O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Um compromisso que não cumpri



Era um compromisso de infância, que ainda não cumpri e ninguém vai aparecer para me cobrar, para questionar. Compromisso com os canudinhos verdes do milho, brotando no chão molhado da chuva da véspera. Compromisso com aquele sol bonito, amarelo, de manhãzinha cedo, quando tudo tem um cheiro gostoso, um cheiro manso de mato, de flor de capim.

Compromisso de levantar cedo e sair para a roça, depois de tomar café. E, antes de chegar na roça, gastar um tempão escutando os passarinhos na paineira, depois olhando, inocente, o jeito que a galinha choca faz pra chamar os pintinhos, e o jeito que os pintinhos correm, e a cara do cachorro, meio contente, que não sabe se é para ficar parado ou se é para ir correndo adiante...

A vida inteira fico sonhando que um dia estou vendo os meus bois no pasto. Enquanto não tenho os bois, nem terra para eles ficarem, fico vendo o quê? Fico vendo o capim crescendo nos lotes vazios e nos quintais largados. Reparo que o capim cresce depressa.

Mas não dá tempo de mudar a vida e arranjar os bois. Então, alguém vem e corta o capim, ou limpa de vez o lote e constrói um prédio naquele chão que tinha sido verde. E não deu tempo de eu arranjar os bois, nem a terra, nem tempo para sonhar isso direito.

Mas não faz mal. Num cantinho da cabeça, ou do coração, os meus boizinhos estão ficando muito gordos e lindos e eu estou encostado na cerca de um curral que não existe e estou feliz, reparando no jeito que eles vão pastando.

Faz muito tempo que eu saí da roça. Mas sempre penso que um dia vou limpar um pedaço de chão, afofar a terra e ficar esperando as chuvas de setembro para plantar milho – e lanço também umas sementes de feijão-fava, que vai crescer enroscado no pé de milho.

Faz muitos anos que todo ano o meu coração começa a bater diferente quando o frio vai acabando e começa a esquentar. Nesses anos todos, me dá uma espécie de ansiedade quando escuto as primeiras trovoadas. Mas as chuvas vêm e passam e não plantei o milho. Então, fico olhando pelo vitrô o cimento da calçada e as paredes sujas do outro lado da rua.

Meu Deus, quanto milho que já brotou, cresceu, secou – e eu não vi. E as árvores que a gente não plantou, se a gente tivesse plantado, elas haviam de estar altas, fortes... Ah! E a vida passa! Se um dia a gente plantar uma árvore, acho que não vai dar tempo de ver crescer. E as águas que choveram nesses anos todos, elas iam dar para encher o açude que eu não fiz.

As águas já escorreram, foi tudo embora.

* * *
Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Primeiro dia de aula



Tudo novo, para as crianças do primeiro ano. Desde o cheirinho da caixa de lápis de cor até o alvoroço de alunos e mães... Parecia um comício, uma quermesse... A menina esperava. Coisas iam acontecer. Alguém fazia uma chamada em voz muito alta e havia muita ansiedade no galpão da escola. Parece que chamaram seu nome e ela foi puxada pela mão até a frente da fila dupla de crianças que, como ela, esperavam...
Aos poucos o caos foi sendo organizado. As mães ficaram separadas de um lado, junto à cozinha, e dali espiavam, olhos compridos. As crianças nas filas, as filas bem retinhas... A menina, por ser a menorzinha, na frente de todos.
As professoras foram aparecendo e ninguém precisava contar que elas eram as professoras. Aquelas senhoras majestosas vinham andando devagar pelo galpão, olhando, inspecionando, e cada uma finalmente se colocou diante da fila de sua classe: agora as crianças já tinham dono. A menina olhava com orgulho a sua professora.
Grande, alta, imponente. Segurava cadernos e listas. O olhar dela descia sobre a fila e todos ficavam quietinhos, muito quietinhos. A professora olhava para baixo, para as crianças. As crianças olhavam para cima, para a professora, esperando...
Então aconteceu uma coisa. A professora prestou atenção na menina. Olhou, depois olhou de novo e ficou parada olhando atenta. Segurou no seu queixinho, reparando bem: “Você não é irmã do José Carlos?”
Que orgulho! Ser reconhecida no primeiro dia de aula! Na frente de todas as crianças. Só ela! Aquela professora grande, uma senhora! Reconhecê-la, falar com ela, em casa ia contar para todos. E falou, sorrindo aberto: “Eu sou!”
A professora largou de repente o seu queixinho, afastou-se um passo, olhou em torno como quem se perdeu. Gritou para a outra professora: “Fulana, olha o que eu peguei: a irmã do Zé Carlos! Pelo amor de Deus, eu mereço! Esse diretor quer acabar comigo, só o que faltava: me dar a irmã do Zé Carlos...”
Na frente de todos, a menina queria chorar, queria a mãe, olhava para o chão, não queria mais olhar a professora, não queria mais escola, não queria mais...
– Vamos, vamos! Quietinhos! Aí, olha para frente! Ô meu Deus!
A fila acompanhou a professora e a menina foi a primeira a entrar na sala de aula, mas não lhe parecia que ela estivesse puxando uma fila. Parecia que a fila a estava empurrando e ela tinha que entrar num lugar onde não desejava entrar.
Ficou com vergonha de ser irmã do José Carlos... E ela que achava o irmão tão bonzinho...

