O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Como escrever cartas


“Quero aprender a ler e a escrever”, disse uma analfabeta do Recife, “para deixar de ser sombra dos outros.”
Paulo Freire

– Professor, por que que não tá tendo leite?
Nem tinha acabado de trancar a bicicleta, mas já percebi que a minha Quarta Série “A” estava agitada.  O Lincoln e o Ricardo me questionavam: – O que está acontecendo? Já faz uma semana que não tem leite com bolacha na entrada!
Fui saber com as merendeiras. Era verdade mesmo. E mais: a supervisora da merenda já tinha avisado que não tinha mesmo, paciência, o Departamento ainda ia fazer a compra.
Mas não dá para recomendar paciência para crianças que desejam uma coisa tão simples, tão básica: beber leite quando estão com fome. A gente não faz isto com os próprios filhos, não dá para fazer com os alunos. Lembrando que muitas crianças chegam com fome verdadeira na escola. Muitos saem de casa sem tomar café. Não são todas as crianças do mundo que têm a graça divina de uma mesa carinhosamente posta pela Mamãe, com leite, café, chocolate, bolo, danone, fruta...
Os meus meninos e as minhas meninas estavam olhando para mim com os olhos compridos. Providências tinham que ser tomadas. Propus uma carta. A proposta pegou de pronto: É mesmo, professor, vamos escrever, mas para quem que nós vamos escrever?
O debate durou só um pouco, logo a classe decidiu que a carta deveria ser para o Prefeito. Gostei da decisão, própria de gente amadurecida. Aliás, sempre fazíamos na sala de aula discussões sobre administração do município, vereadores, sociedades amigos de bairro, direitos do cidadão, deveres dos governantes, coisas assim: cidadania.
Carta para o Prefeito. Muito bem, vamos fazer o rascunho em duplas. Terminado o rascunho, tragam para eu ver se a carta tem os elementos essenciais: local, data, destinatário, mensagem, saudação, assinatura.
A classe adorava trabalhar em duplas, mas nem todas as duplas apresentavam resultados rápidos. Algumas ainda se perdiam em brincadeiras. Lá veio a primeira dupla com um rascunho que começava assim: “Olha aqui, Prefeito, se você não mandar leite para nós, a gente vai chamar a SWAT para prender você...”
Esse rascunho eu nem quis acabar de ler. Venham pegar de volta essa coisa, estamos tratando de assunto sério. E entreguei o papel, segurando-o pela beiradinha, como quem segura com nojo a ponta da cauda de um rato morto.
No final, as cartas saíram boas, cheias de conteúdo, razões e emoções, tudo de maneira ordenada, letra bonita, parágrafos bem distribuídos. Alguns alunos aproveitaram e incluíram outros pedidos além do leite: livros infantis, alambrado no campinho, uma bola...
Prontas as cartas, e agora? Vamos levá-las ao Prefeito.
Pelas ruas de nossa cidade, lá vamos nós, eu com as minhas crianças. (Um dia o Clarel cruzou comigo numa dessas saídas e depois falou que eu estava parecendo a Dona Pata com seus patinhos. Ainda pego o Clarel de jeito.)
A nossa alegre comitiva parou na cidade para tirar xerox das cartas, porque as crianças iam entregá-las para o Prefeito, mas queriam guardar uma cópia na pasta. Entreguei ao Emerson as moedas, encarreguei-o de fazer o pagamento – ele, que tinha tido tanta dificuldade inicial com matemática – e foi interessante observar a sua seriedade em contar centavo por centavo para acertar com a balconista.
Toca para a Prefeitura. Meu antigo professor Moacir, agora guindado ao posto de Chefe de Gabinete, recebeu a minha turminha. Óbvio que implicou com os bonés e os piercings, mas recebeu de bom grado as cartinhas, ficou de entregá-las ao Prefeito, conversou com as crianças, melhor dizendo: fez a sua preleção sobre escola, estudo, educação, postura... E voltamos para a nossa Escola do Campo Alegre, satisfeitos com a nossa atitude.
De tarde, fui para a reunião semanal no Departamento. Cristo! Parecia um velório, todo mundo falando baixo, colegas me evitando, olhando para o outro lado. Então a Coordenadora veio me contar, muito constrangida: a Secretária estava uma arara comigo. O Prefeito tinha encaminhado o pacotinho de cartas para ela tomar providências. Uma coisa tão simples, cartinhas de crianças pedindo leite, virou uma pedrada numa caixa de vespas. Prosseguiu a Coordenadora, visivelmente chateada: a Secretária falou que aquilo era mais uma graça do Professor Paulo...
Coitada da Coordenadora, tive que pedir a ela para levar a resposta para a Secretária: Não, não era nenhuma gracinha do Professor Paulo. Se fosse para fazer graça, teria recomendado às crianças que endereçassem a correspondência para a TV Vanguarda, ou a Band Vale, ou a TV Setorial, ou à Folha de São Paulo... Mas as cartas foram dirigidas exatamente para quem de direito. Faltou merenda? Vamos escrever para quem? Para o Papa? Não, para o Prefeito mesmo.
Ora! No meu plano de trabalho daquele bimestre um dos temas era Carta. E no meu plano de vida de educador um tema constante é Cidadania. Então, estava tudo certo, eu não estava ensinando nada errado para minhas crianças.
No dia seguinte, cedinho, frio de rachar. Mas no balcão da cozinha o caldeirão de chocolate quente soltava fumacinha.  Meus alunos, muito metidos, chamavam as crianças que vinham entrando: Ó, tem leite! Pode vir que tem leite com bolacha!
O Ricardo conseguia fazer assim: a mão esquerda segurava a caneca de chocolate, a mão direita segurava umas três bolachas e ainda sobrava um dedo, o indicador, para apontar para um interlocutorzinho da terceira série. Com a boca cheia, ainda dava para falar assim: – Olha, vocês estão aí bebendo leite, mas é porque nós que fomos reclamar na Prefeitura!
A Secretária, junto com o leite e as bolachas, mandou para a escola (claro que era para o Professor Paulo) um bilhete explicando que a entrega da merenda não tinha nada a ver com as cartinhas da véspera, porque a merenda já estava comprada.
Junto com o bilhete veio uma apostila ensinando a escrever cartas.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, escrito em 2002.
Do livro ACONTECEU NA ESCOLA
Registro 344.938 - Fundação Biblioteca Nacional

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

DESIDERATA


Siga placidamente entre o ruído e a pressa, e lembre-se de quanta paz pode haver no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em bons termos com todas as pessoas.
Fale a sua verdade, mansa e claramente. E ouça aos outros, mesmo aos tolos e ignorantes: eles também têm a sua história.
Evite as pessoas ruidosas e agressivas: elas são vexantes para o espírito.
Se você se comparar com outros você pode se tornar superficial e amargo, pois sempre haverá pessoas maiores e menores que você.
Encha-se de prazer tanto com as suas realizações quanto com seus planos.
Mantenha interesse na sua carreira: mesmo que humilde, é um patrimônio real na mutável sorte dos tempos.
Seja cauteloso nos seus negócios, pois o mundo está cheio de armadilhas. Mas não deixe que isto o impeça de perceber o quanto de virtude existe.
Muitas pessoas lutam por ideais elevados, e em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo. Sobretudo, não simule afeição e nem seja cínico sobre o amor, pois, no meio de tanta aridez e desencantamento, ele é perene como a relva.
Aceite, de bom coração, o conselho dos anos, graciosamente deixando as coisas da juventude.
Cultive a força do espírito para se proteger nas surpresas da sorte adversa.
Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.
Ao lado de uma sadia disciplina, seja gentil para consigo mesmo.
Você é filho do universo, não menos que as estrelas e as árvores: Você tem o direito de estar aqui.
E, mesmo que isto não seja claro para você, o universo vai cumprindo o seu destino.
Por isto, esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba.
E, quaisquer que sejam os seu trabalhos e as suas aspirações, na barulhenta confusão da vida, mantenha-se em paz com a sua alma.
Com toda sua falsidade, tédio e sonhos partidos, o mundo ainda é bonito.
Seja cuidadoso.
Lute para ser feliz.

***

DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração.
Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore, datado de 1692.
Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard.
O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927.
Hoje em dia pertence à © Robert L. Bell.

* * *
Tradução de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Publico este texto no meu blog como um presente para todos os leitores.
Recebi de presente este texto, em 1992, do meu amigo Juracy Trindade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ensinando indignação às crianças


 
Toda terça cantamos os hinos diante das bandeiras e falamos sobre o dever de cada cidadão para com a coletividade. Daí, vamos para a sala de aula e começamos a enxugar as poças d’água formadas pela chuva que goteja do telhado ou escorre pela parede. No mês passado, uma pequena luz vermelha começou a piscar dentro de mim, indicando que nesse capítulo de cidadania estava acontecendo alguma encrenca.
Comentei com as crianças: “Será que na sala do prefeito também tem goteira? Será que na sala da Secretária de Educação também forma poça desse jeito? Será que é justo isto que está acontecendo com a gente?”
Seguiu-se uma discussão demorada. As crianças de dez anos percebem as coisas, mas nem sempre sabem se podem falar a respeito. Encorajadas, argumentam bem e vão se exercitando nessa arte de pensar, ponderar, falar, repensar.
Decidimos registrar suas manifestações de indignação. Reunidas em duplas, escreveram o que pensavam sobre o assunto. Ocultei os nomes, para proteger as crianças. Sabe-se lá, nesse clima de coronelismo vingativo, os pais podem sofrer pelo que seus filhos falam. O resultado foram as redações abaixo, algumas mais lógicas, outras mais confusas. Mas todas muito sinceras.
Bom, eu poderia ter aproveitado para ensinar paciência e conformismo? Podia dizer-lhes que chove porque Deus quer. Que nossa sala de aula fica molhada enquanto que as salas dos ricos ficam sequinhas porque o mundo é assim mesmo e temos que aceitar. Podia dizer-lhes que o Prefeito é um ser muito mais importante do que nós, pobres mortais. Podia ter feito essas crianças entenderem que precisa ficar rico para não ter que estudar em salas molhadas.
Mas eu agora estaria com nojo de mim mesmo se tivesse embarcado no joguinho do poder. No joguinho chamado ideologia das classes dominantes.
Ensinar medo e encolhimento para nossos alunos nos transforma em adultos encolhidos e medrosos.
Ensinar coragem e clareza nos transforma em pessoas claras e corajosas.
Tenho que fazer jus aos aluninhos claros e corajosos que tenho. Por isto, é preciso perguntar, em voz clara e inequívoca: E então, Prefeito Vito Ardito? E então, Professora Beth Cursino? E então, Vereadores? É para isto que vocês estão ocupando os seus cargos? A Escola Franco Montoro vai continuar com as salas alagadas a cada chuva? O que devo dizer aos meus alunos sobre isto?
O que devo dizer aos meus alunos sobre a administração de um município?

Texto e fotos do Professor Paulo Tarcizio

*****

A sala de aula (Alunos X e Y)
Sempre quando chove, a sala do 5º ano C fica alagada e um aluno ou o professor tem que pegar o pano.
A Secretaria de Educação devia arrumar as goteiras para o bom estudo do aluno.
Também algumas pessoas correm na sala, se elas escorregarem elas podem se machucar. Isso é injustiça, eles deviam arrumar a sala do 5º ano C.

O que eu acho (Aluno W)
Eu acho isso errado, porque outras salas não têm goteiras e não ficam encharcadas. Quando os alunos vão entrar nas salas, estão todas encharcadas, algumas das carteiras também estão encharcadas. Outras salas mais importantes não têm uma gota d’água.
As salas que não têm goteiras não têm porque são salas mais importantes. As salas menos importantes que têm goteiras as pessoas não arrumam, eu acho isto injusto.

Redação (Aluno X²)
É verdade, só a sala de aula que fica encharcada quando chove e os outros lugares não, na sala da Secretária da Educação não fica encharcada porque é bem cuidada, é uma sala um pouco grande, as janelas sempre são fechadas para não encharcar a sala e impedir de cair goteiras.
A sala do Prefeito ainda é melhor cuidada, é muito grande mas é bem cuidada, não tem goteiras e sempre tomam cuidado para não encharcar a sala do Prefeito.
Nas escolas particulares também não ficam encharcadas, são escolas boas e têm muita proteção para não encharcar as salas e não cai goteiras, mas eu ainda acho que precisamos de algo para não cair goteiras e fazer alguma coisa para melhorar as salas de aula municipais.

Goteiras – Alunas YZ e B³
Quando chove nossa sala fica cheia de goteiras, aí nós temos que colocar baldes e panos no chão.
Nós acreditamos que isso não aconteça nas escolas particulares, nem na Sala do Prefeito e nem na Sala da Secretária da Educação.
Seria melhor se arrumassem essas goteiras pois nós alunos ou até mesmo o professor, podemos escorregar e até quebrar um braço ou coisas parecidas.

Sem título – Aluno “não identificado” (Verdade, ele assinou assim mesmo)
Eu acho isso muito injusto, nosso país tem muitas desigualdades, as escolas municipais são do governo, tinha que ser salas estruturadas muito bem. Alguns colégios tem goteiras porque as salas de algumas autoridades têm que ser melhor? O Prefeito tem uma ótima sala porque a sala dele não tem goteira! Vamos melhorar o país! Vamos ter um país melhor sem desigualdade.

Goteiras – Alunas 5Y e 9X
Eu acho injustiça isso pois quando começa a chover a nossa sala é a que fica mais molhada.
E fica muito feio.
A única solução será arrumar o telhado das salas, porque os lugares como a Sala da Secretária da Educação, nem na sala do Prefeito, nem escolas particulares estão assim com tantas goteiras assim, e eu só peço uma coisa, que arrumem as goteiras da sala de aula.

As minhas opiniões – Aluno HX
Em minha opinião nós devíamos juntar mais garras pet, latinhas etc.
E quando juntarmos muito, arrumaremos os telhados para arrumar as goteiras, tirar os rachados para não acontecer mais nada.
Para ficar que nem a sala da Secretária de Educação, ficar igual a sala do prefeito, igual as Escolas particulares como a Magistra, Colégio Aprendiz no Colégio Construtor etc.
Se fizermos isso nossa Escola ficará melhor.

Sem título – Aluna NN
Chegamos à sala de aula às 7h da manhã, tudo alagado pelas goteiras da sala, o professor fica passando e torcendo o pano de chão toda hora. Nem tem tempo de dar aula pra gente. E por que então na sala da secretária de educação não alaga? Nem na sala do prefeito? E nem nas escolas particulares? E porque então só em algumas escolas da prefeitura tem goteira? O prefeito e a secretaria têm que dar um jeito na nossa escola e em outras escolas da prefeitura. Espero que o prefeito e a secretária arrumem isso.

Sem título – Aluno R¢
Isso não é justo, outras escolas não têm goteira e a escola municipal tem goteira, Devia ter protesto porque não podia ter goteira em nossa escola tem muitas tragedia para enxugar.
Por que a sala da Dona Dilma não tem? Por que a nossa tem? Nem na idade da Pedra tinha goteiras nas caverna, por que não arrumam nossa escola? Quando será que isso vai acontecer?

Vazamento injusto – Aluno W£ e Y@
Toda noite chuvosa nosso teto escorre, assim chegamos de manhã e o nosso chão está encharcado.
Então o nosso professor pega um pano, põe esse pano no chão, sobe em cima do pano e começa a secar e parece que está dançando.
Isso é uma injustiça. Por que as salas das autoridades da cidade não tem vazamento? E a nossa tem?
É uma coisa tão simples arrumar o nosso telhado e assim não teria mais goteira.

domingo, 24 de novembro de 2013

Papai Noel... e o Menino Jesus?



Nossa! Dez a zero para o Papai Noel! Tadinho do Menino Jesus, já teve seus dias de glória. A imagem de Menino Jesus com os bracinhos abertos? Agora, só nas igrejas mesmo. E só nas católicas, porque as igrejas evangélicas não curtem imagens. Mas, nas vitrines das lojas da cidade e dos shopping centers, bem capaz. Só árvores de natal, bolas, sinos, laços, muito vermelho com muito verde, papais noéis... mas Menino Jesus, presépio? Nada!
Rodei Pinda, São José, Taubaté – o comércio nem sabe mais quem foi Menino Jesus. O espírito natalino de agora não tem nada a ver com o nascimento de Jesus. Tem a ver somente com a ansiedade de compras, pacotes, festas, comidas gostosas, confraternizações onde ninguém faz uma oração. Aliás, quem quiser fazer uma oração numa confraternização num restaurante vai compor um tipo extravagante, melhor não...
***
Quando eu era criança, logo que entrava o mês de dezembro, começávamos a brincar de Natal.
Pleno dia, sol claro, fechávamos a janela do quarto: ficava escuro como a noite. Espalhados pelo ambiente, cada um de nós representava um dos animais da lapinha: um era o Boi, outro o Cavalo, alguém era a Ovelha e havia o Galo também.
Então um de nós, fazendo de contrarregra – diríamos hoje: efeitos especiais – começava a abrir e fechar rapidamente, um tantinho só, a janelinha da vidraça, provocando como que ligeiros relâmpagos no quarto escuro. Era o instante do nascimento do Menino Jesus, os relampaguinhos seriam os raios de luz emitidos pelos anjos.
O Galo cantava: Cristo nasceeeeeeu!!!
O Boi mugia grosso: Aoooonde?
A Ovelha berrava: Em Belééééém....
O Galo tornava: Para queeeem???
Ao que a Ovelha explicava: Para o nosso beeeeeemmm!!!
Então cantávamos a Noite Feliz.
***
Papai montava um minucioso presépio, com o Menino Jesus, Nossa Senhora e São José dentro da lapinha, junto com o Boi, o Jumento e as Ovelhas. A lapinha era feita com papel de seda rosa, com uma pequena lâmpada oculta. De noite, com a luz da sala apagada, o resplendor da lapinha iluminava os nossos corações infantis.
Diante da lapinha, uma planície de serragem colorida. Ali ficavam, de costas para nós, os Pastores e os Reis Magos, aproximando-se do Mistério. Sobre a lapinha, como que flutuando com suas boas novas, o Anjo. Acima e por trás da lapinha, montanhas de papelão azul que iam subindo pela parede do canto da sala. Em alguns recantos da montanha, cacos de espelho com as bordas escondidas por orquídeas e parasitas. Caminhos recobertos de areia e margeados por conchinhas, que terminavam de repente no caco de espelho: parecia que o caminho penetrava nas rochas e continuava, continuava...
Pelas encostas e pirambeiras das montanhas, casinhas com janelinhas recortadas, galos, uma onça, um gato, um leão... no meio da planície, num laguinho de vidro rodeado de conchas e parasitas, nadavam pequenos patos de celuloide.
No dia vinte e dois, ao acordar, cada um encontrava, debaixo do travesseiro, um pequenino milagre: três avelãs.
No dia vinte e quatro, à tardezinha, Papai e Mamãe mandavam que a gente colocasse nossos sapatos num banco diante do Presépio. E íamos para o quintal. Na sombra da mangueira todos nos sentávamos e Papai abria a História Sagrada (bíblia não, isto era coisa dos crentes). E Papai lia as encantadoras passagens descrevendo como São José e Nossa Senhora foram obrigados por decreto a se dirigir para Belém. E sofríamos juntos a aflição do casal, a gravidez de Nossa Senhora, as pessoas que negavam pouso, as estalagens lotadas... Mas a história acabava bem, Jesus nascia na lapinha, sobre a palha que alimentava os animais.
Papai fechava a História Sagrada e dizia: Agora vocês podem ir ver se o Menino Jesus trouxe alguma coisa para vocês!
Íamos correndo. E todo ano encontrávamos alguma coisinha. Um saquinho com algumas avelãs e nozes, uva passa, figo... Às vezes, uma garrafinha de guaraná. Castanhas, doces... E era Menino Jesus que tinha trazido. Nunca nenhum de nós reparava que, durante a leitura de Papai, sempre dava uma dor de barriga na Mamãe e ela precisava “ir pra dentro um pouquinho”.
Mas nada de Papai Noel, nada de árvore de natal. Isto não era costume católico. Na nossa casa humilde, naqueles dias de final de um ano e começo de outro, imperavam o Presépio e o Menino Jesus.


Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O operário em construção - de VINICIUS DE MORAES





Este poema dirige a minha vida. Impressionou-me desde o primeiro contato, em 1969. Só comecei a declamá-lo em público em 1986. Já repeti a ousadia mais de cem vezes, em lugares diferentes, ocasiões diferentes, para públicos diferentes.
E com resultados diferentes.
Fiquei plenamente integrado a este poema. Quando o declamo, estou querendo convencer as pessoas das verdades expostas por Vinicius. 
Este poema não permite que eu me amedronte, nem que eu me venda.
Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
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O Operário Em Construção
E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. IV, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido.
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.