O LAGO DE CORUPUTUBA
domingo, 22 de agosto de 2021
LER UM LIVRO SEM FICAR PARANDO PARA CONSULTAR DICIONÁRIO
segunda-feira, 12 de julho de 2021
O QUE MOVE O ARTISTA
Óleo
sobre tela. O caminho sob os eucaliptos. Fazer e refazer várias vezes, sem
desespero, mas com certo nível de exigência, buscando alguma identificação com
o modelo.
Até
que chega o momento em que a gente se sente atingido pela fagulha, pela
centelha. Quando? É no instante da pincelada que, subitamente, define as
distâncias, jogando alguns elementos lá para longe, onde mal podem ser vistos.
E trazendo outros elementos para perto, aqui, na cara da gente.
Lembrando
que tudo é uma suave tapeação. Estamos pintando numa tela plana, mas devemos
dar ao expectador a impressão de profundidade e de volume. Parecendo que o
prédio da Cooperativa está lá longe e que há uma árvore grossa aqui pertinho.
Isto a gente faz com as tonalidades das cores. O que está longe ganha cores
desmaiadas e contorno impreciso. O que está perto recebe contorno bem definido
e cores fortes. Isto é a perspectiva aérea.
Outra
coisa: são três montinhos de folhas secas, que os homens do Seu Alcindo
varreram e juntaram para queimar, porque é sábado. Os montinhos são todos do
mesmo tamanho. Mas o que está lá longe eu desenhei bem menor que o montinho
mais próximo. Isto se chama perspectiva linear.
Neste
quadro eu ouço o vento leve. Ouço a fala inocente da menina de vermelho. Sinto
o amor que ela tem pela mãe, pois inclina a cabecinha em direção a ela. A gente
se inclina para perto de quem a gente ama.
Adivinho
a existência do lago à esquerda, abaixo dos eucaliptos, pois percebo que eles
estão plantados num declive que vai baixando em direção às casas da Vila
Tanque. E percebo a claridade entre essas árvores, é onde fica o lago, que não
vejo. E sei que à direita do quadro, fora dele, há um grande descampado. Quem
me conta isto é o eucalipto que cresceu inclinado, buscando a luminosidade do
campo de futebol. As árvores também se inclinam para o que elas amam, e elas
amam o sol.
Todo
artista desenvolve seu trabalho sobre as coisas que ama. Seja para escrever,
pintar, fotografar, esculpir, dançar, declamar, cantar, representar...
O
que move o artista é o amor.
domingo, 27 de junho de 2021
Os pombinhos
A
Auxiliadora e a Salete de repente apareceram pulando e cantando e os pombos fugiram
tatalando as asas. Elas saíram da cozinha, pela varandinha do tanque, cantando a
música que elas tinham inventado: “Bate bola, bate bola, bate bola na praia! Bate
bola, bate bola, bate bola na praia!” e os pombos brancos, que já estavam quase
entrando na arapuca, bateram as asas e foram embora.
Nossa!
Decepção!. Claro que a Auxiliadora e a Salete, meninas que tinham acabado de
entrar no prezinho da Vila Tanque, cheias de viço e alegria, não iam adivinhar a
expectativa silenciosa dos caçadores, que éramos eu e o Bosco. Saíram de dentro
da cozinha cantando e pulando e jogando a bolona de plástico. O Bosco ficou
muito muito zangado, inconformado.
Fazia
tempo que que a gente estava esperando uma oportunidade de prender aqueles
pombinhos brancos! Pombinho branco, assim inteirinho branco, não era muito
comum não. O que a gente via muito em
Coruputuba era uns pombos cinzentos, escuros, ou malhados. Pombos brancos eu
tinha visto no andor de Nossa Senhora de Fátima, eram ensinados, não saíam de
perto da imagem. E agora esses, que não eram pombos sem dono, eram do seu Dimas,
pai do Victor, nossos vizinhos pulando umas três casas em direção à farmácia.
Aqueles
pombinhos brancos a gente queria pegar para criar para nós. Para cortar as
penas de uma das asas e prendê-los ali no cercadinho, até que eles se acostumassem
com a nova residência. Quando as asas crescessem e eles pudessem voar de novo,
não tinha importância, já teriam começado a construir seus ninhos, criar seus
filhotes, não iam mais embora. Ficariam sendo nossos. Esse era o plano. Por isto, tínhamos armado um caixote, meio
levantado, com um graveto sustentando, e um barbante amarrado no graveto. O
barbante vinha até as nossas mãos, que estávamos escondidos, agachados atrás da
moita de erva cidreira, quase sem respirar, ali atrás do galinheiro. Milho
debaixo do caixote.
Toda
tarde passavam os pombos brancos, circulando no azul, e às vezes acabavam baixando
no nosso quintal, procurando algum resto de alimento, quirera, milho, esquecido
pelas galinhas nalgum cantinho. E naquele dia eles já estavam no chão do
quintal, assim meio amedrontados, meio precavidos, iam indo para o lado do
caixote, balançando as cabecinhas para frente e para trás. Eu e o Bosco, nossos
corações batendo forte, nós lado a lado, olhando fixo para a caça. Eu segurava
a ponta do barbante, esperando a hora em que eles entrassem debaixo do caixote
para puxar o barbante, o caixote cair prendendo a linda caça. Depois, como que
a gente ia tirar dali de dentro era outra história, ia ter que colocar um pano,
algum cobertor, para poder pegar os pombinhos em segurança.
Mas
as duas menininhas vieram de dentro de casa com “bate bola bate bola na praia”
e bem contentinhas, não entenderam a nossa exaltação, o nervosismo do Bosco. Falei: Bosco, não faz mal, não faz mal, outro dia
a gente consegue.
E a gente conseguiu foi de um modo diferente,
porque onde tinha pombo branco também era no telhado do escritório da fábrica. E
uma noite fizemos o seguinte; pegamos alguns bambus compridos e algum arame e
fomos até o escritório da companhia, que naquela hora estava escuro, pouco
iluminado, e não tinha ninguém tomando conta. Entramos no espaço entre o
escritório e a farmácia, na lateral do escritório, e os pombinhos dava para ver
na meia luz. Os pombinhos brancos estavam assentados ali, numa espécie de
platibanda do escritório, mas bem alto, e tinha também filhotes que já sabiam
voar um pouco. Esses que a gente queria. Ali mesmo emendamos os bambus amarrando
com arame um no outro até que ficou um enorme de um bambu, que podia alcançar
quase que o telhado do escritório, mas mole-mole, balançava muito. Comecei a
cutucar, meio que varrendo aquela platibanda da construção, com o bambu que
vergava, não dava segurança, mas acho que caíram uns três ou quatro pombinhos, filhotes
ainda, já empenados, que não tinham
prática de voar, ou então na escuridão não souberam voar e voltar para o lugar
deles e vieram planando até o chão e nós já pegamos e já metemos no saco. Voltamos
muito contentes para casa, arrastando aquele enorme bambu e com os pombinhos
brancos quietinhos no saco.
Então
esses pombinhos começaram fazer parte da nossa criaçãozinha. Que já tinha
alguns pombos cinzentos, um pombo que era o Cinzão, de peito grandão, e a Cinzinha,
muito linda, e também uma pomba preta. Os pombinhos brancos começaram a fazer
parte do nosso bando de pombos, que nos deram muita alegria.
Depois
alguns meses o nosso bando já era um dúzia de pombos que aprenderam a voar, mas
não iam embora, porque estavam criando. Ou tinham filhotinhos ou estavam
montando os ninhos no lugar aprovado pela fêmea, ou já estavam chocando os
ovinhos, em revezamento.
Podíamos
vê-los tranquilamente voar sobre as casas, sobre o cafezal, sobre a igreja, às
vezes subir muito alto e dar muitas voltas, e o bando se separar lá em cima e de
novo se juntar, lá longe, e sempre voltavam para nossa casa. Apesar da
inevitável ansiedade do Bosco, que ficava nervoso, coitado, achava que algum deles
estava demorando muito para voltar e que talvez tivesse acontecido alguma coisa,
talvez tivesse sido caçado por alguém, ou tivesse se perdido.
E
estava ficando tarde. As galinhas já tinham se recolhido, estava tudo calmo, quase
que começava a escurecer. A vó fazia a janta, saía fumacinha da chaminé.
Mas
os pombinhos sempre voltavam, ruflando as asas, invertendo a batida para a
frente, baixando a cauda bem aberta, estendendo para diante os pezinhos cor-de-rosa,
para refrear e pousar, e vinham se assentar primeiro no telhado da cozinha,
perto da chaminé. Ajeitavam-se, majestosamente, acertavam as penas, tinham as
suas discussõezinhas, os machos rodando em pião e arrulhando em torno de sua
femeazinha, até que, generosamente, desciam para o nosso mundo, o nosso quintal,
e procuravam os seus ninhos.
Então
o nosso júbilo era imenso, porque era como se nós tivéssemos voado sobre a
fazenda, como se uma parte de nós soubesse voar, porque o nosso pensamento
estava na cabecinha daquelas pequenas aves, os nossos olhos estavam nos olhos delas,
nossos braços eram aquelas magníficas asinhas, com penas reguláveis para subir
e para descer, para circular e para mudar repentinamente de rumo. Como se, por alguns
instantes, tivéssemos podido olhar o nosso bairro lá de cima, lá de cima, igual
os nossos pombinhos faziam.
O
Bosco ficava contente. Não precisava que eu falasse: Viu, voltaram todos, não tinha
que ficar preocupado não.
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Texto
de Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Foto:
Internet
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
A menina de vermelho
Criei muito carinho pela menininha de blusa vermelha. Meu Deus, que
doçura tagarela! O que tanto perguntava? O que tanto contava? Nada pedia, só a
atenção da mãe. Que pensava em outras coisas, da vida. Para poder continuar
mantendo o seu tesouro assim mesmo: tagarelando, contando, perguntando.
A menina de blusa vermelha! Inclina a cabeça na direção da mãe. E é
assim mesmo. Você se inclina para perto de quem você ama. Você se inclina para
longe de quem lhe dá medo.
Vesti a menininha de vermelho e essa ficou sendo a única cor quente na
composição. Tão pequena, no meio de gigantescos eucaliptos. Tive de fazê-la em
vermelho, para atrair os olhares. Sim, tem a Cooperativa, em rosa. Mas rosa
fraquinho, lá longe... Está bem então. No meio do verde e do bege, valorizando
cada passada, como um passarinho, levando a preciosa bolsinha de couro, que
ganhou no Natal e, como não tem onde usar, usa todo dia, a menina em vermelho
vai para o armazém em rosa.
Para ler, no maior quadro negro do município, a lista de preços. Que
inclui sete ou seis qualidades de açúcar. Mascavo, cristal, preto, refinado,
demerara...
Menina de vermelho, você foi feliz?
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Texto: Paulo Tarcizio da Silva Marcondes
Pintura a óleo sobre tela: Paulo Tarcizio
quinta-feira, 4 de junho de 2020
A TELEVISÃO EM CORUPUTUBA
terça-feira, 19 de maio de 2020
Corpo fechado
quarta-feira, 22 de abril de 2020
As bicicletas da igreja
Maio era inteirinho uma festa de meninas bonitas, ensaiando, disputando, querendo os lugares de honra na Coroação. Ou coroar mesmo, cantando o solo, ou segurar a bandeja com a coroa, cantando junto com o coro, ao som do harmônio do Maestro João Antonio Romão.
Em volta da igreja, encostadas nos coqueiros, destrancadas, centenas de bicicletas. E eu e o Bosco louquinhos para pedalar sem limites, treinar, voar, sem reprimendas nem horários.
Acontece que, sim, de dia tínhamos a generosidade meio negociada do primo Valério, que acabava emprestando a bicicleta dele: Olha, só uma volta em volta do campo! Tá bom, duas! Depois é o Bosco. Também podíamos contar com a complacência do Araújo, sempre com algumas ressalvas: Tudo bem, mas só um pouco, pneu tá meio no osso etc.
Mas à noite, não! Aquelas bicicletas de adulto, todas engraxadas, polidas, correntes ajustadas, freios em cima! Pneus calibradíssimos. Encostadas nos coqueiros, sem tranca, porque em Coruputuba não tinha quem pegasse coisa dos outros sem pedir.
A gente escolhia. Hoje vou pegar a do Seu Chico Lucio! Ah, e eu vou com a do Seu Camargo! Ah não, vou trocar! Faz tempo que não ando com a do Seu Pedro Moreira! É? Então vou com a do Seu Paulino, que tem farol duplo.
E dali a pouco, estávamos saindo do pátio, às vezes trombando nos coqueiros, porque andar devagar é mais difícil do que correr, e pegávamos a estrada da fazenda, voando! Ê vida! Vento no cabelo! Velocidade até o farol ficar tão claro que quase queimava, então a gente diminuía.
Outra noite, outras escolhas, outras bicicletas. Outros donos, que nunca souberam de nada. E outros trajetos. O Bosco inventava e eu topava: Vamos pra Estaçãozinha! Vamos! Na volta, na volada, derrapei na areia sobre os trilhos e fui parar lá longe. Nem esfolou o joelho. Mas o guidão virou do avesso e o varão do freio escapou.
Cuidadosamente consertada, a bicicleta voltou para o coqueiro. Era a bicicleta do Seu Antônio Ramos.
Mas nunca perdemos a hora. Sempre chegamos com tempo para as três últimas ave-marias e para a benção final.
Claro que meio suados, alguma areia no cabelo, algum dedo esfolado, mas com ar de coroinha carola, dava para cumprimentar os adultos sérios e observar a saída deles nas bicicletas bem conservadas, instrumento do trabalho deles na fábrica.
Eu e o Bosquinho voltávamos a pé para nossa casa, ali pertinho mesmo. Esperando a reza do dia seguinte.
Só fomos comprar as nossas bicicletas, nossas de verdade, Monark Barra Dupla Circular, anos depois, no japonês da Loja Bandeirante, com o primeiro salário da AISA. Já sabe, sempre trancadas, não empresta pra ninguém, que o pessoal não toma cuidado.










