O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O alvoroço de outubro



Meu pai falava que no mês de outubro duas coisas ficam alvoroçadas: içá e político. Bom, neste ano os políticos já se alvoroçaram, mas as içás estão quietinhas ainda.
A seca está durando muito, então içá não sai. Não é boba, sabe que depois do bem-bom do casamento com o sabitu nas alturas, na hora em que ela voltar para o chão só vai encontrar terra dura que nem pedra, que não tem jeito de cavoucar, o ferrão não aguenta. E ela precisa cavar uns sete ou oito centímetros que sejam, para botar seus primeiros ovinhos e colocar no chão úmido a bolotinha de fungo que ela trouxe do formigueiro-mãe.
Conheci um menino que comia a içá crua, não sei se ele gostava do gosto ou se gostava mais do desgosto que provocava em volta...
Eu gostava bem torradinha, com farofa.
Poucas vezes fui no “calipero” catar içá na boca do sauveiro. Eu e meus irmãos caçávamos as içás no meio da rua, com um galho de amora, batendo para derrubar, mas não com muita força para não destruir o bichinho. Daí, no chão, segurava por cima e com a unha do dedão rancava o ferrão e jogava numa vasilha com água. Em casa terminava de fazer a limpeza, tirando as asas e as perninhas. Depois, frigideira no fogão de lenha, levantando um cheiro inconfundível. Quando a gente estava indo buscar água na caixa d’água do largo, de noite, ia passando e já ia identificando em quais casas se estava torrando içá, o cheiro denunciava mesmo.
Era gostoso comer em casa. Mas era mais gostoso ainda a gente levar um pacotinho para comer na hora do recreio. Tinha professora que condenava. Havia uns bobos que diziam que içá come defunto, umas bobeiras. Se fosse basear nas lições dos professores, também não podia nem chupar coquinho da igreja...
Mas tinha uns viajantes de São Paulo que iam na farmácia (a minha irmã Ana Clara trabalhava lá) e encomendavam quilos de içá, que era para levar para o laboratório, diziam que a içá era fonte riquíssima de proteína.
Sei lá. Mas que a gente comia, comia com gosto. Até a gatinha de casa aprendeu a caçar içá na rua, pulava e pegava no ar, e comia. Sem falar da festa que era para a galinhada do quintal, correndo atrás dos bichinhos voadores, igual hoje os moleques correm atrás de pipa.
Agora, com tanta agricultura industrializada, tanto combate à saúva, as içás sumiram. Antigamente caía até na cidade. Hoje, nem na roça.
Nos EUA vendem latinhas de içá torrada. Daqui a pouco vamos começar a importar.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto também do Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Por que os virtuosos devem governar?



Estava boa a troca de idéias entre o Glauco, o Céfalo, o Sócrates e o Polemarco, na casa deste, depois que voltaram da festa da Diana. Mas o Trasímaco ficava toda hora querendo interromper a conversa, queria impor a conclusão dele, de que a vida do injusto é mais vantajosa do que a do justo. E ainda mais: que governar é simplesmente impor aos governados o interesse do governante. Então o Sócrates lembrou aos parceiros que, conforme já tinham discutido, toda arte ou governo deve providenciar o que é vantajoso para os subordinados. Assim, a medicina visa ao bem dos pacientes, o músico visa agradar aos ouvintes, o construtor visa o conforto dos moradores e assim por diante.
Da mesma forma, prosseguiu o Sócrates, o governante deve providenciar benefícios para os governados e não para si próprio. E assim, já que o governante está cuidando dos interesses dos outros, deve receber paga por seu trabalho. Por isto, ao governante se deve dar salários, sob a forma de dinheiro ou de honras e, em caso de recusa do ofício, sob a forma de punição.
Nessa altura, todos estranharam muito e interpelaram o Sócrates: Como assim? Pagar o governante com dinheiro ou honras a gente compreende. Mas a punição como paga?
E o Sócrates explicou: Punição para o virtuoso que não quiser governar, que recusar o cargo de mando. É só isto que funciona para o homem de bem. Porque ele não vai disputar o governo em troca de dinheiro, não é mercenário. Não vai disputar em troca de honras, pois não é ambicioso. A verdadeira paga para o homem de bem que assume o governo é esta: escapar da punição de ser governado por homens inferiores a ele.
Pois este é o verdadeiro castigo para o virtuoso que se recusa a governar: Honesto, será governado por desonestos; inteligente, será governado por burros; culto, será governado por brutos; solidário com as dificuldades dos pobres, será governado por aproveitadores; conhecedor dos caminhos modernos, será governado por retrógrados.
Para deixar ainda mais clara a sua convicção, o Sócrates completou: Se houvesse uma cidade constituída só de bons, haveria competição para fugir ao poder, precisamente como agora existe para o alcançar. Os homens bons disputam o poder não porque esperam usufruir vantagens, mas apenas porque não encontram quem lhes seja superior ou igual para lhe passar a missão.
Depois dessa, o Trasímaco baixou um pouco a bola. E a conversa na casa do Polemarco prosseguiu até bem tarde.
Isto aconteceu em Atenas, uns quatrocentos anos antes de Cristo. Quem contou para a gente foi o Platão, discípulo de Sócrates. Por essas e outras vocês sabem o que acabou acontecendo com o Sócrates: foi obrigado a se matar tomando veneno.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto de Greg O’Beirne
Permissão de uso: GFDL / Creative Commons

Comentários sobre a imagem: Socrates bust by Victor Wager, University of Western Australia, Crawley, Western Australia. Photograph by Greg O'Beirne, taken 3rd December 2004, 8.55am.Category:Perth, Australia

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Tucanos em blitzkrieg


Na maior calma, sem se incomodar com as reclamações dos pombos e dos pardais, sem ligar a mínima para os ataques rasantes dos bem-te-vis, os tucanos-de-bico-verde foram rapinando os ovos. Entraram pelos vãos das marquises da Peratur e, com estranha gentileza – como se os bicos enormes fossem delicadas pinças –, colhiam os ovinhos, depois levantavam a cabeça para engolir. Os pardais em volta, agitados. Os pombos, escandalizados. No meio dos ovinhos, foram também alguns filhotes, mais difíceis de engolir, mas uma bela fonte de proteínas.
Voaram para a sacada do Palacete Dez de Julho. O pessoal ficou olhando: Ô louco, será que vão entrar pela janela? Mas não entraram, voaram para o telhado da Acip, depois foram aos cabos de alta tensão. Um deles ainda tinha que engolir alguma coisa e fez isto à vista de todo mundo, empoleirado nos cabos sobre a rua principal da cidade. Era de manhã, não tinha mais neblina, mas ainda estava meio frio.
Um voou, o outro de repente voou também. Para onde foram? Um, ficou no alto do Literário. O outro, na arvorezinha da calçada. O guarda da FAPI já está acostumado, os dois vêm comer frutinhas, não vivem só de saquear ninhos.
Isto deles comerem os ovos e os filhotes dos pombos e dos pardais causou uma espécie de revolta nos circunstantes. Certo que ninguém adora muito os pombos urbanos, nem os pardais, mas o pessoal preferia ficar fantasiando que os tucanos (ramphastus vitellinus), além de serem portadores de uma linda plumagem e de um bico de chamar a atenção, seriam inocentes vegetarianos. Que nada! Aquele bicão serve para outras coisas mais sanguinárias, os espíritos mais delicados que afastem o olhar.
Antes de estarem trepados na Prefeitura Velha, estavam empoleirados na árvore do quintal do Museu, o jequitibá-rosa. Foram vistos lá, inicialmente. Depois voaram para o corrimão do segundo andar do Museu. Ora essa, estavam catando os bichinhos que ficam presos nas teias de aranha debaixo das sacadas. Fizeram uma limpeza, paciência, a aranha não consegue comer tudo que a teia prende de noite, deixa ali guardado... Então chegam os tucanos e fazem a colheita.
Foram embora de repente, igual um sonho que some quando a gente acorda. Ficou a lembrança das cores voando. Voltaram para o Bosque, onde está o ninho deles, no oco da palmeira. Lá eles têm os ovinhos, os filhotinhos deles. E ficam sempre rezando para o gavião-pinhé não descobrir, não querem que aconteça com a familinha deles a mesma desgraça que eles provocam para os pombos e os pardais.
Agora o bem-te-vi nem sei por que se meteu, não era com ele que os tucanos estavam mexendo. Mas é que o bem-te-vi detesta esses pássaros grandes que atacam os outros. Só de ver um gaviãozinho rodeando a cidade já vai atacando, atacando, até o bicho pegar a reta da várzea e ir embora.
Na Natureza não tem bonzinho não. E também não tem malvado. Todo mundo se defende, de um jeito ou de outro. Mas foi bonito ver as pessoas assistindo às cenas ao vivo, sem ser pela televisão.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos de Letícia Marques Alves, obtidas na manhã do dia 13/09/2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Meu amigo Welton Cypriano de Oliveira


