O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O operário em construção - de VINICIUS DE MORAES





Este poema dirige a minha vida. Impressionou-me desde o primeiro contato, em 1969. Só comecei a declamá-lo em público em 1986. Já repeti a ousadia mais de cem vezes, em lugares diferentes, ocasiões diferentes, para públicos diferentes.
E com resultados diferentes.
Fiquei plenamente integrado a este poema. Quando o declamo, estou querendo convencer as pessoas das verdades expostas por Vinicius. 
Este poema não permite que eu me amedronte, nem que eu me venda.
Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
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O Operário Em Construção
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido.
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Quem serve para ser professor?




O Jofre foi meu aluno no quarto ano do magistério. Um desses alunos que passam ao professor uma tranquila segurança com relação ao futuro da profissão. Era o único homem na classe. Um homem grandão, um negro forte, de fala sossegada. Através das histórias que me contou, provavelmente eu aprendi mais com ele do que ele comigo.
Jofre era seminarista. Pretendia mais do que ser sacerdote, queria ser sacerdote e professor. Acumulara uma série de experiências raras na estrada da educação. Tinha coordenado trabalhos comunitários em favelas, aproveitando muito bem as oportunidades de conhecer de perto o povo de Deus. Agora, quando se preparava para ser dirigente espiritual, ao mesmo tempo queria ser educador desse povo.
O que podíamos nós, professores do magistério, fazer por ele?
Primeiro, devíamos nos sentir honrados em tê-lo como aluno. Depois, devíamos desenvolver-lhe as habilidades pedagógicas, habilitando-o a nos suceder na missão de ensinar.
Ele tinha dificuldades, sim. Ao colocar suas ideias no papel não conseguia fazê-lo com a mesma desenvoltura com que as colocava numa conversa. Durante o ano todo foi essa a nossa prioridade no trabalho com ele: auxiliá-lo, indicando-lhe meios de burilar a sua expressão escrita.
Pois chegou o final do ano letivo e, surpresa: o Jofre estava retido em Psicologia. As colegas dele não se conformavam, eu não me conformei... Mas calma, vai haver o conselho de classe, claro que essa decisão vai ser revogada...
Reunião do conselho, um tanto de boa vontade, outro tanto de guerrinha de vaidades...  Os casos vão sendo analisados, nota vermelha, excesso de faltas, essa dá para passar, essa é boa, essa uma avacalhou... E assim foi indo. Chegou a vez do Jofre. Os professores concordavam que ele tinha muito potencial, mas tinha suas dificuldades de expressão. Ué, mas o professor de Português, o que diz? Disse: o João superou suas dificuldades, passou comigo. E então? A professora de Psicologia, inflexível: Comigo, não dá para passar.
Defendi o Jofre. Será um excelente professor. É de pessoas como ele que o magistério precisa, pessoas com toda a vivência social que ele tem... Mas afinal, professora, qual a deficiência dele na sua matéria?
E as provas foram exibidas: olha aqui, essa prova do último bimestre, eu perguntei aqui e ele não soube responder o que é mancinismo.
Terrível alguém não saber o que é isso? Eu disse: Eu também não sei. E isto não me prejudicou até hoje... Então tenho que ser mandado embora desta escola, não posso mais dar aula... Pois se o Jofre vai ser impedido de receber o diploma por causa disso.
E foi impedido mesmo. O conselho não quis prosseguir a polêmica, a maioria foi pelo parecer da professora da matéria: se ela acha que não dá para receber o diploma, então não dá. E não deu... Foi mais uma vitória para a já famosa inflexibilidade da professora.
Aconteceu a cerimônia de diplomação. O quarto magistério... As moças muito bem arrumadinhas, uma festa, e o Jofre não estava... Dias depois, encontrei-o na igreja. Que pena, professor, fiquei triste sim, mas não faz mal. Desisti do magistério, agora estou indo para Lorena, já passei no vestibular, vou fazer Teologia, me ordenar padre.
Então foi assim: O Jofre servia para ser padre, mas no entender da professora de Psicologia, e de vários colegas do conselho, não servia para ser professor primário. Pois desconhecia o que é mancinismo. Hoje talvez ele tenha aprendido o significado da palavra, mas se não souber, também não lhe deve fazer falta nenhuma.
Continuo acreditando que o magistério só teria a ganhar com a participação dele como professor.

*
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Extraído do livro “Aconteceu na Escola”, do autor.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Uma aluna em dificuldades



