O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

quarta-feira, 1 de março de 2017

A órbita do abacate e do chinelo





Numa noite dos começos de 1993, debaixo de um escandaloso céu estrelado, recebi em casa, no quintal,  minha irmã Maria Salete e sua filha Ana Carolina. O assunto rodeou o sistema solar.
Na falta de um quadro de giz – e ainda não tínhamos os computadores – comecei a fazer com elas e com Ana Emília uma viagem interplanetária, dispondo chinelos e abacates pelo chão, para poder demonstrar o que eu ia explicando.
A inteligência aguda de Ana Carolina, e o seu talento com a escrita, fizeram com que, semanas depois, ela expusesse suas conclusões astronômicas através de uma redação escolar. Ela tinha doze anos e estava na sexta série (hoje seria sétimo ano), no Externato.
Há pouco, encontrei o rascunho que ela tinha feito. Mandei para ela e ela me autorizou a publicar o interessante texto neste meu blog.
Interessante também que o texto já começa com um post scriptum, mas tudo bem...
Obrigado, Carol!!! 
Saudade daquelas noites estreladas!

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Ps: Esta história foi tirada de uma explicação que meu tio fez sobre o sistema solar. Ele usava chinelos e abacates para entendermos melhor. Os chinelos são os planetas Mercúrio e Vênus.
 

Nosso sistema solar é formado pelo “abacate central”, dois chinelos que ficam entre o abacate em que vivemos, seu satélite natural, outro abacate e outros chinelos, que vêm depois do nosso abacate.
É muito difícil existir vida no primeiro chinelo, porque fica muito perto do abacate central. O segundo chinelo só pode ser visto de manhã ou tardezinha, perto do astro rei, ou seja, o abacate central.
O nosso satélite, o terceiro abacate, garante-nos as estações do ano. Ele inclina o nosso abacate, onde em um determinado lugar e tempo, uma parte do abacate é mais quente que a outra. A distância entre um chinelo e outro é muito bem calculada, por incrível que pareça. E um detalhe: todos os chinelos têm nomes de deuses da mitologia grega.
Enfim, com a tecnologia, o homem, sem tirar os pés do nosso abacate, descobrirá muitos e muitos chinelos pelo nosso universo.

Ana Carolina Marcondes Dias – 6ª série A – 03/04/1993

sábado, 31 de dezembro de 2016

Três canções de despedida


BALANÇO FINAL

Entretanto, no fim voltarei a estar só.
Esta é uma certeza calma: voltarei
a estar absolutamente só,
apesar de todos, de tudo, de nós.

Não estarei perdendo nem estarei ganhando
coisa alguma com a volta à solidão.
Apenas estarei sendo restituído
ao lugar que me foi destinado.

Não me sentirei roubando
nem me sentirei roubado.
Apenas, como agora, vou me sentir
dono daquilo que me foi reservado.
Nada mais.

Voltarei a estar só, sem mágoa.
Contente e humilde, feliz e calado,
sabendo que mais não me era permitido
ter desejado.
*   *   *

Poema de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Livro “Terra Vegetal” – Reg. Biblioteca Nacional: 133.608




MOMENTO: PRESENTE

Abre os olhos meu irmão
para o momento presente
                        presente
que já se vai meu irmão
que já se foi meu irmão.

Nota o pássaro pousado
ao alcance de tua mão

ele se agita assustado
para voar apressado

ele está muito atrasado
para os ventos que virão

no próximo segundo já terá voado
para além de tua mão

no terceiro abandonado
o teu campo de visão

e por fim terá deixado
só ausência em tua mão.

Vai-se o passado, apressado:

                                   Tudo é pouso improvisado
                                   Para os sonhos que virão.

*   *   *

Poema de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Livro “Terra Vegetal” – Reg. Biblioteca Nacional: 133.608



ESQUECIMENTO

Haverá depois vozes dos outros
e ruídos das coisas
e nossas vozes se perderão.

Passarão pelo caminho
muitos pés em muitos passos
e nossos passos serão esquecidos.

O vento soprará aqui e noutros lugares
levando sons e pó
e não mais levando nossas ideias.

Choverá, como sempre,
a mesma chuva de sempre,
que será alheia a nós, então.

Mesmo a areia molhada da praia
não terá lembrança
de nossa caminhada.

*   *   *
Poema de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Livro “Terra Vegetal” – Reg. Biblioteca Nacional: 133.608