O LAGO DE CORUPUTUBA

A foto acima obtive em 1967 com a minha antiga Bieka. É o lago da Fazenda Coruputuba, em Pindamonhangaba.

domingo, 26 de maio de 2024

Controlando os moradores do paraíso

 

A Cooperativa e a Pensão, no Largo



Era mesmo um paraíso, dizem os antigos moradores de Coruputuba. De fato, a Fazenda Coruputuba, construída em torno da fábrica de papel, dispunha de todas as comodidades para as famílias dos funcionários. As famílias tinham acesso a muitos benefícios totalmente gratuitos, como ambulatório médico, atendimento odontológico, enfermaria, atividades sociais e esportivas, cinema, distribuição diária de leite, moradia com água encanada e energia elétrica, iluminação pública, grupo escolar e ginásio, permissão para catar lenha nos eucaliptais, criar animais no quintal, cultivar hortaliças e frutas...

E havia também o comércio e fornecimento de serviços autorizados pela companhia: armazém, bar, padaria, barbearia, pensão, açougue, farmácia, leiteria e muitas pequenas lojas de variedades que alguns moradores abriam em suas casas, ou fornecimento de serviços de barbearia, cabeleireira, sapataria, consertos de bicicleta, solda elétrica e vários outros, que eram feitos nos quintais dos moradores, ou nos quartos de solteiro. Meu pai mesmo, e mais tarde os meus irmãos, deram aulas particulares na varanda de casa.

Todos esses benefícios fornecidos pela Companhia tinham seus objetivos práticos. Principalmente a segurança do patrimônio e o controle social.

O patrimônio da Companhia era muito valioso. A fábrica de papel, mais tarde de celulose também, com equipamentos caríssimos, estoques muito valiosos. Também as obras de engenharia civil, as represas com grande estoque de água para os processos produtivos, as linhas de transmissão de energia elétrica, tudo devia ser protegido. Quem podia garantia a segurança de todo esse patrimônio? Quem podia proteger a fábrica, as represas, os eucaliptos?

Eram os moradores. Sem  moradores, a fábrica, os eucaliptos, os cafezais, os arrozais, o gado leiteiro, a escola, o clube, o armazém, tudo estaria indefeso, entregue a invasões, furtos e destruições.

Os planejadores de Coruputuba colocaram as vilas nos lugares estratégicos, em volta da fábrica, nos acessos aos grandes eucaliptais e nas entradas pelas rodovias e pela ferrovia.

Nos limites de Coruputuba com Moreira César ficavam a Vila Figueira e a Vila Bela Vista. Nos limites com as terras próximas da Estrada de Ferro Central do Brasil ficavam as grandes Vila Maria e Vila Esperança. Vilas menores se espalhavam entre essas duas maiores.

Protegendo o acesso ao Primeiro e ao Segundo Tanque, era a Vila Jacarandá. Vigiando o Terceiro Tanque, era a Vila Tanque, depois chamada de Vila São José. Rodeando o centro de convivência, com a Igreja, Farmácia, Campo de Futebol, Quadra, o Largo, Pensão, Cooperativa, Escola, Açougue, ficava a Avenida Alberto Simi, com a Rua São Pedro e os Quartos de Solteiros.

Em volta da fábrica se estendiam a Rua Nossa Senhora Aparecida, a Avenida Cícero Prado, a Praça Industrial e, nos fundos do terreno da fábrica, a enorme Vila Campineira e a Vila Bela, desmanchada para construção da fábrica de celulose. Protegendo o acesso da Fazenda pela Estrada Rio-São Paulo, ficava a Avenida Coruputuba, que hoje é estrada municipal.

Essa disposição estratégica das vilas facilitava que os próprios moradores tomassem conta da imensa propriedade da Companhia, ficando atentos a qualquer movimentação de veículos desconhecidos ou de pessoas estranhas e mal intencionadas.

Os moradores tinham que se sentir bem. Por isto a Companhia lhes garantiu tantos benefícios. O principal benefício foi a moradia gratuita. Morar perto do emprego, isto é muito bom para o trabalhador e sua família. Além disto, não pagar aluguel, ter garantia de água encanada, energia elétrica, iluminação nas ruas, manutenção da casa. Poder morar num lugar seguro, com todos os recursos de uma pequena cidade. Isto é muito valioso para o trabalhador.

E isto era o primeiro item do controle social. Aquela grande comunidade era formada por milhares de pessoas que se comportavam dignamente, educadamente, com raríssimas ocorrências desagradáveis. Milhares de pessoas que trabalhavam bem e não davam trabalho para a administração.

Ao primeiro sinal de comportamento desregrado, o trabalhador era chamado para uma conversa e, se não fosse ameaçado de perder o emprego, podia ser ameaçado de perder a casa - e isso nenhum trabalhador queria, nenhuma família queria. Perder a casa significava ir morar na cidade e viajar todo dia para ir trabalhar na fábrica. Ter de pagar aluguel na cidade e perder todas as comodidades que tinha conquistado para sua família.

A grande comunidade coruputubense era pacífica e disciplinada. As famílias usufruíam dos benefícios disponíveis, respeitando as regras e as recomendações.