Senhor, fazei-me instrumento de Vossa paz!
Oração de São Francisco


Estava uma manhã muito bonita, era primavera. Depois do recreio, os alunos muito quietinhos faziam as lições. O gado do Seu Irineu, lá longe, de vez em quando mugia. Parede e meia com a escola, a casa da Dona Rosinha era quase silêncio completo: uma ou outra panela que batia, chinelos pelo corredor de tijolo, o rádio ligado num programa evangélico... Aí a Eva chegou até a minha mesa e falou baixinho: “Professor, a Joana fez cocô na saia, posso levar ela lá em casa pra ela se lavar? Eu peço pra vó emprestar uma roupa minha pra ela.”
A avó da Eva era justamente a vizinha, a Dona Rosinha. E para lá foram as duas. Eu peguei o pano de chão, molhei, pinguei um pinho-sol e limpei a carteira e o chão. Os aluninhos nas suas lições. A Maria Lúcia que falou: “Coitada da Joana, né Professor?”
Demora um pouco, voltam as meninas. A Eva com um sorrisão tranquilo, tinha feito um ato bom. A Joana meio envergonhada, mas feliz na roupa limpa emprestada pela Dona Rosinha, e cheirosa do banho tomado. Depois, fim de aula, até amanhã, não esqueçam a tarefa etc., as crianças vão embora conversando em grupinhos, mas quase todas juntas, a estrada era uma só para todos, até a encruzilhada do Cepinho. Ali se dividiam, porque o pessoal da Fazenda Santana tinha que seguir reto mais uns quilômetros.
E eu reparei: “Veja só, que sossego, todos conversando bem amigos, ninguém debochando de ninguém, a Joana recebeu só manifestações de atenção, de coitadinha... Se fosse na cidade? Se fosse noutro lugar? Como que a gente faz para levar este clima para outros lugares?”
A estrada era a Estrada do Pagador Andrade, que levava a outras fazendas, à represa, e a mais sossego. Hoje essa estrada leva para uma imensa fábrica de cerveja e a loteamentos novos. O lugar é o mesmo, o tempo passou, muito. O sossego deve ter acabado. Eu, depois desse dia, já trabalhei em muitos lugares, já confirmei que aquilo só podia ter acontecido ali, naquele tempo, com aquelas crianças, naquelas manhãs de primavera.
Mas dentro do meu coração eu continuei acreditando que é preciso caminhar naquela direção, que não posso perder de vista aquele momento, que a minha missão é reconstruir a utopia que eu vivenciei numa pobre sala de aula do Bairro do Rio Abaixo, em Jacareí.
E hoje eu sei que fraternidade é o nome daquela utopia. 

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Autor: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

Extraído do livro “Aconteceu na Escola”

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Entre o carro de boi e o avião a jato



O Vale do Paraíba tem o avião e o carro de boi. No meio dos dois, uma imensa população que, geração a geração, vai se aproximando cada vez mais do avião e do shopping, deixando esmaecidos na lembrança o carro de boi e o fogão de lenha. Tinha que ser assim. Nossa cultura é condicionada pelo espaço e pelo tempo.
Limitados pelas serras e orientados pelo rio, desenvolvemos nossos costumes influenciados pelas viagens entre a capital da província e a capital do império. De uma e de outra chegaram até nós as notícias políticas e os costumes refinados. Pelas estradas que uniam as minas com o litoral desceram até aqui a cozinha e a desconfiança mineiras e subiram o artesanato indígena e as técnicas construtivas do caiçara.
O tempo era de religião, que configurou nossas festas, nossas irmandades, nossos escritos, nossa música, nossa arquitetura. Mas o tempo transcorre. Aos poucos, a religiosidade foi se tornando apenas um pano de fundo para ocasiões de encontro entre as populações urbanas e do campo. Hoje, a população do Vale do Paraíba se indaga sobre sua própria cultura e vai percebendo que precisa produzi-la de novo, que não podemos viver do que já produzimos nesses séculos, pois o antigo e tradicional vai sendo terraplanado pelos poderosos meios de comunicação e já temos vergonha de forçar os “rr” como bons caipiras que fomos.
Entre o carro de boi e o avião, já não queremos pintar telas representando um casebre bucólico, porque sabemos que ele é lindo para quem contempla o quadro, mas é horrível de ser habitado. Não queremos de modelo as lavadeiras da beira do rio, pois, enquanto nosso olhar se deleita com os coloridos reflexos da roupa branca sobre o capim verde, nosso coração sabe que não é justo pessoas trabalharem daquele jeito. Mas também não queremos pintar nossas ruas atuais, com sua confusão de fios elétricos e telefônicos se emaranhando nos postes.
Entre as duas maiores cidades do país, queremos a sofisticação da arte e da cultura, mas atravessados pelas influências mineiras e litorâneas, também queremos a simplicidade. Na organização do carnaval, ora tentamos, com resultados chinfrins, imitar os desfiles das grandes escolas de samba, ora nos voltamos para a singeleza dos bonecões.
Estamos ainda procurando o objeto do nosso gosto cultural.
Às vezes queremos o passado com seus costumes, deixando de considerar que tudo em volta se modificou e a festa antiga fica flutuando no meio da modernidade, sem alicerces. Alguns de nós vamos percebendo que talvez seja mais significativo preservar a lembrança do evento do que forçarmos a sua realização de novo.
Telefonou-me a representante de uma empresa de produção artística, oferecendo para o departamento de Cultura seus serviços de decoração de ruas para a procissão de Corpus Christi. Espantei-me. Mas, de fato, não havia com que me espantar. O que eu queria? Que renascesse a procissão de outras eras? Que o povo continuasse atapetando as ruas do centro com flores, folhas, desenhos coloridos de pó de café e casca de arroz? Que as janelas ainda fossem adornadas com toalhas, almofadas, tapeçarias? Quem iria fazer isto? Se já não mora ninguém no centro, é cada vez menor o número de fiéis que acompanham a procissão e é cada vez maior a proporção de não católicos na cidade... E as folhas de manga iriam ser colhidas onde? As residências não têm mais quintais. Então, precisa mesmo que a prefeitura ajude, pelo menos mandando caiar no piso da avenida alguns desenhos referentes à data. E contratando a banda de música para acompanhar o préstito. Tudo com muito cuidado contábil, por causa do artigo dezenove da Constituição. E os músicos já não aceitam tocar seus instrumentos movidos apenas pela fé, principalmente agora que mais da metade da banda é constituída de evangélicos.
Para que mesmo iríamos enfeitar as ruas? Para atrair turistas, fingindo que a cidade mantém suas tradições religiosas? Sendo que nossos moradores, aproveitando os feriados, foram praticar turismo em outros municípios... Deveríamos então contar – como antigamente – com o afluxo de roceiros que viriam espiar o movimento? Sem esperança! Mais fácil os moradores da cidade, nesses dias, irem passear na roça, visitando os pesqueiros e lanchonetes de lá.
Na Semana Santa, nas festas de santos, nas cavalgadas de São Benedito, nas Folias de Reis... De todos os eventos culturais que já foram majestosos restam hoje festas divertidas sim, mas quase que estritamente comerciais. Ou esportivas, caso das cavalgadas. Poucos se lembram do santo, interessam as barracas em volta da santidade esquecida.
No entanto, ainda vivem, nas estreitas ruas da periferia, alguns velhinhos que sabem as rezas, que entoam as músicas que nunca foram escritas, velhinhos que ainda têm o poder de encantar os netos com o seu conhecimento e seu gingado. Velhinhas que sabem as receitas, que têm os modelos e moldes. Esses guardiões deverão ter suas memórias registradas.
Reunido com alguns interessados nos movimentos culturais, ouvi um relato triste e uma proposta assustadora. Os artesãos não estavam comparecendo às feirinhas de artesanato, porque vendiam muito pouco, as pessoas preferiam comprar, ali por perto mesmo, produtos chineses, bem baratinhos. Ora, para que eles voltassem à praça, embelezando-a com suas barraquinhas cheias de bordados, bonecos, almofadinhas e panos de prato, seria bom que a prefeitura começasse a pagar-lhes um cachê todo final de semana. Argumentei que isto não era possível e também machucava a lógica de mercado e os princípios da administração pública. Mas aquilo ficou me preocupando. Se não há mais compradores para artesanato, vale forçar a permanência de uma feira? Para manter uma tradição? Mas não há caminho para refazer o passado. Compravam-se tais produtos antigamente não por beleza e adorno, mas por necessidade e uso no dia a dia. Muita da matéria prima do artesanato daqueles tempos era extraída das matas, do leito dos rios, das praias. Isto hoje poderia tipificar um crime.
Assim, alguns eventos culturais vão se transformando em réplicas de si mesmos, em pobres imitações de grandiosos acontecimentos do passado. Mas que podem valer como registro, como auxiliar da memória coletiva, para que as atuais gerações sejam informadas de que este Vale já foi habitado, nos duríssimos tempos do desconforto e da simplicidade, por um povo unido, ético, piedoso e criativo.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Imagem: pt.m.wikipedia.org