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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Do livro “Aconteceu na Escola”

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os registros de batizados

 Professor Francisco Fonseca Marcondes
Taubaté, 31/07/1913
Pindamonhangaba, 29/10/1956

Em 1960, quando eu tinha treze anos, cursei o primeiro ano do ginásio no antigo prédio do Instituto de Educação, que funcionava no Palacete Visconde da Palmeira. Cinquenta anos depois voltei a esse mesmo Palacete, para dirigir o Museu, que agora ocupava o mesmo prédio onde eu tinha estudado na adolescência.

Mas outras coincidências iam acontecer.

Era o ano de 2011, centenário da Fazenda Coruputuba e eu dirigia os preparativos no Museu, para uma grande exposição comemorativa, relembrando os tempos do Doutor Cícero Prado.

Fotos da fábrica, da Igreja, do campo de futebol, dos times, de grupos familiares e também reproduções de documentos: livros de marcação de consultas médicas e odontológicas, do tempo do Dr. Chiquinho e do Dr. Lessa, livros de atas das associações religiosas...

E achei os blocos de registros de batismo. Emoção! Eram as segundas vias, que ficavam presas ao bloco, contendo, em carbono, o nome da criança, os nomes dos pais, dos padrinhos, a data de nascimento e a de batismo e a assinatura do padre. Emoção maior: quase todos os registros feitos entre 1951 e 1956 estavam com a letra do meu pai.

De fato, o Professor Francisco Fonseca Marcondes, além de ajudar à missa, ler a epístola, abrir e fechar a capela, também fazia o serviço de secretaria, marcando as missas e preenchendo os blocos de batizado.

Os estagiários do Museu fizeram as fotos desses blocos e passaram para mim as cópias digitais.

Meditei sobre a surpreendente beleza dos caminhos do Senhor. Vejam só: fui colocado trabalhando no lugar aonde iam se cruzar a história do meu bairro, a minha história de estudante que, havia mais de  cinquenta anos, iniciou o ginásio nesse mesmo prédio do Museu – e a história religiosa do meu pai.

No computador, fui arrastando as imagens para o Word até formar blocos por ano para então salvar como PDF. À medida que fazia isto, ia vendo os nomes dos bebês, que hoje estão com sessenta ou setenta anos; os nomes dos pais, que eram amigos ou alunos do meu pai; e os nomes de crianças que, com dez ou onze anos, foram mais tarde meus primeiros alunos na escola de Coruputuba.

À medida que o serviço avançava, também avançavam os anos daqueles blocos de registros. Quando comecei a organizar no computador os batizados de 1956, foi me dando certo mal estar. Janeiro, fevereiro, março: sempre uns três ou quatro batizados por domingo. Abril, maio, junho, julho: eu não queria continuar, a sensação ruim aumentava. Agosto, setembro: Meu Deus, preciso de força para ir em frente! Entrou o mês de outubro de 1956 e então o desgosto foi muito grande.

Meu pai, com a letra firme de professor, reta, vertical, sempre legível, estava registrando os batizados, três ou quatro a cada domingo. Eu olhava aquilo e tinha vontade de avisá-lo: “Papai, seu tempo está acabando!” Mas ele prosseguia registrando e eu ia virando as folhas. No dia sete, três batizados. No dia quatorze, quatro batizados, com a letra dele.

E então acabou. No dia vinte e um a letra já era de outra pessoa: meu pai estava internado. No dia vinte e oito, último domingo do mês, a mesma coisa. Papai faleceu na segunda feira, dia vinte e nove. Continuei montando o PDF para publicação na internet e para imprimir os blocos para a exposição. Mas a tarefa tinha perdido o encanto.

