O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Atualização - Dicionário da Roça


(continuação da postagem do dia 03/fev/2013)

De primeiro (quer dizer: no tempo antigo), principalmente na roça, se usavam palavras e expressões que não se usam mais. Vamos prosseguir relembrando o seu significado, observando que algumas delas são solenemente ignoradas pelos dicionários:
·                     AH É, BÉ? MAMÁ NA VACA OCÊ NÃO QUÉ? Expressão que se usa em resposta a alguém que está pedindo ou exigindo grande favorecimento sem precisar se esforçar. Não confundir com a expressão “AH, VAI MAMÁ NO BOI!” Esta significa apenas “Não me amole, não fique me aborrecendo, vai fazer alguma coisa, vai ver se estou na esquina!”.
·                    AZEITE! Com o sentido de “Azar!”, é uma interjeição malcriada para indicar menosprezo diante de uma advertência ou repreensão. Ex: O adulto diz para o rapaz levar a capa porque vem chuva forte. De mau humor, o rapaz responde “Ah! Azeite!”. Quer dizer que não está ligando a mínima para a tal chuva. Esta expressão precisa ser acompanhada de um levantar de ombros executado rapidamente uma ou duas vezes. Também se pode usar a fórmula mais completa “AZEITE, CAFÉ COM LEITE!”
·                    BOCÓ. Pessoa boba, lerda, sem iniciativa, fácil de tapear. Para indicar que o grau de bobice é ainda maior, pode-se usar o superlativo BOCÓ DE ARGOLA.
·                    BONDE. Ônibus. Ex: “O bonde do Seu Ciro já foi, agora tem que pegar o Marrom lá no Portão”.
·                    BROTO. Mocinha, moça nova, menina-moça, namorada.
·                    CASINHA. Banheiro fora de casa, no quintal. Ex: “Dá licença que tenho que correr lá na casinha!”
·                    CHISPA! Interjeição: Sai daqui! Sai fora! Geralmente se fala: “CHISPA DAQUI”.
·                    COISA! ou COISINHA!. Vocativo que se usa quando não se sabe ou não se lembra do nome da pessoa. Ex: “Ô... Coisinha! Me empresta o caderno?”
·                    COISAR. Verbo que substitui qualquer outro verbo do idioma, quando a gente não se lembra da palavra certa ou está com preguiça de pensar. Ex: “Precisa coisá a antena, a TV não ta pegando direito”.
·                    DADA. Pessoa sem timidez, que se relaciona bem com os outros, não se avexa de conversar com as pessoas, principalmente com os adultos. Ex: “Gostei do seu amigo, meu filho, ele é um rapaz dado”.
·                    DADINHO DADÃO, QUEM TOMA É LADRÃO. Significa que aquilo que foi ganho por doação não pode ser tomado de volta pelo doador.
·                    DE MEIA-TIGELA.  Falso, sem o valor que diz possuir. Qualquer profissional despreparado. Ex: “É um doutor de meia-tigela.” Uma variante com o mesmo significado: DE MEIA-PATACA.
·                    DEVASSADO. Ambiente muito aberto, sem privacidade. Ex: “Fecha a cortina, passa gente na rua, não gosto da casa devassada desse jeito.”
·                    DISGRAMADO. Substituía a palavra “desgraçado”, que era proibida porque lembrava as maldições bíblicas. Mas tinha o mesmo significado. Do mesmo modo, em vez de xingar “Você é um desgracento!”, dizia-se: “Você é um  DISGRAMENTO!“.
·                    ECO! Interjeição de admiração. Mas pode ser usada também para mostrar satisfação diante do castigo que sofreu quem fez alguma coisa errada: ECO! BEM FEITO!
·                    ENTROXADO. Cheio de alguma coisa, farto. Ex: “Foi na loja e saiu entroxada de compra”.
·                    ENTRÓXE! Expressão muito malcriada que se usa quando se é obrigado a entregar para outra pessoa algum objeto que ela reclama como seu. Outra expressão, mais branda, usada nas mesmas ocasiões é ENGULA!
·                    ESPECULA. Pessoa que fica perguntando muito, principalmente sobre assuntos que não lhe dizem respeito. Ex: “Olha, nós vamos na casa da sua tia, mas não fica especulando aquela história do filho dela, que ela não gosta de falar daquilo”.
·                    EU HEM, ROSA? Indica resposta firmemente negativa: “Nessa eu não caio!”. Há variantes da expressão, mas com o mesmo significado, como por ex: “EU HEM, BOI?” Outra variante: “HOME NÃO!”. Esta última variante apresenta também uma forma mais extensa: “HOME NÃO, MUIÉ DE MONTÃO!”
·                    FIO DA PULÍCIA. Algumas famílias proibiam a expressão “fio da puta”, por isto se usava o “fio da pulícia” com a mesma intenção. Variante: “FIO DE UMA BOA MÃE!”
·                    FOI NA ROÇA PERDEU A CARROÇA. Significa que quem se ausenta perde a vez, perde o lugar, perde o direito que tinha etc.
·                    INVOCADO.  Pessoa que leva tudo a mal, quer brigar por qualquer coisa, facilmente julga que está sendo prejudicada ou que a estão provocando. Ex: “Não vamos ficar junto com esse cara na festa não. Ele invoca por qualquer coisinha, queima a cara da gente.”
·                    JACU. Pessoa muito caipira, sem vivência das coisas da cidade e que, por isto mesmo, erra muito no trato com as pessoas. Pessoa envergonhada, tímida. Se o grau de caipirice é muito grande, pode-se empregar uma expressão mais forte: JACU DO MATO. Um sinônimo de JACU é MOCORONGO. A pessoa que consegue somar as qualidades do MOCORONGO com as do BOCÓ seria um BOCOMOCO.
·                    LAMBETA. Pessoa que se intromete nos assuntos dos outros, ou pessoa mexilhona, que mexe no que não é seu. XERETA tem mais ou menos o mesmo sentido.
·                    LAMBISGOIA. Mulher magrela. Ou então, pessoa intrometida. Mulher sem-vergonha, mais ou menos o mesmo que SIRIGAITA.
·                    MAGRELA. Bicicleta.
·                    MARDIÇUENTO. A palavra “amaldiçoado” não podia ser falada, era proibida. Da mesma forma, a palavra “maldito”. Usar essas palavras era pecado grave, por isto se usava o “mardiçuento”, com o mesmo sentido daquelas. Uma variante: “MARDELO!” Outra variante: "MARDISGÜELO"
·                    METADE DA MISSA. Alguma parte de uma informação. Usa-se na expressão depreciativa: “Fica quieto que você não sabe da missa a metade”. Significa que a pessoa está dando palpite sobre um assunto que não conhece direito, ou sobre um acontecimento do qual ela só teve conhecimento parcial.
·                    NÃO SEI, NÃO QUERO SABER E TENHO RAIVA DE QUEM SABE! É uma resposta malcriada, para encerrar a conversa diante de perguntas muito insistentes ou desagradáveis.
·                    NEM NÃO! Significa Sim! Claro! Sem dúvida! Ex: – Você vai no carnaval da Tuia? – Nem não! Já to lá!
·                    OBRA. Significava fezes, troço. OBRAR era o mesmo que defecar. Ex: “Ainda não sarou a diarreia não. O bebê ainda ta obrando  mole”.
·                    PÃO. Expressão que as mocinhas usavam para se referir a um rapaz muito bonito.
·                    PASSAR UM TELEGRAMA. Ir ao banheiro, para fazer as necessidades, principalmente defecar. Hoje em dia se diz: “Tenho que fazer o número dois.”
·                    PRESTIMOSA. Mulher prendada, caprichosa nos serviços domésticos.
·                    PUXO. Dor de barriga muito forte, geralmente acompanhada de diarreia. Ex: “Deu uma dor de barriga de puxo nele, que o coitado quase que virou no avesso!”
·                    SOU BOBO, MAS SOU FELIZ, MAIS BOBO QUEM ME DIZ. Quando não se encontra argumentos para se defender de algum insulto, usa-se esta fórmula. Na mesma situação, se o ofendido não conseguir pensar em nada mais inteligente para falar diante do insulto, pode usar a forma simplificada: AH É, AH É? EU QUE SOU BOBO, NÉ? SEI.
·                    TARZÃ DE PÉ DE COUVE. Pessoa que se diz forte ou valente, mas na verdade não é nada disso; pelo contrário, é pessoa fraca ou covarde.
·                    TIRAR A CALÇA E PISAR EM CIMA. Resposta malcriada diante da revolta da pessoa que se sente prejudicada. Significa mais ou menos “Dane-se!” A expressão completa é esta: “Não gostô? Tira a carça e pisa em cima!”
·                    VAI ELE! Interjeição de admiração e, às vezes, de algum descrédito diante de uma informação espantosa. Ex: “–  Mãe, caiu um calipero atrás da escola!  – Vai ele, fio!”
·                    ZONGO. Pessoa meio lerda, desligada, aparentando certo grau de bobeira. Pessoa que não se manifesta, não participa direito das atividades dos colegas. Sinônimo: ZONGUERA. Sinônimo aproximado: BABUJA.
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Este dicionário está (e estará sempre) em fase de ampliação.
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Pequeno Dicionário da Roça Antiga




De primeiro (quer dizer: no tempo antigo), principalmente na roça, se usavam expressões que não se usam mais. Vamos relembrar o significado de algumas dessas expressões, observando que algumas delas são solenemente ignoradas pelos dicionários:

·           ALÁ! ou AH LÁ! (Interjeição)= Olha lá! Veja aquilo! “Alá, a molecada chegou!”
·           APANHAR = Levar uma surra. Ex: “Você vai apanhar do seu pai quando ele chegar, que eu vou contar tudo para ele.”
·           APINHOCADO ou IMPINHOCADO = Lotado, muito cheio de pessoas ou de coisas, que ficam apertadas umas nas outras: “Nossa, na missa do Doutor Cícero tava impinhocado de gente!”
·           ARREMEDAR = Imitar alguém só para irritá-lo, repetir todos os gestos ou todas as falas de alguém, geralmente usando voz de deboche. É uma das mais graves provocações entre as crianças na escola, motivo suficiente para “esperar lá fora”.
·           AVANÇAR EM = Atacar alguém: “Fulano avançou em Beltrano”. É muito usado para falar de ataques de animais: “O cachorro da Dona Marina avançou no moleque”.
·           BICHA ASSUSTADA = Mal estar quer acomete quem levou um susto muito grande. O remédio mais recomendado nesse caso é um copo d’água com açúcar.
·           BICHA DESCONFIADA = Doença de tristeza definhante que acomete a pessoa, geralmente criança, que ficou com vontade de comer algum doce que negaram para ela ou que comeram na frente dela sem oferecer.
·           BRUACA = Mulher maldosa ou muito feia, ou que usa de artimanhas para obter o que deseja.
·           BUCHO VIRADO = Causa da morte de pessoa que comeu muito e em seguida foi ler um livro, ou foi nadar, ou olhou no espelho, ou foi praticar algum esporte ou exercício violento.
·           BULIR = Provocar alguém ou algum animal. Ex: “Não vai bulir com o cachorro que ele taca o dente em você.” Ou: “Filho, não tão bulindo com você na escola?”
·           CACHOLA = Cabeça, mente, inteligência, imaginação: “Coitado, a cachola dele não ajuda”.
·           CALIPEIRO = Eucaliptal, bosque de eucaliptos.
·           CAMBOTE = Cambalhota: “Alá! O Ângelo ta virando cambote!”.  Atenção, outro sentido: CAIR DE PONTA-CAMBOTE = Cair de ponta-cabeça: “O neném chegou na beira da cama e caiu de ponta-cambote!”.
·           CAMPEAR = Procurar: “Tem que campeá a galinha carijó, que faz três dias que não aparece!”
·           CARACAXÁ = Chocalho, brinquedinho infantil para fazer barulho. Era de lata toda furadinha, com algumas bolinhas dentro.
·           CARTEAR = Provocar, desafiar, chamar para briga ou topar a briga: “Eu falei mesmo isso, por quê? Vai carteá?”.
·           CHIBANTE = Chique, bem arrumado, elegante. Ex: “Nossa, ela chegou no clube toda chibante!”.
·           CHOCAR = Ficar parado muito tempo contra a vontade, esperando alguma coisa que demora para acontecer. Ex: “Ué, nóis ficamo aqui chocando à toa, esperando a bendita da bola. Não era ocê que ia trazer?”
·           COCO = Cabeça. Ex: “O moleque caiu e bateu o coco na parede”.
·           DAR EM = Surrar alguém. Ex: “Mãe, eu vou dar nele, ele fica arremedando a gente!”
·           DE ASSIM = Nesta posição (indicando a posição com um gesto): “Pai, não põe a cama perto da janela não, põe ela de assim!”.
·           DE PRIMEIRO = Antigamente: “De primeiro vocês me respeitavam, agora que virei um caco-véio vocês não me obedecem mais”.
·           DESACORÇOADO (nos dicionários, desacoroçoado) = Desesperado, desanimado: “Já dei tanto conselho pra esse menino, não adianta, já estou ficando desacorçoado!”
·           DESBRUGAR = Esfarelar. Ex: “Bolo de fubá tem que pôr trigo na massa, senão fica desbrugando”.
·           DESMILINGUIR = Definhar, diminuir. Dizia-se de criança ou adolescente que, em vez de crescer, ia ficando mirradinho.
·           EMBATUMAR = Dizia-se do bolo que não cresceu no forno, ficando a massa pesada e crua por dentro, mesmo que a crosta tenha assado bem.
·           EMPALAMADO = Pessoa parada, molenga, sem energia. Outro sentido, para cabelo: Pesado, grudento. Ex: “Essa brilhantina deixa o cabelo meio empalamado”.
·           EMPANTURRAR = Comer até dizer chega, encher o bucho até passar mal.
·           EMPETECAR = Enfeitar alguma coisa ou a si próprio em exagero. Ex: “Não precisava se empetecar desse jeito para ir na missa. Nem é missa de casamento.”
·           ENCASQUETAR = Cismar, meter na cabeça uma ideia. Ex: “Agora ela encasquetou que tem que mudar de emprego”.
·           ENDRUMISTA = Intrometido, metido.
·           ENGRUVINHADO = Enrugado, do jeito que ficam mãos depois de um banho prolongado (no sábado).
·           ESPANDONGAR = Desmanchar, bagunçar. Geralmente se referia ao cabelo. Ex: “Nossa, vai sair assim, com o cabelo todo espandongado? Nada disso, vai já passar uma escova nesse grenho!”
·           ENREDAR = Dedurar, delatar, contar para a mãe da gente o que a gente fez de errado.
·           ESCANGALHADO = Arrebentado, estragado, fora de combate. O mesmo que ESBODEGADO.
·           ESGANADO = Comilão, morto de fome, fominha.
·           ESPELOTEADO = Sem juízo, afobado, descontrolado.
·           ESTOURADO = Pavio curto, pessoa que perde as estribeiras à toa.
·           ESTROVAR = Atrapalhar. Ex: “Menino, sai da frente, não fica estrovando!”.
·           FUSQUINHA = Careta de desdém, expressão fisionômica de desprezo, consistente em torcer o nariz: “Aquela hora que você passou na Pedra teve gente que fez fusquinha por detrás.”
·           GAFEIRA = Sujeira corporal. Ex: “Você não me vai deitar na cama com essa gafeira nos pés!”.
·           GAITADA = Gargalhada, risada alta e prolongada.
·           GAMAR = Apaixonar-se. Ex: “As meninas são gamadas no Roberto Carlos”.
·           GARRA-AGARRA = Brincar de lutar agarrando o adversário. O mesmo que ALOITAR. Ex: “Vamo parar com esse negócio de garra-agarra, não quero saber de criança aloitando”.
·           GRANFINO = Pessoa rica, elegante, de costumes requintados.
·           GÚTI-GÚTI = Engolir um líquido sem interrupção para comer. As crianças tomavam o café de gúti-gúti e saíam para o quintal comendo o pão. Os adultos iam dando uma mordidinha no pão e tomando um golinho de café, até o fim.
·           INDEZ = Ovo de gesso ou mesmo um ovo de verdade que se deixa no ninho para convencer a galinha a botar ovos naquele lugar.
·           INTANHA = Sapo-boi, boca grande. “Para com esse choro, menina, parece uma intanha!”.
·           ISCAR = Mandar o cachorro atacar alguém. Ex: “Tão iscano o cachorro na gente.”
·           LAPINHA = A gruta do presépio, onde se colocava Jesus, Maria e José e o Boi e o Burro.
·           LENHEIRO = Lugar onde se pode lenhar, isto é, recolher lenha ou cavacos para o fogo.
·           MAIAR (MALHAR) = Jogar pedras ou outros objetos em alguém. Ex: “Eles maiaro pedra na gente”. Outro sentido: Chover forte. Ex: “Vai maiá chuva hoje de tarde!”
·           MALACAFENTO = Pessoa suja, sem higiene, com roupas sujas e rasgadas. Nesse último caso, o mesmo que MULAMBENTO.
·           MARACUJÁ-DE-GAVETA = Pessoa com a cara muito enrugada.
·           NERES = De jeito nenhum! Sem chance! Negativo!
·           NÓ NAS TRIPAS = Congestão intestinal provocada por certos alimentos, como goiaba ou banana verde.
·           PASSAR BEIJANDO = Tirar uma fina, passar muito pertinho, quase esbarrando. Ex: “A bola passou beijando a trave”.
·           PASSAR NOS PEITOS = Desvirginar, deflorar. Ex: “O rapaz passou ela nos peitos e se mandou”.
·           PATA-CHOCA = Pessoa desajeitada, molenga. Não confundir com GALINHA-CHOCA, que é a pessoa que fica se mexendo muito, não tem parada.
·           PENSÃO = Preocupação por causa de alguém. Ex: “Tenho que voltar para casa, senão a mãe fica com pensão”.