Uma vez parou em frente de casa um senhor de bicicleta, bateu palmas, quando atendemos ele falou: Olha, vocês esqueceram de apagar a luz da varanda!.

Vejam só. Não era um guarda. Era um morador de outra vila, pessoa que a gente nem conhecia. Estava cumprindo o dever dele, de nos avisar. Nós agradecemos e nunca mais deixamos a lâmpada acesa de dia.

Meu pai, contratado pela Companhia, dava aulas noturnas para os trabalhadores que não tinham completado o primário. E era importante que todos os trabalhadores fossem ensinados a ler e escrever. As máquinas modernas que estavam sendo instaladas na fábrica tinham instruções para montagem e operação, precisavam ser manuseadas por quem soubesse ler os manuais.

Houve um tempo em que as aulas do meu pai eram dadas numa sala do grupo escolar. Depois, passaram a ser na nossa casa, as mesas de tábua e os grandes bancos ocupavam a sala e um dos quartos. Papai fazia a chamada, distribuía os cadernos, passava as lições no quadro negro, explicava, tirava as dúvidas, dava as tarefas para casa.

No dia seguinte, cedinho, levava para o chapeiro o resumo da chamada. Os alunos que tivessem faltado à aula tinham o cartão de ponto retido. Se não tivessem motivo justificado para a falta, tinham desconto no dia de trabalho. Isto fazia parte do controle social da Companhia, que estava pagando a alfabetização deles.

Numa época em que todos os fogões ainda eram a lenha, todos podiam lenhar debaixo dos eucaliptos, mas era proibido catar pau de lenha da grossura de uma garrafa. Os eucaliptos eram importantes para servir de combustível para as caldeiras da fábrica. As árvores que fossem cortadas pelos trabalhadores eram picadas e os paus empilhados corretamente, para serem transportados. No meio do eucaliptal encontrávamos essas pilhas de paus bem organizadas, com uma lista de tinta branca cobrindo a pilha de fora a fora, para evitar que alguém retirasse algum dos paus para levar para casa para servir de lenha.

Era a Companhia exercendo o controle social da população.

Tudo que era da Companhia era preservado por todos os moradores. Mesmo os moleques que andavam com estilingues podiam até dar pedradas nos cachos de coquinho, mas nunca atiraram contra as lâmpadas dos postes. Isto seria muito grave, a família seria punida pela Companhia.

A casa e o quintal de cada família era como se pertencesse mesmo àquela família. Ninguém entrava sem ordem. Mas, em caso de necessidade, a Companhia mandava funcionários tomar providências. No fundo do nosso quintal havia um belo coqueiro, atrás da última bananeira, quase encostado no muro da fábrica. Um dia encontramos o coqueiro caído, cortado quase pela raiz. Entendemos o que aconteceu. Funcionários da fábrica pularam no nosso quintal, certamente com escada, e derrubaram o coqueiro, porque ele já estava encostando na fiação elétrica dos postes da marcenaria.

E estava certo. Tudo tinha que ser feito para preservar a fábrica, que era a fonte de sustento de todos os moradores.

Coruputuba era isso. Uma grande comunidade, onde todos se sentiam responsáveis por todos, cuidando da preservação dos progressos conquistados.

domingo, 21 de abril de 2024

Faz uma loucura por mim

 


Em 2004 escrevi um conto sobre o lago do Haras, falando do tempo em que ele foi esvaziado, que sumiram as capivaras e tudo ali ficou muito triste. Pois sabe que o meu conto ganhou um belo prêmio na Secretaria de Cultura do Estado? Recebi o meu diploma de participação das mãos da atriz Leona Cavalli, no Memorial da América Latina.

Fiquei meio famosinho lá em São Paulo. E então, a Secretaria de Cultura começou a me convidar para quase todos os eventos que surgiam. E mandou me convidar para a inauguração da biblioteca da Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Um lugar maravilhoso de lindo, na avenida mais bonita da capital.

Atendi o telefone dizendo que sim, que eu ia comparecer àquela importante inauguração, ia com minha esposa Anamaria, mas eu queria um momento na programação para declamar. Afinal, numa inauguração de biblioteca, a coisa mais certa do mundo era um poeta declamar o poema O LIVRO E A AMÉRICA, de Castro Alves.

A assessora da Secretaria da Cultura falou que sim, que muito bom eu me dispor a declamar, que ela ia ver um espaço no programa, ia encaixar com certeza, que eu ficasse sossegado.

E, no dia marcado, lá fomos eu e Anamaria, para São Paulo, escutando alguns CDs muitos bons durante a viagem. Alcione e seus grandes sucessos, como FAZ UMA LOUCURA POR MIM e outras músicas, e outros cantores.

Chegando no lugar do evento, nossa, estava tudo lotado. Fomos nos esgueirando no meio do povo, vimos que já estava lá o governador Geraldo Alckmin, o Secretário da Cultura Gabriel Chalita, que tinha sido meu colega na faculdade de direito, e mais um pessoal que eu tinha conhecido na premiação do meu conto. Mas nem deu para chegar perto deles, quanto mais conversar com eles naquela hora.