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Minhas árvores clandestinas



Diretor de escola, por mais de vinte anos plantei muitas árvores. Mas então eu me aposentei e fui ser professor em outras escolas, nem sempre encontrando apoio para minha ideia de acolher as árvores, para que elas possam mais tarde nos acolher. Aconteceu assim numa escola municipal no Araretama. Três grandes blocos de salas, separadas por áreas de terra dura, exposta ao sol. As crianças, durante o recreio, não tinham outra sombra que não fosse a do galpão, que regurgitava de gente. Propus à administração: Vamos plantar umas árvores. E ouvi: Não, árvore não dá certo! Derruba folha, entope a calha, fica uma sujeira danada.
Comecei a expor as vantagens das árvores, seus benefícios para a humanidade... E já fui intimamente concluindo que estava falando bobagem: ter que explicar para educadores a importância das árvores, ainda mais numa escola que vivia organizando festa do verde, festa da ecologia... Ora, pensei, já sabemos tudo sobre isto, falta só colocar em prática. Afinal, estamos em Pindamonhangaba, a terra natal do Doutor João Pedro Cardoso, o iniciador da festa das árvores!
Nessa época, eu morava na Santa Luzia. Diante de casa tinha uma árvore muito viçosa, era uma pata-de-vaca, ou unha-de-vaca, a Bauhinia forficata. Tinha florido, toda rosa, depois derrubou a folhagem e agora estava carregada de sementes maduras. Anamaria me contou que a vizinhança estava tramando contra a pobre árvore, justo por causa da folhagem caduca, que todo dia obrigava a varrição das calçadas. Então, elaborei o plano de guardar as sementes, para que um dia elas pudessem germinar em outro lugar, de modo que novas árvores viessem a crescer, substituindo a árvore-mãe, que provavelmente seria cortada quando nos mudássemos.

Por belíssima coincidência, a coordenação da escola convocou um esforço coletivo para a semana do meio ambiente. Toda classe devia fazer um canteiro de flores diante de sua sala de aula. As crianças começaram a trazer saquinhos com esterco. Plantamos as flores, diariamente as crianças regavam, com garrafinhas, com regador, com a mangueira... E as flores começaram a brotar.
Então, as sementes secretas viajaram de minha casa até a gaveta da mesa na minha sala de aula. E um dia, disfarçadamente, como quem examina os canteiros à cata de ervas daninhas, enfiei uma a uma as sementes na terra molhada, debaixo dos pequenos pés de flor. Isto, em todos os canteiros, não só no canteiro da minha classe. No meio das margaridas, das begônias, dos cravos, debaixo de dois centímetros de terra fofa e úmida, bem quietinhas, as sementes começaram a querer viver e foram estufando as suas casquinhas...
Quando apontaram as suas primeiras folhas, tão minúsculas e verdinhas, ninguém estranhou, ninguém quis arrancar, todos pensavam que era só um pé de flor a mais. Depois de grandinhas, não puderam mais ser arrancadas, cortadas, afinal a pregação sobre meio ambiente tinha criado raiz, igual às arvorezinhas, os alunos não permitiriam. Os alunos do ano seguinte também não, e assim por diante. Alguns anos depois, visitei a escola para dar uma palestra sobre poesia para os alunos da terceira e da quarta séries. As árvores estavam enormes, os troncos fortes, a galharia ultrapassando a beira do telhado. Crianças estavam lanchando na sombra das minhas árvores clandestinas.
E a pobre árvore-mãe, como Anamaria tinha previsto, foi cortada logo depois que nos mudamos da Santa Luzia. Passamos por lá, a calçada agora fica sempre limpinha, não tem mais nada para incomodar as pessoas.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Na obra: ACONTECEU NA ESCOLA
Edição do autor – Pindamonhangaba
224 páginas; 21 cm
ISBN 978-85-913453-0-4
1. Educação. 2. Docentes. 3. Formação de Docentes
Contato com o autor: paulotarcizio@gmail.com

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Contra a demagogia na escola

Entrevista: Nuno Crato
 Revista Veja - 03/06/2013
Contra a demagogia na escola


Um dos grandes divulgadores da ciência, o ministro da Educação de Portugal diz que uma turma entusiasta do politicamente correto está deixando de lado o conteúdo e o mérito

O matemático Nuno Crato, 61 anos, notabilizou-se por divulgar e traduzir para o cotidiano os grandes teoremas e equações — trabalho que o fez merecedor do cobiçado European Science Award, em 2008. Há dois anos como ministro da Educação e da Ciência em Portugal, ele comanda hoje uma radical reforma no ensino que se baseia em metas, avaliações e mérito. Mesmo antes, Crato já era figura conhecida e muito discutida por seus colegas da educação. É do ministro o livro O "Eduquês" em Discurso Direto: uma  Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista — em que disseminou o termo "eduquês” para se referir à linguagem empolada e vazia adotada por uma ala de educadores. Lisboeta que adora o Brasil, Crato falou a VEJA em uma de suas visitas ao país.

  • 0 senhor provocou debate acirrado entre educadores do mundo todo ao afirmar que a escola moderna é vítima do “eduquês”. Por que o assunto causou tanto barulho?

Minha crítica bate de frente com uma linha muito celebrada nas escolas de hoje. É uma corrente que dá ênfase excessiva às atitudes e à formação cívica do aluno e deixa em segundo plano o conhecimento propriamente dito. Pergunto: como investir em formação cívica se o estudante não consegue nem ler o jornal ? Vejo vários educadores por aí se perdendo em uma linguagem hermética, dúbia e demagógica — que é o mais puro “eduquês" — para falar sobre seus objetivos difusos para a sala de aula. Essa turma não só resgata como radicaliza teorias do passado para combater práticas na educação que já tiveram sua eficiência amplamente atestada pela ciência. Alguns me acusam de ser insensível ao dizer tais coisas, mas sou um entusiasta do saber científico e desprezá-lo, a meu ver, só prejudica o ensino.


  • Quais boas práticas exatamente essa ala de educadores rejeita?


Muitos batem na tecla de que prova faz mal. Acham  que ela submete o aluno a um alto grau de stress, sem necessidade. Vão aí na contramão do que afirmam os grandes pesquisadores. Eles já sabem que, ao ser questionada e posta a refletir sobre um conteúdo, a criança consegue absorvê-lo melhor, avançando no conhecimento. Também a disciplina é um ponto em que a condescendência e a leitura enviesada de velhas teorias ofuscam a razão. Esse grupo de educadores admite que o aluno pode ser no máximo incentivado a respeitar a ordem na sala de aula, mas nunca, sob nenhuma hipótese, ele deve ser forçado a fazer isso. Nesse caso, não é preciso de muita ciência para saber que o resultado final será muita bagunça e pouco aprendizado.

  • No Brasil, mais da metade das escolas se define como construtivista. Isso é bom ou ruim?

Antes de tudo, é bom esclarecer que, embora muita gente não saiba, o construtivismo de hoje é uma interpretação livre da teoria sobre o aprendizado lançada pelo psicólogo Jean Piaget há um século. Para mim, sua vertente mais radical é um equívoco pedagógico completo. Ela se baseia na ideia de que o professor não passa de um mero "facilitador" do aprendizado — esse um termo muito em voga na linha politicamente correta. Soa bonito, mas é prejudicial ao ensino por derrubar pilares fundamentais.

  • Quais são esses pilares?

Um mestre tem o dever de transmitir a seus alunos os conteúdos nos quais se graduou. E, sim, precisa ter objetivos bem claros e definidos sobre o que vai ensinar. É ingênuo achar que o estudante vai descobrir tudo por si mesmo e ao seu ritmo, quando julgar interessante. Quem de bom-senso tem dúvida de que, se a criança puder esperar a hora que bem lhe apetecer para mergulhar num assunto, talvez isso nunca aconteça?

  • A neurociência vem mapeando os caminhos que a informação percorre no cérebro de uma criança até ser assimilada. As escolas já começaram a fazer uso desse conhecimento?

Infelizmente, a grande maioria passa ao largo dessas descobertas. E isso as mantém congeladas no tempo, aferradas a pensamentos anacrônicos. A neurociência descobriu que é possível acelerar, e muito, o aprendizado de uma criança à base de incentivos permanentes. Isso tromba de frente com os principais postulados de Piaget. Ele acreditava que o processo de retenção de conhecimentos se dava por etapas muito bem definidas, divididas segundo as faixas etárias. Muitas escolas ainda se fiam nisso e perdem grandes oportunidades de fazer seus alunos dispararem. Outro problema comum é a demonização da decoreba por essas correntes que se autoproclamam modernas. A memorização não é descartável como querem fazer parecer.

  • Em que medida a memorização pode ser útil?

Embora o construtivismo ingênuo pregue que a memorização prejudica a compreensão, os cientistas afirmam o contrário — que ela é essencial ao aprendizado. Isso porque tem o papel de automatizar certos raciocínios, ajudando justamente a fazer pensar melhor sobre questões mais relevantes e complexas. Numa operação básica de soma ou de subtração, por exemplo, a criança não precisa a cada nova conta parar para refletir sobre por que passa o número 1 para cá ou para lá. Seria um desperdício de energia valiosa, que pode ser bem despendida nos desafios que verdadeiramente interessam.

  • Afinal, o que deve ser memorizado por uma criança?

É importante decorar a tabuada, o nome e a localização de certos rios e cidades e as datas mais importantes no curso da história, ainda que elas não sejam precisas. Não há como o estudante não saber, no mínimo, que a Independência do Brasil aconteceu no século XIX ou que Aristóteles viveu antes de César. Se ele se recusa a ter esses marcos básicos na cabeça  acha que pode sempre associar os fatos para chegar a uma resposta, está perdido. A experiência deixa claro que uma pessoa passa a fazer conexões cognitivas de muito mais qualidade e valor quando já detém um bom repertório de conhecimentos elementares. Não é preciso relacioná-los com o universo todo o tempo inteiro.

  • Um pensamento muito em voga nas escolas modernas é o de que a criança só aprende de verdade aquilo de que ela realmente gosta. O senhor concorda?

Esse é um pensamento limitado. Veja o caso da leitura. Muitos educadores acham que para ler bem a criança precisa, antes de qualquer coisa, ser despertada para o gosto pela literatura. Só assim ela lerá muito e ganhará fluência, dizem. A neurociência lança uma luz interessante sobre essa questão, colocando-a exatamente ao avesso. Ela mostra que ter fluência na decodificação dos grafemas é crucial para ler bem. Em resumo: tem de se ler muito, mesmo sem gostar. O treino precisa ser permanente, exaustivo. Quanto mais automática se tomar a leitura, mais chances ela terá de ser prazerosa.

  • O senhor se notabilizou pela divulgação da matemática, a mais temida e odiada de todas as disciplinas escolares. Que caminhos sugere para tomá-la mais atraente?

A fórmula que eu defendo não tem nada de mirabolante. A maior pane dos estudantes repudia a matemática porque não consegue ultrapassar os obstáculos que ela vai colocando pelo caminho. Eles não entendem bem os conceitos, mas, ainda assim, o professor faz com que avancem na matéria. Assim, deficiências elementares acabam ficando para trás. É uma bola de neve. Numa disciplina como história, mesmo sem ter assimilado toda a narrativa sobre a colonização no Brasil, o aluno pode se embrenhar pelo capítulo da Revolução Industrial na Inglaterra. Mas na matemática não é possível progredir sobre uma base frágil e cheia de lacunas. Nessa área, o conhecimento é cumulativo — um depende do outro. Sem dominar a aritmética, não dá para passar à trigonometria. Se isso acontecer, e acontece muito, o estudo vai se tomar improdutivo e frustrante.

  • O que falta então para um bom ensino da matemática?

Organização do conteúdo por parte dos professores e muito treino do lado dos alunos. O ensino deve ser progressivo, sem pular etapas e sempre reforçando o mais básico. Se for preciso, que se volte ao início. As sociedades hoje frequentemente não valorizam o conhecimento rigoroso, aquele que exige método, empenho e exercício para ser bem sedimentado. Acham que as crianças vão acabar aprendendo matemática por osmose. Mas elas não aprendem. As avaliações costumam ser impiedosas ao escancarar as deficiências. Na maioria das disciplinas, o aluno pode chegar à resposta certa por aproximação, mas na matemática é diferente. Não canso de repetir que também os pais têm um papel importante  aí. No lugar de enfatizar a aversão aos números, eles devem, isto sim, reforçar a ideia de que a matemática é essencial para o crescimento de qualquer pessoa em qualquer área. Também podem falar aos filhos sobre a importância do esforço e do treino mental. Enfim, devem ajudar a consolidar em casa o valor e o hábito do estudo.