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Os registros de batizados referidos no texto estão disponíveis em http://www.pindamonhangaba.sp.gov.br/coruputuba.asp

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Professor Oswaldo Collus e o Teorema de Pitágoras



Nos anos do “ginásio”, como se dizia antigamente (hoje seriam as quatro últimas séries do Fundamental), sofri com a Matemática. Não entendia as lições, e ficava indignado com isto, porque no curso primário tinha ido muito bem nessa matéria. Acontece que estavam sendo apresentadas a mim a aos meus colegas uma série de equações, inequações, teoremas e regras: era a álgebra. No primário tinha sido somente a aritmética.
Durante três anos tive aulas com um professor que certamente sabia muito da matéria, mas nada conhecia sobre a arte de ensinar. Ditava exercícios, mandava resolver as questões do livro, corrigia, dava notas baixas. Mas dava notas altas quando o time dele ganhava – e, infelizmente, ele torcia para um time muito fraco. Também dava notas altas quando, por ocasião do aniversário dele, a gente fazia uma festinha com bolo, refrigerante, parabéns...
No início de nosso último ano do ginásio, apareceu um novo professor, que certamente também sabia a matéria, mas não nos ensinava direito. Um dia, diante de um exercício complicado, disse a ele: “ – Professor, não entendi o exercício!” Ao que ele, sorrindo, me respondeu: “ – Não é para entender mesmo...”
Depois das férias de julho, trocou de novo de professor. Agora, era o Professor Oswaldo Collus. Na primeira aula, ele nos perguntou sobre nossas dificuldades. Quase todos falaram sobre o Teorema de Pitágoras. Porque vivíamos repetindo uma frase que parecia uma reza, um mantra, que não entendíamos, mas sabíamos de cor: “O quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”. Ou, na versão reduzida, “a²=b²+c²”. 
O Professor nos disse: “É simples”. Foi à lousa, com o giz desenhou um triângulo retângulo com catetos medindo 3 e 4, e com hipotenusa medindo 5. Traçou um quadrado a partir do cateto menor (3X3=9); um quadrado a partir do cateto maior (4X4=16) e, finalmente, um quadrado a partir da hipotenusa (5X5=25). E nos disse: “O quadrado da hipotenusa (no caso, 25) é igual à soma do quadrado dos catetos (no caso, 9+16).
A classe inteira, em uníssono, soltou um “Ah!!!...” Hoje, eu sei que aquela exclamação era um misto de surpresa e de revolta. Surpresa, com a simplicidade do bendito teorema. Revolta, com o fato de termos sido durante tanto tempo submetidos a uma Matemática feita de frases cabalísticas, que não tinham correspondência com o mundo real.
A partir daí, a classe inteira se deu bem com a Matemática, explicada de maneira tão singela. Aprendi a fazer cálculos sempre através de desenhos. Mais tarde, já lecionando, procurei facilitar a compreensão dos meus alunos através de demonstrações gráficas. E nunca me esqueço de como isto começou, nunca me esqueço de quem fez com que eu passasse a gostar de fato da Matemática.
Professor Oswaldo Collus: um mestre de profunda sabedoria – e de persistente gentileza para com seus discípulos.
*   *   *

Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Desenho de Pitágoras de Samos

sábado, 22 de dezembro de 2012

O último Natal em Coruputuba


 
1966. Era nosso último Natal em Coruputuba, mas ainda não sabíamos disso. Já éramos moços – e a expectativa dos presentes de Natal não existia mais. Não nos interessavam mais as brincadeiras à noite, diante da Farmácia, debaixo da paineira iluminada. Tudo isso tinha passado, pertencia à nossa infância, e a infância parecia uma fase muito distante daqueles dias de mocidade.
Os quatro irmãos homens mais velhos: o Carlos, o Pedro, o Zaga e eu, atendemos ao convite do Maestro João Antônio Romão: naquela Missa do Galo, o coro se resumiu a nós quatro. Ao lado do harmônio, nos momentos combinados da Missa, cantamos da melhor maneira que sabíamos, o “Adeste, Fidelis”, a “Noite Feliz”, o “Gloria in Excelsis Deo”... O Bosco, não me lembro por quê, não cantou conosco no coro, talvez estivesse ajudando à Missa, lá embaixo. Também não sei o porquê de ter o Maestro decidido que naquela noite o coro só teria vozes masculinas. Puxa vida, faltava o maior dos tenores, o Zé Brechó, irmão da Tatá, para completar.
Não éramos mais crianças, apesar de ainda nos empenharmos em cultivar algum encantamento diante do Presépio. O Carlos, havia mais de dez anos, vinha trabalhando no Escritório da Companhia. O Pedro tinha concluído o Científico e estava cursando a Escola Normal. O Zaga, tendo terminado o Científico, estava cursando a Faculdade de Direito. Eu tinha acabado de receber o diploma do Curso Normal e iria, no ano que estava quase começando, iniciar minha carreira de professor, lecionando na escola do bairro. Naquele Natal, eu estava me sentindo um adulto: tinha finalmente espichado e, com dezenove anos, estava da mesma altura dos meus irmãos.
Mas havia em nós um sentimento parecido com o de fim de festa. De fato, apesar de ainda estarmos morando na mesma terra de sempre, parecia que tudo tinha passado, tudo estava se acabando, tudo estava escapando de nossas mãos. O quintal ficou sombrio, porque as árvores cresceram sem controle, o campinho de futebol sob as mangueiras tinha ficado irreconhecível, o mato queria tomar conta da horta, as galinhas estavam meio por conta de si mesmas, já não mantínhamos o controle antigo sobre as criações. Sabíamos que estávamos quase indo embora? Não, não sabíamos. Não sabíamos que Vovó sofreria um derrame, que isto ia apressar nossa ida para a cidade, que íamos começar a morar de aluguel em Pinda, que, a partir daí, teríamos de pagar pela pequena bacia de chuchu na feira – nós, que produzíamos no quintal de Coru muito mais do que conseguíamos consumir...
Não sabíamos que estava acabado nosso tempo de infância, de céu, de paraíso, de coração largo, de respiração solta, de sonhar que tudo era possível. Mas, naquela noite de Natal, nós cantamos com a afinação mais perfeita que conseguimos, com o melhor volume de sopro de nossos pulmões juvenis, acompanhando no tempo exato os acordes que o Maestro tirava do harmônio. E, enquanto cantávamos no coro da Capela, nós nos entreolhávamos, jovens, fraternos – e sentíamos uma espécie de orgulho por sermos irmãos, por sermos  belos, e por estarmos juntos.
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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto do Presépio da Igreja de Coruputuba. O Presépio faz parte do acervo do Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O cachorro da Pensão



O Negrinho era um cachorro preto, baixo, corpulento e maldoso. Pertencia à dona da Pensão, Dona Eleuzina do Seu Eurico.
Pois bem, o Negrinho ficava deitado na calçada em frente à porta da Pensão (onde depois foi o Clube). Dali, de seu posto de observação, ele tomava conta de todo o Largo. Observava quem vinha buscar água na Caixa d’Água, quem vinha jogar bola na Quadra, quem ia ao Armazém, ao Açougue... Quando encasquetava, ele vinha latindo furioso para cima da pessoa.
Houve um tempo em que minha família pegava almoço de marmita na Pensão. Foi assim que eu conheci bife na chapa, com cebola. Eu sempre ia buscar a marmita com o meu irmão Bosquinho.
E o pior era que o Negrinho tinha cismado com o Bosco. Toda vez rosnava para ele, latia... E eu, como sempre, ficava protegendo o Bosco. Mas por dentro também morria de medo daquele cachorro malvado.
Tinha um pessoal que ficava jogando ping-pong na Pensão. Eram os filhos do Seu Isaías, mais o Ademir e o Aurélio do Seu Totóizinho, e mais uma turma.
Um dia, eu e o Bosco entramos para pegar o almoço e o Negrinho estava deitado perto do fogão, roendo um baita osso. Pois não é que um dos filhos do Seu Isaías, acho que o Airton, só de sacanagem, passou correndo perto do fogão, roubou o osso do Negrinho e jogou o osso perto do pé do Bosco! O Negrinho veio correndo, bufando.
O Bosco saiu correndo e o Negrinho mordeu os fundilhos das calças dele. Igual ao que acontece em desenho animado. Toda a molecada riu muito. Olhei e vi que os adultos também estavam achando aquilo engraçado.
Silenciosamente, jurei vingança.
Naquela mesma tarde, procurei no quintal e encontrei os restos de uma cadeirona de braços, que eu sabia que estava jogada perto das bananeiras. Serrei uma das pernas da cadeira. Era de seção quadrada, com quinas vivas. Usando os conhecimentos que eu estava adquirindo nas aulas de Trabalhos Manuais do Professor Del Mônaco, com a grosa desbastei os ângulos da parte mais fina da perna da cadeira. Com a lixa, dei um acabamento caprichado.
Ficou um belíssimo porrete, confortável para segurar, sendo que a ponta ficou bem mais pesada, porque a perna da cadeira era daquelas que vão afinando em direção ao chão. Agora, era só aguardar o combate.

No dia seguinte, na hora certa, eu e o Bosco pegamos as marmitas e fomos para a Pensão. Parece que o Negrinho tinha sido alertado. Pela primeira vez, sem qualquer aviso ou provocação, ele veio direto para cima de mim, saindo de seu canto perto do fogão. Tirei o porrete do cinto: estava pronto para a luta. O Bosco ficou mais de longe.
Negrinho deu uns três pulos para me pegar, eu recuando devagar e preparando o golpe. Quando vi a cabeçona dele no ar, perto de mim, vibrei o golpe com toda a minha força de moleque de quatorze anos. O porrete pegou bem na base da orelha esquerda, senti na mão a resistência do osso do crânio.
O cachorrão caiu de quatro. Em silêncio, virou-me as costas. Murcho, caminhou até o fogão e ali se deitou e ficou quieto. Todo mundo na Pensão também ficou quieto. Ninguém me censurou, ninguém elogiou, ninguém comentou nada.
Daquele dia em diante, toda a vez que a gente ia buscar água no Largo, ou ia na Cooperativa, se o Negrinho estivesse na calçada tomando conta, ele levantava e, de cabeça baixa, entrava na Pensão. E toda vez que a gente ia buscar o almoço, ele ficava quieto deitado aos pés da Dona Eleuzina.
Foi a última vez que eu precisei usar força bruta contra alguém.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto1: segurancadotrabalho.blogspot.com
Foto2:Arquivo Histórico Waldomiro Benedito de Abreu – Cooperativa de Coruputuba

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Burro de carga



O pároco da Aldeia Distante precisava mandar temporariamente a Imagem Milagrosa para a igreja da Aldeia Próxima. O único meio de transporte disponível era o Burro que o Carvoeiro se dispôs a alugar. Trato feito, a Imagem presa com segurança ao lombo, lá foi o Burro pela estrada, tocado pelo Carvoeiro.  Nas vendas da beira do caminho, cessavam as piadas, parava a bebida e o bilhar, pessoas tiravam o chapéu à passagem da Milagrosa Imagem. E na chegada à Aldeia Próxima, os moradores se ajuntaram na rua diante da igreja, houve quem se ajoelhasse com devoção. E o Burro pensou que todo aquele respeito era para com ele. Orelhas erguidas e peito estufado, dizia para si mesmo: “Finalmente reconheceram o meu valor!”.
Então, a Imagem foi retirada e todo mundo foi atrás dela, entrando na igreja, largando na praça o Burro sozinho com o Carvoeiro. Este, para não perder a viagem de volta, amontoou no lombo do Burro muitos sacos de carvão para vender na Aldeia Distante e, imediatamente, os dois pegaram o caminho de volta. Agora, ninguém tirava o chapéu. Alguns moleques jogaram pedra, ainda atiçaram cachorro contra o Burro, que, meio espantado, orelhas murchas, ia meditando: “Estas pessoas de agora não são espertas como as daquela hora, não percebem o meu valor...”.
Assim conta a fábula. E temos que nos lembrar que fábulas são inventadas pelos humanos usando figuras de animais para explicar o comportamento de quem? Ora, dos humanos mesmo. De verdade, sabemos que os burros são inteligentes, não são burros não. Na mocidade, tendo que cavalgar pelas estradas de roça, eu percebia que o burro sabia para que lado a porteira abria, ajudava-me posicionando-se de modo a me facilitar o alcance da tranca, depois tirava depressa o lombo para que a porteira não batesse nele. Cavalos não entendiam disso, não ajudavam.
Reflito sobre esta fábula cada vez que assumo um Cargo, e cada vez que deixo um Cargo. Já assumi cargos através de disputadíssimos concursos e já assumi cargos por corresponder à confiança do Governante – este, por sua vez, assumindo um cargo pela confiança do povo. Primeiro, sei que Cargo e Carga são a mesma coisa e ainda resultam no verbo Carregar. Assumir um cargo exige disposição para carregar, para levar a carga com segurança e respeito até o final do caminho contratado.
Tenho procurado ser, com relação aos muitos cargos que já assumi, um honrado Burro de Carga. Que se orgulha, sim, de ter sido selecionado para fazer o transporte. Mas sabe perceber que uma coisa é o seu próprio valor – e outra coisa é o valor da carga, que deve ser levada sempre cuidadosamente, para que não seja danificada, para que não se estrague, para que não se perca. Para que as pessoas continuem confiando nos que assumem cargos.
Para que as pessoas continuem respeitando os Burros de Carga que honram suas cargas.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, escrito em 04/12/2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

Os clubes e a "misturança"



Em julho de 1967 aconteceram os Primeiros Jogos Florais do Eixo Turístico Pindamonhangaba – Campos do Jordão. A expressão “jogos florais” significa concurso de trovas. Os temas eram “Rio” para os candidatos de outros lugares e “Serra” para os poetas locais. Participei e tive uma trova premiada com menção honrosa. Então, num belo dia, aconteceu a premiação no Clube Literário. E lá fui eu, junto com o Walter Leme, meu companheiro de contaminação poética. Foi a primeira vez que eu entrei naquele clube.
Vieram muitos trovadores, de muitos lugares, gente de vários estados. Transformado em auditório, o salão do clube lotou. Fui vencendo minha timidez – eu era um dos candidatos mais jovens – e conversando com trovadores consagrados de outros municípios paulistas, do Rio de Janeiro, de Minas Gerais...
A solenidade começou, sendo mestre de cerimônia o Percy Lacerda. Números musicais, discursos meio culturais e meio políticos, até que os vencedores começaram a ser chamados, um a um, para receber a medalha e o diploma. Cada pessoa chamada era premiada por uma das autoridades presentes. Até que, num certo momento, foi chamado o presidente do Literário para entregar a premiação para uma trovadora de outro estado.
De repente, virou uma aflição silenciosa no auditório. Porque a trovadora era negra e o presidente era contra o ingresso de negros no clube. Diante dos olhos de todo mundo, que todo mundo queria saber o que ia acontecer, aconteceu que o presidente desceu do palco e foi dando a volta no auditório para sair por um lado e ir embora para casa, enquanto a trovadora vinha vindo em direção ao palco pelo outro lado.
O Percy, numa das mais justas saias justas que já vi, teve que ir compondo ao microfone uma esfarrapadíssima desculpa, que o presidente infelizmente se sentiu mal e precisou se retirar, então em seu lugar chamamos o Dr. Fulano de Tal para entregar a medalha e o diploma para a digna poetisa etc.
Depois o Literário se modernizou em parte, o racismo foi enfraquecendo diante dos ventos renovadores, mas nunca chegou perto da democracia racial da Ferroviária. Aliás, com os olhos postos na realidade social, a Ferroviária cresceu, admitiu sócios em quantidade, construiu quadra e piscina e tornou-se de fato um grande clube, querido pela população. Enquanto o Literário entrava em decadência, afundando rapidamente até fechar. E mesmo assim, com o navio naufragando, muitos sócios do Literário torciam o nariz diante de algum elogio à Ferroviária:
– Credo, Deus me livre. Para mim não serve, lá é muita misturança.
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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes

sábado, 24 de novembro de 2012

Fechou o hospital dos pobres


Leone Bazin e Dimitrius Stambolos


Uma das lembranças mais antigas que tenho (eu teria uns quatro anos de idade) é esta: junto com meu Pai e minha Mãe, de manhã cedinho, com sol brilhando no céu azul, fazendo muito frio, descemos do ônibus dos Valentini em algum lugar na chegada de Pinda. Andamos bastante, em direção ao Cemitério. Atravessamos uma linha de trem, caminhamos por um trecho com capim molhado de orvalho e chegamos a um prédio onde eu fui examinado por um doutor, minha mãe ganhou umas latas de leite em pó, remédios e depois... Depois não lembro mais nada, não sei onde era esse lugar que tinha pessoas que cuidavam da gente.

Mas o tempo passou e vim a descobrir que aquilo era o Posto de Puericultura do Hospital e Maternidade Bazin. Quem me contou direitinho foi o Demétrio Guarany Avelar, que hoje mora em Taubaté e foi um dos maiores jogadores de futebol do passado, tendo jogado junto com o Zito no infantil do São Paulinho. E, além disto, o Guarany também é avô da minha netinha Pietra. A narração é esta:

O Dr. Dimitrius Stambolos e sua esposa Leone Bazin, padrinhos do Guarany, venderam a Fazenda Ibiá (depois, Mandupá) e aplicaram o dinheiro na construção e montagem do Hospital, investindo em mobiliário, sala cirúrgica, farmácia, aparelho de Raio X e outros equipamentos. O prédio ficou com duas alas: uma para os pagantes e outra para os pobres. Com o passar do tempo, as despesas aumentaram muito, já que o Hospital era procurado quase que somente pelos pobres.

Na gestão do Dr. Adhemar de Barros, foi feito um convênio com o Estado, que passou a pagar o quadro de funcionários e a destinar uma verba para as despesas correntes. Porém, após alguns meses, o Estado parou de remeter a verba. Isto levou ao fechamento do hospital, para grande tristeza e decepção do casal Stambolos. O imóvel acabou sendo vendido para a Congregação dos Sagrados Corações, dos “padres brancos”, que ali permanecem até hoje.

Outro narrador me contou que um dos motivos para a queda da procura por parte de pagantes na maternidade foi a pregação da oposição religiosa: seriam amaldiçoadas as crianças que lá nascessem, porque os Stambolos eram espíritas.  

Em nossa cidade, meus caros, a religião pegava pesado.



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Texto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, conforme narração de Demétrio Guarany Avelar
Fotos: Arquivo Histórico Dr. Waldomiro Benedito de Abreu – Fundo Demétrio Guarany Avelar

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Paulo Tarcizio lança livro no MAV em Jacareí em 23/11/2012


Local: MAV – Museu de Antropologia do Vale do Paraíba
 
Rua XV de Novembro, 143 – Centro  Jacareí  SP

Lançamento do livro “Aconteceu na Escola”
de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Dia 23 de novembro de 2012 – às 20 horas
Entrada franca


Paulo Tarcizio lança livro no Museu de Antropologia no dia 23 de novembro, às 20h           

Filho de professor e de servente de escola, Paulo Tarcizio da Silva Marcondes, professor, advogado, poeta, declamador e artista plástico, nasceu em Pindamonhangaba em 14/06/1947. Fez o curso primário no Grupo Escolar Rural “Antonio Bicudo Leme” em Coruputuba (1958), o Curso Ginasial (1963) e a Escola Normal (1966) no IE “João Gomes de Araújo”, em Pindamonhangaba. Concluiu o curso de Pedagogia na FVE em São José dos Campos (1974) e o curso de Direito na UNITAU (1999). Publicou em 1997 o livro de poemas “Terra Vegetal”. É membro da Academia Pindamonhangabense de Letras e da União Brasileira de Trovadores (UBT) em Pindamonhangaba, sua terra natal, para onde voltou depois de ter residido por mais de doze anos em Jacareí (de 1972 a 1984). Acaba de publicar o livro “Aconteceu na Escola”, em que narra desde suas experiências de aluno até sua vivência de educador por mais de quarenta anos.
A respeito do livro “Aconteceu na Escola” e de sua carreira de educador, Paulo Tarcizio informa:
Que cargos você exerceu no magistério?
– Fui professor primário, orientador educacional, assistente de diretor, coordenador pedagógico, diretor de escola, professor universitário e, depois de me aposentar como diretor, ingressei por concurso no cargo de professor da rede municipal. Este é o meu cargo atual, do qual estou afastado por exercer em comissão o cargo de diretor de Patrimônio Histórico de Pindamonhangaba.
Você só trabalhou na educação?
– Trabalhei em vários setores de atividade, além da educação. Acredito que isto me ajudou a adquirir uma visão diferenciada da sociedade, inclusive para me ajudar na tarefa de educador. Fui secretário do Sindicato Rural, metalúrgico na AISA, gerente de jornal em Jacareí e sou advogado – atualmente licenciado.
Sobre o que trata o livro “Aconteceu na Escola”?
– Sobre a minha experiência de educador: uma sequência de casos, todos verídicos, sobre educação, escolas, professores, alunos, funcionários, autoridades, greves, disciplina, técnicas de ensino, decisões acertadas e decisões equivocadas, ódios e afetos, gestos nobres e gestos lamentáveis... Enfim: vitórias e percalços na vida real das escolas.
Que escolas da região constam no seu livro como palco de acontecimentos?
– Além das escolas de Pindamonhangaba, comento fatos acontecidos na escola do Porto Novo, em Caraguatatuba. Há no livro vários capítulos sobre escolas de Jacareí onde trabalhei como professor ou diretor, como a do Rio Abaixo (atual Ottilia Arouca), a Escola Agrícola, a do Jardim Flórida (Benedita Freire de Macedo), a da Vila Zezé (Neusa Teodoro de Azevedo) e outras. Há também alguns capítulos interessantes sobre minhas experiências na ETEP em São José dos Campos e na escola de Igaratá (Benedito Ramos Arantes). Já o capítulo “Primavera em Santa Branca” trata de uma vivência edificante na escola Francisca Rosa Gomes, onde fui coordenador pedagógico.
E quanto às instituições de ensino superior em que você trabalhou e ou estudou?
– Trago ao leitor comentários sobre fatos acontecidos na UNITAU, na FVE e na FASC de Pindamonhangaba.
Sendo a sua primeira escola, de que forma a Martinico Prado, em Coruputuba, marcou a sua vida?
– Eu já frequentava a escola de Coruputuba na vida intra-uterina, quase que nasci lá. Minha mãe era servente da escola. Um mês após o parto, tinha que me levar diariamente para o serviço, deixando o bebê no carrinho, na cozinha, enquanto limpava as salas etc. Voltei para aquela escola como aluno e depois voltei como professor, pois foi onde iniciei minha carreira de professor.
O livro “Aconteceu na Escola” trata também das questões polêmicas que defrontam professores e governos?
– Sim. O livro narra os efeitos das injustiças e decisões equivocadas das autoridades, na visão da frente de batalha, do professor que se vê fragilizado diante dos erros dos governos.  Além de comentar o vai e vem das ondas pedagógicas em mais de quarenta anos de carreira, falamos das mais variadas dificuldades que o educador encontra no dia a dia.
 “Aconteceu na Escola” é um livro didático?
– Não é um livro didático. É um livro de memórias pedagógicas. Do começo ao fim, é uma contação de histórias verídicas, sem termos técnicos nem nomes de pedagogos e filósofos.
A quem se destina, em especial, o livro “Aconteceu na Escola”?
– De um modo geral, a quem gosta de conhecer a história do passado recente do povo das nossas cidades, de nossas escolas, dos nossos bairros. De um modo especial, aos educadores, para que possam refletir a respeito de sua realidade diária, e aos jovens que se preparam para o magistério. Estes poderão se defrontar com a narração de como é a atividade educacional, contada por quem vem vivendo essa realidade há mais de quarenta anos.
Onde pode ser adquirido o livro “Aconteceu na Escola”?
– Por enquanto, basta o interessado se comunicar comigo pelo email paulotarcizio@gmail.com para combinarmos a forma de remessa e pagamento. O livro custa trinta reais, mais despesas de correio, se for o caso. Mas a solução mais fácil e agradável é comparecer ao lançamento que vai acontecer aqui em Jacareí, no Museu de Antropologia, no dia 23/11/2012, às 20h. Estão todos convidados!
 

Ficha técnica:

Obra: ACONTECEU NA ESCOLA
Autor: PAULO TARCIZIO DA SILVA MARCONDES
Edição do autor – Pindamonhangaba
224 páginas; 21 cm
ISBN 978-85-913453-0-4
1. Educação. 2. Docentes. 3. Formação de Docentes
Contato com o autor: paulotarcizio@gmail.com
Preço do exemplar: R$30,00



Sobre o livro “Aconteceu na Escola”

Notas do autor

Na mocidade, ouvi de um velho secretário de escola: “Não sei para que todo esse seu esforço. Bobagem. Quando você tiver a minha idade, vai ver que para o Estado você vale só o número do seu RG”. Ele estava certo, mas isto não é relevante. Não é a busca pelo reconhecimento do Estado que nos move. Nós, idealistas, vamos em frente trabalhando pela Humanidade. Se o Estado quiser, pode nos seguir. Se não nos atrapalhar, já está fazendo sua parte.
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Todos os fatos narrados neste livro são verídicos. Substituí alguns nomes de pessoas, às vezes para protegê-las, outras vezes para proteger-me.
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Quando eu era criança, ia na cidade, chegava na escola, subia no ônibus. Mais tarde, aprendi gramática e comecei a ir à cidade, a chegar à escola, a subir ao ônibus. Da mesma forma, onde eu vivia tinha eucaliptos – e depois passou a haver eucaliptos. Neste livro, com muita saudade do linguajar simples da infância, em vários capítulos não permiti que a gramática tomasse todas as decisões.
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Quem está se preparando para ser professor encontrará neste livro vários temas para meditação. Mas quase não encontrará nomes de pedagogos e de teorias da Educação: este livro não é um manual de Pedagogia. É um relato de experiências que, pela generosidade divina, já vêm durando mais de quarenta anos.
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