Alguém avisou, no sistema de som, que todos estavam convidados para circular pelas salas da biblioteca, para conhecer as instalações. Foi o que fizemos. E, nessas voltas, meio espremidinhos no meio das pessoas, nos encontramos com o nosso Geraldinho e pudemos conversar. Dei-lhe um exemplar do meu conto sobre o Haras e ele nos contou que já estava aprovada a verba para reconstruir a barragem que tinha sido rompida. Que era por isso que o lago tinha sido esvaziado. Mais algumas voltas e todos foram chamados para a sala principal, debaixo da escada, para a solenidade.

Aí encontrei a assessora, que veio me pedir muita desculpa e coisa e tal, porque ela já tinha conversado com o gabinete do governador e ele ia ter que sair do evento muito depressa porque tinha outro compromisso em outro lugar etc. etc. e também o Secretário Chalita precisava comparecer em outra reunião em outro bairro e - moral da história - ia ser tudo muito rápido - não ia dar para eu declamar o poema.

As autoridades já tinham começado a falar nos microfones. Tinha começado a solenidade. Fiquei meio desanimadão. Mas Anamaria segurou no meu braço e me falou: - Faz uma loucura por mim. VAI LÁ E DECLAMA.

Então deixei minha pasta com ela e, antes que o governador fosse chamado para falar, atravessei o povo, cabeça erguida, subi o primeiro lance da escada, dobrei o segundo lance, parei, olhei para o público ali embaixo e declarei em alta voz: DE ANTONIO FREDERICO DE CASTRO ALVES: O LIVRO E A AMÉRICA. E comecei: “Talhado para as grandezas, / para crescer, criar, subir / o novo mundo nos músculos / sente a seiva do porvir / ...”

Silêncio absoluto na plateia. O governador quieto, respeitoso, olhando para mim. Todos olhando para mim. Alguém, isolado, bradou: É DO TEATRO. E prossegui, até final. Vibração silenciosa mas perceptível na passagem mais conhecida: Ó bendito o que semeia / livros, livros à mão cheia, / e manda o povo pensar! / O livro, caindo n’alma, / é germe - que faz a palma! / é chuva - que faz o mar!.

Aplausos, muitos, no final. Desço os degraus para ser cumprimentado primeiro pelo governador, que me apresenta à roda dos amigos: “O Paulo é de Pinda! O Paulo é de Pinda!"

E a assessora do gabinete veio, meio risonha, me cumprimentar: Que bom que ainda deu certo, não é?

Participamos do coquetel, bastante conversa, risos, alegria... E depois, eu e Anamaria voltamos pela Dutra, ouvindo música. Música da Alcione, a famosa Marrom.

domingo, 14 de abril de 2024

Espalhando as sementes




Cada semente existe para se transformar numa planta e garantir a continuidade da sua espécie. Um caroço de abacate quer se transformar num belo abacateiro. Uma sementinha de mamão tem o destino de brotar e virar um lindo mamoeiro, e assim por diante.

 As plantas, todas elas, desde as mais pequeninas e rasteiras, até as mais gigantescas árvores, vieram aprendendo, em milhões de anos, que precisam espalhar suas sementes. Que as novas plantas não podem crescer na sombra das plantas-mãe.

Não adianta você plantar um caroço de manga na sombra da mangueira velha. A nova plantinha até vai brotar, crescer um pouco, mas não vai produzir nada na sombra da mãe. 

As plantas que mais deram certo neste mundo são as que arranjaram algum jeito de mandar suas sementes para bem longe, para espalhar a espécie para outros bairros, outros lugares, outros países. 

A paineira manda as suas sementes, redondas e pretas, umas bolinhas duras, dentro de um tufo de algodão, a paina, que vai viajando com o vento, vai longe, longe, como pequenas naves espaciais que vão aterrizando nos quintais, nos pastos e na beira das estradas. Algumas dessas sementes encontram um chão bom, úmido e brotam, formando uma nova e gigantesca paineira. 

Assim também a delicada plantinha dente de leão, que forma uma flor muito levinha, leve, que as crianças gostam de soprar e que se desmancha no ar, e os pequeninos paraquedas vão flutuando levando uma semente minúscula para ir em busca de um chão onde possa germinar. 

Na entrada principal do Shopping Pátio Pinda há uma fileira de imponentes guapuruvus, árvores enormes, que também usam o vento para espalhar suas sementes. A semente fica dentro de uma vagem que tem uma semente só, bem na ponta. Quando as vagens estão bem sequinhas e leves, elas descem girando como pequenos helicópteros, vêm descendo lá do alto dos enormes guapuruvus, e vem girando no vento, procurando um lugar para aterrizar. 

Algumas plantas atiram suas sementes com força, quando estão maduras. Daqui a alguns meses você vai estar na praça principal da cidade e vai escutar um barulho que parece um tiroteio. São as sibipirunas da Praça Monsenhor Marcondes. As flores amarelas já caíram e no lugar delas nasceram umas vagens verdes que depois amadureceram e secaram. Quando estão bem secas e as sementes dentro delas estão prontas, as vagens explodem, atirando longe as sementes rijas, fazendo barulho. A intenção da sibipiruna é esta mesma: jogar suas sementes bem longe, para que elas brotem longe da sombra da árvore mãe. 

Muitas plantas, com o passar de milhões de anos, foram inventando alguns jeitos bem espertos de mandarem suas sementes para longe. É o que acontece com as frutas, em que as sementes ficam dentro de uma polpa doce e deliciosa, que os animais procuram para se alimentar. A jabuticaba, por exemplo, é procurada pelas aves, pelos morcegos, pelos gambás, pelos macacos, pelo ser humano. Colhidas e levadas para longe, as frutinhas vão com as sementes, que caem e muitas vezes brotam onde caíram. 

Você encontra um pé de goiaba e imagina: Quem plantou? Pode ser que não tenha sido plantada de propósito, pode ser que a pessoa comeu a fruta e cuspiu a semente naquele lugar. Ou pode ser que a semente tenha sido trazida nas fezes de um passarinho ou outro animal. 

Os morcegos comedores de frutas são os mais importantes espalhadores de árvores da Mata Atlântica. Pegam frutas no meio da mata e levam para o campo, onde se dependuram no arame farpado, no mourão de cerca, numa árvore velha, e ali ficam se deliciando com a fruta e deixam cair o caroço, que brota e se transforma em mais uma árvore da mata. O trabalho que esses morcegos fazem, de reflorestamento, é tão ou mais importante que o trabalho dos passarinhos. 

Muitas vezes, na roça, você foi atravessar um pasto e depois ficou reclamando que sua roupa ficou toda grudada de carrapicho ou de picão. São as sementes dessas plantas, que pegaram uma carona nas suas roupas. Agora você vai ficar sentado na calçada, tirando as sementinhas grudentas, espinhentas. Jogou no chão? Pronto, a planta lá do meio do pasto conseguiu o que ela queria, fez você transportar as sementes dela para bem longe e quem sabe elas agora vão brotar onde você jogou, espalhando a espécie. 

Essas plantas que grudam semente na roupa das pessoas vivem de grudar as sementes no pelo dos animais no pasto. Por isto é difícil acabar com essas pragas, os animais levam as sementes para longe e essas plantas vão sempre tendo sucesso. 

Plantas que vivem na beira dos rios derrubam sementes flutuantes, que vão levadas para longe, longe, e um dia vão se encostar na margem e ali vão brotar e criar raízes, gerando uma nova planta. 

Cabe ao ser humano usar a sua inteligência para compreender a natureza, perceber que cada ser tem um papel no mundo e merece ser respeitado e admirado, jamais ser destruído.

 

 

quarta-feira, 20 de março de 2024

Corpo fechado




Houve um tempo em que trabalhei na direção da Escola Agrícola de Jacareí, estabelecimento que forma técnicos em agropecuária, onde já funcionou a Fapija.

A Escola Agrícola era muito grande, uma fazenda com benfeitorias, pastagens, um bom resto da Mata Atlântica... Só que para trabalhar sem verba seria melhor que a fazenda não fosse tão grande. Um dos problemas era a extensão das divisas: para cercar decentemente uma área tão extensa teríamos que gastar muito... Ainda mais que não havia como dividir as despesas com os confrontantes: uma avenida, uma escola estadual, uma estrada municipal, uma grande área da prefeitura e, no fundo, o leito do Rio Paraíba do Sul...

Mas finalmente saiu a verba! Vamos fechar a escola! Compramos os mourões, o arame farpado, grampos... Contratamos alguns homens e a cerca foi se estendendo reta, reta, uma beleza, o arame farpado esticadinho, brilhando no sol, atravessando o pasto, apontando para a mata e sumindo dentro dela...

Daí começou a chover, chover. De tarde, os dois homens encarregados da cerca, molhados e esbaforidos, vieram me procurar. Eu estava substituindo o diretor em férias. Estavam nervosos: Seu Paulo, o senhor precisa ver uma coisa que a gente achou dentro da mata. Uma coisa esquisita.

Fui, com chuva mesmo. Atravessamos os pastos atrás do campo de futebol, entramos pela silvicultura e chegamos no mato. Dentro da mata fechada, escura, de repente uma coisa muito bonita e solene: Um espaço varridinho, limpinho, chão batido de muitos passos. Nas beiradas desse círculo, flores, velas, fitas de várias cores... Nos nichos formados pelas grandes raízes, imagens de santos desconhecidos. Um oco numa árvore: dentro, outro santo. Um lugar de respeito: era um lugar de culto.

Os dois homens esperando uma decisão minha. Porque a cerca, se fosse prosseguir no seu caminho retilíneo, teria que cortar ao meio aquele terreiro ornamentado e limpo. O que é que a gente faz, Seu Paulo... E eu decidi: desvia a cerca para fora, invade alguns metros na área da prefeitura, é meio do mato mesmo, ninguém vai se incomodar. Começa o desvio um pouco antes do círculo, volta ao traçado um pouco depois. Assim este terreiro fica inteiro dentro da escola. Ah! E na cerca faz o ziguezague, aquela abertura por onde dá para passar gente, mas impede a passagem do gado. Por quê? Ora, se o pessoal está acostumado a vir fazer suas devoções aqui, vamos facilitar, para que obrigar as pessoas a passar por baixo do arame?