  • Currículos muito detalhados costumam suscitar resistências por parte de educadores que se dizem tolhidos em sua liberdade de ensinar. O senhor concorda?

Sempre aparece uma turma  para empunhar a bandeira da liberdade do aluno, dizendo que ele deve aprender sem as amarras de um currículo. Esse pessoal sustenta ainda que os currículos são um limitador da aula porque podam as asas do professor. Felizmente, em Portugal, são  uma minoria. É verdade que, as vezes, o diálogo fica duro com os sindicatos. Reconheço seu papel de brigar por melhorias para sua própria classe, mas nem sempre eles têm colocado as questões fundamentais e inadiáveis do ensino à frente das outras que pouco interessam à sociedade.

  • Que resultados a implantação da política de reconhecer e premiar as melhores escolas tem alcançado em seu país?

As boas escolas recebem mão de obra extra de qualidade para que ajudem a consolidar o ensino de alto nível. Essas escolas conseguem assim dar reforço a alunos com mais dificuldade e apoiar os que estão  prontos para evoluir em um patamar mais avançado. Sim, os alunos são  diferentes entre si e por isso mesmo devem ser tratados de forma diferenciada. A utopia do igualitarismo, essa que muitos na educação defendem, só seria possível num único e não  desejável cenário  — aquele  em que todos são medíocres. Esse é ainda um tabu. Dizer que uma criança precisa de um apoio especial não significa que ela será excluída. Num outro espectro, os ótimos alunos também não devem ser escondidos, mas, sim, radicalmente incentivados a seguirem frente. É um fundamento básico da meritocracia, de eficiência provada no setor privado.

  • Que princípios empresariais uma escola poderia adotar?

Toda escola pública deveria poder escolher quem contrata e quem demite, com base no mérito. É o que planejo para os próximos anos em Portugal. Visto como um todo, o modelo de gestão da educação do século XXI ainda faz lembrar muito o velho sistema soviético, em que um comitê central concentra todas as decisões. As escolas públicas precisam de mais autonomia para atrair os melhores cérebros e avançar mais rapidamente.

  • A falta de dinheiro é sempre citada como um fator que impede a melhoria do ensino. O senhor concorda?

Acho que nossos desafios dependem menos de dinheiro e mais de objetivos claros, ambiciosos e de organização. Para avançarmos,  precisamos formar  mais e mais engenheiros, médicos e cientistas. As crianças devem ser despertadas desde cedo para o interesse por essas áreas. Não será à base do velho e empolado "eduquês" que conseguiremos dar o grande salto.

  • Portugal ocupa apenas o 27° lugar entre os 65 países do ranking mundial de ensino da OCDE Qual é a estratégia para melhorar?

As escolas portuguesas  sempre se basearam em recomendações pedagógicas mais gerais e amplas do que propriamente em objetivos claros e organizados. Estou mexendo justamente ai, ao sistematizar metas de aprendizado ano a ano, matéria a matéria, no detalhe. Ter metas para a sala de aula é crucial para orientar não só os professores como também os próprios pais. Sim, porque, bem informados sobre os objetivos da escola, eles podem ir lá cobrar se um determinado  conteúdo foi mal dado ou ficou para trás.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Tabebuia (ipê)



Quem me obrigou à pesada burca verde
no verão chuvoso? Quem, no outono farfalhante,
mandou que eu me vestisse de sépia?

Quem, severo, me prescreveu no inverno
o piedoso retiro com seus silêncios mortos?

Agora: não quero mais saber.

Agora: primavera! passarinhos! música no vento!
Agora: seiva nova quente corre dentro de meus vasos lenhosos
e os meus botões intumescidos, de repente, um a um,
desatam lenços amarelos pela árvore toda!
A minha nudez se enfeita de pétalas claras
contra o céu azul! E venha o vento!

Que o vento erga minhas luminosas flores desavergonhadas!
Que o vento morno mande meu meigo aroma de fêmea madura
aos quilômetros em derredor!

As minhas últimas folhas pudicas joguei fora. Nua inteira,
vigorosa e quente, sem uma folha:
sou só flores!

Sou só flores, estou pronta:
Vem, Vida! Vem nos grãos sagrados do pólen!
Ah! Eu me abro! eu abro todas as minhas flores e destilo
tonta todo o néctar doce, meu muco, meu mel,
meu licor: o meu amor!

Eu me exponho, eu exagero no escândalo
dos amarelos! Eu chamo! Eu chamo todos!
Eu chamo tudo! Venham! Venham lambuzar-se em mim
as velozes abelhas, e as mamangavas bravas, as ferozes vespas:
Tudo lhes dou em troca dos santos grãos de pólen
que me trazem, pervertidas!

A todas acalmo com minha secreção perfumada,
a todas amanso como as mais dóceis jatis, miúdas
abelhinhas sem ferrão – para estas reservo
o meu carinho mais humilde...

Venham os insetos todos,
todos me lambam, venham borboletas, besouros!
Venham os beija-flores, sátiros alados, pequenos faunos
incansáveis: que me derreto! Venham as coloridas
saíras delicadas, famintas, gentis!

Venham as noturnas mariposas, de ousadas trombas,
e venham os escuros morcegos impiedosos! Me comam
as cheirosas pétalas, usem minhas flores, abusem
até da intimidade de todos os meus ovários! Escancaro,
em festa febril, sépalas, estames, pistilos,
anteras, filetes: vibro nas fibras das flores
de todos os meus ramos frágeis!

Se me dão o pólen, lambam-me! Longamente,
línguas lépidas, lúbricas, lisas, lambam-me os lábios
das pétalas lânguidas, numa confusa música zonza, num
vozerio vivaz, num zunzum...

De manhã, o solo em torno é um tapete amarelo: milhares
de minhas flores sucumbiram, exaustas,
e vagarosamente vão levadas pelas formiguinhas minúsculas....

Venham... Mas tem que ser logo! Logo não vou
querer mais, vou dispensar, me recolher,
me despojar de tanto amarelo,
vou me vestir de verde...

Quando minhas raízes beberem da bênção das primeiras chuvas,
vou estar sossegada, cuidando
da minha multidão de sementes grávidas.

*          *          *

Poema de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Poema vencedor do X CONCURSO ESTADUAL DE POESIA DA OAB SP - 2015
Tabebuia é o nome científico do ipê.
Foto: descomplicando.com

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Atualização - Dicionário da Roça


(continuação da postagem do dia 03/fev/2013)

De primeiro (quer dizer: no tempo antigo), principalmente na roça, se usavam palavras e expressões que não se usam mais. Vamos prosseguir relembrando o seu significado, observando que algumas delas são solenemente ignoradas pelos dicionários:
·                     AH É, BÉ? MAMÁ NA VACA OCÊ NÃO QUÉ? Expressão que se usa em resposta a alguém que está pedindo ou exigindo grande favorecimento sem precisar se esforçar. Não confundir com a expressão “AH, VAI MAMÁ NO BOI!” Esta significa apenas “Não me amole, não fique me aborrecendo, vai fazer alguma coisa, vai ver se estou na esquina!”.
·                    AZEITE! Com o sentido de “Azar!”, é uma interjeição malcriada para indicar menosprezo diante de uma advertência ou repreensão. Ex: O adulto diz para o rapaz levar a capa porque vem chuva forte. De mau humor, o rapaz responde “Ah! Azeite!”. Quer dizer que não está ligando a mínima para a tal chuva. Esta expressão precisa ser acompanhada de um levantar de ombros executado rapidamente uma ou duas vezes. Também se pode usar a fórmula mais completa “AZEITE, CAFÉ COM LEITE!”
·                    BOCÓ. Pessoa boba, lerda, sem iniciativa, fácil de tapear. Para indicar que o grau de bobice é ainda maior, pode-se usar o superlativo BOCÓ DE ARGOLA.
·                    BONDE. Ônibus. Ex: “O bonde do Seu Ciro já foi, agora tem que pegar o Marrom lá no Portão”.
·                    BROTO. Mocinha, moça nova, menina-moça, namorada.
·                    CASINHA. Banheiro fora de casa, no quintal. Ex: “Dá licença que tenho que correr lá na casinha!”
·                    CHISPA! Interjeição: Sai daqui! Sai fora! Geralmente se fala: “CHISPA DAQUI”.
·                    COISA! ou COISINHA!. Vocativo que se usa quando não se sabe ou não se lembra do nome da pessoa. Ex: “Ô... Coisinha! Me empresta o caderno?”
·                    COISAR. Verbo que substitui qualquer outro verbo do idioma, quando a gente não se lembra da palavra certa ou está com preguiça de pensar. Ex: “Precisa coisá a antena, a TV não ta pegando direito”.
·                    DADA. Pessoa sem timidez, que se relaciona bem com os outros, não se avexa de conversar com as pessoas, principalmente com os adultos. Ex: “Gostei do seu amigo, meu filho, ele é um rapaz dado”.
·                    DADINHO DADÃO, QUEM TOMA É LADRÃO. Significa que aquilo que foi ganho por doação não pode ser tomado de volta pelo doador.
·                    DE MEIA-TIGELA.  Falso, sem o valor que diz possuir. Qualquer profissional despreparado. Ex: “É um doutor de meia-tigela.” Uma variante com o mesmo significado: DE MEIA-PATACA.
·                    DEVASSADO. Ambiente muito aberto, sem privacidade. Ex: “Fecha a cortina, passa gente na rua, não gosto da casa devassada desse jeito.”
·                    DISGRAMADO. Substituía a palavra “desgraçado”, que era proibida porque lembrava as maldições bíblicas. Mas tinha o mesmo significado. Do mesmo modo, em vez de xingar “Você é um desgracento!”, dizia-se: “Você é um  DISGRAMENTO!“.
·                    ECO! Interjeição de admiração. Mas pode ser usada também para mostrar satisfação diante do castigo que sofreu quem fez alguma coisa errada: ECO! BEM FEITO!
·                    ENTROXADO. Cheio de alguma coisa, farto. Ex: “Foi na loja e saiu entroxada de compra”.
·                    ENTRÓXE! Expressão muito malcriada que se usa quando se é obrigado a entregar para outra pessoa algum objeto que ela reclama como seu. Outra expressão, mais branda, usada nas mesmas ocasiões é ENGULA!
·                    ESPECULA. Pessoa que fica perguntando muito, principalmente sobre assuntos que não lhe dizem respeito. Ex: “Olha, nós vamos na casa da sua tia, mas não fica especulando aquela história do filho dela, que ela não gosta de falar daquilo”.
·                    EU HEM, ROSA? Indica resposta firmemente negativa: “Nessa eu não caio!”. Há variantes da expressão, mas com o mesmo significado, como por ex: “EU HEM, BOI?” Outra variante: “HOME NÃO!”. Esta última variante apresenta também uma forma mais extensa: “HOME NÃO, MUIÉ DE MONTÃO!”
·                    FIO DA PULÍCIA. Algumas famílias proibiam a expressão “fio da puta”, por isto se usava o “fio da pulícia” com a mesma intenção. Variante: “FIO DE UMA BOA MÃE!”
·                    FOI NA ROÇA PERDEU A CARROÇA. Significa que quem se ausenta perde a vez, perde o lugar, perde o direito que tinha etc.
·                    INVOCADO.  Pessoa que leva tudo a mal, quer brigar por qualquer coisa, facilmente julga que está sendo prejudicada ou que a estão provocando. Ex: “Não vamos ficar junto com esse cara na festa não. Ele invoca por qualquer coisinha, queima a cara da gente.”
·                    JACU. Pessoa muito caipira, sem vivência das coisas da cidade e que, por isto mesmo, erra muito no trato com as pessoas. Pessoa envergonhada, tímida. Se o grau de caipirice é muito grande, pode-se empregar uma expressão mais forte: JACU DO MATO. Um sinônimo de JACU é MOCORONGO. A pessoa que consegue somar as qualidades do MOCORONGO com as do BOCÓ seria um BOCOMOCO.
·                    LAMBETA. Pessoa que se intromete nos assuntos dos outros, ou pessoa mexilhona, que mexe no que não é seu. XERETA tem mais ou menos o mesmo sentido.
·                    LAMBISGOIA. Mulher magrela. Ou então, pessoa intrometida. Mulher sem-vergonha, mais ou menos o mesmo que SIRIGAITA.
·                    MAGRELA. Bicicleta.
·                    MARDIÇUENTO. A palavra “amaldiçoado” não podia ser falada, era proibida. Da mesma forma, a palavra “maldito”. Usar essas palavras era pecado grave, por isto se usava o “mardiçuento”, com o mesmo sentido daquelas. Uma variante: “MARDELO!” Outra variante: "MARDISGÜELO"
·                    METADE DA MISSA. Alguma parte de uma informação. Usa-se na expressão depreciativa: “Fica quieto que você não sabe da missa a metade”. Significa que a pessoa está dando palpite sobre um assunto que não conhece direito, ou sobre um acontecimento do qual ela só teve conhecimento parcial.
·                    NÃO SEI, NÃO QUERO SABER E TENHO RAIVA DE QUEM SABE! É uma resposta malcriada, para encerrar a conversa diante de perguntas muito insistentes ou desagradáveis.
·                    NEM NÃO! Significa Sim! Claro! Sem dúvida! Ex: – Você vai no carnaval da Tuia? – Nem não! Já to lá!
·                    OBRA. Significava fezes, troço. OBRAR era o mesmo que defecar. Ex: “Ainda não sarou a diarreia não. O bebê ainda ta obrando  mole”.
·                    PÃO. Expressão que as mocinhas usavam para se referir a um rapaz muito bonito.
·                    PASSAR UM TELEGRAMA. Ir ao banheiro, para fazer as necessidades, principalmente defecar. Hoje em dia se diz: “Tenho que fazer o número dois.”
·                    PRESTIMOSA. Mulher prendada, caprichosa nos serviços domésticos.
·                    PUXO. Dor de barriga muito forte, geralmente acompanhada de diarreia. Ex: “Deu uma dor de barriga de puxo nele, que o coitado quase que virou no avesso!”
·                    SOU BOBO, MAS SOU FELIZ, MAIS BOBO QUEM ME DIZ. Quando não se encontra argumentos para se defender de algum insulto, usa-se esta fórmula. Na mesma situação, se o ofendido não conseguir pensar em nada mais inteligente para falar diante do insulto, pode usar a forma simplificada: AH É, AH É? EU QUE SOU BOBO, NÉ? SEI.
·                    TARZÃ DE PÉ DE COUVE. Pessoa que se diz forte ou valente, mas na verdade não é nada disso; pelo contrário, é pessoa fraca ou covarde.
·                    TIRAR A CALÇA E PISAR EM CIMA. Resposta malcriada diante da revolta da pessoa que se sente prejudicada. Significa mais ou menos “Dane-se!” A expressão completa é esta: “Não gostô? Tira a carça e pisa em cima!”
·                    VAI ELE! Interjeição de admiração e, às vezes, de algum descrédito diante de uma informação espantosa. Ex: “–  Mãe, caiu um calipero atrás da escola!  – Vai ele, fio!”
·                    ZONGO. Pessoa meio lerda, desligada, aparentando certo grau de bobeira. Pessoa que não se manifesta, não participa direito das atividades dos colegas. Sinônimo: ZONGUERA. Sinônimo aproximado: BABUJA.
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Este dicionário está (e estará sempre) em fase de ampliação.
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes