O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Não é preciso temer o trabalho



Desde os seis ou sete anos eu já participava da divisão das tarefas de casa. Havia uma escala envolvendo todos os irmãos, definindo a arrumação da casa, a lavagem das louças, a varrição do quintal, o trato das galinhas, o buscar água no Largo, buscar leite na fazenda, lenhar. 
Alguns anos depois, quando eu tinha uns quatorze anos, o rol foi ampliado porque chegaram o porco, a cabra, os coelhos – e tinham que ser tratados, era preciso cortar capim, construir os chiqueiros, os ranchos, os galinheiros, os pinteiros. Era preciso cuidar da horta, buscar esterco, misturar a terra, alinhar as leiras, preparar as sementeiras, fazer o transplante das mudas, gerenciar os pés de chuchu junto às cercas dos vizinhos. Pedi para Vovó e ela me ensinou a fazer arroz e feijão, aprendi a controlar o fogo no fogão a lenha, a bater bolos e preparar broas para aproveitar o calor do forno. 
Logo aprendi também a transformar os animais do quintal em saborosos pratos para a mesa da família. Fiquei hábil em todas as etapas, desde a matança até o preparo das carnes e miúdos. Estas tarefas eu as executava às vezes sozinho, outras vezes em dupla ou em trio com o Pedro (nas tarefas mais pesadas), ou com o Zaga, ou com o Bosco. Com o Carlos não tinha jeito, ele já trabalhava desde os quinze anos na Companhia: primeiro na Sacaria, depois no Escritório. A Ana Clara, também desde os quinze, trabalhava na Farmácia. As outras meninas eram muito pequenas ainda.
E eu me sentia feliz participando do esforço para manter o lar, além de estudar bastante para garantir o êxito na escola.
Aos quatorze anos dediquei minhas tardes, durante as férias escolares, para fazer trabalho voluntário no Ambulatório, preenchendo as fichas de atendimento médico aos moradores, para agilizar o trabalho do Dr. Lessa, do Dr. Caio, do Dr. Chiquinho. Assim, eu também ajudava a diminuir um pouquinho a carga de trabalho da Ana Clara.
E eu me sentia muito feliz, entrevistando os pacientes e preenchendo as fichas na salinha do Ambulatório, de costas para a janela que abria para o Escritório, onde trabalhava o meu irmão.
Quando estava na quarta série do ginásio – hoje seria a oitava série – fiz o curso de datilografia com a Dona Semíramis. No ano seguinte, com dezessete anos, cursava de manhã a Escola Normal (porque era um curso que ia me garantir emprego) e à tarde comecei a trabalhar na Associação Rural, em cima da Leiteria, no início da Av. Cel. Fernando Prestes. Meu trabalho era preencher as guias de recolhimento de impostos e fazer outros serviços para os fazendeiros associados, além de preparar os livros da entidade, redigir as atas e cuidar da correspondência. Cuidei pessoalmente das tramitações burocráticas para transformar a Associação em Sindicato Rural. Levei o Bosco para cuidar da limpeza do prédio e nós dois assumimos também a tarefa de misturar ração para os criadores de coelho, que tinham sido recentemente acolhidos pela Associação. O salão de reuniões, nessas tardes, ficava tomado de uma névoa verde: era o pó de alfafa que estávamos misturando com as farinhas e farelos de soja, de aveia, de arroz, de carne, de osso etc.
E eu me sentia feliz por estar convivendo com os fazendeiros, com o pessoal que cuidava de vacas, de boi, de arroz. Eu sentia que estava contribuindo para o sucesso da atividade de produzir alimentos para o país.
Quando completei vinte anos já estava lecionando para as crianças na escola de Coruputuba. Aos vinte e um, era professor de manhã, mas era metalúrgico à tarde e à noite, pois comecei a trabalhar na AISA. À meia-noite tocava a sirene de encerramento do turno, eu batia o cartão, montava na bicicleta e voltava para Coruputuba pelo meio dos eucaliptos. Às oito da manhã já estava na escola, dando aula até o meio-dia. Almoçava, estudava para o concurso que iria me efetivar como professor do Estado, pegava a bicicleta e às quinze horas já estava de novo sendo metalúrgico na fábrica. Aproveitava o intervalo da janta para jogar palitinho com os colegas, falar de futebol e aprender piadas que não poderiam ser repetidas na sala dos professores.
E eu me sentia muito feliz por estar trabalhando em dois segmentos diferentes da sociedade: a educação e a indústria. Nas duas atividades eu trabalhava direito e me sentia bem com os resultados.
Quando eu passava de noite pelo meio do eucaliptal, o curiango, deitado na beira do caminho, esperava que eu passasse e então erguia voo para me alcançar quase roçando a minha cabeça – e ia sentar-se de novo bem lá na frente. Então esperava novamente que eu passasse para de novo se levantar, me alcançar etc. É por isto que os roceiros chamam a este pássaro de mede-léguas. Quando ele passa sobre a cabeça dos caminhantes noturnos, alguns ficam amedrontados, pensam em almas do outro mundo. Mas o curiango dos eucaliptos não me dava medo, eu não tinha medo de assombração.
E nem de trabalho. Graças a Deus, eu nunca tive medo de trabalho. Nem eu, nem os meus irmãos.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: alagoinhaipaumirim.blogspot.com

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Medo do diabo e outros medos


Fui até o fundo do quintal, que era bem fundo mesmo, batia no muro da fábrica. Estava escurecendo, hora de sereno, hora de "entrá pra dentro". No pau da cerca da divisa com o quintal do Seu Eurico (da Dona Eleuzina), tinha uma coisa de olhos arregalados, olhando firme para mim.
Voltei correndo e o Bosco estava brincando perto do galinheiro. Falei: “Bosco, tem um diabo trepado na cerca do Seu Eurico!” Ele não acreditou e foi lá ver. Eu fiquei vendo ele ir. Foi indo pelo caminho varridinho do meio do quintal. Daí ele parou, olhou para o lado que eu falei e voltou na disparada, branco mas branco mesmo. Falou: “É o diabo memo, Paulo!”
No dia seguinte (porque o sol deixa todo mundo valente) nós fomos lá perto, jogamos água benta na cerca e riscamos no chão uma cruz. Rezamos de montão, para o diabo não voltar mais lá. Mas eu sabia que era só uma coruja. Só que eu me assustei e queria que o Bosco também se assustasse, caramba!
Daí eu cresci mais um pouco, fiquei adolescente e resolvi perder o medo do escuro. Todos nós fomos criados com muito medo do diabo, de tanto que a gente vivia na igreja... Acho que os adultos falavam muito mais no diabo e no inferno do que em Deus e no céu. Para manter a criançada obediente, parece que tinha que manter o pavor.
Mas eu decidi que ia perder o medo do escuro e eu mesmo planejei a minha terapia. Uma noite, sem falar nada para ninguém, saí para o quintal, fechei a porta da cozinha e fui indo pelo meio da escuridão, com o plano de chegar até o muro da fábrica. Eram uns setenta metros de caminhada sem ver quase nada, só as estrelas. Passei pelas ameixeiras, pelo galinheiro, pelo abacateiro, tudo meio que adivinhando o caminho, tocando nos troncos e nas cercas. Até passar do chiqueiro e chegar no fim do quintal. Fiz força para tocar o muro com as mãos. E comecei a voltar. Agora eu via a luz da cozinha se filtrando pelo vão da porta. Tive que resistir à vontade de correr disparado. Esta foi de fato a parte mais difícil: voltar devagar. Cheguei à varandinha do tanque, empurrei calmamente a porta, entrei e – num supremo esforço – fechei a porta beeeeem devagarzinho.
E nunca mais tive medo do escuro. Depois de adulto, muitas vezes dormi acampado sozinho no meio da Mata Atlântica, na serra de Ubatuba – e sempre em paz.
Mas os adultos antigamente falavam muito no diabo, demais. Quando eu tinha dezessete anos, trabalhava na Associação Rural, em cima da leiteria (onde hoje fica a Imobiliária Derrico). Atendia os fazendeiros, preenchia guias de impostos etc. Um dia chegou o Seu Tranin, de bota e chapelão. Perguntei as horas para ele e ele me perguntou de volta: “Mais ocê qué sabê nas hora de Deus ou nas hora do diabo?”
É que o governo militar tinha acabado de implantar o horário de verão e ele não concordava com isto. Achava que mexer no horário de Deus só podia ser coisa de quem? Do diabo!
 

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Foto: avassouradabruxa.blogspot.com

terça-feira, 22 de maio de 2012

A morte no museu

Agora ele já não sabia como tinha ido parar ali. Lembrava-se da movimentação das pessoas, das conversas. De dia, tinha vagado pelas escadas e rampas, tinha descido até a horta e ficou um bom tempo na porta do Arquivo, até que lhe pediram que saísse dali.
Quase na hora de fechar, o Donizete insistiu que ele saísse – e ele foi de novo em direção à horta, mas o Donizete não reparou que ele deu um jeito e retornou. Ninguém percebeu que ele tinha voltado. Quando a porta da Biblioteca foi baixada, ele permaneceu atrás da Carruagem, imóvel e silencioso.
Disto ele agora se lembrava de um modo confuso. A fome de três dias, o frio e a solidão não permitiam que ele pensasse direito. Sabia que precisava sair dali – e gastava suas últimas forças procurando uma saída. A luz do sol, entrando pelo vitrô, dava-lhe uma ilusão de ar livre, parecia-lhe que já tinha alcançado a liberdade...
Agora a fraqueza já não permitia que ele tentasse achar a saída. Parou de se arrastar como tinha feito durante os dois primeiros dias, quando se movimentava meio desesperado entre a Carruagem e o Sino. Compreendeu que não ia encontrar nenhum alimento, nenhuma água. Compreendeu que os companheiros lá fora já tinham desistido de procurá-lo, se é que em algum momento tinham de fato se preocupado. Aliás, bem antes de ficar preso ali, já fazia tempo mesmo que não conversavam com ele, desde que começou a apresentar aquela dificuldade de locomoção.
Houve um momento em que ouviu as vozes dos antigos companheiros, mas estavam longe, falando de outros assuntos.
Vagamente compreendeu que não devia ter retornado à Biblioteca, devia ter obedecido o Donizete, devia ter se afastado. Mas não esperava que nunca mais retornassem aquelas pessoas, nunca mais viessem abrir a porta.
Quando terminou o feriado prolongado foi o Flávio que encontrou o corpo, frio e imóvel, entre a Moenda e o Sino Pequeno. O próprio Flávio o enterrou debaixo das árvores do quintal. O Donizete comentou com o Professor: “Coitado do pombinho, judiação, morreu de fome, de sede”. Mas o Professor comentou que no sábado, quando tentaram tocá-lo para longe da Biblioteca, ele já estava meio mancando, talvez estivesse doente, ou machucado.

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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

domingo, 29 de abril de 2012

Seu Taha


Eu tinha vinte e um anos quando fui trabalhar na AISA. Todos da Anodização estavam mais ou menos na mesma faixa de idade: o pessoal do Polimento, do Banho, das Gancheiras, do Controle, da Embalagem, da Expedição... Todos com menos de trinta anos. É verdade que depois chegou o seu Maia. Mas antes dele tinha vindo o Seu Taha, o primeiro com mais de quarenta.
Jordaniano de nascimento, contava-me as histórias de seu país e isto alimentava a minha vontade de aprender. Eu queria saber, queria conhecer, através das palavras dele, os rios, os desertos, as palmeiras, os alimentos, os costumes árabes, as tradições. Seu Taha me ensinou, no meio dos barulhos das politrizes, a dizer em árabe frases de saudação, de despedida, de brincadeiras. Ensinou-me a gostar de halewa, o doce árabe feito de gergelim.
Educadíssimo, respeitador, só mostrava o seu temperamento brincalhão com quem soubesse brincar mantendo o respeito. Aprendi que podia lhe contar piadas sobre árabes, desde que não os confundisse com os turcos. E desde que não envolvesse pessoas com nomes de santos – os profetas que, na tradição cristã, aparecem como os patriarcas do Velho Testamento.
Com essas ressalvas, eu podia fazer o Seu Taha dar boas risadas com minhas brincadeiras. Quando ele se afastava da mesa, eu trocava a chave dele. Na volta, ele ficava tentando inutilmente abrir a gaveta para pegar o lanche, até desconfiar que era mais uma travessura minha. Então olhava para mim: “Ah, Seu Baulo, Seu Baulo...”
Sua tarefa era preparar as peças que eu deveria inspecionar. A gente disputava para ver quem vencia o outro na velocidade. “Eh, Seu Taha! Muita areia pro seu caminhãozinho?” Mas quando ele disparava a passar óleo com a estopa e eu me atrasava examinando alguma peça com defeito, ele aproveitava, vinha trazendo as bandejas de peças já preparadas, colocando uma sobre a outra e fazendo a gozação de passagem: “Seu Baulo, caminhãozinho tá com broblema?”
Então eu saí da AISA, ingressei no magistério do estado, mudei para Caraguá, depois Jacareí. Uma vez, passeando em Pinda, visitei o Seu Taha, que morava em frente à fábrica de guarda-chuvas. Fiquei encantado com sua atenção. Ele convocou para a sala todos os filhos: “Venham escutar o Seu Baulo, ele é brofessor, ele sabe!”. Seu Taha me pediu que falasse sobre os cursos de ensino médio (na época, segundo grau), queria orientação para os estudos dos filhos. Então fiquei ainda mais encantado foi com a educação dos adolescentes, muito atentos à nossa conversa: isto já era muito raro!
Passaram-se muitos anos. Voltei de vez para minha terra. Quando fui saber, Seu Taha tinha falecido. Perdi meu amigo. Fiquei triste, tinha ficado muitos anos sem conversar com ele.
 Seu Taha Youssef Mohammed Elkatib, meu amigo: saudade daquele tempo!
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: rondoniadigital.com

sábado, 21 de abril de 2012

A cabrita marrom


Ela apareceu em casa e ninguém sabia de onde ela tinha vindo.
Quando eu cheguei da escola meus irmãos estavam excitados, falando todos ao mesmo tempo, no jardim, em volta da cabritinha marrom.
Tão bonita! O pelo era marrom nas costas, mas no peito era mais claro, na barriga era quase branco. As suas tetinhas eram cor-de-rosa. Não parava de balançar o rabinho.
Reparei que os chifres ainda eram bem pequenos, porque ela era bem nova.
A cabrita comia tudo que a gente dava. Comia, comia, depois parava, deitava na sombra. E de repente começava a mastigar sem comer! O Pedro me explicou que ela estava ruminando, quer dizer, o capim que ela tinha engolido voltava para a boca para ser mastigado de novo.
Mamãe não deixou a gente levar a cabritinha para o quintal. Falou: "Deixa ela no jardim, para todo mundo ver. Assim o dono vai ficar sabendo que ela está aqui."
De tarde apareceu o Seu Zé Campeiro, que só andava de bota, chapéu de couro e facão na cinta. A cabritinha era dele, tinha escapado da casa dele lá na Vila Figueira. Ele tinha vindo buscar.
Eu corri para o quarto e fiquei quieto.
Um tempo depois o Zaga e o Pedro entraram correndo:
"Bobo, bobo! Não precisa chorar, a mãe comprou a cabra! O Seu Zé Campeiro vendeu!"
Eu falei que não estava chorando nada. Falei que tinha entrado um cisco no meu olho.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
(Isto aconteceu em Coruputuba no dia 21 de abril de 1960).
Foto: viamao.olx.com.br

domingo, 1 de abril de 2012

A tragédia de Caraguatatuba em 1967

Quando concluímos o Curso Normal, éramos cinco rapazes e oitenta e cinco moças. Apesar de nossas notas acima da média, nós, os rapazes, não conseguimos assumir classes nem escolas de roça, pois na época a legislação facilitava a atribuição de aulas para as mulheres. Homens só poderiam pegar escolas isoladas masculinas, enquanto que as mulheres podiam pegar as escolas mistas e também as escolas masculinas. Para completar a ironia, as chamadas classes masculinas atendiam meninos e meninas...
Perdidas as esperanças de assumir classes no município, fomos procurar oportunidades na delegacia de ensino de São José dos Campos, que respondia também por uma parte do litoral norte. Eu, o Welton, o Freitas e o Carneiro fomos conversar com o delegado de ensino e ficamos sabendo da existência de escolas isoladas que continuavam fechadas em fevereiro, por falta de docentes. Essas escolinhas ficavam na chamada “costa”, ou seja, o litoral entre São Sebastião e Bertioga – hoje, região valorizadíssima, mas, naquele tempo, um fim de mundo.
Minha mãe brigou comigo, chorou, desmaiou, tudo de tanta pensão que ela tinha de que eu ficasse doente lá longe, fosse picado por uma cobra, ou me afogasse. Afinal, ninguém de casa nunca tinha chegado perto do mar. A pressão foi muito grande. Meu irmão veio me dizer que se a mãe ficasse doente a culpa ia ser minha.
Cedi. Desisti de acompanhar o Welton e o Carneiro que, gloriosamente, viajaram para São Sebastião e, de barco, foram até a Barra do Una para assumir suas escolinhas na vila de pescadores.
O Candinho não estava nem aí para isto de dar aulas. Já estava iniciando o curso de direito e mais tarde ia ser advogado em São José do Rio Pardo. Sobramos eu e o José de Freitas. Eu, lecionando como substituto em Coruputuba. O Freitas no Pujol. E então, um mês depois, recebi recado do Freitas: tinha recebido telefonema da delegacia de São José dos Campos. Era para nós dois irmos para São Sebastião. Ele pegaria uma escola no continente e eu, na Ilha dos Búzios, que fica em alto mar, além da Ilha de São Sebastião.
Dessa vez, não sei por qual milagre, minha mãe não brigou muito. Até fez várias recomendações de cuidado etc. Fui à farmácia de Coruputuba, a Shirley e a Ana Clara providenciaram uma caixa de primeiros socorros e de remédios, incluindo soros antiofídicos. Quer dizer, eu estava pronto para ir conhecer o mar e assumir a escola isolada da Ilha dos Búzios. Fui ao Pujol para combinar a viagem com o Freitas, que veio me atender na portaria da escola. Ele estava de terno, por exigência da direção.
Depois de conversarmos bastante, decidimos: vamos deixar passar a Semana Santa, se formos agora não encontraremos ninguém que possa nos atender direito em São Sebastião. Era uma sexta-feira. Ficou combinado: iremos depois da Semana Santa, a gente dorme em Caraguatatuba, na casa do meu tio João, e no dia seguinte vamos conversar com o responsável pelas escolas de São Sebastião.
Fui para casa e, apesar de ainda faltar uma semana, continuei arrumando minha maletinha, conferindo os remédios, os esparadrapos, as injeções. No sábado, joguei bola com meus irmãos, era uma espécie de despedida. De noite, a família toda sentada na sala, diante da televisão, fomos surpreendidos pelo noticiário:
"Caraguatatuba não existe mais, uma tromba d’água desmanchou as montanhas, que escorreram para cima da cidade. Centenas de mortos, casas destruídas, a ponte do Rio Santo Antônio rodou, a cidade está sem comunicação: rodou a estrada para Ubatuba, rodou a estrada para São Sebastião, rodou a estrada para São José dos Campos".
Na telinha da TV, cenas da cidade inundada pela água e pela lama. Todos os irmãos se voltaram para o meu lado. Eu, mudo. Mamãe falou: − “Tá vendo?”
Então continuei trabalhando na escola de Coruputuba; meses depois, na escola regimental do Quartel e, por fim, na fábrica AISA.
Mas, quatro anos depois, fui mesmo para o litoral. Tinha passado no concurso para professor e escolhi uma classe na Escola do Porto Novo. Fiquei morando no Porto Novo, pertinho do Rio Juqueriquerê. Quando ia de ônibus fazer compra em Caraguá, olhava as montanhas todas rapadas, sem vegetação nenhuma. Imaginava que tinha escapado por pouco. Era para eu estar passando a noite na casa do meu tio no bairro do Rio do Ouro, aquela noite de horror em que tudo veio abaixo e as árvores, flutuando na lama, entraram pelas casas, rompendo as paredes.

Durante décadas, colossais troncos secos, mumificados, meio enterrados na areia, ficaram servindo de bancos nas praias de Caraguá.
Os meus aluninhos da Ilha dos Búzios nunca fiquei conhecendo.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Google Earth, Folha de São Paulo e Guilherme A. Pinto

sexta-feira, 30 de março de 2012

Mexendo com a Cabeça das Crianças

Papai era um sábio, conhecedor das línguas e das ciências, professor enciclopédico que tanto preparava candidatos ao exame de admissão ao ginásio como dava aulas de reforço de todas as matérias do colégio. Também era muito religioso. Tinha estudado no seminário até quase se ordenar padre. E nos educou com lições de catecismo e leitura semanal da História Sagrada (os católicos não usavam a palavra Bíblia, porque isto lembrava os protestantes).
Todo domingo à tarde, Papai reunia os filhos para a instrução religiosa. As lições de catecismo eram dadas, claro, no Método Catequético, constituído por perguntas fixas e respostas decoradas. Assim: És cristão? / R- Sim, sou cristão pela graça de Deus. / O que é ser cristão? / R- Ser cristão é ser batizado, crer e professar a doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. / Etc.
À medida que as lições avançavam, íamos entrando em contato com palavras novas, diferentes, atraentes, instigantes. Eu e o Zaga tentávamos descobrir sozinhos os significados, estudando hipóteses, experimentando... Assim foi que chegamos ao capítulo dos Pecados Capitais. O próprio nome do capítulo já era esquisito, mas os nomes dos pecados eram saborosos. Alguns tinham nomes autoexplicáveis: Gula, Inveja, Preguiça... Outros nomes logo decodificamos, por encontrá-los em textos de lições da escola, livros de leitura...
Mas sobrou o pecado “Luxúria”. Inicialmente, pensamos que fosse sinônimo de luxo, mas isto logo foi descartado, não tinha lógica. Depois de quebrar a cabeça, discutir bastante, desistimos e resolvemos: − “Vamos perguntar pro Pai!” − e fomos.
Os dois meninos, com oito e dez anos, perguntaram para um pai muito sábio, mas também muito religioso e pudico: − “Pai, o que é Luxúria?” – e receberam uma resposta direta e indecifrável: − “É o Pecado da Carne.”
Naquele tempo a gente até podia perguntar, mas não podia reperguntar, não podíamos ser especulas. Então, nos recolhemos com a resposta, para analisá-la. Ora, como assim: Pecado da Carne? – eu e o Zaga nos indagávamos (não imaginei carne cozida, assada ou frita, pensava na carne crua e vermelha, pendurada no gancho do açougue).
Pecado da Carne seria uma quebra da abstinência na Semana Santa? Seria negar um pedaço de carne para um pobre? Enfim, o pecado da carne acabava sendo um nome mais misterioso ainda do que Luxúria! Depois de algum tempo acabamos arquivando a nossa ignorância, como se a tivéssemos classificado entre os dogmas, aquelas coisas que não são para entender mesmo.
Meses depois entramos em contato com a palavra Ócio, e sugeri ao Zaga que devia ser o pecado do osso. E demos muita gargalhada, porque já sabíamos que a hipótese era absurda. E na gargalhada estava implícito que nós não tínhamos acreditado muito na resposta do Papai para a Luxúria.
Mas o pudor exagerado de Papai se manifestou mesmo – e isto só fomos compreender vários anos depois que ele faleceu – quando lhe perguntamos o que é Circuncisão.
A Circuncisão – de Lucca Signorelli


Ora, a gente já tinha escutado a palavra várias vezes, porque no dia Primeiro de Janeiro era a Festa da Circuncisão. Mas ficamos desconfiados de que isto se referia a algum ferimento porque, no sermão, o padre falou que aquela tinha sido a primeira ocasião em que Cristo derramou sangue pela humanidade.
− Pai, o que é Circuncisão?
− Era um costume dos judeus, dar um cortinho no calcanhar.
Ficamos com dó do Menino Jesus, coitado, porque tiveram que dar um corte no calcanharzinho cor-de-rosa dele? Só para sair sangue? Costume bobo dos judeus. E Nossa Senhora deixou? Puxa vida, acho que igual quando a Mãe segura a gente para tomar injeção.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto2: A Circuncisão – de Lucca Signorelli

terça-feira, 27 de março de 2012

O gosto amargo da infidelidade


Desde a infância, fui torcedor da Associação Esportiva Industrial de Coruputuba. Cresci montado na tábua da cerca do Estádio dos Eucaliptos, escolhendo o lado onde ia ficar o nosso goleiro. Assim, durante o primeiro tempo, presenciava de pertinho a defesa da Industrial. Ali permanecia no segundo tempo, agora para ver de perto os atacantes coruputubenses assediando o gol adversário.
Depois de crescer, desci da tábua da cerca e fui ocupar meu lugar na arquibancada, desfrutando da visão completa do jogo, mas perdendo o calor da proximidade que tinha na cerca atrás do gol.
A camisa grená, ou bordô, da Industrial, aos poucos, foi se tornando mais importante na cidade e na região. Acompanhei os jogos desde os anos cinquenta até os anos setenta. Vi atuações espetaculares de duas ou três gerações de jogadores. Alguns jogadores adeptos do chutão para frente e do carrinho, outros muito tranquilos, bola no chão, organizando as jogadas.
Vi no gol o Nelson Comida, o Zé Assoni, o Nicoletti, o Zé Rosa, o João Bosco e o Marinho Greco – este, o melhor de todos. Na defesa, clássico e inexpugnável, o Toninho Barreira (vejam, parece que estou montando um time de todos os tempos!). Houve grandes jogadores que não ficaram na memória de todos. Não conquistaram nome equiparado ao de Lucas Lopes – este, sem dúvida, o melhor jogador que vi atuar. Mas eu admirava a categoria do Vianor e a velocidade e empenho do Edgarzinho Hardt, o oportunismo do Piolho e a presença segura e criativa do Tó.
Aí surgiu o Zeno, o mais hábil de todos. Mas também o mais debochado, provido de espírito de molecagem: era a alegria da torcida. Para ele, parecia que o objetivo do jogo não era marcar gols. Era dar o maior número possível de vãos-de-pernas e de chapéus. Queria mesmo humilhar os adversários. Zeno trabalhava a bola e chutava sempre com a perna esquerda. No calor de uma jogada caótica na pequena área, parava a bola diante do gol aberto: Vai chutar? Vai marcar um gol? Que nada, calma, primeiro tem que dar mais um vão-de-perna no zagueiro que vem correndo desesperado, depois ainda precisa driblar o goleiro, para depois chutar, senão não tinha graça. A torcida vinha abaixo.
Tudo isto fazia parte das tardes de domingo do lugar maravilhoso em que eu vivia, mas, puxa vida, a fábrica de Coruputuba não tinha emprego para mim. Então, aconteceu que precisei ir trabalhar na AISA e comecei a ficar meio dividido. Morava em Coruputuba, dava aulas em Coruputuba de manhã, mas trabalhava na fábrica de alumínio à tarde e à noite.
Na AISA fui conviver diariamente com nomes já gloriosos no futebol pindense: Mauro Boca, Pitô, Luizinho, Armandão (que jogava na Ferroviária), Carlinhos Chipan... Fui ser colega de ótimos jogadores que estavam subindo. Trabalhava na mesma seção do Pinguim e do Dadá.
Na próxima partida entre a Industrial e a AISA, sentei-me no lado direito da arquibancada, ou seja, no setor reservado à torcida do time visitante. Fiquei no meio dos meus colegas de fábrica, mas meio envergonhado, evitava olhar para o outro lado, não queria que o Zé Mexas me visse ali, Deus me livre do Paulo Pintor me flagrar!
No jogo preliminar, entre os segundos quadros dos dois times, o Pinguim pegou a bola, deu um drible até que bem simples e, mesmo estando fora da área, ficou com visão do gol. Chutou por baixo, para fazer a bola subir. Engraçado que o Pinguim, sendo pequenino, parecia estar fazendo uma força danada para chutar. Mas a bola ergueu voo, fazendo uma curva suave e bonita. Subiu e foi cair dentro do gol, nas costas do Zé Rosa. Eu pulei junto com os colegas de fábrica: − “Gooool! Aí Pinguim!”
Então eu percebi que – claro – só o lado direito da arquibancada estava festejando. Os torcedores da Industrial estavam mudos. Tudo perdeu a graça para mim, fiquei envergonhado: agora, que eu tinha vinte e poucos anos, estava pela primeira vez fazendo festa para os inimigos da Industrial. Disfarcei, fui embora para casa. Não quis ficar para ver o jogo principal. Mas lá de casa não tinha jeito de ficar sem escutar os barulhos, os chutes, os gritos da torcida. A Industrial ganhou, fiquei sabendo depois.
No dia seguinte, na AISA, na hora da janta, só se falava dos dois jogos da véspera. E eu não consegui falar nada, só pude elogiar o Pinguim pelo seu lance de gol, mas perdi a graça completamente. Percebi então, precocemente, que o infiel é infiel para todos os lados. Traí Coruputuba torcendo pela AISA. Traí a AISA me sentindo um torcedor falso, cheio de remorsos.
Infidelidade nunca dá certo mesmo.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos: Bons Tempos – Chico de Paula

Associação Esportiva Industrial em 1975:
Ticão, Marinho Greco, Tó, Homero, Ito, Miranda, Thiago e João Bosco.
Jorginho, Kida, Lucas, Tija, Jaiminho, Bodinho, Luizinho e Zezé.

Atlético Aisa em 1974:
Goiano, Carlinhos Chipan, Didi, Ângelo, Teófilo, Robertinho Nazaré, Gilberto e Celso Ribeiro.
Zezinho Preto, Zé Roberto, Rivelino, Adilson Cascão, Luizinho, Pinguim e Orlandinho.