E assim foi.

No sábado de manhã (eu cumpria parte do horário no sábado) vem um senhor moreno, gordo, falar comigo. Apresentou-se, era o Pai de Santo responsável pelo terreiro no meio da mata.  Ele estava comovido. Agradeceu muito por termos respeitado aquele espaço sagrado, elogiou. Desculpou-se, disse que antes não sabia até onde ia a divisa da escola. Ficou feliz também por termos deixado a passagem na cerca. Eu agradeci os agradecimentos. E coloquei uma restrição: não pode edificar nada, nem uma cabaninha.

Ele se tornou um colaborador da escola, ajudando a tomar conta da mata, impedindo invasões, não deixando ninguém cortar árvores na beira do rio... E me convidou para ir tomar um café na casa dele, lá na Bica do Boi.

Fui. Um café gostoso com bolo de fubá. Depois, me perguntou se eu aceitava que ele e a esposa fizessem uma oração em minha intenção. Claro, até agradeço. A oração era, me pareceu, uma adaptação do Pai Nosso. Depois um cântico suave, bonito. Depois outras orações. Quando terminou aquela reza, eu saindo, conversando sobre plantas, flores, que eles tinham na varanda, ele me perguntou se eu sabia o que eles tinham feito. Não, não sei, estou achando que vocês fizeram uma reza em minha intenção, não é?

É. Mas não é só isso: agora o senhor está com o corpo fechado. Nada de ruim vai pegar no senhor, nunca. Não tem perigo.

Agradeci, o gesto deles foi bonito, comovente mesmo. Guardei a informação com carinho, sem intenção de descobrir até onde iria aquela força, sem duvidar nunca - e sem abusar nunca.

Às vezes, tenho conseguido caminhar com sossego no meio de vários tipos de tempestade. Então me sinto protegido por uma espécie de bondade. Talvez a bondade que pratiquei  lá no meio do mato da Escola Agrícola? Na hora, não senti que fosse bondade, senti que era justiça. Fiz o que era certo fazer.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Caminhando com o Pedro

 

Pedro com o Carlos e os alunos das Oliveiras, 1969


Já tínhamos feito o trabalho de carpintaria de serrar e martelar, construindo um bom chiqueiro no lado mais ensolarado do quintal. Então, na manhã de um sábado, fui com o Pedro, levando sacos de estopa, até a Vila Campineira, comprar uns leitões na casa do Rubens e do Guido Magalhães. Esses meninos tinham sido meus colegas no primário e ficaram alegres com nossa visita. Negociamos com o pai deles e trouxemos dois porquinhos e uma porquinha. Voltamos contentes, pela Vila Bela, para soltar os bichinhos na casa nova deles, que ainda tinha cheiro de serragem.

 Ainda naquela semana, fomos nós dois, mais o Bosco, até a Volta da Bananeira, que a gente ainda não conhecia, fomos levando a cabrita marrom, para deixar lá, na casa do dono do bode grande, para ela pegar cria. Demoramos para encontrar, erramos o caminho, tivemos que voltar um trecho e perguntar na Vila Esperança. No fim, deu certo. Chegamos de volta em casa já de noitinha.

Uma viagem que sempre eu fazia com o Pedro era para Pinda, de ônibus, para comprar farelo de arroz na máquina do Andrade. Tempo em que a agência da Pássaro Marron ficava na Expedicionários, em frente ao Brasília Lanches e à Banca do Seu Romeu. Na máquina de arroz, geralmente, não tinha farelo pronto, ficávamos vendo a máquina agitando o arroz integral, tirando a película bege, que virava farelo - e o arroz saía branquinho do outro lado.

Anos mais tarde, todos os irmãos já estavam moços, fizemos passeios inesquecíveis e cansativos. Julho de 1966, um sábado, jogos da Copa do Mundo, fomos para Tremembé. Uma aventura, pequena, mas uma aventura. Saímos de Coruputuba. Pegamos o ônibus azul em frente ao Pujol, levando lanches e refrigerantes. O Carlos, o Pedro, o Zaga, o Bosco e eu. Conhecemos a Basílica do Bom Jesus, a praça de árvores frondosas, fomos lanchar perto da fonte, tomamos a água milagrosa. Carlos levou o radinho de pilha. Acompanhamos o jogo em que Portugal ganhou da Coreia do Norte por 5 a 3. 

Voltamos a fazer um passeio magnífico foi em 1967. Para Campos do Jordão. Aí já estávamos morando em Pinda. Eu fui o cicerone, conhecia alguma coisa da cidade. Já sabia que os preços da alimentação ali eram muito altos. Por isso, levamos bastante comida. Frango assado, farofa boa, pães, latas de sardinha...

Subimos para Campos no bondinho das seis horas. Muita neblina. Só clareou tudo na estação de Lefévre, quando passamos para cima das nuvens. Céu azul lá em cima e um colchão de nuvens brancas debaixo da gente.

Em Campos, íamos comer debaixo dos pinheiros. Mas choveu e só o Carlos que tinha guarda-chuva. Fomos todos para um restaurante e pedimos coca-cola. Pedimos emprestados alguns pratos. E fomos desembrulhando os frangos, as sardinhas, a farofa e outros itens. 

Depois de bem alimentados, subimos o Morro do Elefante. Tempos e tempos nós ficamos olhando a  cidadinha lá embaixo. Parecia uma cidadinha de presépio. Carrinhos. Pessoinhas andando. Arvorezinhas... No topo do Morro do Elefante tinha um Santo Cruzeiro. Só isto, naquele tempo. 

Os anos se passaram muito depressa e nosso trabalho de professores nos levou por caminhadas diferentes. Enquanto eu andava pelo Porto Novo em Caraguatatuba, e pelo Rio Abaixo em Jacareí, o Pedro fez caminhadas pela Serra da Mantiqueira, em diferentes escolas. Andou quilômetros na sombra escura das araucárias, no Parque Estadual, lecionando numa escolinha muito longe de qualquer povoação. A cama de armar ficava dobrada atrás da porta durante as aulas. As crianças conversando, amigáveis, ele explicando, ditando lições, os alunos perguntando. Fora das paredes de tábua, o ruído da chuva nos pinheiros. Então acabava a aula, os alunos davam tchau, iam embora, ele ficava sozinho. No silêncio, só o barulho da chuva. Ia escurecendo, na mata escurece logo, hora de cozinhar o arroz na panelinha, no fogareiro. A medida de arroz era um potinho vazio de danone. Tudo certinho, a lanterna presa debaixo do braço esquerdo, a solidão por companhia. A noite quieta. O próximo som que ele ia escutar seria de manhã, quando as crianças chegassem com suas conversas e perguntas e risadas. Até lá, o silêncio, e as gotas da chuva. 



Mais um pacote grande de tempo rolou, e nós dois pudemos caminhar juntos na Serra do Mar, no meio da Mata Atlântica, entre Ubatuba e São Luiz. Tinha chovido na véspera e tudo agora estava azul e ensolarado, a mata brilhava. Na trilha, as botas não faziam barulho, tudo encharcado. De repente, uma arvorezinha se abalou e choveu debaixo dela. Era um esquilo, que pulou mudando de galho. Nós dois nos agachamos, paralisados. O bichinho também parou, os bigodes se agitando, as mãozinhas no peito, o nariz se movendo. Instante - e pulou num tronco caído, correu ao longo dele, muito rápido, em dois pulos trepou na outra árvore, sumiu-se na folhagem. O Pedro falou: Nossa, Paulo. 

Depois os anos se passaram, todos de uma vez só, e não deu tempo de fazermos a caminhada que uma vez começamos a combinar e nem terminamos de combinar direito. Que era de irmos a pé até Aparecida, conversando no caminho, rezando o terço, lanchando na beira da estrada, conversando de novo, comentando as muitas andanças que já tínhamos feito pelos caminhos deste mundo de Deus. Não deu tempo, Pedro, meu irmão. Mas caminhamos bastante.

Texto e fotos de Paulo Tarcizio


domingo, 7 de janeiro de 2024

UM MENINO SOB AS ÁRVORES


Já estava ficando escandaloso aquele negócio de toda quinzena sumir um porco da Escola Agrícola.  Era mais ou menos agendado: semana sim, semana não, um belo dia de manhãzinha havia um porco de menos no chiqueiro. Depois de algum tempo os ladrões ficaram mais calmos e passaram a matar, limpar e esquartejar o bicho na escola mesmo, deixando para trás apenas a poça de sangue e algum miúdo inaproveitável.

Aquilo deixava tenso o pessoal da direção. A gente começava a suspeitar de todo mundo. Parecia, aos nossos olhos desconfiados, que não eram todos que estavam chateados... A direção tinha que fazer B.O. na polícia. E fazia, mas ficava só nisso. O B.O. servia só para instruir o processo de pedir baixa no inventário. Eu ouvia coisas assim: Fazer o quê, Não tem jeito, A escola está muito dentro da cidade... Ficava injuriado com aquele conformismo. Houve colegas que me disseram: Paulo, não esquenta muito a cabeça com isto, não. Você já passou na primeira fase do concurso para diretor, logo vai embora, não entra nessa encrenca, do mesmo jeito que tem gente boa, tem gente que não presta. E acrescentavam: Aqui na Agrícola sempre foi assim, sempre vai ser.

Isto que me diziam não adiantava, continuei achando que eu ia resolver o caso. Responsável pelo noturno, comecei a fazer uma grande ronda pela escola, antes de ir para casa às vinte e três horas. Com o farol alto, ia fazendo o carro percorrer todos os caminhos possíveis: atrás da lavanderia e da cozinha, em volta do campo de futebol, entre o galinheiro e os chiqueiros... Então pegava a estrada da horta, descia o morro em direção à silvicultura, pomar, ia até os estábulos, voltava por dentro do pasto, pegava a alameda dos ipês, ia pelo meio deles até ver o vulto encostado numa árvore... Opa, o que é aquilo?

Encostado na árvore, um vulto embrulhado num cobertor. Ia se levantando, saindo. Encostei o carro, abri a janela, reconheci: Toninho, que isso? O que você está fazendo aqui? Você está bem?

Estava bem demais. Quando entrou no carro, precisei apoiá-lo e vi que o cobertor estava gelado... Também, era junho... Ele destampou a falar, falava e me explicava: estava conversando com as árvores. Incrível como elas respondem. É uma coisa maravilhosa o jeito que elas conversam com a gente, nossa! As coisas que elas falam! Não dá para contar para todo mundo, tem gente que não entende, o senhor eu sei, é diretor, coisa e tal, mas o senhor é pessoa legal, o senhor entende: eu estava aqui, olhando as estrelas, está frio, o céu cheiinho de estrelas e eu estava aqui escutando o que as árvores estão falando, falando comigo... O senhor também gosta de andar debaixo das árvores, que eu já vi o senhor andando lá, olhando, o senhor também fala com elas.

Na diretoria o café da garrafa ainda estava meio quente, um restinho, ele tomou, sentou-se, continuou falando, excitado, emocionado... Eu ouvia, olhando para ele, pensando nas desconfianças dos inspetores, os armários dos alunos sempre vasculhados: vai que um deles guarda qualquer porcaria...

Toninho diminuiu o ritmo, cansado, talvez o efeito das árvores estivesse passando... Pediu para usar o banheiro. Primeira vez que um aluno usou o banheiro da diretoria. Ouvi que se lavava, longamente. Saiu renovado, agora já meio constrangido, envergonhado – e certamente um pouco temeroso. Olhou para mim: e eu era o diretor. Pediu desculpas... Não falou mais de estrelas nem de árvores. Foi para o dormitório.

A mãe veio buscá-lo poucos dias depois, ele ia se transferir para uma escola da sua cidade, a família achou que não estava dando certo esse negócio de estudar longe, morar longe, ficar um tempão sem ver o seu pessoal...  

Continuei pensando muito nele toda vez que passava na alameda dos ipês. Continuo pensando nele, agora que eu passo por ruas escuras e vejo meninos no sereno... Mas estes meninos parece que não querem conversar sobre árvores, não querem falar de estrelas.

O que eu pretendia com os faróis iluminando os caminhos da Escola Agrícola? Procurava culpados, mas encontrei uma pequena vítima. Se encontrasse os culpados pelo furto dos porcos, o que eu iria fazer? Dar um tiro imaginário: nunca tive arma... Encontrei um dos nossos jovens sob os ipês, o mínimo seria tirá-lo do relento, ouvir suas poesias loucas... E dividir a preocupação com a família, como acabei fazendo.

Quanto aos porcos, continuaram a desaparecer regularmente. Teria alguma noite o ladrão passado sob os olhos do menino das árvores?  Pode ser, nunca soubemos. O que um teria pensado sobre o outro?

Um mês depois, fui embora da Escola Agrícola, ia ser coordenador em Santa Branca, enquanto aguardava as provas da segunda fase do concurso para diretor. O último lugar que visitei antes de sair foi a alameda dos ipês, entre os pastos e a suinocultura. Era julho, de frio e céu azul. A alameda tinha virado um luminoso túnel amarelo, dourado: flores nas árvores, flores descendo no vento, flores cobrindo o chão como um tapete. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Natal das crianças

 



O ano inteiro a gente ficava perguntando um para o outro: O Natal ainda tá longe?

Ansiedade crescia quando entrava dezembro. Exposição na escola, músicas na igreja, coração quase disparava. Aí um respondia: Natal tá chegando... Outro falava: Tá perto da estaçãozinha... Vem vindo...

E uma linda manhã eu acordava com o Zaga falando: Olha debaixo do travesseiro!

Tinha três avelãs debaixo do travesseiro! Isso era um aviso: era o dia vinte e dois de dezembro. Quase Natal. Dia que o Pai começava a fazer o Presépio!

Uma parte do presépio tinha passado o ano inteiro em cima do guarda-roupa, dentro de três caixotes. Outra parte se renovava todos os anos. Papai já tinha ido buscar na fábrica o rolo de papelão azul, para as montanhas, as folhas de papel de seda, para a lapinha, um pouco de serragem para dizer que era areia dos caminhos, anilina em pó e goma arábica.

A mesa da cozinha era levada para o canto da sala, para receber a montanha. Papai desenrolava o papelão azul, olhava para a gente e de repente falava: Não vou mais fazer presépio nenhum, vocês estão fazendo bagunça! E amassava todo o papelão, pisava em cima dele  e a gente dando gargalhada! Sabia que era tudo brincadeira dele. O papelão tinha que ser amassado mesmo, para representar as dobras das pedreiras, as entradas das montanhas...

Nas quinas das dobras, Papai passava goma arábica e soprava o pó da anilina prata, ficava igualzinho pedra. Depois vinha com anilina diluída, azul, verde, preta, vermelha, ia salpicando com o pincel pela montanha inteira. Maravilha! Daí parava e falava: Vamos buscar parasita no calipeiro!

Isso sim, era alegria. O Pedro e o Carlinho corriam buscar bambu comprido, pegaram bambu que estava erguendo o varal, a Vó não gostou: Olha a minha roupa aí! Vai derrubar! Mas não derrubou não.  Ana Clara pegou a cesta e nós fomos todos com o Pai buscar parasita.

Eram umas orquidinhas simplesinhas, dessas que tem aqui na cidade, no fio dos postes mesmo. O Pai cutucava com o bambu, gostava que caía a parasita junto com um pedacinho da casca do eucalipto. E a gente passeando no meio das árvores gigantonas, brincando que era uma selva.

Voltamos com a cesta cheia. Papai foi pondo as parasitas no vão das montanhas, ia ficando igual o mato na serra.

Chegou a hora de abrir os caixotes. Primeiro, ele pegou a Vista e foi desdobrando. Era uma paisagem pintada num papelão bem comprido, o papelão era azul também, tinha a pintura de uma serra azul, com pássaros voando, tudo escuro, para dizer que era noite. A Vista foi estendida por cima da montanha, pegando o tamanho inteiro do presépio, encostando no forro, dobrando no canto da sala.

Mamãe ajudando. Vovó também. Espalharam a serragem cor de areia, imitando uma estrada, puseram pedrinhas na beira da estrada e a serragem tingida de verde nos dois lados da estradinha.

Agora que os caixotes foram abertos, elas iam tirando tesouros secretos lá de dentro. Papai tinha colocado um pedaço meio redondo de vidro, era um lago, na beira da estrada. Elas puseram conchinhas na volta toda do lago. Depois puseram três patinhos de celuloide nadando no vidro, um menininho barrigudo querendo pular na água.

Surgiram de dentro dos caixotes umas arvorezinhas feitas de bucha de tomar banho, tingidas de verde. Foram colocadas também na beira da estrada.

Papai fez uma estradinha que terminava num canto da montanha. Mas colocou um caco de espelho enfiado na montanha, meio disfarçado atrás de uma parasita. A estradinha ficava refletida no espelho, parecia que entrava na montanha e ia embora para bem longe...

Mamãe se encarregou duma parte bem delicada, fazer a lapinha, a gruta onde o Deus Menino nasceu. Papai tinha deixado uma entrada bem no meio da montanha de papelão. Ali mamãe foi colocando folhas de papel de seda meio amassadinho, amarelo, rosa, azul clarinho, parecia que a lapinha estava cheia de nuvens coloridas. Atrás dessas folhas, Papai colocou um soquete com uma lâmpada bem fraquinha.

No chão da gruta colocaram palha tingida de verde. E aí começaram a chegar as figuras mais importantes e foram ocupando seus lugares: o Anjo, Nossa Senhora, o Menino Jesus no berço, São José, o Boi, o Burro, os Pastores, os Carneiros, tudo isto dentro da lapinha, ou chegando perto.

Os Reis Magos com seus camelos foram colocados na estrada. Ainda não era dia da chegada. Primeiro, eles foram colocados bem longinho. Lá perto do lago dos patinhos. Mas cada dia o Pai deixava a gente fazer o camelo andar um pouco, porque no dia seis de janeiro era para os três Reis magos chegarem na lapinha para entregarem os presentes: ouro, incenso e mirra.

O Presépio estava quase completo. Ainda surgiram dos caixotes algumas outras figuras: o Gato com a cara amassada, dois Cães, um Leão, o Tigre. Esses bichos foram espalhados pelas montanhas. E surgiram também umas belezinhas de casas bem pequenas, feitas de cartolina, com teto de papelão, janelas com vidraças de celofane, com chaminezinhas. Também ficaram pelas montanhas...

O presépio estava pronto. Agora, era esperar o Natal.

Dia 24, às seis horas da tarde, quando bateu o sino da igreja, Mamãe mandou que cada um pegasse um pé de sapato e pusesse no banco diante do Presépio.

Feito isso, nós todos fomos chamados para o quintal. Papai ia ler a História Sagrada para a gente, lá debaixo da mangueira.

Papai lendo a História Sagrada: São José e Nossa Senhora peregrinando de Nazaré a Belém, a gente com dó, ninguém podia dar pouso para eles, até que alguém ofereceu para eles passarem a noite numa gruta onde dormiam uns carneiros, boi, burro.

Daí Mamãe pediu licença, precisando ir ao banheiro lá dentro.

Mamãe volta, Papai termina a leitura, a parte que os pastores vão visitar o Menino Jesus com os anjos cantando.

Papai fecha a História Sagrada e Mamãe fala: Vamos ver se o Menino Jesus trouxe alguma coisa para vocês.

Corrida pelo quintal para dentro de casa.

Junto dos sapatinhos: Brinquedinhos, saquinho com avelãs, nozes, ameixas secas, figos, uvas passas...

Cada um mostrando o brinquedo para os outros. Depois, procurando jeito de quebrar as cascas das nozes e das avelãs, nas janelas, nas portas, ou com o martelo do Pai.

Mas não tinha acabado! Carlinho saiu para o jardim e achou um engradado de guaraná caçulinha no canteiro das rosas! Era uma festa em cima da outra! O Natal gostoso!

Depois de todos satisfeitos, todos nos juntamos na frente do Presépio para rezar e cantar. Noite Feliz! A luz da lapinha estava acesa. A gente não via a lâmpada, só via as nuvens de papel de seda clareando tudo. Até os patinhos do lago.

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Texto e foto de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes