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Quando assumi a Escola do Bairro do Rio Abaixo, em Jacareí, descobri que meus alunos eram crianças de primeira série, com seis ou sete anos de idade... Uma classe de alfabetização para quem vinha de uma empolgante experiência com adolescentes. Alfabetizar crianças da roça: ensinar a pegar no lápis, examinar as cabecinhas, examinar as unhas... Um desânimo. Aquelas crianças não eram os alunos que eu deixara no Porto Novo.  Por causa de informações truncadas, tinha pensado que no Rio Abaixo ia novamente lecionar para crianças de terceira ou quarta série.
Por isso, fiquei com antipatia delas. Com má vontade. Coitadas das crianças, perceberam a má vontade do professor (elas me chamavam de Doutor Paulo...). Na hora do recreio eu não saía para vê-las brincar. Ficava na sala, lendo. De vez em quando duas delas espiavam pela janela, curiosas. E eu não me comovia: “Vão brincar, vão!”
A classe era dividida em duas seções: a dos “adiantados”, que eram todos repetentes, e a dos “atrasados”, que eram todos novos. Para a classe toda, a mesma cartilha, com a distância de umas doze lições. Só havia uma lousa, portanto era preciso passar tarefas pessoalmente nos cadernos de uma turma enquanto a outra copiava direto do quadro: uma ginástica. Mais alguns dias e descobri que era mais fácil deixar correr. Os pequeninos “atrasados” foram ficando na mão de Deus: parei de lhes passar lições nos cadernos. Ficavam desenhando, ou copiando lições que eu passava no quadro para os “adiantados”. Quer dizer: copiavam o que não entendiam, só para fazer alguma coisa.
Heleninha ainda não tinha sete anos.  Estava, portanto, no meio dos “atrasados”. Há muito tempo eu não olhava a sério o seu caderno e já não a chamava para ler diante da mesa do professor. E um dia, quando acabei de colocar na lousa a lição (dos “adiantados”) ela falou: “Professor, eu sei ler tudo isso daí!”
Nem liguei. Imagina. Sabe ler, bem capaz!
Com sua vozinha aguda, irritante, insistiu: “Ô professor, eu sei ler tudo isso daí, tem gente que é repetente e não sabe!”
Que chateação essa menina que não para de falar. Vamos tirar a graça dela: “Então leia!”
E ela leu. Meio declamado, solene, leu as três orações e todas as palavrinhas das três colunas. Tudo decorado, pensei. Ela deve ter irmão que ensinou e ela está falando tudo de cor. Vou ter que provar que ela não sabe. “Venha aqui.”
Abri a cartilha e fui indicando as palavras que ela devia ler. Leu. Agora, salteado. Leu. Virei a folha: então leia aqui. Leu. Virei uma porção de folhas, fui nas lições do fim da cartilha: leu tudo. Gaguejando, mas leu.
Começou a me bater um mal-estar. Mas eu ainda precisava completar a maldade. Precisava ir até o fundo. Então tirei da gaveta o jornal, o mesmo jornal que eu ficava lendo durante o recreio. Indiquei uma coluna, ela olhou e ...  Começou a ler. Tropeçando, claro, mas foi lendo, balançando a cabecinha afirmativamente a cada palavra, com o corpinho duro, empertigado...
Heleninha, como que você aprendeu? Foi algum irmão? 
E ela me disse (tão contentinha...) que aprendeu a ler olhando quando eu estava ensinando para os repetentes.
***
Não é que Heleninha estivesse aprendendo sem professor. Ela estava aprendendo apesar do professor.
No fim de semana fui atrás das professoras alfabetizadoras, experientes. Emprestei planos, cadernos, semanários, diários. Pus na cabeça que ia recuperar o tempo perdido. Meu Deus: desde maio que estou nessa escola. Já estamos em setembro e não fiz nada pelos “novos”. E pelos repetentes eu fiz? Fiz nada. Só toquei para frente e eles vão indo porque é a segunda vez que usam a cartilha....
Mudei. Graças a Deus. Comecei a me interessar pelas crianças. Comecei a brincar com elas no recreio. Mudei a posição das carteiras, enchi as paredes com gravuras, cartazes. Trouxe minhas flores e as crianças perceberam a mudança. Comecei a ensinar: era para isto que eu estava lá.
Não foi possível promover os “novos” no final do ano. A minha mudança tinha sido tardia. Mas terminaram o ano bem adiantados e iriam compor um primeiro ano “forte”. No ano seguinte, a professora que lecionava de manhã me ofereceu a chance de fazer uma troca: ela ficaria com o primeiro ano, deixando para mim o segundo e o terceiro. Agradeci o gesto de boa vontade, tão raro! Mas recusei, fiz questão de pegar novamente a classe de alfabetização, queria participar do milagre, presenciar o instante epifânico em que uma criancinha começa a ler, testemunhar as suas primeiras redações.
Em abril, minhas crianças de sete anos estavam lendo. Em maio escreviam pequenas redações. E a Heleninha no meio! Ficou na minha classe até a conclusão da quarta série, ali mesmo, no Rio Abaixo. Poder testemunhar o seu progresso, ano a ano, para mim foi uma bênção divina, parece que era para permitir que diariamente eu pudesse me redimir, me penitenciar da negligência inicial.
Nunca mais fui o mesmo. Antes, eu tinha sido o que eu pensava que fosse um professor.  Então comecei a me construir como educador.  Graças a Deus! Graças a Heleninha!
***
Em 2012 lancei o livro “Aconteceu na Escola”, que inclui esta narração. Em outubro fui fazer o lançamento no Museu de Jacareí. Compareceram alguns dos meus aluninhos daquele tempo: Juliana, Selma, Rogério, Valdir... Perguntei sobre a Heleninha, Juliana contou que ela tinha falecido havia cerca de dez anos.
*****
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA

Registro 344.938 - Fundação Biblioteca Nacional

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A técnica da redescoberta


Na década de 1980, sendo eu diretor da Escola Ismênia, a Milu lecionava ciências e matemática para as terceiras e as quartas séries. Um dia veio falar comigo na diretoria e já entrou declarando, com um ar meio desesperado: “Vou voltar para o livro! Não está dando certo, já é outubro e os alunos estão muito atrasados, muito mesmo!”
Meses antes, ela tinha participado de uma série de reuniões na Oficina Pedagógica e voltou encantada com as ideias de ensinar tudo através da experimentação e dos trabalhos em grupo. Queria, em lugar de passar o conhecimento pronto e embalado em pontos na lousa ou em lições de livros, queria que os alunos fizessem experiências para redescobrir o que já tinha sido descoberto pelos cientistas.
Ora, é tão emocionante a gente ver um profissional da educação entusiasmado com uma ideia pedagógica! Autorizei imediatamente – como coisa que um professor necessitasse de autorização do diretor para adotar uma linha pedagógica! Bom, mas autorizei e garanti apoio. Ela ia mesmo precisar de apoio. As aulas ficaram de repente bem mais movimentadas. Mais barulhentas.
Alunos saíam e entravam, carregando madeiras, pregos, ferramentas. Iam se reunir em grupos nos locais mais diversos da escola, uma turminha no galpão, outra na biblioteca... Faziam suas experiências seguindo um roteiro discutido com a Milu e depois elaboravam relatórios para dizer o que tinham aprendido.  Era indiscutível que os alunos estavam finalmente formando conceitos sobre o que estudavam. Mas isto tudo, apesar de ser profundo, era muito lento! E muito barulhento! Daí o desespero da professora.
Numa aula tradicional seria bem rápido ensinar as unidades de medidas. Era só desenhar na lousa uma tabela com a sequência crescente e a decrescente das medidas a partir da medida padrão, e dizer que bastava ir mudando a vírgula para transformar, por exemplo, metros em milímetros ou quilômetros, litros em decilitros etc. Num instantinho o professor podia anotar no seu diário de classe que já tinham sido dadas as medidas de volume, comprimento, massa e outras. Sim, tinham sido dadas – mas, se tinham sido compreendidas, disto ninguém tinha certeza nem parava muito para pensar.
Agora, com o novo jeito de ensinar que a professora estava adotando, a intenção era fazer a classe compreender através da experimentação. Antes de estudar as medidas-padrão, vamos fazer as crianças começarem lá atrás, no tempo dos babilônios e fenícios. Em vez de falar em grama, quilo, tonelada, vamos construir uma balança de braços iguais. Cada equipe faz a sua balança, trazendo de casa umas ripas e pregos – e também dois pratos de colocar samambaia, com as correntes. Pendura um prato em cada braço da balança, e vamos fazer que eles fiquem equilibrados, colocando um livro num dos pratos e vamos encher o outro prato com borrachas até podermos concluir que a massa de um livro é igual à massa de trinta e sete borrachas. Assim, aos poucos, os alunos vão descobrindo que era preciso inventar uma medida-padrão, porque cada livro tem um peso diferente, e cada borracha também, e há borrachas meio usadas, algumas foram mordidas e tudo ficava muito incerto... Por isto, foi inventado o grama, com seus múltiplos e submúltiplos.
E ainda faltava estudar medidas de comprimento, de volume, de área, de tempo... Por isto foi que, em outubro, vendo que a matéria praticamente não tinha sido dada, a professora Milu resolveu dar adeus às ideias da Escola Ativa, voltou para os livros e começou de novo a pôr o ponto na lousa e ninguém mais martelou o dedo ao construir uma balança.
Uma parte de mim – a parte sonhadora – ficou meio triste: saudade dos meus primeiros tempos de professor... Mas a parte prática teve de concordar. Tinha que cumprir o programa. O episódio rendeu várias discussões, inclusive na Oficina Pedagógica. Introduzi na discussão o fato de que as escolas privadas não se encantam muito com as técnicas de redescoberta. Dão ao aluno o conhecimento já pronto, para ser aprendido como está, como nos foi legado pelas gerações de sábios desde a antiguidade. Para dar o exemplo extremo, num cursinho para vestibular alguém vai tentar ensinar através da redescoberta? Com trabalhos em grupo? Ah, não vai não. Os seus alunos precisam aprender rápido uma grande quantidade de conhecimentos. Na escola pública os professores são incentivados a não se incomodar muito com essa quantidade, importa é que as aulas sejam movimentadas, alegres, criativas, com muita atividade grupal, socializante.
Mas creio que não precisamos abandonar de todo essa técnica. Se não é possível dar toda a matéria fazendo o aluno redescobrir tudo que já foi descoberto, é possível introduzir uma ou outra aula extremamente instigadora, propositadamente ocultando dos alunos a informação final, para que eles, individualmente ou em equipes, busquem a solução.
Anos depois desse episódio, quando eu já tinha voltado a lecionar para alunos de quarta série, comecei a contar para a classe a história das grandes descobertas. Isto foi na Gilda Piorini. Descrevi as caravanas, mostrei fotos de camelos, comparei com as tropas de burro que já foram comuns em nossa região, enumerei os produtos que a Europa comercializava com o Oriente, mostrei no mapa os pontos de partida das caravanas e os destinos mais buscados, como Calicute, na Índia.
Até aí, estava dando uma aula nos melhores moldes do ensino tradicional. Mas então afastamos as carteiras, assumimos a dramatização de uma partida de caravana. Livremente, os alunos incorporaram uma das personagens típicas, cameleiros gritando uns com os outros, os guias discutindo as rotas, mulheres chorando ou fazendo recomendações aos maridos que partiam, cachorros latindo... Afinal, bem lentamente, lentamente, a caravana se pôs em movimento, até que, ao meu sinal, tudo se foi congelando, a cena teatral acabou e as crianças aplaudiram e gritaram, e se abraçavam, emocionadas, e vinham me abraçar também.
Na próxima aula, a classe se dividiu em equipes, cada aluno tinha seu atlas e o grupo tinha que ir descrevendo o itinerário seguido pela caravana, desde Lisboa ou Madri, até Calicute. Depois de muito estudo dos mapas, todos acabaram traçando roteiros lógicos, que incluíam a travessia do Bósforo, entre a Europa e a Ásia. Um dos grupos resolveu – vejam só – não prosseguir viagem, achou que era mais lucrativo abrir um grande armazém na Itália, e ficar ali mesmo, bem na rota das caravanas, para ganhar muito dinheiro abastecendo os viajantes, quem sabe cobrando deles parte da mercadoria que estivessem trazendo!
Mas todos os demais acabaram chegando às Índias e prossegui com a narração, eu mesmo encantado com a participação daquelas crianças de nove e dez anos. De repente, penalizado, contei-lhes, que os turcos haviam tomado Constantinopla e não dava mais para as caravanas europeias passarem por ali!  
Diante do mapa mundi pendurado na lousa, a classe, novamente dividida em equipes – ou caravanas – começou a buscar a solução, rotas alternativas. Houve sugestões de trafegar mais para o norte, mas eu contava sobre as estepes geladas da Rússia, mostrava o Himalaia, os camelos não iam passar. Alguém queria que atravessássemos o Mediterrâneo na altura de Gibraltar e prosseguíssemos para leste pelo norte da África. Sim, isto tinha de fato acontecido, mas o Saara, eu dizia, era impiedoso – e descrevia as dunas, o areal imenso (citava Castro Alves), mostrava fotos do deserto. E acrescentava os árabes dominando a Palestina, por ali não ia dar passagem não. As crianças ficavam desesperadas.
Então a Mayza disse: “Já sei”.
Levantou-se, foi à frente da sala e traçou sobre o mapa o caminho que ela tinha descoberto. Com o dedinho saindo da Península Ibérica, desenhou pelo Atlântico uma linda curva descendente, passou rente à África, contornou o Cabo das Tormentas, subiu pelo Índico entre Madagascar e o continente, subiu mais, derivou levemente para a direita, e chegou na Índia! Corremos para a lousa: o dedinho dela tinha parado em Calicute!
Era a rota que portugueses e espanhóis levaram séculos para descobrir.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
No livro ACONTECEU NA ESCOLA
Registro 344.938 - Fundação Biblioteca Nacional

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O Jogo dos Dez Anjinhos


  • Participantes: Um Avô e uma Neta
  • Recomendação: Que a Neta tenha aproximadamente um décimo da idade do Avô (mas isto não é essencial)
  • Local do jogo: Uma Piscina
  • Etapas:

1-           A Neta fica em pé sobre o trampolim, ou a mureta, conforme a Piscina. Fica o Avô dentro d’água, de costas para a Neta, olhando para o Céu e falando sozinho: “Nossa, como o céu está bonito, o que será que tem lá, tem as nuvens, ah lá, tem passarinho voando, será que tem Anjinhos também?”

2-           A Neta pula na Piscina, mergulhando. O Avô se aproxima, meio assustado. Quando a Neta põe a carinha para fora d’água, o Avô pergunta: “- Nossa! Quem é você?” E a Neta, meio sem fôlego, responde que ela é um Anjinho, que o nome dela é Pietra. O Avô demonstra admiração, faz perguntas sobre o Céu, e a Neta explica que lá é muito bonito, que lá tem muitos outros Anjinhos e que daí a pouco vai chegar outro Anjinho.

3-           O Avô agradece as informações, deseja ao Anjinho um bom passeio pelo Planeta etc. e ajuda o Anjinho a sair da Piscina (o Anjinho não consegue fazer isto sozinho e suas asas devem estar molhadas...).

4-           De novo, a Neta fica em pé sobre o trampolim etc. e o Avô fica olhando para o Céu (ver Etapa 1). Então cai mais um Anjinho, mergulhando. O Avô vai lá e pergunta tudo outra vez, só que agora o Anjinho já é outro:  “- Meu nome é Sabrina!”.

5-           O jogo prossegue, com as cenas sempre meio iguais. Muda o nome do Anjinho várias vezes. O Avô, macaco velho, às vezes examina os dentinhos do Anjinho e constata admirado: “Interessante, você também está com dentinhos faltando na frente, igual ao Anjinho tal, que também é banguela!”. E o Anjinho explica: “Nós somos gêmeos!”.

6-           Depois, um a um, começam a chegar lá das alturas infinitas os Anjinhos-Bicho. Cai e mergulha, primeiro, um Anjo-Tubarão. Mas é manso. Para sossegar o ambiente, o Anjo-Tubarão beija a mão cheia de sardas do Avô, que fica mais tranquilo. Em seguida, cai um Anjo-Leão, que não fala nada, só rosna e urra, não dá para o Avô entender nada. E chega um Anjo-Peixe, que tem as bochechas chupadas ao máximo, formando um lindo biquinho com os lábios cor de rosa.

7-           Sensacional é a chegada do Anjo-Tartaruga Marinha, que logo vai avisando que precisa sair da Piscina: “Aqui não é minha água!”.

8-           Claro que várias cenas diferentes acontecem, mas não vão para o ar, ficam em off. Porque às vezes é preciso planejar a performance. Então o Anjo sai do seu personagem, assume o costumeiro papel de Neta e pergunta: “Vovô, o que é que tubarão come?”. Ou o Avô precisa falar com a Neta, não com o Anjo, e recomenda: “Olha, cuidado, não vai pular muito perto das pessoas! Cuidado com a beira da Piscina!”.

9-           Estas recomendações não têm graça, não têm magia. São muito terrestres. Mesmo assim, tudo prossegue, até que o Avô não aguenta mais e, por sorte, a Neta informa: “- Vovô, agora vou brincar com as minhas colegas. Tchau!

10-        E sai voando.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Foto de PalasAthenaAnamariaJorio

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Como escrever cartas


“Quero aprender a ler e a escrever”, disse uma analfabeta do Recife, “para deixar de ser sombra dos outros.”
Paulo Freire

– Professor, por que que não tá tendo leite?
Nem tinha acabado de trancar a bicicleta, mas já percebi que a minha Quarta Série “A” estava agitada.  O Lincoln e o Ricardo me questionavam: – O que está acontecendo? Já faz uma semana que não tem leite com bolacha na entrada!
Fui saber com as merendeiras. Era verdade mesmo. E mais: a supervisora da merenda já tinha avisado que não tinha mesmo, paciência, o Departamento ainda ia fazer a compra.
Mas não dá para recomendar paciência para crianças que desejam uma coisa tão simples, tão básica: beber leite quando estão com fome. A gente não faz isto com os próprios filhos, não dá para fazer com os alunos. Lembrando que muitas crianças chegam com fome verdadeira na escola. Muitos saem de casa sem tomar café. Não são todas as crianças do mundo que têm a graça divina de uma mesa carinhosamente posta pela Mamãe, com leite, café, chocolate, bolo, danone, fruta...
Os meus meninos e as minhas meninas estavam olhando para mim com os olhos compridos. Providências tinham que ser tomadas. Propus uma carta. A proposta pegou de pronto: É mesmo, professor, vamos escrever, mas para quem que nós vamos escrever?
O debate durou só um pouco, logo a classe decidiu que a carta deveria ser para o Prefeito. Gostei da decisão, própria de gente amadurecida. Aliás, sempre fazíamos na sala de aula discussões sobre administração do município, vereadores, sociedades amigos de bairro, direitos do cidadão, deveres dos governantes, coisas assim: cidadania.
Carta para o Prefeito. Muito bem, vamos fazer o rascunho em duplas. Terminado o rascunho, tragam para eu ver se a carta tem os elementos essenciais: local, data, destinatário, mensagem, saudação, assinatura.
A classe adorava trabalhar em duplas, mas nem todas as duplas apresentavam resultados rápidos. Algumas ainda se perdiam em brincadeiras. Lá veio a primeira dupla com um rascunho que começava assim: “Olha aqui, Prefeito, se você não mandar leite para nós, a gente vai chamar a SWAT para prender você...”
Esse rascunho eu nem quis acabar de ler. Venham pegar de volta essa coisa, estamos tratando de assunto sério. E entreguei o papel, segurando-o pela beiradinha, como quem segura com nojo a ponta da cauda de um rato morto.
No final, as cartas saíram boas, cheias de conteúdo, razões e emoções, tudo de maneira ordenada, letra bonita, parágrafos bem distribuídos. Alguns alunos aproveitaram e incluíram outros pedidos além do leite: livros infantis, alambrado no campinho, uma bola...
Prontas as cartas, e agora? Vamos levá-las ao Prefeito.
Pelas ruas de nossa cidade, lá vamos nós, eu com as minhas crianças. (Um dia o Clarel cruzou comigo numa dessas saídas e depois falou que eu estava parecendo a Dona Pata com seus patinhos. Ainda pego o Clarel de jeito.)
A nossa alegre comitiva parou na cidade para tirar xerox das cartas, porque as crianças iam entregá-las para o Prefeito, mas queriam guardar uma cópia na pasta. Entreguei ao Emerson as moedas, encarreguei-o de fazer o pagamento – ele, que tinha tido tanta dificuldade inicial com matemática – e foi interessante observar a sua seriedade em contar centavo por centavo para acertar com a balconista.
Toca para a Prefeitura. Meu antigo professor Moacir, agora guindado ao posto de Chefe de Gabinete, recebeu a minha turminha. Óbvio que implicou com os bonés e os piercings, mas recebeu de bom grado as cartinhas, ficou de entregá-las ao Prefeito, conversou com as crianças, melhor dizendo: fez a sua preleção sobre escola, estudo, educação, postura... E voltamos para a nossa Escola do Campo Alegre, satisfeitos com a nossa atitude.
De tarde, fui para a reunião semanal no Departamento. Cristo! Parecia um velório, todo mundo falando baixo, colegas me evitando, olhando para o outro lado. Então a Coordenadora veio me contar, muito constrangida: a Secretária estava uma arara comigo. O Prefeito tinha encaminhado o pacotinho de cartas para ela tomar providências. Uma coisa tão simples, cartinhas de crianças pedindo leite, virou uma pedrada numa caixa de vespas. Prosseguiu a Coordenadora, visivelmente chateada: a Secretária falou que aquilo era mais uma graça do Professor Paulo...
Coitada da Coordenadora, tive que pedir a ela para levar a resposta para a Secretária: Não, não era nenhuma gracinha do Professor Paulo. Se fosse para fazer graça, teria recomendado às crianças que endereçassem a correspondência para a TV Vanguarda, ou a Band Vale, ou a TV Setorial, ou à Folha de São Paulo... Mas as cartas foram dirigidas exatamente para quem de direito. Faltou merenda? Vamos escrever para quem? Para o Papa? Não, para o Prefeito mesmo.
Ora! No meu plano de trabalho daquele bimestre um dos temas era Carta. E no meu plano de vida de educador um tema constante é Cidadania. Então, estava tudo certo, eu não estava ensinando nada errado para minhas crianças.
No dia seguinte, cedinho, frio de rachar. Mas no balcão da cozinha o caldeirão de chocolate quente soltava fumacinha.  Meus alunos, muito metidos, chamavam as crianças que vinham entrando: Ó, tem leite! Pode vir que tem leite com bolacha!
O Ricardo conseguia fazer assim: a mão esquerda segurava a caneca de chocolate, a mão direita segurava umas três bolachas e ainda sobrava um dedo, o indicador, para apontar para um interlocutorzinho da terceira série. Com a boca cheia, ainda dava para falar assim: – Olha, vocês estão aí bebendo leite, mas é porque nós que fomos reclamar na Prefeitura!
A Secretária, junto com o leite e as bolachas, mandou para a escola (claro que era para o Professor Paulo) um bilhete explicando que a entrega da merenda não tinha nada a ver com as cartinhas da véspera, porque a merenda já estava comprada.
Junto com o bilhete veio uma apostila ensinando a escrever cartas.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, escrito em 2002.
Do livro ACONTECEU NA ESCOLA
Registro 344.938 - Fundação Biblioteca Nacional

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

DESIDERATA


Siga placidamente entre o ruído e a pressa, e lembre-se de quanta paz pode haver no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em bons termos com todas as pessoas.
Fale a sua verdade, mansa e claramente. E ouça aos outros, mesmo aos tolos e ignorantes: eles também têm a sua história.
Evite as pessoas ruidosas e agressivas: elas são vexantes para o espírito.
Se você se comparar com outros você pode se tornar superficial e amargo, pois sempre haverá pessoas maiores e menores que você.
Encha-se de prazer tanto com as suas realizações quanto com seus planos.
Mantenha interesse na sua carreira: mesmo que humilde, é um patrimônio real na mutável sorte dos tempos.
Seja cauteloso nos seus negócios, pois o mundo está cheio de armadilhas. Mas não deixe que isto o impeça de perceber o quanto de virtude existe.
Muitas pessoas lutam por ideais elevados, e em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo. Sobretudo, não simule afeição e nem seja cínico sobre o amor, pois, no meio de tanta aridez e desencantamento, ele é perene como a relva.
Aceite, de bom coração, o conselho dos anos, graciosamente deixando as coisas da juventude.
Cultive a força do espírito para se proteger nas surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.
Ao lado de uma sadia disciplina, seja gentil para consigo mesmo.
Você é filho do universo, não menos que as estrelas e as árvores: Você tem o direito de estar aqui.
E, mesmo que isto não seja claro para você, o universo vai cumprindo o seu destino.
Por isto, esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba.
E, quaisquer que sejam os seu trabalhos e as suas aspirações, na barulhenta confusão da vida, mantenha-se em paz com a sua alma.
Com toda sua falsidade, tédio e sonhos partidos, o mundo ainda é bonito.
Seja cuidadoso.
Lute para ser feliz.

***

DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração.
Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore, datado de 1692.
Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard.
O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927.
Hoje em dia pertence à © Robert L. Bell.

* * *
Tradução de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Publico este texto no meu blog como um presente para todos os leitores.
Recebi de presente este texto, em 1992, do meu amigo Juracy Trindade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ensinando indignação às crianças


 
Toda terça cantamos os hinos diante das bandeiras e falamos sobre o dever de cada cidadão para com a coletividade. Daí, vamos para a sala de aula e começamos a enxugar as poças d’água formadas pela chuva que goteja do telhado ou escorre pela parede. No mês passado, uma pequena luz vermelha começou a piscar dentro de mim, indicando que nesse capítulo de cidadania estava acontecendo alguma encrenca.
Comentei com as crianças: “Será que na sala do prefeito também tem goteira? Será que na sala da Secretária de Educação também forma poça desse jeito? Será que é justo isto que está acontecendo com a gente?”
Seguiu-se uma discussão demorada. As crianças de dez anos percebem as coisas, mas nem sempre sabem se podem falar a respeito. Encorajadas, argumentam bem e vão se exercitando nessa arte de pensar, ponderar, falar, repensar.
Decidimos registrar suas manifestações de indignação. Reunidas em duplas, escreveram o que pensavam sobre o assunto. Ocultei os nomes, para proteger as crianças. Sabe-se lá, nesse clima de coronelismo vingativo, os pais podem sofrer pelo que seus filhos falam. O resultado foram as redações abaixo, algumas mais lógicas, outras mais confusas. Mas todas muito sinceras.
Bom, eu poderia ter aproveitado para ensinar paciência e conformismo? Podia dizer-lhes que chove porque Deus quer. Que nossa sala de aula fica molhada enquanto que as salas dos ricos ficam sequinhas porque o mundo é assim mesmo e temos que aceitar. Podia dizer-lhes que o Prefeito é um ser muito mais importante do que nós, pobres mortais. Podia ter feito essas crianças entenderem que precisa ficar rico para não ter que estudar em salas molhadas.
Mas eu agora estaria com nojo de mim mesmo se tivesse embarcado no joguinho do poder. No joguinho chamado ideologia das classes dominantes.
Ensinar medo e encolhimento para nossos alunos nos transforma em adultos encolhidos e medrosos.
Ensinar coragem e clareza nos transforma em pessoas claras e corajosas.
Tenho que fazer jus aos aluninhos claros e corajosos que tenho. Por isto, é preciso perguntar, em voz clara e inequívoca: E então, Prefeito Vito Ardito? E então, Professora Beth Cursino? E então, Vereadores? É para isto que vocês estão ocupando os seus cargos? A Escola Franco Montoro vai continuar com as salas alagadas a cada chuva? O que devo dizer aos meus alunos sobre isto?
O que devo dizer aos meus alunos sobre a administração de um município?

Texto e fotos do Professor Paulo Tarcizio

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A sala de aula (Alunos X e Y)
Sempre quando chove, a sala do 5º ano C fica alagada e um aluno ou o professor tem que pegar o pano.
A Secretaria de Educação devia arrumar as goteiras para o bom estudo do aluno.
Também algumas pessoas correm na sala, se elas escorregarem elas podem se machucar. Isso é injustiça, eles deviam arrumar a sala do 5º ano C.

O que eu acho (Aluno W)
Eu acho isso errado, porque outras salas não têm goteiras e não ficam encharcadas. Quando os alunos vão entrar nas salas, estão todas encharcadas, algumas das carteiras também estão encharcadas. Outras salas mais importantes não têm uma gota d’água.
As salas que não têm goteiras não têm porque são salas mais importantes. As salas menos importantes que têm goteiras as pessoas não arrumam, eu acho isto injusto.

Redação (Aluno X²)
É verdade, só a sala de aula que fica encharcada quando chove e os outros lugares não, na sala da Secretária da Educação não fica encharcada porque é bem cuidada, é uma sala um pouco grande, as janelas sempre são fechadas para não encharcar a sala e impedir de cair goteiras.
A sala do Prefeito ainda é melhor cuidada, é muito grande mas é bem cuidada, não tem goteiras e sempre tomam cuidado para não encharcar a sala do Prefeito.
Nas escolas particulares também não ficam encharcadas, são escolas boas e têm muita proteção para não encharcar as salas e não cai goteiras, mas eu ainda acho que precisamos de algo para não cair goteiras e fazer alguma coisa para melhorar as salas de aula municipais.

Goteiras – Alunas YZ e B³
Quando chove nossa sala fica cheia de goteiras, aí nós temos que colocar baldes e panos no chão.
Nós acreditamos que isso não aconteça nas escolas particulares, nem na Sala do Prefeito e nem na Sala da Secretária da Educação.
Seria melhor se arrumassem essas goteiras pois nós alunos ou até mesmo o professor, podemos escorregar e até quebrar um braço ou coisas parecidas.

Sem título – Aluno “não identificado” (Verdade, ele assinou assim mesmo)
Eu acho isso muito injusto, nosso país tem muitas desigualdades, as escolas municipais são do governo, tinha que ser salas estruturadas muito bem. Alguns colégios tem goteiras porque as salas de algumas autoridades têm que ser melhor? O Prefeito tem uma ótima sala porque a sala dele não tem goteira! Vamos melhorar o país! Vamos ter um país melhor sem desigualdade.

Goteiras – Alunas 5Y e 9X
Eu acho injustiça isso pois quando começa a chover a nossa sala é a que fica mais molhada.
E fica muito feio.
A única solução será arrumar o telhado das salas, porque os lugares como a Sala da Secretária da Educação, nem na sala do Prefeito, nem escolas particulares estão assim com tantas goteiras assim, e eu só peço uma coisa, que arrumem as goteiras da sala de aula.

As minhas opiniões – Aluno HX
Em minha opinião nós devíamos juntar mais garras pet, latinhas etc.
E quando juntarmos muito, arrumaremos os telhados para arrumar as goteiras, tirar os rachados para não acontecer mais nada.
Para ficar que nem a sala da Secretária de Educação, ficar igual a sala do prefeito, igual as Escolas particulares como a Magistra, Colégio Aprendiz no Colégio Construtor etc.
Se fizermos isso nossa Escola ficará melhor.

Sem título – Aluna NN
Chegamos à sala de aula às 7h da manhã, tudo alagado pelas goteiras da sala, o professor fica passando e torcendo o pano de chão toda hora. Nem tem tempo de dar aula pra gente. E por que então na sala da secretária de educação não alaga? Nem na sala do prefeito? E nem nas escolas particulares? E porque então só em algumas escolas da prefeitura tem goteira? O prefeito e a secretaria têm que dar um jeito na nossa escola e em outras escolas da prefeitura. Espero que o prefeito e a secretária arrumem isso.

Sem título – Aluno R¢
Isso não é justo, outras escolas não têm goteira e a escola municipal tem goteira, Devia ter protesto porque não podia ter goteira em nossa escola tem muitas tragedia para enxugar.
Por que a sala da Dona Dilma não tem? Por que a nossa tem? Nem na idade da Pedra tinha goteiras nas caverna, por que não arrumam nossa escola? Quando será que isso vai acontecer?

Vazamento injusto – Aluno W£ e Y@
Toda noite chuvosa nosso teto escorre, assim chegamos de manhã e o nosso chão está encharcado.
Então o nosso professor pega um pano, põe esse pano no chão, sobe em cima do pano e começa a secar e parece que está dançando.
Isso é uma injustiça. Por que as salas das autoridades da cidade não tem vazamento? E a nossa tem?
É uma coisa tão simples arrumar o nosso telhado e assim não teria mais goteira.