Foi com alguns colegas do colegial que fui aos poucos deixando de me comportar como um bicho do mato. Não aprendi com todos os colegas, alguns eram tão assustados quanto eu, não podiam ajudar muito, podiam, quando muito, comentar comigo como o mundo era assustador. Mas quem me ajudou de verdade, e sem querer, foram os mais saídos.
Louvo as figuras do Welton, do Mineiro, do Mirinho. Mas, principalmente, do Welton, porque era meu colega de classe na Escola Normal e eu convivia todos os dias com ele. O Mineiro e o Mirinho contavam com minha admiração mais distante, eram monstros sagrados que perambulavam pelos corredores do Instituto, junto com meu irmão Zaga, bradando palavras secretas extraídas do fundo dos dicionários – ou lendo poemas cabalísticos em voz sussurrada. Mas o Welton estava ali na classe, perto de mim, e eu fui um aplicado observador do seu comportamento, para ir aprendendo a como deveria agir no mundo da cidade.
Fui me admirando e aprendendo, naquele universo de jovens entre dezessete e vinte anos. Welton, sempre ajeitando os óculos que teimavam em cair, conversava com os adultos de igual para igual, com urbanidade e bom humor, cumprimentava pegando na mão, olho no olho. Tinha sempre um gracejo e uma palavra boa para todos. Não se acanhava com ninguém, não desrespeitava ninguém. Tinha pronta argumentação diante de professores e funcionários, se fosse preciso defender um ponto de vista.
Todos estudávamos de manhã e trabalhávamos à tarde. Eu, no Sindicato Rural, em cima da antiga leiteria – onde hoje é a imobiliária do Derrico. Welton trabalhava na Tribuna do Norte, ajudando o pai, o Seu Argemiro. Aos sábados, convidado, eu ia à Tribuna ajudar em alguma coisinha. Cheguei a rodar a prensa. Aproveitei a minha proximidade para apresentar ao Seu Argemiro os meus poemas – e ele aceitou. Estão lá, nas edições de 1967, muitos dos meus sonetos.
Fui crescendo como estudante, aprendendo que não precisava me afastar dos colegas para com isto agradar aos professores. Dava para agradar aos dois públicos, mantendo-me cordial com todos – isto aprendia com o Welton. Depois vi que esses moradores da cidade – Welton, Mirinho, Mineiro e outros – eram bons também nas coisas nossas da roça, nas atividades que eu e meus irmãos desenvolvíamos em casa, no quintal, no mato. Eles foram nos visitar em Coruputuba e nós ficamos esmagados com o desempenho do Mirinho na bolinha de gude! Depois, durante o futebol debaixo das mangueiras, deram um completo baile em nós, os donos do campinho!
E de repente todo mundo cresceu e os adultos faleceram e todo mundo se separou e a gente ficou quase que sem se encontrar de novo, fomos virando uns estranhos uns para os outros. Cada um foi trabalhar para um lado, para cidades distantes. O Zaga, o Mineiro, o Welton, o Mirinho... Eu também, mudei de Pinda, demorei para voltar. Foi ficando difícil a gente se reencontrar. Mas as raízes que cada um de nós plantou no outro viraram referência, viraram instrução sobre como nos comportarmos diante do mundo, mesmo na distância, mesmo na ausência dos nossos companheiros.
E o mundo perdeu para mim uma parte de sua graça quando o Welton se foi. Ele, que sem saber, tinha me ensinado a me portar sem medo diante da Cidade.
  
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto do I.E. João Gomes de Araújo: Arquivo Histórico Waldomiro Benedito de Abreu

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Um assassinato no Bosque da Princesa




Quem não viu esse assassinato ainda pode ir lá ver, e nem precisa ir correndo. Pode ir bem devagar, pode até deixar para ir daqui a um mês, ou um ano, que a cena do crime não vai mudar muito. É um assassinato que está acontecendo devagar. Começou já faz tempo, talvez há uns vinte anos e ainda faltam uns trinta ou quarenta anos para se consumar.
Atrás do coreto, a meio caminho até a beira do Paraíba, você vai encontrar a vítima e a assassina abraçadas, fortemente abraçadas. Aliás, a vítima não abraça, ela se deixa abraçar. Quem abraça mesmo com toda a força é a outra, a criminosa, por nome Ficus guaranitica. O nome da vítima eu não sei. Ficus guaranitica? Melhor falar o apelido, o nome vulgar: Figueira branca, ou mata-pau.
Tudo começou quando uma semente da figueira caiu na forquilha da outra árvore, que estava ali toda inocente, contemplando a passagem das águas do rio. E toda inocente continuou enquanto a sementinha da figueira germinava no meio da matéria orgânica acumulada na forquilha. Fazendo-se também de inocente, a mudinha de figueira foi crescendo devagar, lançando um caule para cima e raízes para baixo e para os lados. As raízes que desciam foram procurando o solo, por dentro de uma rachadura da árvore hospedeira. As raízes laterais foram abraçando o velho tronco, abraçando e crescendo. Agora essas raízes abraçadeiras já deram a volta no tronco, já se encontraram do outro lado e já se ultrapassaram. O abraço já é mortal, não há mais esperança para a árvore hospedeira.
A figueira agora é uma árvore jovem, cheia de vitalidade, trepada na outra. E vai crescer ainda mais, suas raízes vão envolver completamente a vítima. Dentro de algumas décadas, ninguém vai saber que dentro da figueira existem os restos mortais de uma velha árvore que amparou, protegeu, forneceu abrigo e alimento – para quem acabou por matá-la.
As pessoas mais impressionáveis, contemplando a cena, vão achar que estão diante de um monstro saído de um filme antigo de ficção científica. Um ser de outro planeta, feio, com o couro liso e brilhante como o de um lagarto, ou talvez pareça uma lesma poderosa, com tentáculos nojentos, que vai matando progressivamente, abraçando, sugando para si a força da outra.
No livro Urupês, Monteiro Lobato fala que isto não acontece somente com as árvores. Ele afirma que entre os seres humanos isto também pode ocorrer.

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Fotos de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, feitas no Bosque da Princesa, em Pindamonhangaba, no dia 17/08/2012.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Aconteceu nas Taipas


Conforme narrativa do Joaquim Eugênio, foi assim que aconteceu: o Seu Joaquim Português, pai dele, estava jantando e vieram correndo avisar: “Tem gente trepado no pé de manga, derrubando tudo as manga verde!” Seu Joaquim largou do prato e foi lá fora ver. Era mesmo, tinha um homem trepado na mangueira, escolhendo as mangas. Já estava meio escurecendo, mas dava para ver o vulto. Seu Joaquim começou a falar bem calmo:
“Mas por que que você está aí? Desce daí, rapaz, nem tem manga madura! Você vai acabar derrubando as manga verde! Judiação!” Mas o rapaz não deu bola, só respondeu assim: “Vô ficá aqui memo”.
Puxa vida, o rapaz respondeu assim porque não conhecia o Seu Joaquim do Bairro das Teipa. Devia ser de uma turma de gente de fora que tinha vindo trabalhar nas obras de instalação da Confab. Ele não devia de ter respondido desse jeito para o Seu Joaquim.
Mas o Seu Joaquim não perdeu a calma e explicou direitinho para o rapaz que estava trepado na mangueira: “Olha moço, eu estou falando pra você descer e você não está ligando, e eu estava falando com educação. Então eu vou lá dentro pegar a espingarda e quero ver se você desce ou não desce”.
O rapaz continuou na mangueira, escolhendo manga, e o Seu Joaquim voltou com a espingarda e avisou: “Desce, senão eu vou dar um tiro em você”.
Mas o rapaz foi muito bobo e retrucou assim: “Quero vê!”
Foi um tiro e uma queda, o rapaz caiu de uma altura de mais de dois metros, ploft no chão, gemendo machucado. O Seu Joaquim Português explicou: “Olha moço, eu atirei porque você não quis descer. A espingarda é de um cartucho só. Então eu vou lá dentro buscar mais um cartucho que agora é pra matar você”. E foi para dentro. Quando voltou, o rapaz já tinha sumido, os colegas tinham pegado e levado embora, levaram para a Santa Casa.
De noite chegou a polícia, em dois carros. O sargento quis conversar com o Seu Joaquim, bateram um papo, depois o sargento perguntou se ele sabia de um caso que tinha acontecido ali por perto, de um homem que levou um tiro. Seu Joaquim falou: “Ah, eu sei sim, esse caso é que eu que dei um tiro nele, porque ele me desobedeceu, não queria descer da mangueira, estava judiando das mangas. Mas eu avisei pra ele que eu ia dar o tiro”.
Então o sargento o convidou para ir à delegacia, queria que ele fosse na Veraneio junto com os soldados. Mas o Seu Joaquim não se abalou, disse que ia trocar de roupa, a Veraneio podia ir indo com os soldados, ele ia junto com o sargento no Fusca. E assim aconteceu. Na delegacia o delegado conversou com ele, tomou o depoimento e no fim o dispensou, Seu Joaquim podia ir embora para casa.
Então Seu Joaquim perguntou: “E a espingarda minha?”. O delegado explicou: “Seu Joaquim, o senhor pode ir para casa, fique sossegado que a espingarda tem que ficar guardada aqui na delegacia, ela não pode sair daqui”.
Então o Seu Joaquim Português ficou nervoso: “A espingarda vai ficar aqui? Mas como que eu faço na hora que esse rapaz voltar lá, como que eu vou dar um tiro nele sem a minha espingarda?”
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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto da Figueira das Taipas – árvore centenária, protegida pela Lei Orgânica de Pindamonhangaba



domingo, 22 de julho de 2012

Nosso Natal no presídio

A gente só se sentia meio intimidada era na hora da entrada e na hora da saída, por causa da violenta bateção das grades de ferro e do barulho do correr das trancas e colocação dos cadeados. Também por causa do clima tenso que dominava a guarda nesses momentos. No mais, lá dentro era muito sossegado. O professor Sílvio nos falou: Aqui dentro nós estamos mais seguros do que lá fora.
Foi o professor Silvio que, sabendo dos saraus que eu e Anamaria vínhamos desenvolvendo nas bibliotecas de Pinda, teve a ideia de nos convidar para ir fazer coisa parecida no presídio onde ele trabalhava. Assim, fomos parar no I.R.T., para dar algumas oficinas de contos e de poemas, concluindo por organizar um concurso interno de literatura. Faltavam poucas semanas para o Natal, que foi o tema escolhido para as composições.
O Instituto já tinha suas atividades de leitura, estimuladas pelo professor Silvio e coordenadas pelos internos responsáveis pela biblioteca. Combinamos o regulamento para o concurso, as inscrições, o júri etc. e finalmente estávamos compondo a mesa da solenidade de encerramento, no auditório. Sendo que todo o cerimonial foi organizado pelos próprios internos.
O público era muito respeitoso e comportado. As declamações, de boa qualidade, as músicas monstravam que lá dentro havia grandes talentos. Enfim, a gente só se lembrava de que estava dentro de um presídio quando olhava para as janelas com fortes grades.
Final das apresentações: houve a premiação dos melhores contos e poemas, distribuição de livros, mais algum número musical e as palavras finais dos componentes da mesa.
Então, para encerrar mesmo, a funcionária que estava representando a direção do Instituto, usou da palavra, elogiando a organização do evento, as obras literárias apresentadas, os números musicais, agradeceu o nosso incentivo e terminou desejando Feliz Natal para todos os presentes, Feliz Ano Novo e “que no próximo ano possamos estar todos novamente juntos aqui”.
Todo o auditório se pôs a agitar a mão, dizendo silenciosamente que não. E tudo acabou em risada.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: g1.globo.com

terça-feira, 17 de julho de 2012

Araújo, o Professor Pardal


O Araújo, o Ângelo, os irmãos  Amarante , o Homero, eu, o Bosco, o Zaga, o Pedro, nosso primo Valério... Era essa a composição mais frequente do nosso timinho – e era com essa turma que, nas manhãs de domingo, a gente percorria Coruputuba, atrás dos desafios e das revanches. Vila Figueira, Fazenda, Vila Jacarandá, Vila Maria, Vila Campineira... Sendo que o nosso mando de jogo era no campinho perto da Igreja, no meio dos eucaliptos.

O Adauto acompanhava a gente, mas não para jogar. Nem podia, ele já jogava na Industrial. Ele ia com a gente, mas era para apitar. Interessante um time excursionar levando o árbitro. Mas ele não dava mole não. Chegou a me expulsar na Jacarandá, por jogo perigoso.

*

Numa festa de Primeiro de Maio, formei dupla com o Araújo e ganhamos a corrida de três pernas. Depois, quisemos aplicar esse sistema de forças na bicicleta e fomos para a Vila São Benedito, ele no selim e eu na garupa. Ele pedalando com a perna direita e eu com a esquerda. Assim, cada um podia colocar toda a força em uma perna só. A bicicleta virou um bólido, sensacional. Até que um dos dois se atrapalhou e os dois caíram e fomos ralando no asfalto novo da estrada... Doeu muito! Mas subimos de novo na bicicleta, que só tinha entortado o guidão, e prosseguimos mais devagar.

Nosso companheirismo com o Araújo atravessou a adolescência e continuou. Ficou muito amigo do Bosco. Juntos, tocavam no Vox Populi nas igrejas, nas festas. Tocaram na Basílica de Aparecida.

*

O Araújo gostava muito de ler, era um estudioso. Nas revistas em quadrinhos que ele me emprestava eu gostava muito da Epopeia. Foi naqueles quadrinhos que, aos quatorze anos, eu aprendi sobre a guerra de Troia, sobre o Quo Vadis e outras grandes aventuras.

 Ele já nos deixou há alguns anos, tornando este nosso mundo um pouco mais triste. Mas eu me lembro dos episódios em que ele deixou o mundo da nossa adolescência mais alegre e engraçado.

*

Num belo sábado resolvemos fazer uma caminhada para conhecer o trecho de várzea atrás da Vila São Benedito. Fomos, a pé, pelo asfalto. Então, um pouco antes da entrada para a Fazenda, tivemos que passar na frente de umas casas onde havia dois cachorros grandes e bravos.

O Araújo estava com um pedaço de pau de lenha na mão e os cachorros vieram latindo para cima dele e ele saiu correndo. A gente já sabia que aqueles cachorros detestavam pessoa que estivesse com um pau na mão. Por isso que estavam perseguindo o Araújo.

Eu, o Pedro e o Bosco fomos atrás, gritando: LARGA O PAU, ARAÚJO. E ele correndo cada vez mais. Até que eu entendi e gritei: ARAÚJO, JOGA ESSE PAU FORA.

Então ele jogou o pau e os cachorros pararam de perseguir o Araújo e voltaram resmungando e rosnando.

*

No começo dos anos sessenta, todos se interessavam muito pelas conquistas espaciais. Mas o Araújo era demais, lia tudo sobre naves e sputiniks, sobre voos tripulados e não tripulados, sabia tudo sobre combustíveis líquidos e sólidos, tinha na cabeça o ranking das conquistas russas e americanas.

Então, começou a contar para todo mundo que ele ia fazer subir um foguete, estava pesquisando um combustível revolucionário. Realmente, a gente viu que ele estava trabalhando num tubo reforçado, parece que era de alumínio, fazendo uma ponta de ataque, colocando na outra extremidade umas aletas direcionais. Mas sobre o combustível ele ainda não falava nada.

Numa bela manhã de domingo houve uma reunião no Largo, perto da Quadra. Parecia o público preparado para ver a demonstração do voo de Santos Dumont. Por fim, lá veio o Araújo, que morava ali pertinho mesmo, vizinho da Tatá. Veio o Araújo trazendo cuidadosamente o seu míssil. O pessoal rodeou e ele pediu que abrissem espaço para a experiência.

Foi tudo bem rápido. Posicionado o foguete, ele colocou fogo num pavio, a coisa soltou de repente um monte de fumaça e disparou para cima, deixando no ar um forte cheiro de laranja queimada. Foi cair perto da Pensão. Os gritos explodiram: – Viva o Professor Pardal!

O combustível secreto tinha sido casca de tangerina, secada ao sol durante muitos dias, até ficar esturricada. Mas que o foguete subiu, subiu! Mais alto que a Caixa D’água!

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paulotarcizio@gmail.com

www.paulotarcizio.blogspot.com 

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Arquivo Historico Waldomiro Benedito de Abreu - Quadra e caixa d'água de Coruputuba 

Na tuia tu ia

 


Nós não nos considerávamos caipiras. Sim, falávamos barde, memo (em lugar de mesmo), falá, comê, trabessero, têia (do teiado, ué!), ocê, bonde no lugar de ônibus, ridico, cuié,  muié, tá, nóis tava. Mas não éramos caipiras que nem o pessoar da varge. Aquele pessoar sim, era caipira memo, uns jacu do mato. Os caipiras de verdade, no nosso entender, eram os que falavam num carece, em lugar de não precisa, entonce em vez de então e – o pior de tudo – falavam ponhá em vez de pôr. O ponhá, para nós, era o estigma derradeiro. Quando queriam provar que não eram caipiras ficava pior: faziam força para acertar e falavam galfo, malmita... Nós, os filhos do professor, querendo falar “Eles foram varrer o quintal porque estava muito sujo e nós fomos também”, falaríamos “Eles fôro varrê o quintar porque tava muito sujo e nóis fomo tamém”.  Já os caipiras do fundo da varge diriam “Êzi fôro barrê o quintar a mode que tava munto xujo e nóis fumo tamém”. Eram diferenças fundamentais, acreditávamos.
A escrita nos salvou de continuar falando daquele jeito. Escrever, a gente escrevia certo. Ainda mais no Ginásio, quando comecei a prestar mais atenção na minha fala e aos poucos fui perdendo a caipirice do jeito de falar. Se bem que em casa e no bairro mantive, como uma espécie de resistência e saudosismo, na medida do possível, o meu linguajar costumeiro, como um bilíngue. Quando comecei a trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo, na escola e na fábrica, falava de um jeito com as professoras e alunos e de outro jeito com a peãozada.
Uma vez presenciei um garoto, que decerto queria estrear as novidades aprendidas na escola, falando para sua avó: Vou pegá as telha.
E a avó: Pegá  o quê, minino?  
O neto, sério: As telha
E a velha, no máximo do deboche: Que isso, “telha”? Que “telha”? Fala direito, sua besta: é têia, viu, é têia... minino bobo... inventano moda...
Eu achava interessante que  o choque entre o linguajar culto e o informal, dentro da família, às vezes resultava em alguns interessantes trocadilhos – e eu já vinha pegando gosto com isto, graças à saudável influência do Prof. Mario César.
Um dia, o Zaga ficou bravo com o Bosco e falou alguma coisa não muito agradável para ele. Eu interferi, para apaziguar, mas o Zaga não gostou da intervenção e me interpelou:
- O que foi, você está se tomando?
Não perdi a ocasião:
- Se tô, mano!
E a encrenca acabou em risada.
Noutra ocasião, época de quadrilha na tulha (para nós, tuia), minha mãe sugeriu que a gente fosse à reza na capela. Mas eu já estava vazando e mamãe ralhou:
- Não vai na igreja, né? Se fosse na tuia tu ia!
E ainda tive tempo de comentar com Zaga: A mãe não percebeu, mas ela fez um trocadilho espetacular!

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto: Arquivo Histórico Waldomiro Benedito de Abreu - Tulhas de Coruputuba -

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O livro "Aconteceu na Escola"


Um livro de memórias pedagógicas:

Aconteceu na Escola
de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes


- À venda na Livraria Nobel de Pindamonhangaba - R$30,00
- Ou faça o pedido direto ao autor: paulotarcizio@gmail.com 


Sobre o livro ACONTECEU NA ESCOLA:
·        Na mocidade, ouvi de um velho secretário de escola: “Não sei para que todo esse seu esforço. Bobagem. Quando você tiver a minha idade, vai ver que para o Estado você vale só o número do seu RG”. Ele estava certo, mas isto não é relevante. Não é a busca pelo reconhecimento do Estado que nos move. Nós, idealistas, vamos em frente trabalhando pela Humanidade. Se o Estado quiser, pode nos seguir. Se não nos atrapalhar, já está fazendo sua parte (o Autor).

·        Quem está se preparando para ser professor encontrará neste livro vários temas para meditação. Mas quase não encontrará nomes de pedagogos e de teorias da Educação: este livro não é um manual de Pedagogia. É um relato de experiências que, pela generosidade divina, já vêm durando mais de quarenta anos (o Autor).

·        No livro, Paulo Tarcizio se lembra de amores, erros, acertos, medos, intuições, indignações, tomadas de posição, pedidos de perdão, tentativas de reparação, ações políticas visando transformações, sucessos, decepções, alegrias e fracassos. Afinal, estamos fazendo ensaios de humanidade e é preciso arriscar a criar respostas novas, próprias a cada tempo. Paulo Tarcizio criou e tem criado respostas aos desafios que tem vivido como ser humano e como educador (Elydio dos Santos Neto, na apresentação).


Obra: ACONTECEU NA ESCOLA
Autor: PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Edição do autor – Pindamonhangaba
224 páginas; 21 cm
ISBN 978-85-913453-0-4
1. Educação. 2. Docentes. 3. Formação de Docentes
Contato com o autor: paulotarcizio@gmail.com
Preço do exemplar: R$30,00

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Escolas onde o autor estudou e ou trabalhou

• Grupo Escolar Rural Antonio Bicudo Leme, depois renomeado para Escola Dr. Martinico Prado, hoje extinta. Em Coruputuba, Pindamonhangaba. Aluno do primário de 1955 até 1958. Professor primário de 1967 até 1970. Estadual.

• Curso Preparatório da Professora Orlinda Nogueira, em Pindamonhangaba, aluno em 1959. Particular.

• Ginásio Estadual e Escola Normal João Gomes de Araújo, renomeado para Instituto de Educação e mais tarde para Escola Técnica, com o mesmo patrono. Aluno do ginásio de 1960 a 1963. Aluno da Escola Normal de 1964 a 1966.

• Escola Regimental do 2º Batalhão de Engenharia de Combate, em Pindamonhangaba. Professor em 1967.  Escola estadual dentro da instituição militar federal.

• Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Taubaté. Aluno do Curso de Letras em 1968. Aluno de Pedagogia em 1972 e 1973. Autarquia municipal.

• Escola do Porto Novo, hoje Escola Avelino Ferreira, em Caraguatatuba. Professor primário em 1971 e 1972. Estadual.

• Escola do Rio Abaixo, hoje Escola Ottilia Arouca, em Jacareí. Professor Primário de 1972 até 1978. Estadual isolada.

• Escola de Madureza ......? Em Jacareí. Professor de História em 1973. Particular.

• Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Fundação Valeparaibana de Ensino. Aluno de Pedagogia em 1973 e 1974. Aluno do Curso de Especialização em Orientação Educacional em 1975. Professor de História da Educação e de Sociologia da Educação em 1980. Particular.

• ETEP - Escola Técnica Prof. Everardo Passos, em São José dos Campos. Orientador Educacional em 1976, 1977 e 1982. Particular.

• Escola Agrícola Cônego José Bento, em Jacareí. Assistente de Diretor em 1978. Estadual.

• Escola Francisca Rosa Gomes, em Santa Branca. Coordenador Pedagógico em 1978 e 1979. Estadual.

• Escola de Igaratá, hoje Escola Benedito Ramos Arantes. Em Igaratá. Diretor em 1979 e 1980. Estadual.

• Escola Benedita Freire de Macedo, em Jacareí, no Jardim Flórida.Diretor de 1980 a 1984. Estadual.
• Escola Paraíso ou Escola Porto Marques, em Jacareí. Diretor do noturno em 1984. Particular.

• Escola Neusa Teodoro de Azevedo, na Vila Zezé, em Jacareí. Diretor em 1984 e 1985. Estadual.

• Escola Ismênia Monteiro de Oliveira, no Andrade, em Pindamonhangaba. Diretor de 1985 a 1998. Estadual.

• Instituto do Coração Eucarístico, em Pindamonhangaba. Professor de Literatura Brasileira no 2º Grau do Seminário Salesiano em 1989. Escola confessional.

• Escola João Pedro Cardoso, em Pindamonhangaba. Professor do Curso de Magistério de 1986 a 1988. Estadual.

• UNITAU – Universidade de Taubaté. Aluno de Direito em 1991 e 1992 e também de 1997 a 1999. Autarquia municipal.

• Escola Alfredo Pujol, em Pindamonhangaba. Professor de Língua Portuguesa do Segundo Grau Supletivo em 1988 e 1992. Estadual.

• FAMUSC (depois FASC): Faculdade de Música Santa Cecília, em Pindamonhangaba. Professor de Didática e Estrutura de 1987 a 2008. Aluno do Curso de Especialização em Didática do Ensino Superior, em 1995 e 1996. Particular.

• Escola Elias Bargis Mathias, no Araretama, em Pindamonhangaba. Professor de Ensino Fundamental em 1999. Municipal

• Escola Gilda Piorini Molica, no Campo Alegre, em Pindamonhangaba. Professor de Ensino Fundamental de 2000 a 2002. Municipal.

• Escola André Franco Montoro, no Crispim, em Pindamonhangaba. Professor de Ensino Fundamental, 2003 e 2004. Municipal.

• Na data da publicação deste livro o autor está afastado do exercício de seu cargo efetivo de professor da rede municipal de ensino fundamental de Pindamonhangaba, por exercer em comissão o cargo de diretor do Departamento de Cultura (2005 a 2008) e do Departamento de Patrimônio Histórico (desde 2009) da Prefeitura Municipal de Pindamonhangaba. Pelo mesmo motivo, está licenciado da OAB/SP – Registro nº 183.623.

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Só do labor geral me glorifico:
Por ser da minha terra é que sou nobre,
Por ser da minha gente é que sou rico!
(Olavo Bilac)