·           PINTEIRO = Pequeno cercado feito de paus distanciados uns dos outros uns dez centímetros, que permite a passagem dos pintinhos, mas impede a passagem de frangos crescidos e galinhas. Tem que ser fechado em cima também. Dentro se coloca a comida dos pintinhos, seja quirera ou ração. Também pode ser usado para prender a galinha mãe dos pintinhos, sendo que estes poderão circular livremente ali por perto.
·           POLEIRO = Armação de paus semelhando uma escada de três ou quatro travessas amarradas com arame ou cipó, para as galinhas dormirem. As galinhas sobem nesse poleiro obedecendo a uma hierarquia, sendo que a galinha dominante ocupa a travessa superior, junto com o galo e alguma outra galinha amiga dela. Os frangos e as galinhas inferiores não podem subir até lá em cima, sob pena de receberem duras bicadas. Observação: Pato e marreco não sobem em poleiro, dormem no chão.
·           QUARAR = Alvejar as roupas brancas colocando-as ao sol do quintal, depois de bem ensaboadas, estendidas sobre o QUARADOR, que é uma estrutura feita de varas ou de tela, erguida sobre quatro pernas, É preciso de vez em quando vir molhar essas roupas com um regador, para que não ressequem. Antes de ensaboá-las, é bom ferver as roupas com folhas de mamoeiro.
·           QUE TANTO = Interjeição que demonstra irritação com a insistência de alguma pessoa. Ex: “Mas que tanto você fica andando de um lado para o outro. Vê se para quieto um pouco, menino!”
·           RABISTECO = Bunda, nádegas, poupança. A palavra é usada em expressões de irritação. Ex: “Vê se sossega o rabisteco na cadeira, para de ficar zanzando pela sala!”
·           RATEAR = Falhar. Usa-se geralmente para se falar de carro velho ou com motor desregulado.
·           REINAR = Fazer muita bagunça (a criança) ou brincar com objetos delicados ou preciosos. Ex: “Para de reinar nesse negócio, vai acabar escangalhando!”
·           REIVA = Raiva. REIVENTO = Pessoa que guarda raiva, odiento.
·           RIDICO = Pão-duro, avarento.
·           SACARIA = Oficina de conserto de sacos de estopa, dotada de máquinas especiais de costura.
·           SERIADO = Filme de caubói, mistério, Tarzan, detetive etc., dividido em capítulos, chamados episódios, geralmente doze. O seriado era exibido logo após as sessões de cinema do sábado e do domingo. Cada episódio terminava com uma PARAGEM, que era uma situação perigosíssima para o mocinho ou a mocinha. O suspense durava uma semana, pois só no episódio seguinte é que a gente ia descobrir como foi que o personagem escapou daquela morte certa.
·           SIRIGAITA = Moça sem vergonha, mostradeira.
·           SIRINGOLA ou SERIGOLA = Argola de arame, cipó ou couro destinada a trancar o portão. Fica presa ao batente e é enganchada no topo do primeiro sarrafo.
·           TACAR = Jogar coisas nos outros. Outro sentido: Fazer coisas de repente. Ex: “Ele tacô um bêjo nela!”.
·           TIJUCO = Lama, barro mole.
·           TACHO = Inferno. Ex: “Gente ruim quando morre vai pro tacho.”
·           TERRA DO PÉ JUNTO = Cemitério.
·           TRAMELA =Pequena peça de madeira que gira em redor de um prego, para fechar uma porta ou um portão.
·           TUBERTO = Ataque cardíaco ou AVC. Ex: “Esse menino ainda vai me dar um tuberto!”
·           TULHA ou TUIA = Grande galpão de alvenaria e telhas para abrigar os produtos da lavoura, acondicionados em sacas, geralmente cereais, batata ou café.
·           TURRÃO = Teimoso. O mesmo que QUEIXO-DURO.
·           VÁ ÀS FAVAS = Vá amolar outro! Vá lamber sabão! Vá à berdamerda!
·           VULADA = Alta velocidade. Ex: “Nossa, o carro passou na vulada!”.
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Este dicionário está em fase de ampliação.
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Um compromisso que não cumpri



Era um compromisso de infância, que ainda não cumpri e ninguém vai aparecer para me cobrar, para questionar. Compromisso com os canudinhos verdes do milho, brotando no chão molhado da chuva da véspera. Compromisso com aquele sol bonito, amarelo, de manhãzinha cedo, quando tudo tem um cheiro gostoso, um cheiro manso de mato, de flor de capim.

Compromisso de levantar cedo e sair para a roça, depois de tomar café. E, antes de chegar na roça, gastar um tempão escutando os passarinhos na paineira, depois olhando, inocente, o jeito que a galinha choca faz pra chamar os pintinhos, e o jeito que os pintinhos correm, e a cara do cachorro, meio contente, que não sabe se é para ficar parado ou se é para ir correndo adiante...

A vida inteira fico sonhando que um dia estou vendo os meus bois no pasto. Enquanto não tenho os bois, nem terra para eles ficarem, fico vendo o quê? Fico vendo o capim crescendo nos lotes vazios e nos quintais largados. Reparo que o capim cresce depressa.

Mas não dá tempo de mudar a vida e arranjar os bois. Então, alguém vem e corta o capim, ou limpa de vez o lote e constrói um prédio naquele chão que tinha sido verde. E não deu tempo de eu arranjar os bois, nem a terra, nem tempo para sonhar isso direito.

Mas não faz mal. Num cantinho da cabeça, ou do coração, os meus boizinhos estão ficando muito gordos e lindos e eu estou encostado na cerca de um curral que não existe e estou feliz, reparando no jeito que eles vão pastando.

Faz muito tempo que eu saí da roça. Mas sempre penso que um dia vou limpar um pedaço de chão, afofar a terra e ficar esperando as chuvas de setembro para plantar milho – e lanço também umas sementes de feijão-fava, que vai crescer enroscado no pé de milho.

Faz muitos anos que todo ano o meu coração começa a bater diferente quando o frio vai acabando e começa a esquentar. Nesses anos todos, me dá uma espécie de ansiedade quando escuto as primeiras trovoadas. Mas as chuvas vêm e passam e não plantei o milho. Então, fico olhando pelo vitrô o cimento da calçada e as paredes sujas do outro lado da rua.

Meu Deus, quanto milho que já brotou, cresceu, secou – e eu não vi. E as árvores que a gente não plantou, se a gente tivesse plantado, elas haviam de estar altas, fortes... Ah! E a vida passa! Se um dia a gente plantar uma árvore, acho que não vai dar tempo de ver crescer. E as águas que choveram nesses anos todos, elas iam dar para encher o açude que eu não fiz.

As águas já escorreram, foi tudo embora.

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes